Um Cogumelo no Céu de Beirute

A minha mãe dizia que aqui (aqui onde vivíamos) Vivemos num cantinho do céu. Tudo o resto é sempre lá longe. Lá longe onde existem os acidentes. Onde existem as guerras. Onde existem as centrais nucleares que explodem. Onde existem os democratas que implodem a democracia. Onde existe a semente do diabo. É sempre lá longe. Longe da vista. Longe do coração. Longe do paraíso que é este Cantinho do céu guardado por Deus, dizia a minha mãe.
O telemóvel deu sinal. Um alerta da TSF. Notícia importante. Uma enorme explosão em Beirute, no Líbano. O que é uma enorme explosão?
Liguei a televisão da sala. Na SIC Notícias estava uma imagem em loop. A imagem da explosão. Primeiro um cogumelo branco, enorme, que depressa se desintegra, depois um cogumelo mais pequeno, escuro, e o sopro de ar que arrasta o telemóvel que gravava o acontecimento. Sou impressionável.
Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. Estava a tremer.
Revi. Revi tudo. Primeiro um enorme cogumelo branco que se desfez depressa, e deixou caminho a um cogumelo mais pequeno e escuro. Depois o sopro da explosão, a onda de repercussão, que fazia rodopiar o telemóvel e quem o estava a agarrar para gravar a explosão.
Que explosão era aquela? Ninguém sabia. Talvez um acidente. Talvez um ataque. Os especialistas falavam. Cristãos e muçulmanos. Judeus e muçulmanos. O Hezbollah. O Irão. Israel. A crise económica. Há sempre uma crise económica. Oh, a puta da crise económica que nunca deixou de existir desde que eu conto as moedas no bolso das calças. Mas os ricos cada vez mais ricos. É para o que servem as crises económicas. Para os ricos ficarem mais ricos. As crises são sempre uma oportunidade.
A explosão era uma grande explosão. Afinal, haviam várias explosões. Vários mortos. No meio da cidade. Depois das imagens da explosão, as imagens de Beirute depois das explosões. E, de repente, parece que estou a olhar para Aleppo. A explosão destruiu aquela zona da cidade. Destruição, mesmo. Edifícios destruídos. Carros destruídos. Estradas destruídas. Janelas rebentadas numa área de cinco quilómetros. O som ouviu-se no sul do Líbano. Ouviu-se no norte de Israel.
Acabo o cigarro e acendo outro. Encho um copo com Jameson. Sem gelo.
Chegam novas imagens da explosão. Mas o ritmo é sempre o mesmo. O cogumelo grande. O cogumelo pequeno. O sopro da deslocação de ar que parece arrastar tudo à sua frente, tudo ali à volta. Parece um ataque nuclear em miniatura. Efeitos especiais de Hollywood.
A explosão impressiona-me.
Aqui vivemos num cantinho do céu, não é?
Mas lá longe!… Oh, foda-se! Lá longe…
A noite começa a cair em Beirute. Vê-se, melhor, as sirenes dos bombeiros e da polícia. Há muita gente na rua. Gente com telemóveis na mão.
Depois aparecem as imagens da destruição. As imagens depois da explosão. Depois do cogumelo. E é devastador. À volta do porto, a destruição. Uma terraplanagem. Um sopro transformou o centro de Beirute. Mas já lá anda gente. Há sempre gente em todo o lado. As pessoas são como as baratas. Mesmo no coração da destruição não pára de aparecer gente.
Há mortos. Dez mortos, parece. Para já. Centenas de feridos. Para já.
Há terras condenadas ao horror. A viverem o Inferno na Terra.
Nós aqui, vivemos num cantinho do céu. Dizia a minha mãe.
Apago o cigarro. Despejo o copo de whiskey. Acendo outro cigarro. Despejo mais Jameson no copo.
Parece que foi um acidente num armazém de pirotecnia. Mas também pode ter sido outra coisa. Ninguém sabe. Nunca se sabe. No Líbano pode haver sempre mais qualquer coisa. Há-de haver sempre outra explicação. Afinal, estamos no médio-oriente. No Líbano. Em Beirute. Há sempre um problema. Há sempre uma explosão. Há sempre uma morte. Há sempre um Deus. Há sempre a porra de um Deus a justificar tudo. Para o bem e para o mal. É tão bom sacudir a responsabilidade dos ombros.
Entretanto há o Covid-19. Os hospitais de Beirute lotados. Para onde irá esta gente? Estes feridos?
Na televisão, os comentadores não param de falar na crise económica. Na devastação económica. Nos problemas económicos libaneses. Problemas crónicos. Não são sempre crónicos, os problemas económicos?
Uma última notícia no oráculo televisivo afirma Líbano diz que Israel nada tem a ver com explosões.
Há países nascidos para sofrer. Há gente nascida para sofrer.
Apago a beata do cigarro. Bebo o último gole de whiskey. Volto a encher o copo. Volto a acender um novo cigarro.
É noite em Beirute.
No oráculo do canal noticioso, assim como não quer a coisa, a notícia passa em rodapé Israel ataca posições no sul da Síria. Nunca nada é só aquilo que parece.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/04]

Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

A Cápsula do Tempo

Abri a cápsula do tempo e mergulhei lá dentro. Nunca tive um sótão em casa dos avós. Nunca tive casa dos avós. Nem me lembro de ter avós. Sim, tive avós. Toda a gente teve avós. Ninguém é de natureza espontânea. Mas nunca os conheci. Já tinham morrido quando nasci. Os meus pais quase que podiam ter sido meus avós. Eram já velhos quando nasci. Mas a casa deles, que era a minha, não era uma casa de avós. Nunca tive um sótão, uma cave, um buraco cheio de memórias físicas de vidas que não fossem minhas mas das quais me poderia apropriar. Então criei as minhas memórias. O meu sótão. A minha cave.
Fiz a minha cápsula do tempo.
Não era grande. Não guardava muita coisa. Sempre fui de deitar tudo fora. Ou quase. As irritações levavam-me à destruição. Quando acabava uma relação, destruía todas as fotografias da relação, e outras fotografias minhas que me lembrassem a relação, e deitava no lixo todas as coisas que me tivessem oferecido, e as coisas que eu próprio tivesse comprado mas que me lembrassem o contexto que queria esquecer. Nem os livros escapavam. Acabei por ter muito pouca coisa para guardar na minha cápsula do tempo quando a resolvi criar.
Ao nadar dentro da cápsula do tempo, acabei por descobrir um texto escrito há muito tempo sobre o filme Solaris do Andrei Tarkovsky. Não era bem uma crítica nem uma análise sobre o filme. Era mais um estado de espírito motivado pelo visionamento do filme, em especial, o sonho, a mentira e o desejo que a estória constrói para mim.
Começava eu, um outro eu, num outro espaço e num outro tempo do multiverso Pensava que a morte era o fim de tudo. O fim das ideias. Das emoções. Do amor. Pensava, lá no seu íntimo, que o que ficava era somente uma sensação de vazio.
E já não estou a falar da personagem. A cápsula do tempo traz-me a minha visão da personagem Kelvin confrontado com a sua própria mortalidade, e descubro, ao fim de todos estes anos que, afinal, estava no passado a falar de mim no futuro que é já hoje presente.
Pergunto-me se é a profecia da minha própria morte que encontro nos escombros da minha memória em forma de cápsula do tempo? Não serei eu que caminho ao longo do corredor quando ouço a voz dela a chamar-me? Não serei eu a estancar o passo? A voltar atrás e descobrir um passado deitado nu sobre uma cama desfeita que já não está à minha espera porque já lá estive e já lá não posso regressar?
Dou aos braços no mergulho na cápsula do tempo. Nado através das memórias. Vejo algumas com um sorriso na cara. Outras deixam-me ansioso. Descubro uma cassete. Uma mixtape de músicas de outro tempo. Relembro os meus anos ‘80. Tanta coisa que já tinha esquecido! Mas também muitas outras que me acompanharam ao longo dos anos. Envelheceram comigo. Fico irritado porque não tenho onde ouvir a cassete. Algumas músicas ecoam-me na cabeça. Outras, pura e simplesmente esqueci. Gostava de voltar a ouvi-las. Tenho de ir a uma Feira da Ladra. Encontrar um leitor de cassetes que já ninguém usa. Que poucos sabem para o que servem.
Descubro, enrolado numa prata, aquilo que deve ser uma pedra de haxixe. Porque terei guardado aqui uma pedra? Porque é que não a fumei? E depois lembrei-me que deixei de fumar porque me dava paranóia.
Olhei para a pedra. Sorri. Pus a pedra no bolso das calças. Fechei a cápsula do tempo. Saí de casa.
Ando há duas horas à procura de tabaco. Já não se vende cigarros em lado nenhum. Ninguém tem um cigarro para dar. Tenho de pensar em alternativas. Queimar a pedra directamente e aspirar o fumo. Desfazê-la para dentro de uma tosta-mista. Pedir à minha vizinha de cima para fazer uns queques com a pedra. Devia ter guardado um maço de cigarros na cápsula do tempo. Para lembrar da época em que fumava e a vida me parecia muito mais simples e sofrível.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/28]

Uma Paisagem de Bilhete-Postal

O céu está escurecido. Riscado a grafite. As nuvens perderam as suas formas, a sua cor. O céu mudou de ambiente. Já não é o céu azul de mergulho livre nas águas quentes do rio. Agora é o céu de um filme de Hollywood em cenário pós-apocalíptico.
Cheira a queimado. Cheira a um misto de borracha queimada e churrasco em fim-de-semana grande e vizinhos convidados para o jardim onde os cães fogem dos gatos e as crianças chapinham em piscinas de borracha, de soprar na pipeta, e compradas na feira de Verão do Continente com desconto em cartão.
Verão que se prese não aparece de manhã em São Pedro de Moel e tem incêndios para alegrar o futuro. Da mesma forma que hoje as comunidades abrem as bocas desdentadas para mastigar o frango de aviário assado em brasas ecológicas nas manifestações de um idílico passado Medieval, também daqui a uns anos outras comunidades irão homenagear os mostrengos lusitanos que não descansaram enquanto não puxaram o Sahara cá para cima.
Primeiro destruíram a costa algarvia. Depois a alentejana. Aos poucos o resto do país.
Portugal haveria de se tornar o primeiro estado-nação da celulose. O país virou uma enorme fábrica. Toda a gente tinha emprego, valia-lhes isso. No único empregador do país. A enorme fábrica de celulose acima do vale do antigo rio Tejo, sulco preservado em memória colectiva do maior rio da Península Ibérica que os ibéricos acabariam por matar. Como em tudo onde puseram as mãos. Resta-lhes a memória. Mas não lhes tem servido de muito.
Sorte a minha que já cá não estava para assistir à destruição do país como ele era no tempo em que eu ainda tinha tempo. Acabaria por descobrir que, afinal, não era muito.
Mas lembro-me do ano do grande incêndio de Vila do Rei. Dois anos após o enorme incêndio de Pedrogão Grande. O país estava fadado aos grandes incêndios. Era o Euromilhões em que toda a gente acertava Este ano vai haver um grande incêndio numa grande, e ainda resistente, mancha verde. E havia. E toda a gente acertava. E toda a gente estaria rica se o conhecimento significasse milhões.
Nesse ano, dois meses antes, eu tinha andado por Vila do Rei quando subi o Tejo. Descobri um Zêzere a morrer antes de desaguar no Tejo. Descobri um Portugal abandonado. Triste. Perdido na sua distância das janelas do poder. De Lisboa não se conseguia ver para além do Campo Grande. Aquele era o país da paisagem em bilhete-postal, em fotografia de fim-de-semana na visita à terra dos avós e à casa na terra, herdada, que permanece fechada o ano inteiro à espera de ser vendida num bom negócio que favoreça a vida na capital.
Andei quilómetros sem ver vivalma. Quilómetros de verde. Seco. Aqueles dias em que subi o Tejo esteve um calor infernal. O país estava seco. Estalava. E a manutenção do país não saiu das boas intenções de decretos legislativos. E depois? Como aplicá-los? Com que gente? Com que dinheiro?
Recordo as casas perdidas nas manchas verdes. Recordo quem ainda resistia. Quem não queria partir. Quem ainda acreditava que um país não são só os passos do poder.
Recordo passar por aquelas manchas de verde, naquele país seco e abandonado, enquanto fumava um cigarro, e pensar Bastava só uma beata. Só uma beata.
Hoje o céu já não chora. Está só negro. Zangado. E quando chorar, já será tarde. Como tudo neste país de gabinetes insonorizados e ar condicionado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/22]

Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem líquida que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

As Pessoas São Estúpidas

As pessoas são estúpidas.
Não uma pessoa em particular. As pessoas em geral. São estúpidas. E quanto maior o grupo, maior a tendência para aguçar essa estupidez. A estupidez é algo que vai bem em grupo. Um estúpido sente-se bem rodeado de outros estúpidos. Imagina que, assim, faz parte do grupo dos espertos. Mas os espertos são também, muitas vezes, estúpidos.
As pessoas elegem gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro para lhes indicar o caminho. As pessoas aclamam gente como Hitler, Mussolini e Salazar, mesmo que depois venham a dizer que não. Quem tem cu, tem medo. Passou-se o mesmo com a França colaboracionista. Trabalharam para os alemães. Depois eram todos resistentes e foram, provavelmente, os mais aguerridos a cortar o cabelos às mulheres que se deitaram com o invasor, coitadas, elas que se limitaram a sobreviver.
As pessoas são estúpidas e têm dificuldade em perdoar. Ou algumas pessoas têm dificuldade em perdoar. Se calhar são as mesmas que colaboram. Não tenho certeza. Mas é o que parece. Às vezes há quem perdoe. Pode ser difícil, mas por vezes é o melhor que se pode fazer. Foi assim em Espanha. Foi assim na Argentina e no Uruguai. Mas em Espanha parece que esqueceram de tudo. Principalmente do que perdoaram, mas que não era para esquecer. Em Espanha parece que se esqueceram dos tempos do Caudilho. As pessoas tendem a esquecer. Tendem a não ter memória. Repito: As pessoas são estúpidas.
Dois anos depois da tragédia de Pedrogão Grande e da destruição do Pinhal do Rei, tudo está na mesma. E quando está na mesma está pior. Porque não se aprendeu nada. As pessoas são mesmo estúpidas. Aumenta a área de eucalipto porque quem tem terrenos precisa de os fazer render. E nada rende mais que o eucalipto. Percebe-se. Devia haver políticas de apoio a uma floresta diversificada. Mas não há. É cada um por si. E o Estado impõe regras que ele próprio não cumpre. Há que limpar os terrenos, mesmo que sejam no interior do país, naquele país onde não há gente, e a que há é velha, como é que vão limpar os terrenos? Com que gente? Com que dinheiro? E os terrenos do Estado, esses continuam como estavam, ao abandono.
As pessoas são estúpidas.
Um homem ameaça a mulher com uma moto-serra. Dorme na cama com a mulher e a moto-serra. Quase que sinto o cheiro a gasóleo. Quase que sinto o barulho da moto-serra ávida de cortar carne. O juiz manda o homem para casa com pena suspensa por quatro anos e meio. O que hei-de dizer?
Estou furioso.
As pessoas são estúpidas e não querem aprender.
Há uma cultura do ódio. Todos queremos alguém para odiar. Seja pelo futebol. Pela política. Por motivos passionais. Porque sim.
As redes sociais são um caminho minado de ódio. Sinto-o destilar em gente sentada no seu sofá, enquanto trinca uma fatia de pizza e bebe uma cerveja.
Há gente com vontade de iniciar uma guerra. Alguns por causa de negócios – desde miúdo que ouço dizer que a guerra é boa para a economia. Outros porque são fanfarrões. Falam alto e querem ser chefes. Outros ainda porque não sabem fazer outras coisas. Brinquem com as pilinhas, porra!
Sentado no seu gabinete de crise, Donald Trump mandou atacar o Irão. Até lhe imagino a salivar de tesão ao ver, à distância de meio-mundo, um drone atacar, matar gente e destruir uma qualquer peça de civilização do outro lado do mundo.
As pessoas são estúpidas.
Ontem vi uma fotografia do presidente brasileiro com uma T-shirt que dizia Marcha para Jesus, e a fazer aquele sinal idiota de pistola com os dedos, a metralhar alguém ou alguma coisa. As pessoas são estúpidas e correm atrás de estúpidos para não se sentirem sozinhas. Querem ser dirigidas por estúpidos para sentirem que têm razão. Razão em odiar os outros. Razão em odiar os diferentes. Razão em odiar quem pensa de maneira diferente.
Como é que os evangélicos podem pregar a palavra de Deus e, ao mesmo tempo, disparar tanto ódio?
Como é que as pessoas não vêm as incongruências?
Enfio o cano do revólver na boca. Estou a transpirar. Tremo. Estou com medo.
Eu também sou estúpido. Podia tentar fazer algo para combater o estado das coisas, mas quero é saltar fora, a meio do caminho.
Deixei-me contaminar.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/21]