Uma Vida a Fugir a Sete Pés

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
O meu pai tinha-me largado nas mãos da freira e ido embora. Eu, a chorar baba-e-ranho, desesperado pelo abandono, deixado abandonada nas mãos de uma freira desconhecida, desatei aos pontapés à freira, que imediatamente me largou, e corri desalmado atrás do meu pai. Passei o portão do colégio e tentei entrar para o banco de trás do carro. Mas os carros não eram como são hoje. O meu pai já tinha aberto a porta dele, mas não havia sistema centralizado para abrir e fechar as portas dos carros. Cada porta um mundo. Corri para a porta dele a chorar. Não conseguia falar. Só um choro sofrido. A minha vida estava a acabar. Sentia-o. Os meus pais estavam a abandonar-me. Ali. Num sítio desconhecido. Mas eu não estava pelos ajustes. A mim, não! A mim ninguém me abandonava. Implorei. E o meu pai deixou-me entrar no carro. Para o banco de trás do carro.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Vi a cara sorridente da enfermeira demasiado próxima da minha. Senti-lhe o cheiro. O odor ácido. Os dentes escurecidos. A seringa na mão. A agulha preparada para me picar. A minha mãe a agarrar-me. O meu braço despido. A enfermeira a sorrir e a garantir que não ia doer nada. Mas eu não quis saber. Dei um pontapé na mão da enfermeira e vi a seringa a voar, cair e espetar-se no chão. Partiu-se. Saltei da cadeira. Fugi das mãos da minha mãe. Fugi da enfermeira. Fugi da seringa, da sala, daquele terror. Desci as escadas a correr e na rua cruzei-me com o meu pai que fumava um cigarro. E queixei-me. Queixei-me da minha mãe. Queixei-me da enfermeira. Queixei-me das pessoas que eram más e me queriam fazer mal. E o meu pai deitou o cigarro fora. Pegou-me por um braço e levou-me de volta à sala. À cadeira. Às mãos da minha mãe. Ao sorriso da enfermeira. À seringa de agulha apontada ao meu braço. Desejosa da minha veia.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Estava sentado no sofá, de Sagres na mão, à espera de ver a final da Liga das Nações entre Portugal e a Holanda, quando ouvi bater a porta da rua. Senti alguém entrar. Ouvi passos a dirigirem-se para a cozinha. Percebi sacos de plástico a serem mexidos. Portas e gavetas a abrir e fechar. Alguém arrumava coisas. Ouvi a porta do frigorífico. Garrafas a bater. Água a sair pela torneira do lava-loiça. Um pano a ser sacudido. E depois, alguém, lá de dentro, disse Temos de conversar!
Estremeci. Senti um calafrio pelas costas. Bebi o resto da Sagres de um gole. Despejei a garrafa. Peguei no maço de cigarros e saí de casa em silêncio. Desci as escadas a correr. Cheguei à rua e recuperei o fôlego. Cruzei a rua e entrei no café em frente. Estava mesmo a começar o jogo. Só era pena ter que vir à rua para fumar.

Quero Algo para as Dores da Alma

Parti um dente. Ou melhor, parti um pedaço de um dente que já estava partido. A minha boca parece um palácio antigo, que já foi glorioso e está decadente, a precisar de obras. Já me faltam alguns dentes, mas são atrás, na boca, e não me dói.
Este começou a doer. Mal o parti, percebi logo. Um primeiro rasgo de dor mal o parti. Ele partiu-se rente à gengiva. Talvez tenha magoado a gengiva. A verdade é que ela inchou.
Estava no café quando o parti. Estava a beber uma bica. E a comer uma fatia de Bolo Rei oferta da casa para festejar o Natal. Não gosto de Bolo Rei. Mas sou educado. Dei uma trinca. Dei duas. Trinquei a fava. Percebi logo. Percebi o barulho. O dente a trincar a fava. O dente a partir. A dor na gengiva. A dor aguda na gengiva. Contraí-me. Abri a boca e o pedaço de dente caiu para cima da mesa. Fiquei ali a babar-me. Um pedaço de cuspo, encarnado, saía da boca até ao pedaço de dente. Ao mesmo tempo havia outros pedaços de cuspo a caírem-me pelo queixo abaixo. Foda-se, ao que cheguei!
Levei a mão à boca. Já não consegui beber o resto da bica. Nem comer o resto da fatia de Bolo Rei. Deixei uma moedas ao balcão. A rapariga viu-me ir embora assim, tão rápido, que me perguntou Está tudo bem?, e eu nem lhe respondi.
Na montra mais próxima olhei-me para um vidro. Via-me mal. Era um vidro, não um espelho. Abri a boca. E percebi a falta do dente. Tinha de ir ao dentista. E fui. Urgência. Era possível? Sim, era! Tinha de esperar um bocado. E esperei. Esperei. Gastei a bateria do telemóvel. Esperei. Esperei. Dormitei. Fui acordado. Fui atendido. E agora? O que fazer?
Arrancar a raiz e colocar um dente? Quanto é? Ah, não. Não arrancar a raiz. Não! Quero algo para as dores. Quero algo para o inchaço. Quero algo para prevenir uma inflamação. Quero ter dinheiro. E outra vida. Quero festejar o Natal. Ser feliz. Sim! Mas basta-me um anti-inflamatório e um paracetamol. Obrigado! Sim, pago lá fora. À saída. À menina da recepção. Um Feliz Natal. Sim, sim! Obrigado.
Saí com uma receita para aviar. Químicos para as dores físicas. As outras têm de aguentar. O Natal não é para todos. O Natal não é quando um homem quiser.
Ao descer no elevador olhei para o espelho. Olhei para mim no espelho. Abri a boca. Vi o buraco. Uma cratera. Um poço sem fundo. Tudo em mim doía. Principalmente o amor-próprio. Sentia-me um pedaço de dente partido e deixado caído no chão. Sentia-me um traste. Um traste despido e com a pila encolhida frente a uma multidão.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/21]

Inverno, Primavera, Verão, Outono

Ontem era Inverno e chovia. Hoje já é Primavera e está sol. Mas está frio.
De manhã dei comigo a bater os dentes. Voltei a casa, pouco depois de ter saído, para vir buscar um casaco de lã. Gosto dos casacos de lã. São confortáveis e fazem-me sentir como se estivesse em casa. Sinto-me aconchegado.
A meio da tarde fui ao café para beber uma cerveja e acabei a beber um chá quente e a comer um scone com manteiga e geleia.
Se eu fosse outra pessoa, nesta entrada fria da Primavera pensaria em mantinhas quentes e lareira ao serão.
Mas não sou. E na verdade não penso em nada. Ou penso. Penso no Verão. Penso no calor, no sol, na praia e no mar, nos corpos quentes e bronzeados, nos corpos despidos, no sexo.
Na minha idade é o que me resta, pensar no sexo, porque praticá-lo está para além de todas as minhas mazelas. Mas ainda não cheguei à mantinha.
Tenho pena de não ter lareira, porque esta Primavera começou muito fraquinha. Com sol, mas fria. Uma Primavera que mais parece um Outono.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/20]

À Espera dos Acontecimentos

Ainda não tirei o pijama. O tempo está cinzento. Chove. Já trovejou também.
Este tempo convida-me à letargia. Não me apetece fazer nada. Não consigo ler. Não consigo ouvir música. Nem olhar para a televisão. Não tenho fome. Custa-me respirar. Custa-me estar vivo.
A janela é a minha única motivação. Arrasto-me até ela. Os pés descalços no soalho escorregam. Mas insisto. Cravo as unhas no chão e puxo por mim. Puxo pelo meu corpo. Gosto da janela. Gosto de olhar para a rua. Gosto de ver as pessoas à distância. É a única forma de as suportar.
Acendo um cigarro e deixo-me ficar por ali. Abro a janela. O fumo sai. O ar frio entra. Arrepio-me. Fecho a janela. O meu bafo embacia o vidro. Com o dedo escrevo lá letras, depois palavras. Palavras soltas. Sem sentido, acho. Corroído. Tóxico. Talvez signifique alguma coisa para mim. Mas não recordo. Talvez seja algo escondido. Perdido.
Volto a abrir a janela. Para o fumo sair lá para fora. As letras que escrevi começam a desfazer-se. As gotas tombam, vão caindo vidro abaixo e deixam de ser letras, palavras, e tornam-se desenhos. Abstrações. Que porra é que estou para aqui a dizer? O que é que se passa com a minha cabeça?
O meu olhar dirige-se lá para baixo, para a rua. Um homem agarra outro pelo casaco e vai esmurrando-o. O outro tenta fugir. Defende-se dos murros colocando os braços à frente da cara. Uma rapariga grita e bate com uma mala no homem que esmurra.
Eu fumo o cigarro e vou olhando o confronto. As pessoas são más. As pessoas são más companhias. As pessoas procuram o confronto. A porra da competição. Eu sou o melhor.
Sento-me numa cadeira. Estou saturado. Cansado das pessoas das suas regras razões e prioridades. Eu eu eu eu eu eu eu…
Cheira-me mal. Percebo que sou eu. Ainda não tomei banho. Não me apetece tirar o pijama. Não me apetece despir. Nem ir para debaixo da água.
Volto a levantar-me. O confronto exerce um certo fascínio em mim. Um dos homens está agora caído no chão. O outro está sentado em cima dele e continua a bater-lhe. À volta uma série de pessoas assiste como se fosse um jogo. A rapariga chega agora lá do fundo com um polícia que grita para o homem. Mas este continua a bater no outro. Ninguém respeita o polícia.
Mando o cigarro pela janela e ele cai em cima do homem que se vira para cima, para o prédio, e vê-me. Larga o outro que fica caído no chão, com sangue a escorrer pela cara. A rapariga cai sobre ele. Afaga-lhe a cara, espalha-lhe o sangue que é já só uma massa. O polícia tenta agarrar o homem que não lhe liga e que vai mandando gritos para mim que estou cá em cima.
O homem dirige-se para a porta de entrada. O polícia pede apoio pelo rádio e segue-o, mas o homem nem o nota. A rapariga fica a chorar agarrada ao corpo inerte do outro. As pessoas continuam à volta a assistir ao desenrolar dos acontecimentos. Alguns deles olham cá para cima, para a minha janela.
Eu levanto-me e vou abrir a porta da rua. Depois volto a sentar-me na cadeira, acendo outro cigarro e ponho-me à espera. À espera dos acontecimentos.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/03]

As Mensagens

Acordei com o sinal sonoro da chegada da primeira mensagem.
Abri os olhos a custo e espreitei o telemóvel. Não me interessava a mensagem. Virei-me para o outro lado e tentei voltar a adormecer.
Após as cinco mensagens seguintes percebi que não ia conseguir voltar a pregar olho.
Levantei-me da cama. Desliguei o telemóvel. E fui até à cozinha.
Acendi um cigarro e fiquei a olhar pela janela, para a rua escura, deserta e silenciosa. Porque raio lhe dava para me mandar tantas mensagens a estas horas? Não conseguia dormir? Era agora que se punha a pensar na vida e nas merdas que fazia?
Apaguei o cigarro na torneira do lava-loiça e fui até à sala. Liguei a televisão. E fiz zapping. Não consegui parar em nenhum canal. Nada de interessante para quem é acordado às três da madrugada. É que podia mandar as mensagens de manhã. Ou durante a tarde. Até mesmo à noitinha. Mas não! Às três da madrugada. E não dá nada de jeito na televisão. Documentários fofinhos, séries da treta, a Loja em Casa, enfim… Uma desgraça nunca vem só.
Desliguei a televisão e voltei para a cama. Liguei o telemóvel que de manhã preciso de despertador. E mal o liguei, dispararam os avisos sonoros da chegada de mensagens. Muitas mensagens. Muitos avisos sonoros. Fiquei irritado. Muito irritado. E lancei o telemóvel contra a parede em frente. Não se despedaçou, mas quebrou o ecrã e desligou-se. E não consegui voltar a liga-lo. Então é que fiquei realmente zangado, ao pensar no que teria de gastar para comprar outro telemóvel do qual logo lhe descubro o destino: a parede em frente.
A minha vida anda a ficar muito repetitiva e previsível.
Deitei-me. Dei voltas e voltas. Rebolei. A cama desfez-se. Não. Não consegui voltar a dormir. Voltei à cozinha. A garrafa de vinho estava vazia. Regressei ao quarto, vesti umas calças, umas sapatilhas, uma camisola, peguei num casaco e na carteira ao sair de casa e fui ao Feio.
Pedi uma bifana e uma mini. Ainda a bifana não tinha chegado, já tinha despachado quatro minis. Quando a bifana chegou, pequei em mais duas minis e sentei-me no murete ao lado. E passei a ir buscar as minis aos pares. Deixei de as contar. Perdi a noção das horas.
Lembro-me de ver passar um carro da polícia. Lembro-me de um deles vir falar comigo e me mandar para casa. Lembro-me de obedecer.
Cheguei a casa, mas não me lembro como.
Acordei na cama, despido, já o sol ia alto. Ao meu lado, uma bandeja com um rico pequeno-almoço: ovos mexidos, sumo de laranja natural, torradas, manteiga, fiambre e uma chávena de café. E comecei a comer.
De repente, ouvi, vindo da porta de entrada do quarto Tens o telemóvel desligado.
E ali estava ela. Não uma mensagem. Não um telefonema. Ela mesmo. Mais calma. Como se ontem não tivesse existido. E o pequeno-almoço estava uma delícia.
Pensei que, depois, tinha de ir comprar outro telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/13]