A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]

Não Desci a Avenida por Causa do Jackie Chan

Era vinte e cinco de Abril e eu queria ir à manifestação. Queria descer a Avenida de cravo-na-mão. Porque se pode descer a Avenida de cravo-na-mão em dias certos. Ou no vinte e cinco de Abril ou na festa do Continente. Não vou à festa do Continente. Mas vou no vinte e cinco de Abril.
Levantei-me cedo. Tomei o pequeno-almoço. Mudei os lençóis à cama. Aspirei a casa. Reguei as flores da varanda. Pus uma máquina de roupa a lavar.
Depois fui tomar banho. Lavei o corpo com sabonete Patti. Lavei o cabelo com Linic. Desodorizei os sovacos com Basic Homme da Vichi. Olhei pela janela da casa-de-banho para a rua e estava a chover.
Merda!
Chovia que Deus-a-dava. O céu cinzento. Carregado de nuvens escuras.
Desanimei.
Vesti o fato-de-treino. Fui fumar um cigarro para a varanda. Com cuidado para não me molhar. Podia ser que parasse. Sim, talvez parasse.
Mas não parou.
Acabei o cigarro. Deitei a beata fora. Voltei para dentro de casa. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Apanhei com um filme do Jackie Chan. Fiquei a ver.
Afundei-me no sofá. Eu e o Jackie Chan.
Quando voltei a olhar pela janela, descobri o sol. Tinha parado de chover. Veio o sol. São Pedro queria que eu fosse à manifestação. Boa. Ia levantar-me. Ia levantar-me mas não me levantei. Continuei enfiado no sofá. A olhar para o Jackie Chan. Ainda espreitei várias vezes para o sol através da janela. Mas não consegui levantar-me.
O Jackie Chan fazia das suas no filme que passava na televisão. Mas eu já nem conseguia rir. Sentia um peso na consciência. Mas não me serviu de nada. Devia ter-me levantado. Devia. Mas não levantei.
O dia correu.
Perdi o interesse no Jackie Chan.
Acabei por adormecer deitado no sofá.
Quando acordei já era noite. Sentia-me um pouco mal-disposto. Tinha o estômago às voltas. Doía-me a cabeça. Apetecia-me vomitar.
Acabei por me levantar. Com muito esforço. Pensei em ir à casa-de-banho vomitar. Mas fui antes para a varanda fumar um cigarro. Achei ser mais urgente.
E depois, enquanto fumava um cigarro na varanda e via passar gente contente com cravos na mão, pensei A vinte e cinco de Abril não fui à Avenida por causa do Jackie Chan. Mas em Maio, em Maio tenho de ir ao Marquês comemorar a vitória do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/25]

Estou Entre as Pernas Dela e Não Consigo Sair

Estava a tomar banho. Estava no duche. A janela da casa-de-banho estava aberta. Gosto de sentir o frio gelado por cima da água quente a açoitar-me o corpo. Começou a chover. De repente. Uma chuvada que Deus-a-dava. Uma chuvada tipo tropical. Daquelas violentas. De grossas bátegas. Tocada a vento. Entrou casa-de-banho dentro.
Eu não via nada. Tinha o champô na cabeça a cair-me pela cara e a entrar pelos olhos. Estavam-me a arder. Nem os conseguia abrir. Mas ouvi. Ouvi a chuva a entrar dentro da casa-de-banho. Parecia uma rajada de metralhadora. Ouvi o vento a abanar as janelas. Ouvi um vidro a partir. Mas não tinha a certeza do quê. Podia ter sido o vidro da janela ou o espelho sobre o lavatório. Ouvi também a pequena prateleira onde estava a escova dos dentes, a pasta dentífrica e o secador a cair no chão. Ouvi o barulho de queda em água. A casa-de-banho estava inundada. Parecia-me.
Enxaguei o cabelo e tirei o champô. Lavei bem a cara. Molhei bem os olhos. Desliguei a água do duche. Abri a cortina de banho e olhei à volta. Parecia o Inferno.
A casa-de-banho era uma piscina. Tudo o que estava em cima, estava agora em baixo. A boiar. A sanita partida. Havia também bocados de merda a passear pela casa-de-banho. Ramos de árvores. Folhas. Muito papel-higiénico desenrolado. Dois sapos. Vi dois sapos a nadar na poça de água. Um deles ainda subiu para o bidé e depois mandou um pulo para o lavatório onde ainda está. Acho. Só não sei como a cortina do banho se aguentou no meio daquele caos.
Mas assim como veio, foi-se. Caiu violentamente. Muita e muito depressa. E depois, foi-se. Acabou por chegar um sol brilhante e amarelo. O sol trouxe o chilrear dos pássaros. Mas os estragos feitos na casa-de-banho, esses mantinham-se.
Saí da banheira. Enrolei uma toalha à volta da cintura. Abri a porta da casa-de-banho com dificuldade. A casa estava toda inundada. Na sala, em frente, um tronco de uma árvore tinha partido a janela e tinha aberto caminho à água da chuva. Cheguei-me à janela para espreitar. A água estava da altura do meu apartamento. Um primeiro andar. Eu moro na porra de um primeiro andar. Estava tudo inundado até à altura do primeiro andar. Aquilo são quantos metros? Nem sei, mas são bastantes.
Não sabia como tirar a água de casa. Não tinha para onde escoar. Estava prisioneiro.
Peguei no telemóvel e liguei para os bombeiros. Ocupado. Mas as telecomunicações estavam a funcionar. Menos mal.
Percorri a casa de uma ponta à outra a tentar ver o que salvar e não vi grandes possibilidades. Devia estar angustiado, triste, desesperado. Mas afinal, nada disso. Na verdade, estava a cagar-me para a casa, para as coisas que tinha perdido, para o fenómeno extremo, como disseram mais tarde nos noticiários, para tudo aquilo. Na verdade estava bastante calmo. Era como se não fosse nada comigo. Como se eu não estivesse ali.
Liguei para a minha vizinha de cima. Atendeu. Pedi-lhe ajuda. Ela estava cheia de medo. Abriu-me a porta de casa. Sempre era um segundo andar. A casa estava seca.
Abriu-me também a cama. E depois, as pernas.
É onde estou agora. Entre as pernas dela. Dentro da cama dela. No apartamento dela. Mas vou ter de me levantar. Estou com fome. Vou ter de fazer alguma coisa para comer. Para comermos. E ela já me disse que não sabe nem estrelar um ovo. Eu acho que é desculpa. Mas não é problema. Eu sei cozinhar. Vou ver o que é que há por ali, E quanto é que há por ali. É que a água ainda não desceu um centímetro. Os bombeiros não atendem. Não sei quanto tempo vou ter de ficar na cama dela. E só tenho uma toalha como roupa. Também, não preciso de mais.
Estranhamente os telemóveis estão a funcionar. A televisão também. A CMTV já perdeu dois jornalistas afogados em directo. Foi um sucesso. A internet também está a funcionar. E a funcionar bastante bem. O Facebook, o Instagram e o Twitter não param de bombardear informação, piadolas e imagens radicais dos estragos e do mundo ao avesso.
Vou fumar um cigarro. Vou fumar um cigarro e ver o que há aqui para comer. E procurar uma garrafa de vinho.
Deixa-me sair. Chega para lá, vá. Então, rapariga? Descruza lá as pernas, se fazes favor. Ai, então?! Não tem piada, vá. Vamos. Vá lá. Oh! Estás a ouvir? Hei! Oh, porra!…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/20]