Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender ninguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]

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O Ensaio do Corso

Comprei tremoços e pevides. Um euro de cada. Comprei às senhoras do Sítio. Aquelas senhoras de Sete Saias que me tratam por Querido. São muito simpáticas essas senhoras. As pevides não são tão boas como as da Senhora das Pevides de São Pedro de Moel.
Sentei-me na esplanada altaneira. A beber uma imperial. A comer os tremoços. A descascar as pevides. A ver o ensaio do corso a passar lá em baixo, na marginal.
Havia muita gente apanhada desprevenida e de carro preso nos ensaios da multidão mascarada para o entrudo. Porque isto do ensaio era treta. Na verdade é um quase-cortejo só com menos espectadores nos passeios e mais carros de populares presos entre as bailarinas e os carros alegóricos.
As bailarinas estão muito vestidas, este ano.
Eu via tudo aqui de cima. Aqui do balcão da esplanada do Sítio.
A imperial fresquinha escorria garganta abaixo.
As pevides enfiavam-se nos buracos dos dentes partidos. Tinha que lá ir com o dedo, enfiar a unha, e libertar a massa produzida pelo mastigar na boca.
O sol batia-me com força na cabeça. Não tinha trazido chapéu. Devia ter trazido.
Fechei os olhos. Embalei-me.
Comecei a ouvir o som ambiente muito distante. O corso já não estava na marginal da Nazaré, mas em São Martinho do Porto. A Nazaré inteira estava em São Martinho do Porto. Distante. Para lá do horizonte.
Pensei Devia ter posto uma máquina a lavar roupa.
Pensei Tenho de fazer a cama de lavado. Gosto do cheiro de alfazema dos lençóis lavados de fresco. Acho que é de alfazema, o cheiro do amaciador, não é? Olha, não me lembro! Já não me lembro do que lá tenho. Mas deve ser isso. Alfazema. Se não é de alfazema é de outra coisa qualquer e eu gosto do cheiro na mesmo porque é o cheiro de lavado. Gosto do cheiro a lavado. Gosto quando ela sai do banho. Gosto de a beijar quando ela sai do banho. O cheiro do champô. Do sabonete de ervas. Gosto de lhe cheirar o corpo quando ela sai do banho e ainda vem a pingar gotas de água. E eu pego numa toalha e seco-lhe o corpo. Aos poucos. Sem esfregar. Suavemente. Como um mata-borrão a secar a tinta da caneta. E limpo os pingos que escorrem pelas pernas. Pelo peito.
Estou a ficar excitado. É este sol.
Abri os olhos. O sol continuava lá em cima. Mas o lá em cima agora era um pouco mais em baixo.
O horizonte tinha desaparecido. Uma nuvem compacta tinha-se formado em toda a volta. Vinha desde as rochas do Forte e continuava para a esquerda, formando uma pequena baía de neblina. Depois entrava pelo vale nas traseiras da Nazaré e já só lhe via o coruto por cima da colina.
Despertei.
O corso ainda estava lá por baixo
Pensei Hoje há Festival da Canção. Hoje é o dia da Surma. Hoje quero ver.
Pensei É melhor ir embora.
Olhei para o mar. Estava com forte ondulação e a rebentar com força na praia. Mas ainda era de dia. E estava calor. Mesmo se se aproximava o nevoeiro.
Pensei Vou beber outra imperial. E levantei o braço.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/23]

O Homem à Boleia na Benedita

A Benedita, que é também um belo nome de menina que poderia ser rainha, no tempo em que as meninas não eram princesas, mas podiam ser rainhas se lhes corresse sangue azul nas veias e não este proletário encarnado que jorra quando cortado, é uma terriola ali nas margens da EN1. Ficou bastante conhecida pelo calçado, pelas facas, pelo pão e pela Venda das Raparigas. É uma terra com bastante indústria, especialmente de calçado e cutelaria. O pão foi fazendo o seu caminho e ganhou artigo: O pão da Benedita! A Venda das Raparigas era a localidade mais famosa da freguesia, terra cortada a meio pela antiga EN1 e, quando eu lá passava, de expresso, a caminho de Lisboa, e via a placa de entrada com Venda das Raparigas, imaginava um estrado num barracão (também há uma terrinha chamada Barracão, mas é para o outro lado), com uma série de raparigas semi-nuas lá em cima, em leilão, e uma data de marmanjos desdentados a fazerem lances por cada uma delas, coitadas. E eu a pensar se tal coisa poderia ser mesmo possível ou eu era mesmo só um idiota com a cabeça toda fodida dos ácidos.
Mas para além das coisas que lhe dão fama, a Benedita não tem nada de especial. É uma estrada que começa na EN1, que vai por ali fora, uma recta enorme, polvilhada de fábricas, primeiro, pequenos prédios depois, passando por duas ou três rotundas, perdi-lhes a conta, e uma série de cafés, isso sim, digno de nota, abertos à noite, coisa que já começa a rarear em terras maiores e cidades que almejam outros voos. A Benedita não tem falta de cafés. E bares. Não sei se tem vida nocturna. Se tem gente nocturna. Mas tem condições para isso. À volta das rotundas. Ao longo da estrada. No rés-do-chão dos pequenos prédios que acompanham a estrada até chegar à igreja que fica lá mesmo no topo da estrada, altaneira. Ao lado da igreja, a escola. Atrás, um auditório. Eu sei porque fui lá. Fui ao Centro Cultural Gonçalves Sapinho ver um concerto de Frankie Chavez. E foi depois do concerto que tudo aconteceu.
Saí do auditório. Ouvi uma brasileira pedir Você vai buscar o carro?, e uma voz rude de homem responder a rir, Nã, porra! O carro está já ali em baixo! Ela ainda retorquiu Mas os saltos…, mas não teve sorte. Sorri.
Entrei para o carro. Fiz o caminho no sentido inverso. Deixei a igreja atrás de mim. Na primeira rotunda estava um tipo à boleia. Nem sabia que ainda andava gente à boleia. À noite. No meio da terriola.
Segui em frente. Na segunda rotunda, outro tipo à boleia. Comecei a rir. Pensei que a Benedita já não era a terra do calçado, mas da boleia. Ao passar pelo tipo jurei que parecia o mesmo da rotunda anterior. Senti um calafrio pelas costas. Nã!…
Continuei pela estrada. Deixei os pequenos prédios para trás. E ao aproximar-me da zona das fábricas, numa parte mais sombria, onde havia um candeeiro público fundido, lá estava, outra vez, um homem à boleia. E desta vez, tinha a certeza. Era o mesmo homem. O mesmo homem que me pedira boleia lá atrás. Por duas vezes, lá atrás. Passei à frente dele. Olhei-o. Fiquei assustado. Com medo, mesmo. Tremi. Transpirei. Senti as mãos molhadas no volante. A barriga começou às voltas. Os nervos. Senti frio. Desliguei o rádio. Queria estar atento. Ouvir todos os barulhos da rua. Do carro. Da minha cabeça. Havia muitos barulhos na minha cabeça. Não os percebia. Estava com medo. Queria dar-lhes atenção.
Fiz o resto da estrada até ao fim. Depois virei à esquerda na EN1.
A Benedita é uma terra estranha, pensei. Enquanto descontraía. E estava a olhar para a estrada, atento à estrada nacional, quando o vi novamente. Agora estava lá à frente, na EN1, numa zona deserta. Numa zona escura. Não havia mais carros para além do meu. Nem para um lado, nem para outro. Nem ao longe eu via faróis de outros carros que estivessem a aproximar-se. Comecei a tremer. A tremer de medo. Espreitei pelo espelho retrovisor, mas não vi luzes nenhumas atrás de mim. A minha cabeça era uma confusão de conversas desconexas. À minha frente o homem. O homem de barba. Uma barba branca que se via ao longe. O cabelo curto. Alto. Magro. O braço esticado. O polegar para cima. Pensei no Facebook e comecei a rir, com os nervos. Eu aproximava-me dele. Ele aproximava-se de mim. Faltou-me o ar. Queria respirar e não conseguia. Abria a boca. Levei a mão ao pescoço. Estava nervoso. Com medo. Massajei-me. As mãos molhadas escorregavam pelo pescoço. Depois escorregavam no volante. Acelerei. Ou pensei que acelerava. Porque o carro parecia mover-se em câmara-lenta. Aproximei-me do homem. Ele de braço esticado. Olhámos nos olhos um do outro. Depois um relâmpago. Um flash branco. Os meus olhos encadearam. Deixei de ver. Deixei de estar. Deixei de sentir. Eu não era eu. Era só uma energia rodeada de branco. Puf!…

Estava tudo preto. Despertei na escuridão. Virava a cabeça e não via nada. Só escuro. Noite.
E depois, aos poucos, umas linhas mais claras. Uns contornos. Os contornos de uns corpos. Cores. Vozes. Vozes baixas. Sussurradas. Mas não era na minha cabeça. Era exterior a mim. Vinha de fora. Havia gente a falar ali à minha volta.
Senti os olhos a abrir. Senti-me a despertar. As linhas focaram. As imagens tornaram-se nítidas. E vi o homem. Reconheci o homem. O homem da boleia. Estava à minha frente. Debruçado sobre mim. A barba branca. Uma bata, também branca. Uma pequena lanterna sobre os meus olhos. De um para o outro. E de novo, de um para o outro. E depois disse Bem-vindo de volta, rapaz!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/24]

O que É que Lhe Terá Acontecido?

Estávamos os dois naquela pequena escuridão, de língua na boca do outro, e as mãos, marotas, a entrar por debaixo das camisolas, da minha e da dela, que ambos desejávamos tocar naqueles pontos tão sensíveis e macios, quando a luz se acendeu.
Parecia o flash de uma máquina fotográfica, acender e apagar, assim em rápida acção, como a preparar o caminho para depois acender completamente. Um bocado como o balastro daquelas luzes frias e merdosas das lâmpadas fluorescentes das cozinhas antigas, que ainda são o que há, pelo menos nas casas por onde eu vivo. São umas luzes que parecem que estão com medo de acender, vai-não-vai e lá acaba por ir. Ou vir. A luz. Finalmente.
Mas habituado aquela escuridão propícia ao desejo, assustei-me com o despertar daquela luminosidade e o pigarrear de quem lá vinha, juntamente com a luz.
Assustei-me, sim. Assustei-me e levantei-me num ápice de velocidade super-sónica e subi os lances de escada que me levavam até casa. Abri a porta. Entrei. E encostei-me a ela. O coração a saltar. O ouvido na porta. Quem lá vem? Quem será?
E então pensei nela. Nela que deixei lá, no meio das escadas, com a camisola subida. O sutiã à mostra, quase de certeza. E ela lá sozinha. Quem é que lá viria? E como é que ela iria escapar daquela situação?
Percebi, então, que tinha o cinto das calças desapertado. E o primeiro botão das calças fora da sua casa. Os passos passaram pela minha porta e continuaram para cima. Não ouvi vozes. Onde é que ela se teria metido?
Deixei-me deslizar pela porta abaixo. Serenei o coração que parecia querer saltar peito fora.
Acalmei.
Abri a porta e, de novo às escuras, desci as escadas. Mas ela não estava lá. Nem nunca mais lá voltou.
Senti a língua dela na minha boca. As bocas húmidas. E frescas. As línguas a tocarem-se. O chocar dos dentes na ânsia de sentir. A minha mão a tocar-lhe numa mama por cima do sutiã. A mão dela por baixo da minha camisola. A mão dela na minha perna. A mão dela a desapertar-me o cinto. A mão dela a abrir os botões das calças. A frágil luz da Lua que entrava pela clarabóia das escadas do prédio e nos mantinha naquela intimidade de sombras e contornos. Na acolhedora escuridão.
Toca-me. Toco-te.
E depois a porra da luz!
A porra daquela luz!
Onde é que estás?, perguntei-me.
O que é que lhe terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/09]

Um Tremor-de-Terra Logo pela Manhãzinha

Estava com os copos ou aquilo tinha sido um tremor-de-terra.
Acordei aos pulinhos na cama. Abri os olhos e vi o candeeiro a girar, preso ao tecto, numa órbita circular. Enjoei. Ergui-me na cama. Sentei-me. O candeeiro parou de girar. Pararam os enjoos.
Ouvi alguma coisa a cair lá dentro, na cozinha.
Da rua chegavam os alarmes dos carros e das lojas. Todos a apitar como numa festa de Carnaval. Lá vai o comboio…
Pus os pés no chão e estranhei. Parecia areia. A praia. Vi-me a mergulhar em São Pedro de Moel. Mas não era real. Era só uma investida da imaginação sem saber bem para onde ir depois da informação da planta dos pés.
Olhei para o chão e percebi. Não era areia. Era pó da madeira do estrado da cama. Maldito bicho-da-madeira. Devia fazer qualquer coisa. Qualquer dia estou no chão.
Fui buscar o aspirador. Liguei-o. Não ligou. Esqueci-me que estava avariado. Tem estado avariado estes meses todos. Abri a janela e mandei-o para a rua. Mandei-o inteiro. Com cabo e extensor e escova. Tudo para a rua. Não queria mais saber do aspirador. Ouvi o estrondo do aspirador a bater no chão da rua. Ampliado pelo silêncio da cidade.
Fui buscar a vassoura e uma pá. Varri o pó da madeira. Apanhei com a pá e coloquei no caixote do lixo.
Depois fui à janela e olhei para baixo. O aspirador jazia morto na calçada portuguesa. Não atingira ninguém. Não havia ninguém a passar.
Sim, ainda era cedo. Não havia ninguém na rua. O sol ainda estava escondido atrás do monte que cerca a cidade.
Porque raio acordei tão cedo?
Teria sido o tremor-de-terra?
Ou estava mesmo com os copos?
Fui fazer café. Tinha de acordar de uma forma ou de outra. Entrei na cozinha e vi duas garrafas estilhaçadas no chão. Vinho por toda a parte. E vidros. Vidrinhos. Virei a cara. O café, naquele momento, era mais importante.
Vesti uns boxers. O cheiro a café inundou a casa. Enchi uma chávena. Peguei num cigarro. Acendi-o. E fui para a varanda fumar o cigarro e beber o café.
O sol começava a despertar. Já se via a luz do dia a contornar o monte. As árvores. Aquela casa que está lá em cima, mesmo na linha do nascer do sol.
Uma velhota parou, lá em baixo, enrolou os cabos e levou o aspirador de arrasto, puxando pelo extensor.
Vi o primeiro raio de sol.
Senti-me abençoado.
E pensei que tinha de arranjar um estrado novo. Mas com o historial do aspirador, não acreditava muito nestas minhas ordens.
E ainda havia as garrafas de vinho partidas no chão da cozinha.
Oh, pá!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/04]

Agora É Sempre Tempo de Tudo

Encontrei melancia.
Estava a passar na rua e, numa loja de frutas de uns coreanos, encontrei melancia. Estavam numa caixa cá fora, na rua. Limpas. Brilhantes. Como se alguém lhes estivesse puxado o lustro.
Comprei metade de uma melancia.
Em casa cortei-a às tiras, tirei-lhes a casca e cortei as tiras de melancia ao cubos pequeninos.
Ela estava na sala, sentada no sofá, a ver um filme qualquer na televisão. Mas na verdade estava a dormir sentada. Muito direita. Quase não se dava por nada. Quando lhe coloquei a mão no ombro, para a chamar, despertou, mas de uma forma tão suave que quase não se percebia que estava a dormir. Mas eu percebi. Percebia sempre tudo. Via sempre tudo. Sabia sempre tudo. Mesmo que às vezes gostasse de ser como ela, e não perceber, não ver, não saber. Às vezes a ignorância é o melhor remédio.
Chamei-a para a cozinha. Perguntou-me Fizeste torradas?, e eu respondi Não, não fiz., e ela continuou É que não me cheira a torradas.
Sentou-se na mesa da cozinha e coloquei-lhe um pequeno prato com os cubos de melancia. Sorriu. E perguntou Mas é tempo dela? E eu respondi Agora é sempre tempo de tudo.
Agarrei num garfo e fui dando-lhe uns cubos de melancia que foi saboreando. Tinha muito sumo e, de vez em quando, babava-se. Não era bem baba, eram fios do sumo da melancia que se escapavam pelos cantos da boca abaixo. Eu ia estando atento e ia conseguindo limpá-los. E por vezes, ao mastigar, acabava por fugir um ou outro pedaço de melancia para fora da boca e acabava no chão. E eu via tudo isso e tentava abstrair-me, pensava que depois tinha de apanhar e de limpar o chão, mas tentava sair dali, daqueles pormenores estúpidos que, ridiculamente, me enervavam.
Ela não percebia nada. Nem via nada caído no chão.
Ela só saboreava o fresco da melancia. Alguns pedaços eram chupados para sorver melhor o sumo. E dizia Parece um gelado. Sim, para ela, o sumo natural da melancia era quase gelado. Estávamos no Inverno e o frio era um facto. E comer melancia fria num Inverno gelado era uma anormalidade. Mas que a deixava satisfeita.
Quando acabou de comer a melancia passei-lhe um guardanapo para as mãos e ela limpou a boca. Mas disse Tenho de ir lavar a boca. E foi até à casa-de-banho.
Eu coloquei o prato e o garfo na pia do lava-louça e fui apanhar os pedaços de melancia tombados no chão, debaixo da cadeira dela. Depois, com uma esfregona, lavei aquele bocado de chão.
Ela apareceu na cozinha, vinda da casa-de-banho, estava eu a arrumar a esfregona. E perguntou-me Podes por a televisão para trás? Estava a gostar do filme. E eu disse-lhe Sim, mãe. Vamos lá. E fui puxar o filme que estava a ver para trás. Se calhar ia voltar a adormecer.
Depois fui até à varanda fumar um cigarro e ver os bonecos que as nuvens, por cima dos prédios, faziam. A vida era assim. E tinha de ser.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/20]

A Lareira a Crepitar

Eu olhava em frente, para a lenha a queimar na lareira. Sempre me fascinou aquele som, o crepitar da lenha na lareira. Mais que o calor, e a imagem das chamas, é o som que me hipnotiza. Que clama pela minha atenção. Que puxa por mim.
Até me esqueci onde estava. Com quem estava. E o que estava ali a fazer.
Não estava ali a fazer nada. Estava com ela. Em casa dela. Mas não estava ali a fazer nada. Então, foi com facilidade que me deixei seduzir por aquele crepitar.
Despertei.
Olhei à volta e vi que ela estava a olhar para mim numa posição de quem espera uma resposta.
Mas não sei do que é que estava à espera. Eu não tinha resposta nenhuma para lhe dar. Nem sei o que é que ela queria. Nem se eu queria alguma coisa.
Porque raio estava eu ali?
Levantei-me do sofá. Olhei de novo para a lareira. Se não saísse, já não saía que aquele crepitar não deixaria. Mas voltei a olhar para ela. Não vi nada naquele olhar. Ou vi, mas não queria ter visto o que vi. O que julguei ver.
Sai da sala em direcção à porta da rua. Percebi que disse qualquer coisa. Mas não percebi o quê. Abri a porta e saí.
E entrei num café.
Encostei-me ao balcão e pedi uma bica.
O telemóvel vibrou. Uma mensagem. Desliguei o telemóvel. Bebi a bica.
Saí do café. Estava frio. Coloquei as mão geladas dentro dos bolsos das calças, enfiei o pescoço mais dentro das golas do casaco e pus-me a andar pela cidade. Queria ver o Natal dos outros. Era o único Natal plausível. O dos outros. A cidade estava alegre. E eu queria ser contagiado. Mas só pensava na lareira a crepitar. A lareira que chamava por mim. Mas eu também gostava do frio. Deste frio cortante que só quem é de cá conhece e gosta. E por isso deixei-me ficar por ali, por aquelas ruas frias e minhas.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/05]