Às Vezes…

Às vezes pego no carro e vou até à Praia do Norte. Estaciono nas arribas para norte do Forte e fico lá em cima, dentro do carro, a fumar um cigarro e a olhar o mar a bater forte na areia lá ao fundo.
Às vezes o mar está furioso e fico contente por estar a esta distância da sua fúria.
Às vezes deixo o carro na arriba e desço as dunas até à praia. Passeio-me pela areia deserta. Caminho desengonçado. Caminho, com dificuldade, pela areia até à beira do mar. Aproximo-me tanto dele que sinto o sal colar-se-me à pele da cara e das mãos. Os olhos fecham-se com os salpicos. O barulho das ondas ensurdece-me.
Olho para um lado e para o outro. Não há ninguém. Às vezes não há ninguém na Praia do Norte. Só eu.
Vou ao longo da linha do mar. Atento às ondas. Atento à fúria das ondas. Pronto a fugir para não ser apanhado pelo espraiar de uma onda mais afoita.
Às vezes subo ao Forte.
Às vezes dou a volta ao Forte pelo lado do mar. Ponho pé-ante-pé naquelas pedras escorregadias. Desço as escadas íngremes. O mar sempre presente. Ali aos meus pés. Às vezes molha-me como se fosse um regador. Como se fosse um chuveiro.
Às vezes páro nas amuradas. Frente ao mar. Ponho um cigarro na boca. Tento acendê-lo e nunca consigo. É o vento. É o mar. É o medo.
Às vezes fico lá. Assim parado. A olhar. A olhar para o mar. E penso… Às vezes, às vezes estou parado no muro que contorna o Forte, a olhar o mar, ali aos meus pés, furioso, a bater com força contra as rochas que suportam aquilo tudo e penso como seria fácil. É tão fácil, digo para mim. Digo em silêncio para ninguém ouvir. Só para mim. Era tão fácil. Tão fácil.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/05]

A Casa do Lado

A casa do lado está sempre fechada. Parece uma casa vazia. Mas não é.
Por várias vezes, em noites de insónia, saio de casa de madrugada, naquele momento em que a claridade começa a despertar, para fumar um cigarro e caminhar um pouco ao longo da rua e desentorpecer as pernas, e já vi um carro a sair de lá. Parece-me ser uma mulher, ao volante. Mas está sempre em silhueta. Acho que se esconde de propósito.
Estou na rua, o cigarro na boca, ou nos dedos, o fumo a subir aos céus, e ouço o mecanismo da porta da garagem a abrir. Fico ali parado, ao lado da casa, a ver. O carro só sai da garagem depois da porta chegar mesmo ao cimo e parar. Então o carro sai. E pára logo lá em frente e aguarda até a porta da garagem se fechar por completo. E então vai-se embora. Tento sempre espreitar para dentro do carro. Mas não consigo ver com clareza. Parece ser uma mulher. Talvez com o cabelo apanhado. Ou curto. A silhueta é magra. É tudo o que consigo perceber.
Já aqui vivo há cerca de seis anos. A casa já estava assim. Sempre com as janelas fechadas. As portas fechadas. Nunca vi roupa estendida a secar ao sol. Nem tapetes a arejar em janelas abertas. Nunca vi ninguém a ir despejar lixo. Nunca vi ninguém a cuidar do pequeno jardim que existe à frente da casa e, no entanto, o jardim tem um ar cuidado. Nunca vi fumo a sair da chaminé. Ninguém deve cozinhar naquela casa. Ninguém deve acender a lareira, mesmo nos dias gelados de Janeiro.
Aquela casa, aqui ao lado, é um mistério. Mesmo depois de ter ido lá espreitar, uma noite destas.
A casa parece abandonada. Parece não albergar lá vida. Mas já vi sair de lá alguém que me parece uma mulher. E há, por vezes, nem sempre, mas por vezes, uma divisão com luz numa espécie de meio-andar da casa. Uma divisão com uma janela não muito alta, mas larga, como um rasgo no alto da parede da casa, por cima da garagem, o que me faz pensar numa espécie de mezzanine.
Uma noite destas, tinha ido à rua levar o lixo, já era tarde, tarde da noite, tinha largado o saco no caixote, estava a acender um cigarro quando reparei que a luz estava de novo acesa. Na tal janela rasgada quase ao longo da casa mas mais acima na parede exterior, por cima da garagem. A janela tinha cortinas japonesas puxadas para baixo. Não se via nenhuma sombra.
Fumei o cigarro na rua, ao lado do caixote do lixo, enquanto tomava a decisão.
E decidi.
Lancei o resto do cigarro fora. Subi a rua. Galguei o muro da casa vizinha. Não havia cães nem gatos. Passei o jardim que continuava bem tratado. Aproximei-me da casa. Andei à volta dela à procura de um caminho para subir à janela rasgada. Subi a uma janela e puxei-me ao primeiro telhado, o mais baixo. Depois fui andando devagar, com cuidado, até me aproximar do segundo telhado, por cima da garagem. Fui a caminhar por um friso que ficava abaixo da janela, ou por cima da garagem, agarrado ao beiral do segundo telhado, até chegar à janela rasgada com luz no interior. Tentei espreitar, mas não conseguia ver nada. As cortinas japonesas vedavam-me o acesso. Tentei encontrar sombras, mas não dava para perceber nada.
Fui andando ao longo do friso à procura de uma nesga. Devagar, para não cair. A queda também não seria muito grave. E então, aproximei-me da junção de duas cortinas. Uma pequena nesga entre uma cortina e outra. Tentei espreitar. Cheguei-me ao vidro. Andei com um olho para cima e para baixo, De um lado para o outro. E então, finalmente, vi. Vi um corpo de mulher, vestido com um fato de licra cor-de-rosa, e collants de um branco que me parecia creme, a roçar-se numa bola gigante de borracha, uma daquelas bolas de pilatos. O corpo subia e descia sobre a bola. Rolava. Esticava-se. Virava-se. Via os pés esticados, as pontas dos dedos dos pés a tocarem, muito levemente, no chão de madeira, enquanto o corpo se esticava ao longo da curvatura da bola. Não conseguia ver a cara. Tentei várias vezes. Andei com os olhos ao longo da nesga de espaço entre uma cortina e outra, mas nada. Não conseguia ver a cara. Fiquei por ali algum tempo. O corpo mexia-se, mas a cara continuava fora de visão. Era uma mulher. Isso de certeza. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem.
Depois o corpo ergueu-se. Largou a bola que vi ficar sozinha. A luz apagou-se. Não ouvi nenhum barulho. Esperei um bocado. Nada.
Desci do friso sobre a garagem. Percorri o jardim. Saltei o muro e voltei à rua. Acendi um cigarro. Virei-me para a casa e estava na escuridão. Parecia uma casa deserta. Uma casa vazia. Mas eu sabia que vivia lá alguém. Havia alguém naquela casa.
Talvez houvesse lá um portal, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/11]

A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]

Abandonado numa Estrada Deserta

Está um calor de abrasar. Vejo, à frente, lá ao fundo da estrada, através do pára-brisas do carro, as ondas de calor que sobem da estrada.
Ela vai a conduzir. Eu vou ao lado. Vamos em silêncio. O rádio do carro está desligado. Não me lembro quem é que o desligou. Terei sido eu? Ela? Ela vai concentrada a olhar a estrada. Mas não precisa de muita concentração. Estamos numa recta infindável. Estamos numa estrada deserta. E não se ouve o barulho de outro carro. Só este. O barulho rouco do motor em sobre-aquecimento. E os pneus de borracha a descolar do asfalto mole, quase derretido, um quase-pântano que tenta prender o movimentos das rodas a circular.
Vou com o braço pousado na janela aberta. Vão as quatro janelas abertas. Mas não se sente quase nenhuma aragem. Estamos mesmo no reino do calor extremo.
Ela também leva o braço esquerdo fora do carro. Conduz só com uma mão. Não há muito para conduzir. Não há ultrapassagens. Não há que acelerar, travar, desviar.
Ela podia deixar-se dormir que o carro iria sozinho lá para onde vamos – e para onde é que vamos? Ela pegou no carro, mandou-me entrar, e arrancou. Arrancámos e aqui estamos.
Olho para o pulso, à procura do relógio e vejo as horas. Marca oito horas. Mas não pode ser. Oito horas, da manhã ou da tarde? Nenhuma das oito horas tem o sol tão alto. Levo o relógio ao ouvido. Está parado. Não lhe dei corda. Tiro-o do pulso e dou-lhe corda. Quero acertá-lo. Olho para o tablier do carro. Olho para os manómetros. Olho para o espelho retrovisor interior. Não há relógio em lado algum. Não há horas.
Levo a mão ao bolso das calças. Procuro o telemóvel. Não o encontro. Viro-me para ela e pergunto-lhe Viste o meu telemóvel? Ela olha para mim – e eu não sei se gosto daquele olhar. Com um gesto da cara, aponta o queixo para os meus pés. Eu olho para baixo e vejo o telemóvel partido. Pego-lhe. Pego-lhe nas peças. Nas pequenas e nas grandes peças partidas do que já foi o meu telemóvel. Sem a olhar pergunto-lhe O que é que aconteceu? e ela não me responde. Continua a conduzir o carro e atenta ao deserto que se abre perante nós.
Largo os pedaços do telemóvel na estrada. Vou deixando cair através da janela ao longo da estrada. O que é que terá acontecido ao telemóvel?
Depois, ela pára o carro. Pára o carro num descampado. Estamos parados numa estrada deserta no meio de um deserto. Não se vê ninguém. Ela diz Paragem para a mijinha. Ela abre a porta do carro mas não sai. Eu abro e saio. Dou três passos, agarro na pila e começo a mijar. E digo Foda-se! que me sabe tão bem.
E depois ouço.
Ouço o motor do carro a trabalhar. O carro a arrancar. Viro-me para trás e vejo o carro a acelerar na estrada deserta e a mão dela fora da janela, a fazer-me um pirete.
Meto a pila dentro das calças. Sinto alguns pingos a caírem nas cuecas. Mas logo secam. Corro para a estrada mas já é tarde. Como o pó que as rodas do carro fizeram ao arrancar. Vejo-o fugir de mim. Ouço-o fugir de mim.
Estou parado na estrada. Estou a transpirar. Ainda vejo o carro lá muito ao fundo, transformado numa onda de calor, a tremer. Mas já não o ouço. Só ouço a minha respiração. O cantar das cigarras. Penso nas cobras. Olho para o chão à minha volta. Pergunto-me O que é que aconteceu?
Olho para a frente, para onde o carro foi, para onde o carro desapareceu. Olho para trás, para de onde viemos. E penso Onde caralho é que estou?
Começo a andar na direcção do carro. Começo a andar na direcção do carro na esperança que ela volte atrás e me apanhe.
Mas não tenho grandes esperanças.
Acho que deve ter havido merda. Porque é que vínhamos em silêncio? O que é que eu fiz? O que é que eu lhe fiz? Devo ter feito alguma, de certeza. Mas o quê? O que é que eu lhe fiz para ela me largar aqui, assim, debaixo deste calor tórrido? E daqui a umas horas é noite. Há por aqui cobras. Não sei onde estou. Tenho a cabeça a ferver. Tenho sede.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/10]

Preciso de Sair Daqui

Mexo o braço debaixo de água. Vejo-o a mover-se lento, travado pelo atrito da água. O sol brilha, reflecte no espelho de água e, por momentos, deixo de ver o braço. Mas sinto-o a flutuar. Suave.
Deixo-me cair na água. Flutuo. Sinto pequenas ondas passarem por cima de mim. Está calor. Sinto-me bem aqui.
Tenho os olhos fechados aos raios de sol. E no entanto vejo. Vejo gente a mergulhar. A saltar da pequena prancha meio-metro acima da piscina. Vejo as explosões provocadas pelas bombas humanas lançadas em peso sobre a água da piscina para molhar as cercanias. As miúdas fogem. Fogem a rir. Algumas ainda são salpicadas por pingos de água. Despem os vestidos que largam abandonados pelo chão e mergulham na piscina. Brincam. Riem.
Alguém manda uma bola grande, insuflável. É azul. Tem escrito Nivea. É uma gigantesca bola insuflável da Nivea. Saltita na piscina. Mãos lançam-na de um lado para o outro. Não pára. Não cai à água. Alguém mais afoito bate com mais força e a bola foge para longe da piscina.
Há música no ar. Uma música alegre, fresca, dançável. Sinto-me a bater o pé. Não sei onde. Não me vejo. Mas sei que estou ali. Sei que estou ali porque sou eu que vejo o que se passa. E sinto-me a bater o pé ao ritmo da música que paira sobre o jardim, a piscina, a multidão de gente jovem e bonita.
Um casal beija-se. Um pequeno grupo dança. Uma trupe de pequenos diabretes corre de um lado para o outro disparando jactos de água de pistolas e metralhadores de plástico.
Alguém passa com uma cerveja na mão.
Uma rapariga está deitada numa chaise-longue enquanto bebe um longo cocktail colorido e cheio de adereços à volta do copo.
Um rapaz está sentado no meio da relva a comer uma fatia de melancia. Pinga-se. O sumo da melancia escorre-lhe pelo peito. Duas raparigas sentam-se ao pé dele e cortam mais fatias da melancia e também comem. Uma criança aproxima-se de uma das raparigas e senta-se ao colo dela. A rapariga dá-lhe a comer um bocado de melancia. O miúdo trinca. Depois levanta-se e vai a correr ter com os outros miúdos.
Abro os olhos. O sol já está mais baixo. Vejo o azul do céu. Não há uma nuvem. O céu está limpo. Ouço o restolhar das pequenas ondas da piscina a bater nas margens. Ainda está calor. As folhas das árvores não se mexem.
Viro-me. Nado até ao muro. Ergo-me. Saio da água. Entro em casa molhado. Deixo um rasto de água no chão da cozinha. Abro o frigorífico. Agarro numa cerveja. Abro-a. Dou um grande gole. Vou até ao jardim com a garrafa na mão. Sento-me numa cadeira e olho a piscina vazia. O jardim deserto. O silêncio. Não, o silêncio não. Ouço as cigarras. O som das cigarras é a minha companhia.
Preciso de sair. Preciso de sair daqui. Preciso de ver gente. Preciso de conversar. Tocar em alguém. Preciso de um pouco de confusão.
Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. Sinto a garrafa a escorregar-me dos dedos, não a consigo agarrar e cai sobre a relva. Ouço a cerveja a sair da garrafa. Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. A olhar as pequenas ondas na piscina vazia.

[2019/06/24]

A Mulher que Canta

Estamos no deserto. Num deserto do Médio Oriente. Naqueles desertos de pó. Uma pequena aragem levanta nuvens de poeira. E um ambiente bege. O céu e a terra confundem-se no horizonte. O plano é largo. Bastante largo. Abarca a acção, os protagonistas da acção e o ambiente onde a acção decorre. Vê-se um soldado-cristão levantar a mão. Uma arma na mão do soldado-cristão. À frente do soldado-cristão, pequenino no plano, e na vida, uma criança corre. Corre desalmada. Corre para os braços da mãe carbonizada no autocarro em chamas. Um autocarro com famílias muçulmanas que os soldados-cristãos mataram a tiro. Mulheres. Crianças. Velhos. Tudo morto a eito a tiros de metralhadora. Depois gasolina para a combustão e queimar tudo. Tudo menos esta criança retirada por uma cristã sobrevivente que estava no autocarro. Mas que quis a mãe. No fim, a mãe. E corre para os seus braços carbonizados. Mas não chega lá. O soldado-cristão levanta a mão com a arma e dispara. A criança é projectada para a frente. Como se levasse uma paulada na cabeça. O tiro atinge-a por trás. A criança não chega aos braços carbonizados da mãe.
Estou num filme de Denis Villeneuve. Estou a descobrir o cinema de Denis Villeneuve. E descubro um cineasta urgente. Que urge descobrir. Quase todos os anos tem aparecido na cerimónia dos Óscares com filmes nomeados. Mas poucos o conhecem. O reconhecem. Poucos guardam o seu nome e, no entanto, aqui está um cineasta cheio de cinema. De um cinema obrigatório. Forte. Político. Humano.
Estou em Incendies, A Mulher que Canta. E vejo essa Mulher que Canta na prisão. Na prisão onde esteve quinze anos, numa cela de um por dois metros. Na prisão onde foi humilhada, torturada, violada. Onde foi violada pelo pai dos seus futuros dois filhos. Gémeos. Frutos dessa violação. Violada pelo próprio filho primogénito, veio a descobrir mais tarde. Próprio filho que tivera anos antes e que fora roubado dela, tirado dos seus braços, levado para um orfanato por desonra da família. Oh quanta honra nas famílias! Puta que pariu as famílias e a sua honra! E tornado guerreiro. Soldado. Criança-soldado. Que acaba por se tornar naquilo. No terror. Na miséria. Na desgraça.
Que merda de humanidade somos!
Estou na prisão com a Mulher que Canta. A Mulher que Canta está deitada no chão, semi-nua. O filho-violador vai a sair da cela, vira-se para trás e, do alto da sua arrogância de soldado-vencedor, diz Canta lá agora!

[escrito directamente no facebook em 2018/11/04]

Sozinho a Subir o Alentejo

Estou parado à beira da estrada. Estou dentro do carro mas vou ter de sair. O calor aqui dentro é insuportável. Uma estufa.
Já olhei à volta e não vejo uma árvore, uma sombra. Estou aqui há uma hora e ainda não passou nenhum carro.
Esta paisagem é aterradora. Extraterrestre. Extraterrestre aqui, na Terra.
O horizonte morre já ali, na pequena encosta de um monte. Isto é feito de pequenos montes que se seguem uns aos outros, num sobe-e-desce que nunca mais acaba. Montes carecas. Cinzentos. Cheios de árvores mortas. Carbonizadas.
Passei pelo leito de um ribeiro, lá atrás. Seco.
Não posso ficar aqui muito mais tempo. Não passa carro nenhum e, não tarda, começa a escurecer.
Mesmo com o calor que me assola, com os pingos que escorrem pela cara abaixo, pelas costas, pelas virilhas, acendo um cigarro. Saio do carro. Olho em volta. Silêncio. Solidão. Parece que estou sozinho no mundo.
Olho de novo para trás. Nada. Olho para a frente. A estrada parece flutuar lá mais à frente, debaixo deste calor. Olho para o carro. Morto.
Não sei o que é que lhe aconteceu. Ia bem e, de repente, nesta subida, começou a sufocar, deu uns safanões, uns arrotos e parou. Não deu mais nenhum sinal. A chave da ignição não liga nada. Pode ser um problema eléctrico. Ainda tinha gasolina. Acho. Morreu, pronto.
Peguei no telemóvel, mas não há rede.
Precisava de uma boleia. De um mecânico. De um telefone. De um carro. De alguém…
Precisava de uma garrafa de água geladinha. Uma imperial. Um copo de vinho branco. Até um rosé. De um gelado. Um gelado de gelo. Daqueles de laranja. Ou limão. Ainda haverá? Aqueles da Olá.
É melhor começar a andar. Andar em frente. Hei-de ir dar a algum lado. Algum lado onde haja gelados.
O cigarro? Caiu? Deitei-o fora? Não recordo. O que é que lhe fiz? Olha, que se foda!
Tenho de ir devagar. Não sei onde estou. Se estou longe. Se tenho muito caminho para fazer a pé.
Que barulho é este?
Não… Não vejo nenhum carro. Não, não é nada.
Porra, ainda vejo o meu carro. Não andei quase nada. E já estou cansado. Cheio de sede. E continua tudo deserto. Deserto e vazio.
Vou sentar-me nesta pedra e fumar um cigarro. No final do cigarro vai aparecer um carro. E vai levar-me para Beja. E vou jantar aos Infantes. Enfrascar-me. Beber cerveja até morrer afogado.
Já está a cair a noite. Porra.
Não posso continuar por aí de noite. Às escuras. Sem saber onde estou.
Não posso ficar aqui nesta pedra.
Merda.
Vou voltar para o carro. E rezar.
Ainda o sei fazer? É como andar de bicicleta. Nunca se esquece. A sério? Se não for, aprendo.
Amanhã tudo vai ser diferente. Amanhã tudo vai correr bem. Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2018/08/22]