Foda-se! Caralho!

E de repente fez-se silêncio. Meu e do outro lado do telefone. Percebi que disse qualquer coisa que não devia ter dito. Busquei, na minha memória imediata, o que tinha acabado de dizer. E entendi.
Do outro lado do telefone o breve silêncio. Depois o suspiro de enfado. O nojo da conversa. E a voz da mulher, a voz fria da mulher sem paciência do outro lado do espectro telefónico diz que vai desligar. E eu fico assustado. Não quero que ela desligue. Não quero que ela se vá embora. Ela diz que aquela linguagem não é linguagem apropriada. Eu disse Foda-se!, mas não a mandei foder. Disse só Foda-se! Uma interjeição. Um grito. Uma forma de sublinhar o meu desespero. O desespero que lhe tinha afirmado mas que percebi que tinha caído em saco roto. Ninguém quer saber dos dramas alheios.
Aquela gente não é gente. Aquela gente tem bits e bytes no lugar do coração. Aquela gente não sente. Não se sente. A lei é regra, mesmo quando injusta. Não há atenuantes. Não interessa a história. Nem o enquadramento. É assim, é assim ponto final, parágrafo.
Porque é que não lidamos directamente com máquinas? Poupávamos nos salários desta gente que não é gente.
Peço desculpa pela minha linguagem, disse. Não queria dizer o que disse, voltei a dizer. Estava, estou, desesperado. Triste. Zangado. Não vislumbro saída. Sinto-me acossado e então, saiu-me Foda-se! Tive sorte não me ter saído um Foda-se! Caralho! que era o mais apropriado quando me sinto encurralado, sem saída e sem fazer puto de ideia de como resolver o problema quando, do outro lado, a voz, aquela voz, monocórdica, gelada, imperturbável, se rege rigidamente pelos mandamentos das regras, da lei, da filha-da-puta da lei que é entendida à letra e feita cumprir à letra a não ser que se possa pagar um advogado, um bom advogado, daqueles que interpreta a lei que, afinal, só é à letra para quem não pode pagar o advogado com dotes interpretativos.
Senti umas lágrimas assomarem aos olhos. A voz a embargar, a ficar retida na garganta. Desculpa! Peço desculpa. Uma e outra vez enquanto ela, a voz, me avisa que vai desligar, que assim não se pode falar e eu vergo tanto as costas a pedir desculpa pela minha linguagem, português, foi português que eu usei! que a voz lá acede a dispensar-me mais uns segundos de caridade à minha pedinchice que eu já sabia que não iria dar em nada. Como não deu.
Depois de desligar o telefone e estar quase na mesma como estava antes do telefonema pensei Estou mesmo fodido! E estou! Estou fodido e não sei como arrepiar caminho.
Há dias em que não me apetece levantar a cabeça da almofada. Há dias em que me apetece ficar na cama, debaixo do edredão, a imaginar mundos de sonho que não são os meus. Há dias em que só um Foda-se! Caralho! me dá alento para continuar vivo, nem sei bem porquê. Nem para quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/14]

Perante a Impossibilidade

Estamos a meio de uma Pandemia. Prestes a entrar numa situação de Contingência, seja lá isso o que for. O normal já não é normal. As pessoas adaptam-se. As pessoas tentam sobreviver. Alguns não conseguem. Há sempre alguns que não conseguem. Não porque sejam piores, menos capazes, insuficientes. Não conseguem porque não conseguem.
A maior frustração de um homem é estar a tentar contar uma história (a história, a sua história, afinal, a sua razão) a alguém que tem os ouvidos fechados e, como resposta só lhe sai São as regras. E as regras são invioláveis. Mesmo quando mudam. Porque às vezes têm de mudar. Porque o mundo muda. Tudo muda. Até, fartaram-se de me zurzir aos ouvidos, já não existem empregos para a vida. Tudo muda. A máquina burocrática não. É posta a funcionar por alguém. Ninguém sabe quem. Mas quando começa a trabalhar já não pára até finalizar o que tem para finalizar. O coitado do novo Josef K. será enviado de balcão para balcão, de um departamento para outro, guichet atrás de guichet, a preencher formulários cujas perguntas não entende, a dar a mesma informação que já deu tantas vezes, todas as vezes, que já não as consegue enumerar porque não tem dedos e dentes suficientes para as contar, as mesmas informações que constam do seu processo, dos seus processos, porque ele é sempre o mesmo, com as mesmas informações de sempre, para lhe darem a mesma resposta em balcões diferentes, em departamentos diferentes, por gente diferente de postos e guichets diferentes Não é aqui, e não sei onde possa ser. Talvez indo…
Em Peniche há uma espécie de promontório, de rochas bem escarpadas que entra pelo mar. Assusta caminhar lá por cima. Às vezes há pequenos buracos que levam directamente ao mar. Alguns são pequenos, o pé dentro de uma sapatilha atravessa-os, como uma ponte, de lado a lado. Sentimos a fúria do mar lá dentro, lá debaixo, mas há outros que são grandes o suficiente para nos provocarem a queda e, mesmo que não nos levem ao mar, nos levam a outro lado donde talvez não se consiga sair. Quando se caminha por estas rochas pontiagudas, escarpadas, sente-se o medo da violência do mar. A minha mãe dizia-me sempre de todas as vezes que eu ia mergulhar Com o mar não se brinca. E ali percebe-se o que ela queria dizer. Há dias em que as ondas batem nessas rochas e explodem em todo o seu esplendor e fazem cair sobre quem se aventura por ali, uma forte chuvada de água salgada que nos pode fazer escorregar, tropeçar, fazer cair nas escarpas e levar até à fúria da maré.
Às vezes quando estou perante a impossibilidade de passar para além da porta, do segurança que protege a passagem através dessa porta, uma porta que devia ser nossa mas que se porta cada vez mais como a porta de ninguém, sinto que estou a caminhar sobre as escarpas dessa espécie de promontório em Peniche, e que o rebentamento de uma onda caída sobre mim me vai fazer tombar num mar violento de onde não vou conseguir sair.
É onde eu estou agora. É como eu me sinto agora. E tomba-me em cima um desespero que me faz gritar e ouço ao lado o cochichar de pessoas que ainda não se transformaram em K. mas hão-de transformar-se, porque este momento K. calha a todos, a dizer Mais um maluco. Eles acabam todos aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/10]

Desespero

Isto já se deu há muito tempo. Há mais de trinta anos. O pai de uma amigo, um amigo próximo, matou-se. Enfiou os canos de uma caçadeira na boca e disparou. Dizem, quem viu ou, pelo menos, quem ouviu dizer, que rebentou com a cabeça.
Na altura lembro-me de pensar Como é que um tipo se suicida com uma caçadeira? É que não deve ser fácil. Fisicamente, não é? Agarrar na arma. Naquela arma específica. Numa arma grande. Grande e comprida. E disparar o gatilho. Como é que se chega ao gatilho?
Lembro-me de ter recebido a notícia com alguma frieza. Talvez, desdém. Lembro-me de ficar condoído pelo meu amigo. Lembro-me de estar lá para ele. Não muito, na verdade. Acho que foi mais as palavras da praxe. Estou aqui, Se precisares de alguma coisa, Ânimo, esse tipo de frases feitas compradas numa coleccionável da D. Quixote para oferecer em alturas de Natal e Páscoa a pensar nos infortúnios anuais.
Os anos foram passando e passaram por entre mim e esse meu amigo e levou-nos para vidas diferentes e, provavelmente, longínquas. Nunca mais o vi. Nunca mais soube dele. Pode até já ter morrido, não sei. Sei que nada sei dele.
No entanto, de tempos a tempos recordo a morte do pai dele. Recordo a morte do pai, não pela morte do pai em si, mas pela minha indiferença à morte dele. Não sei se pelo suicídio, se pelo facto de ir embora e deixar cá o filho (mais uma filha e a mulher), se por outra razão qualquer que ainda não me tenha ocorrido. Mas ao longo dos anos tenho, quando me lembro desta história, ficado cada vez mais zangado comigo.
Desta vez chorei. Finamente chorei pelo meu amigo e, mais importante, pela morte do pai do meu amigo. Acho que este choro me libertou de alguma angústia aprisionada cá dentro por mais de trinta anos. Pelo menos foi o que me pareceu.
Finalmente percebi o desespero e a coragem que ele deve ter tido para fazer o que fez. Não é algo que se faça de ânimo leve. Não é algo que se decida fazer porque sim. Não é, como alguns querem fazer crer, uma saída fácil. E é preciso haver um enquadramento. Uma razão. Um motivo. E é preciso muita coragem. Uma coragem extrema.
Não vou falar sobre os motivos. Não os conheço. Nunca virei a conhecê-los, provavelmente. Quem se lembra da morte de alguém ao fim de tantos anos? Neste caso, talvez os órfãos e a viúva, se ainda forem vivos, e eu.
Hoje percebo que os motivos devem ter sido muito fortes. Só o peso de um drama sem saída empurra alguém para aquele desfecho. Alguém decidir deixar cá, sós, os filhos, a família, é porque o caminho das respostas está vedado – e está-o tantas vezes! bem mais do que nós sabemos, ou julgamos saber. Sim porque nós julgamos saber sempre da vida alheia e até temos a mania que sabemos as respostas e temos as soluções, como se elas viessem em saquetas de brinde nas caixas do Juá.
Mas posso falar sobre a coragem. Aquela coragem que muitos acham que é corbardia, medo, que é fuga. A coragem de decidir pôr um fim a tudo. E conseguir dar todos os passos. É que cada passo pesa toneladas. Cada passo tem o peso de uma vida. De várias vidas. Cada passo é uma ida sem regresso. Cada passo é mais um acelerador das batidas do coração. Cada passo é uma batalha entre todas as dúvidas e certezas que uma pessoa tem. E então imagino aquele homem, homem ainda novo, mais novo do que eu sou hoje, com filhos pequenos, a pegar numa arma, a carregar essa arma, a apontar essa arma a si próprio, lutar contra todas as conversas que lhe hão-de estar a consumir a cabeça, a dizer para o fazer, a dizer para não o fazer, manter a força da mão, do braço, do braço que suporta essa arma, pensar em tudo o que vai perder, pensar que tudo vai acabar, pensar que já não vai mais haver aniversários, nem Natal, nem cabrito assado, nem jogos do Benfica, nem netos, nem beijos, nem amor, nada, nada, nada, não vai haver mesmo mais nada e ainda assim ter força suficiente para mexer o dedo que está sobre o gatilho e disparar e, naquela fracção de fracção, naqueles nano-segundos entre o disparar o gatilho e o cartucho, a bala, sair disparado, disparada, pelo cano até atingir o alvo, pensar num possível arrependimento e saber que já é tarde, tarde demais, e depois já não é mais nada, nem o vazio, é apenas só uma ausência, o mundo acaba, desfaz-se, desaparece, e só continua para quem fica por cá, às vezes em que condições.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/04]

Numa Fila de Gente

Foi a primeira vez. E a primeira vez custou. Primeiro custou estar na fila com todos os outros como eu que estavam na fila à espera. Mas o que custou mais foi ser visto por todos os outros que passavam ao largo e mandavam olhares para nós, os que estávamos na fila, à espera. Aqueles olhares entravam por mim dentro. E eu vestia-me de vergonha.
Esperámos horas a fio ao longo do passeio. Houve quem viesse muito cedo para arranjar um lugar à frente, entre os primeiros. Gente que já sabia como é que aquilo funcionava. Eu nunca tinha ido e acabei por ficar num dos últimos lugares. Só esperava era que ainda houvesse alguma coisa para mim quando fosse a minha vez de chegar lá à frente.
Nunca tinha passado por nada daquilo. E no entanto, várias vezes imaginei aquilo a acontecer. Não aquilo assim, exactamente assim, nem que achasse possível aquilo realmente acontecer daquela maneira. Mas tenho tendência para imaginar desastres terríveis e depois congratular-me pela sua não-ocorrência. Talvez seja uma forma retorcida de me sentir bem com a vida. Já imaginei vários acidentes de automóvel em que eu sobrevivia tetraplégico. Ou que que familiares meus, próximos de mim, muito próximos de mim, morriam de mortes terríveis e dolorosas. Uma vez imaginei que a minha mulher tinha caído a um poço e eu acabava a casar com a irmã dela. Logo eu que nunca fui casado. Mas a minha imaginação não tem regras, nem limites. Eu não tenho poder nenhum sobre os meus sonhos e eles, por vezes, são bem macabros, terríveis, e estão-se nas tintas para mim.
Daquela vez o sonho tornou-se realidade. Uma realidade. Mas já estava à espera. Embora tenha sido uma descida rápida, era uma descida que se vinha anunciando. Mas o que é que eu podia fazer? Não conseguia mudar o destino. Eu não sou um tipo desses, de grandes frases filosóficas e acções compatíveis que lutam contra o mundo e conseguem vencê-lo. Eu, não. Eu acho que sou um falhado. Vou andando ao sabor das ondas, sem levantar muitas. Deixo-me ir. Às vezes corre bem. Outras vezes não.
E foi assim que acabei lá, na fila. Naquela fila. Com uma série de gente como eu. E só esperava ainda chegar a tempo.
Há quanto tempo não comia? Quer dizer, comer-comer, a sério? Porque comer, tinha comido. Tinha sempre comido alguma coisa. Umas laranjas. Restos de hambúrgueres. Iogurtes fora de prazo. Às vezes conseguia roubar umas couves ali nas hortas comunitárias. Mas não tinha comido mais que isso. Isso era o que tinha comido nas últimas semanas. A última vez que tinha comido, antes de ir para a fila, foi um resto de torrada que encontrei abandonada numa esplanada. E isso já tinha sido… No dia anterior? Talvez antes, talvez antes do dia anterior.
Mas tive sorte. Quando chegou a minha vez, ainda consegui levar algumas coisas para casa. Arroz. Bolachas. Óleo. Latas de atum. Feijão. Nessa noite consegui comer quase normalmente. Nessa noite, acabei a vomitar o que tinha comido e me tinha sabido tão bem. Não vomitei por causa da comida. Vomitei por ter estado na fila, junto com todos os outros que estavam na fila, à espera de conseguirmos trazer alguma coisa para casa. Vomitei por minha causa.
Agora, já não vomito. Agora, já estou habituado. Quer dizer, o mais habituado que é possível alguém estar quando tem de se colocar numa fila de gente desesperada como eu à espera de conseguir que lhes dêem alguma coisa, qualquer coisa, para comer e mitigar a fome. Sim, porque há fome. Eu tenho fome. Todos eles, que estão na fila, têm fome. E passo, passamos, horas na fila para podermos comer alguma coisa. E é o que nos resta. Mitigar a fome de comida. O resto, o resto das coisas que nos faltam, ficam à espera de melhores dias.
A primeira vez que entrei na fila, pensei que seria a primeira e a última vez. Depois dessa vez já passou,,, Quanto? Quanto tempo?… Já não sei. Já não sei há quanto tempo foi a primeira vez. Mas sei que já me habituei. Agora faz parte da minha rotina entrar na fila e chegar lá à frente.
Um dia gostava de deixar a fila. Um dia gostava de voltar a ser como os outros, os que não vão para fila.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/08]

A Vida Cá por Casa

Eu já não era o único a arrastar-me cá por casa. Agora era ela, também. Depois de nos levantarmos de manhã, depois de bebermos uma caneca de café de saco, eu, em fato-de-treino, sentava-me numa poltrona e ela, de roupão por cima da camisa de dormir, sentava-se na outra. Ligávamos a televisão e ouvíamos as notícias na CMTV. Estávamos em guerra. Estávamos em guerra contra um vírus e estávamos a perder essa guerra. Entrámos em angústia. A morte rondava-nos. Perto da hora do almoço eu carreguei no botão do comando e passamos para a SICN e sossegamos um pouco. A situação era má, mas não era desesperada como parecia.
Ao almoço aquecemos um resto de feijoada que ela tinha trazido de casa da mãe há umas semanas e tinha guardado no congelador. Havia um resto de arroz de cenoura da véspera e aquecemos tudo no micro-ondas. Acompanhámos com um copo de vinho de uma garrafa sem rótulo que ela também tinha trazido de casa da mãe. Era vinho do produtor. Uma zurrapa. Era boa para matar o bicho.
Eu já estava habituado àquela vida de andar por casa, a arrastar os chinelos do quarto para a sala, da sala para a casa-de-banho, da casa-de-banho para a cozinha, caneca de café na mão, um cigarro e um biscoito, uma vida de desempregado de longa-duração, já entrado numa idade em que se está morto para o mercado de trabalho que os mercados financeiros gostam é de gente novinha a quem possam chupar toda a energia. Eram as minhas manhãs. Umas a seguir à outras. Em repetição. Depois de aquecer algum resto perdido pelo frigorífico para almoçar, a tarde não fugia aos mesmos passos. Vestia umas calças e uma camisola. Ia até à rua. Bebia café. Às vezes um copo de vinho. Fumava uns cigarros. Arrancava uma maçã da árvore, limpava-a às calças e comia-a por ali mesmo, pelo quintal. Depois regressava à sala. Regressava à companhia da televisão. Via um ou outro programa da tarde, programas para donas-de-casa, mulheres da limpeza ou para velhos sedentários, e esperava que ela regressasse. E ela acabava sempre por regressar. Os meus dias eram assim e eu já estava habituado a eles.
Ela não. Ela não estava habituada a estar por casa. No início tentou copiar-me os ritmos, mas não tinha estofo para aquilo. O estar ali quieta, afundada no sofá a fumar cigarros, não era para ela. Esperava não ficar muito tempo por casa. Esperava que passasse a crise do Covid-19 e a vida retomasse o seu ritmo normal. Fosse lá o que o normal fosse. Bom, para ela, era sair de casa de manhã para ir trabalhar e só regressar ao final do dia. Olá amor, Olá, um beijo, um cigarro em conjunto e o jantar para os dois antes de ver um filme requentado no canal Hollywood.
Depois de uma manhã a arrastar-se pela sala, cozinha e casa-de-banho, depois de uma dieta de cafés e cigarros e o vinho ao almoço a acompanhar aquele resto de feijoada que tinha trazido de casa da mãe, ela precisava de agitação. Foi vestir o fato-de-treino colorido, resto dos anos noventa, e foi lavar o carro. Passou-lhe cera. Aspirou-o por dentro. Verificou o óleo. Pôs-lhe água no depósito do pára-brisas. E eu à janela, a fumar um cigarro e a pensar Era eu que devia estar a fazer aquilo, não era?, mas ela gostava. Ela gostava de fazer aquelas coisas. De estar ocupada. De não ter motivos para pegar num livro. Eu gostava de ter motivos para pegar num livro, mas a televisão punha-se sempre entre mim e o livro. E deixava-me ficar por lá, frente à televisão, a enfardar entretenimento em forma de conhecimento popular.
Depois de deixar o carro num brinco, ela entrou em casa e disse Vou dar uma volta. Vou caminhar. Queres vir?
Não me apetecia nada ir. Não percebia aquela loucura por caminhar em direcção a lado nenhum, sem outro objectivo que não o caminhar, mas sabia que, ao fazer-me a pergunta, já esperava que eu dissesse que sim, e era melhor dizer sim e evitar problemas.
E disse, Sim, vou contigo.
Ela ainda vestiu um colete amarelo-fluorescente por cima do fato-de-treino colorido. Era para se ver bem na estrada. Eu fui com o fato de treino azul escuro que já tinha vestido. Ela ia suficientemente colorida por nós os dois. Fui só calçar umas sapatilhas e partimos.
Ela caminhava depressa. Aquilo não era um passeio. Era uma prova de marcha. Em ritmo acelerado. Não sei se fazia bem a caminhada. Parece que tem de haver sempre uma planta dos pés no chão. Não sei muito bem como é que isso se processa, mas fui andando atrás dela. E ela levou-me por caminhos de terra batida que eu nem conhecia. Consegui que ela parasse um pouco ao pé do ribeiro. Ainda bebi um pouco de água. Ela avisou que a montante, havia uma cerâmica Há uma cerâmica lá mais em cima. Se calhar não é boa ideia beberes do rio. Mas já era tarde. Era melhor preparar-me para um desarranjo intestinal. E lá continuámos.
Acabámos por fazer uma volta enorme e voltar pelo outro lado da casa. Doíam-me as pernas. Eu vinha cansado. À chegada a casa, vi um dos gatos morto no meio da estrada. Atropelado. O gato tinha rebentado. Havia tripas espalhadas pelo asfalto. Encostei-me a uma árvore na berma da estrada e comecei a vomitar. Ela agarrou numa espécie de cajado e puxou os resto do gato para a berma.
Agarrou em mim e ajudou-me a ir para casa. Deixou-me na casa-de-banho e foi encher um balde para enxaguar a estrada. Tirou umas sapatilhas minhas de uma caixa e levou a caixa para colocar o resto do gato.
Quando regressou já eu tinha tomado banho e estava de fato-de-treino lavado a fumar um cigarro no alpendre à espera dela. Ela pegou-me no cigarro e deu duas passas. E disse Vou tomar um duche. Depois vou fazer uma salada para o jantar. E eu respondi Está bem.
Ela foi tomar banho e eu regressei à sala. Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Estava a responsável da Direcção Geral de Saúde e a Ministra da Saúde a falar em directo. A fazer um ponto da situação da expansão do vírus. Comecei por ouvir. Acabei por adormecer.
Acordei quando ela me chamou e disse Anda! Anda, vá! Vamos comer uma salada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/10]

Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Sexta-Feira, 13

Sexta-feira, 13. Hoje é Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições e azares. Como não acredito em Bruxas. Mas que as há, há.
Foi numa Sexta-feira, 13. Um dia como hoje. Há muitos anos. Tantos anos que já não sei quantos.
Estava no açude que havia ali em baixo, ao pé de São Romão. Ali a caminho das Cortes. Estava com uma miúda. Uma miúda de quem gostava muito. Era uma miúda da minha idade. Da minha turma. Éramos amigos já antes de sermos namorados. Foi a minha última namorada. Este dia, naquele dia, foi o último dia de namoro. Nunca mais namorei. Nunca mais quis nenhum relacionamento. Não queria ter um relacionamento coxo. Que me iria fazer lembrar, a todo o momento, que já não era homem. Já não era gente. Só um corpo atrofiado.
Estávamos no açude. Eu e ela. Era o fim das aulas e nós tínhamos faltado. Estávamos com o sangue quente e cheios de desejo. Fomos até ao açude. Eu era bom nadador. Elegante a mergulhar. E fazia gala disso. E então, mergulhei para ela. Para ela ver. Saltei do braço grosso da árvore para o meio do açude. Mas algo correu mal quando mergulhei. Fui mais fundo que o habitual. Tinha entrado muito a pique. E quando dei por mim, já tudo tinha acontecido e eu já estava no hospital. A minha vida ficou naquele mergulho. E eu nunca mais regressei ao contacto com os vivos. Não, não morri. Mas foi como se tivesse morrido.
Mergulhei mais a pique que o habitual e bati com a cabeça numa rocha no fundo do açude. Desmaiei. O meu corpo, inerte, subiu. Ela viu-me e puxou-me para fora. Parece que teve de me fazer respiração boca-a-boca e carregar forte nos pulmões. Parece que acordei e cuspi água. Depois foi à procura de ajuda. Eu não me lembro nada. Não me lembro de ter acordado. Nem de ter estado à espera de ajuda. Nem da ambulância. Lembro-me de ter acordado no hospital. Lembro-me de não me conseguir mexer. Lembro-me de a ver chorar. E lembro-me de uma conversa que a médica teve comigo. A primeira conversa. A dor da primeira conversa. O desespero. E a vontade de ter morrido. A vontade de ter ficado lá no açude.
E foi assim que me senti. Como se tivesse morrido. Tudo aconteceu numa Sexta-feira, 13. Não acredito em maldições. Nem em azares do destino. Mas a minha vida foi abalroada pelo destino numa Sexta-feira, 13.
Mandei-a embora. Mandei toda a gente embora da minha vida. Saí da cidade. Fui viver para o campo. Os meus pais foram comigo. Eu isolei-me. E continuo isolado, hoje.
Às vezes tenho de descer à cidade. E custa-me. Custa-me ter de vir para o meio das pessoas. Algumas pessoas que eram do meu passado. Fingimos que não nos reconhecemos. Mas também me custa não reconhecer a cidade que era minha. Custa-me não andar por aqui a sorver esta cidade com tudo o que ela tem, tinha, para me dar. Mas eu não tenho forma de sorver nada disto. Continuo a existir, mas já não vivo. Sou um tipo zangado. Eu, na verdade, fiquei no açude.
Em dias como o de hoje, ainda mais zangado fico. Tive de vir à cidade. Tive de chamar o táxi para me trazer à cidade e fazer, por mim, umas coisas que precisava que fossem feitas. Mas o taxista é simpático. Já la vão uns anos que me ajuda.
Mas hoje!? Hoje o diabo saiu à rua para me azucrinar e fazer lembrar que as Sextas-feiras, 13 não gostam de mim.
Vou no carro com o taxista. Vou sentado quieto, sem me mexer. Nada em mim mexe. Sei que já há um procedimento, através de um implante no cérebro, que me poderá fazer recuperar as mãos e os braços. Mas ainda sou um tronco estático. Só a cabeça mexe. Mas sinto tudo o que anda, ou não, à minha volta.
Estou parado numa estrada na cidade. Há uma fila que não anda. Uma das principais saídas da cidade está fechada por causa de um evento automóvel. Uma espécie de exposição de carros antigos. Passeiam-se pela cidade. Fazem provas de perícia. Gastam combustível fóssil, queimam borracha e sentem as suas pilas enormes, do tamanho dos seu carros e dos seus motores.
Eu também gostava de sentir a minha pila. E conduzir um carro. Mas não posso. Não consigo. Estou aqui na cidade, enfiado numa fila de trânsito que não se mexe. Pareço eu. A cidade sou eu. Os motores a trabalhar. O cheiro insuportável. Estou preso. Preso em mim e na cidade.
Às vezes penso na minha namorada. E como a minha vida podia ter sido se não tivesse faltado as aulas. Mas também penso que aquele mergulho, com ela a ver o meu corpo a furar o espelho de água do açude, valeu por uma vida.
Só é pena ter de vir a esta cidade nestes dias. São dias que acordam a minha tristeza.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/13]

Ter Crédito no Telemóvel e Alguns Cigarros no Bolso

Eu vi o tipo caído no chão e não fiz nada. Passei ao lado. Desviei-me no passeio, mas não cheguei à estrada. Foi só um pequeno desvio para não o pisar. Mas também não me baixei para perguntar se era preciso alguma coisa.
Olhei para as outras pessoas que passavam por ele. Fizeram todos como eu. Passaram à volta. Não o ignoraram porque não podiam. Ele estava ali. No meio da passagem. No meio do caminho entre um sítio e outro que as pessoas têm de utilizar para cumprirem as suas obrigações, os seus rituais, as suas necessidades. Ele estava presente e não podia ser ignorado. Mas as pessoas passavam ao lado. Como eu.
Depois de tê-lo deixado lá para trás, parei. Parei e virei-me. Olhei lá para trás. Para ele. E chegou-me uma convulsão de choro. Lágrimas a caíram-me dos olhos e escorrerem céleres cara abaixo. Entraram pela boca. E estavam salgadas. Que porra!
Isto faz de mim uma pessoa má?
Eu sei que devia, que podia ter parado ao pé dele. Que podia ter-me baixado. Que podia ter-lhe perguntado se precisava de alguma coisa. Mas o que é que eu podia ter dado? O que é que eu podia dar? O que é que eu tinha que podia dar a quem quer que fosse?
Peguei no telemóvel e liguei para o cento e doze. Avisei que estava um homem caído no chão no meio da rua e desliguei.
Acendi um cigarro e fiquei ali à espera. O homem continuou caído no chão. Não sei se estava bêbado, drogado, morto ou a dormir. Mas não o vi mexer-se. Também não vi sangue. Talvez não estivesse ferido. Talvez fosse só uma queda. Talvez fosse só uma quebra de tensão. Mas também podia ser fome. Podia ser desespero.
Olhei para o meu cigarro e pensei que ainda tinha dinheiro para os cigarros. E ele?
Pensei numa coisa que ouvi um dia destes Ter algo em que acreditar! Como se pode ter algo em que acreditar quando não temos nada em que acreditar? Quando vemos que a vida nos passa ao lado? Que não percebemos como é que as pessoas agarram a vida se ela, a nós, a ele, a mim, nos escorre pelos dedos como a água do mar? Como se pode ter algo em que acreditar quando a barriga dá horas e temos de fazer ouvidos de mercador. Quando somos largados na rua porque não podemos pagar as rendas de casa feitas a pensar no turismo de airbnb. Quando nos dizem que não há dinheiro para pagar pensões, desemprego, calamidades e depois vemos… E depois vemos o que vemos à nossa volta que não em nós.
Há muito dinheiro a circular, neste mundo. Mas não é por aqui.
Porra!
Ouvi a sirene do INEM. Chegaram os paramédicos. Mexeram-lhe. Ele mexeu-se. Eles fizeram-lhe alguma coisa que não percebi o quê e meteram-no numa maca. Enfiaram a maca na carrinha. Vi a carrinha a desaparecer e o som da sirene a extinguir-se lá pelo meio da cidade agressiva e impessoal.
Virei-me para seguir o meu caminho e percebi que não tinha caminho. Eu não ia para lado nenhum. Não tinha nenhum sítio para onde ir.
Pensei que eu também não tinha nada em que acreditar porque era como aquele tipo ali caído sozinho no passeio. Só que eu ainda tinha algum crédito no telemóvel e uns cigarros no bolso. Mas é só. E até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/11]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]

A Avenida

Vista daqui, esta zona da cidade continua igual. Há cinquenta anos que as formas são as mesmas. Mudam alguns conteúdos, poucas formas, e, no fim, está tudo praticamente na mesma.
Estou aqui na Avenida da cidade. A Avenida. Toda a gente sabe qual é. Mesmo que, na realidade, seja a única que não é. Já foi importante. Já mandou na cidade. Hoje definha. Os homens matam a cidade por ausência e desinteresse. E acumulação de erros que teimam em continuar a cometer.
Já houve por aqui vários cafés. Bastantes até. Muito frequentados. Com charme. Uns modernos, à época. Outros clássicos. Desapareceram todos. Vieram as agências bancárias. Ocuparam tudo. Agora foram-se embora. As agências. Acabaram com o pouco que restava depois de já terem morto a Avenida.
Às vezes penso que esta gente não merece a cidade que tem. Teve.
Lembro-me de vir para aqui, para esta mesma varanda, aqui neste terceiro andar, e sentir que estava no tecto do mundo. As pessoas pareciam-me formigas a correr lá em baixo. Às vezes deixava cair balões com água sobre a cabeça das pessoas. Às vezes cuspia. Empoleirava-me no muro da varanda e deixava cair uma bola de cuspo, para ver o tempo que demorava a cair cá de cima até lá baixo, e se acertava em alguém. Na cabeça de alguém. Às vezes fazia concursos com os meus amigos, habitantes de outras portas, também habitantes da Avenida. Bateram à porta muitas vezes. Pelos balões. Pelos balões de água. Pelas cuspidelas. Pelas pedrinhas de brita mandadas cá de cima. Pelos papelinhos dobrados, lançados em fundas de elástico presos aos dedos. Uma vez veio cá a polícia. Tinha andado a rasgar cartazes políticos na rua. Foi depois do 25 de Abril de 1974. Andava tudo louco com as eleições. Comícios na Praça, aqui ao lado. A sede do Partido Comunista atacada ali em frente. A enorme fila à volta do cinema para ver Chove em Santiago de Helvio Soto. Os tiros. As manifestações. As bandeiras. As tarjas. Eu andava aí pela rua, eu e os meus amigos aqui das portas vizinhas, a brincar. A cabriolar. Fazíamos muita merda. Na rua. A maior parte dela não chegava a casa. Aos ouvidos dos nossos pais. Roubávamos flores no jardim, que também definha hoje, para darmos às nossas mães. As mães que vinham gritar à janela por nós. Em diminutivo, estava tudo bem. O nome composto estava tudo mal. E lá voltávamos a casa. Para almoçar. Ou jantar. Ou para fazer os trabalhos de casa. Jogávamos à bola nos passeios. No largo. Partíamos montras. Rasgávamos cartazes dos partidos, porque sim. As pontas estavam soltas, a esvoaçar ao vento e, bastava um puxão. Um pequeno puxão. Vinha tudo atrás. Até o cimento das paredes. E a polícia veio cá a casa. O meu pai prometeu um sermão. Mas nunca chegou.
Estou aqui agora, a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro. A vista não é maravilhosa. Nem desafogada. Esbate com o prédio mal tratado ali de frente. E depois? Continuo a ouvir a voz grave saída dos altifalantes fanhosos da Rodoviária. Uma companhia de anos. Saía, não saía. A Rodoviária. Passam os anos e continua aqui. Tomar uma decisão é difícil. Se sai daqui, é mais uma facada nesta artéria que já perdeu toda a importância para o Shopping feito nas margens da cidade (nem perto nem longe, ali, onde ajuda mais à morte urbana). Se fica, é mais um cancro a apodrecer a cidade. Já apanharam algum autocarro para onde quer que fosse? Para Fátima, por exemplo? Já tiveram de frequentar as casa-de-banho? Pois…
Cinquenta anos a frequentar esta varanda. Os mesmos pombos. As mesmas camionetas. Os mesmos bandos de adolescentes que desaguam para as escolas da cidade, de manga curta em pleno Fevereiro. Que raiva já não ser assim. Já não ser adolescente. Já não ter o sangue quente. Já não ter essa tesão furiosa que afasta o frio e o mau tempo.
Agora bebo vinho. Comecei com a mama da minha mãe que me dava de mamar aqui à janela. Um pouco recuada da varanda por pudor. Passei às canecas de leite. Às garrafas de leite achocolatado. Aos sumos da Superfresco. À RC Cola. Às garrafas de cerveja. Ao vodka. Ao whiskey. Muita bebedeira curada aqui à janela. De Verão. De Inverno. A apanhar o fresco da noite. Da madrugada. Das manhãs soalheiras. Acordar, vomitado, com o som roufenho a avisar que a carreira para o Janardo estava na linha seis e ia partir. E eu rebolava na varanda, sobre o vomitado que teria de lavar.
Olho agora daqui e a única coisa que se mantém é o Teatro. Que já foi cinema. O cinema fugiu-lhe. O teatro é quando calha. Agora são os espectáculos de variedades como eram há cem anos.
Às vezes sinto-me aqui sozinho na Avenida. Não há ninguém. Está vazia. Em silêncio. Gosto quando está em silêncio. Mas entristecem-me as ausências. O deserto de gente. A falta de cidade. Uma artéria estrangulada nas más decisões políticas, ano-após-ano.
Ao longo dos anos pensei várias vezes em lançar-me da varanda. Quando novo, desistia por cobardia. Não me sentia com coragem para um tão grande acto de desespero. Quando cresci, porque percebia que, afinal, a altura não era assim tanta e que a probabilidade de ficar aleijado era bastante grande. Agora porque já não consigo passar as pernas para o outro lado da varanda.
Deixo-me ficar aqui sentado. Um copo de vinho tinto numa mão. Um cigarro na outra. Fico a olhar a pouca vida que ainda corre lá em baixo. E volto para dentro quando arrefece. Sento-me frente à televisão e vejo o programa do Hernâni Carvalho. E já não sei qual de nós está mais doente.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/06]