Fotografa-me!

E ela pediu-me Fotografa-me! e pediu com tanta insistência que me levantei da cama, vesti as cuecas e fui buscar a câmara e o tripé. Mexi nas janelas. Nas persianas das janelas. Nas cortinas da janelas. Moldei a luz que entrava pelo quarto. Ela afastou o edredão de cima de si e mostrou-se nua Fotografa-me! dizia.
Olhei através da câmara. Vi-a. Mexi nela. Mexi no corpo dela. Puxei. Encolhi. Alonguei. Lancei o lençol sobre parte do corpo nu. Afastei-lhe no cabelo. Moldei-a. Disparei umas vezes com a câmara nas mãos. Fui ajeitando a câmara. Fui ajeitando-a a ela. Fui aprendendo. Fui aprendendo-a. Subi para cima da cama, para cima dela e disparei. Disparei várias vezes. Muitas vezes. Ela ia fazendo poses. Muitas poses diferentes. Como se fosse muitas. Muitas elas diferentes.
Disparei a câmara de vários ângulos. Sobre ela em várias posições. Umas mais pornográficas, outras mais eróticas, outras mais tímidas, algumas mais púdicas.
Depois coloquei a câmara no tripé. Cortei mais a luz do quarto. Baixei os estores. Puxei as cortinas. Provoquei sombras. Zonas escuras. Pontos de fuga. Contraste.
Olhei pela câmara. Disparei. Voltei a disparar. Mudei o tripé. Disparei. Disparei outra vez. Modifiquei-a a ela, de novo. Transformei-a para a câmara. Para o olhar da câmara. Para o meu olhar através da câmara.
A câmara gostava dela. Era fotogénica. A primeira vez que a fotografei, não a reconheci. A câmara via-a diferente de mim. Mais bonita. Mais explosiva. Muito carnal. Uma imagem de desejo.
Preparei o temporizador. Despi as cuecas e fui juntar-me a ela na cama. Entre os lençóis e o edredão. Já imaginava as fotografias a preto e branco. Cheias de contraste. Com os negros muito cerrados. Silhuetas. E os contornos. Os contornos dos dois corpos que eram um e se amavam ali, em directo, em directo para a câmara. E tudo ficou registado. Registado para a posteridade. Todo o confronto na cama. Desde os primeiros beijos no pescoço, no corpo, as mãos, os músculos retesados, e a reacção dela, as reacções dela, até ao cansaço final, quando caímos, cada um para seu lado, na cama, cansados, gastos. Satisfeitos.
Ela acabou por se levantar. Afastou as cortinas de uma das janelas. Puxou os estores. Abriu mais o vidro da janela e disse, com um sorriso que, pensei na altura, me parecia triste, Agora vais-me ter sempre na nuvem. Vou estar sempre na nuvem, para ti. E ergueu-se para a janela, os dois pés descalços no parapeito, eu gritei Não! ela ainda olhou para trás, em jeito de despedida, um olhar meigo, e saltou, nua, nua como tinha estado na cama, para a rua.
Eu levantei-me a correr da cama, estiquei-me na janela, tarde, tarde demais, sempre tarde demais e ainda a vi em queda livre, e entrei rápido para dentro do quarto, para dentro de casa, entrei para dentro antes que ela chegasse ao chão lá em baixo, na rua, e se transformasse pela última vez.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/30]

Quanto Tempo?…

Quanto tempo vou conseguir aguentar o tempo?

Quanto tempo para deixar de querer ficar em casa? de me contentar com a janela e a distância?
Quanto tempo para me fartar de tomar banho e vestir como se fosse sair? como se todos os dias fossem Sábado à noite?
Quanto tempo para perder a vontade de ver filmes e séries?
Quanto tempo para já não conseguir ouvir mais música deitado no chão da sala e não ter mais vontade de ler aqueles livros que estão há anos à espera deste dia, deste preciso dia, para serem lidos?
Quanto tempo para me fartar desta cozinha inventada como se fosse gourmet que vou desfiando dia-após-dia?
Quanto tempo irei suportar vestir o fato-de-treino?
Quanto tempo irei conseguir viver sem tomar banho? sem fazer a barba? sem cortar as unhas dos pés? e das mãos?
Quanto tempo até não suportar mais a presença dos filhos?
A tua presença?
Quanto tempo até começar a odiar-te?
A ti e a tudo o que disseres?
E o que hei-de fazer a todo este papel-higiénico?…
Quanto tempo para ir para a rua aos saltos e aos pinotes?
Quanto tempo para correr nu pelas ruas da cidade?
Quanto tempo até começar a ficar sem dinheiro?
Quanto tempo até não conseguir pagar a conta da luz? do gás? da água? do cabo? da internet?…
Quanto tempo para deixar de pagar a renda da casa?
Quanto tempo até já não ter o que comer? Nem uma mera conserva de sardinhas em molho de tomate?
Quanto tempo até começar a fome?
A fome a sério?
Quanto tempo até perder o desejo?
O desejo por ti…
O desejo pelos outros…
O auto-consolo…
Quanto tempo para começar a falar sozinho?
Quanto tempo para agarrar no revólver?
Quanto tempo para disparar um tiro nos cornos?
Quanto tempo para deixar de ter tempo?
Quanto tempo?…

[escrito directamente no facebook em 2020/03/24]

Eu Não Sou Cobarde, Ele É

Eu sou uma personagem de ficção. Sou criado por mim, quer dizer, por ele, ele que é real. Eu não sou real. Sou uma ficção que eu inventei. Ele.
Mas há dias em que vivo as minhas estórias e pergunto-me se as estórias são inventadas para mim ou se foram vividas por ele. Às vezes penso que não passo de uma desculpa para as sua confissões.
Eu percebo-o. Ao escrever, julga-se Deus. Vive estórias que nunca viveria como Juliete Binoche aproximou-se de mim, colocou a mão entre as minhas pernas e sentiu-me o peso, aproximou os seus lábios dos meus e beijou-me. Trincou-me de leve o lábio e chupou o sangue que escorria devagar pelo queixo abaixo.
Eu gosto quando ele me cruza com a Juliete Binoche. As minhas possibilidades são infinitas. As dele. Mas nem todas as estórias são assim, de sexo e desejo, com personagens de sonho. Também há as estórias sombrias. Estórias de morte. E por vezes pergunto-me se sirvo para lhe dar largas à imaginação ou se não estou só a servir de catarse. Eu já matei. Já morri. Já morri inúmeras vezes. Já me matei. Voltei a nascer. Renascer. Voltei a morrer. Às vezes de forma violenta. Às vezes por inércia.
É um desejo que ele tem? Eu tenho?
Às vezes penso que sou só uma desculpa para falar dele próprio e do que o atormenta. Às vezes penso que sou uma terapia. Através de mim, ele pode falar dele. Como se fosse um espelho, reflexo mas outro, uma projecção tornada personagem falsa, uma sombra. Através de mim ele fala da pila. A pila dele? Através de mim ele fala da barriga. Ele é gordo? Ele fuma? Eu passo a vida com um cigarro nas mãos. Um cigarro e um copo de vinho tinto. Ele bebe?
Outras vezes penso que sou uma experiência. Sou uma libertação para ele próprio. Comigo ele experimenta o que não pode experimentar na vida real. Aqui não tem de ser politicamente correcto porque eu sou uma personagem de ficção, reflexo de alguém que não necessariamente ele. Aqui, eu posso ser racista, homossexual, mulher, rico, preto, mau, Deus. Aqui ele pode ser o que ele próprio não pode, não consegue, não quer ser. Aqui ele pode ser o assassino. A vítima. Através de mim ele pode sentir o metal frio a rasgar as entranhas. E podem ser as minhas entranhas. Através de mim ele pode sobreviver às pragas do Egipto. Ou morrer.
Mas divago.
Não lhe conheço a imaginação. Nem a vida dele para além destas páginas.
Acho que afinal era eu que queria ser ele e não o contrário. Acho que eu, personagem de ficção é que gostava de ser ele, personagem real a viver num mundo real. Mundo real talvez bem mais interessante do que os mundos que ele cria.
Acho que podia contar bem melhor que ele algumas das estórias que escreve. Sinto que podia ir bem mais longe. Eu não tenho as amarras dele. Se alguém me perguntasse se era verdade ou mentira o que eu estava a contar, eu podia responder sem me preocupar com reacções. Acho que ele não fala com as pessoas por causa disso. Tem medo de dizer Sim, é verdade! Tem medo de dizer Não, é mentira! É por isso que ele foge das pessoas. No fundo, ele criou-me porque é um cobarde. Eu não. Eu não sou um cobarde. Ele é. Ele é um cobarde.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/05]

A Boneca Insuflável

Comprei uma boneca insuflável. Não era para ter sexo. Era só mesmo pela companhia.
Tento não ligar muito ao que vejo nas redes sociais e nos programas vespertinos de televisão onde ancoro tantas vezes depois de almoço entre o café expresso que deixo arrefecer por esquecimento e um trabalho de merda que não consigo desengatar. Sentado no sofá, às vezes sentado à mesa frente ao computador ligado e uma folha do Word em branco à espera que os dedos descortinem letras que, em conjunto e sequencialmente me resolvam o problema de coisas para dizer que não saem nem à lei da bala, olho para os programas feitos a pensar em donas-de-casa e velhos sem amigos com quem jogar à sueca, sinto que estou nos dois grupos, e tento inspirar-me sabendo, desde logo, que nunca há ali realmente nada para mim.
Mas insisto.
Neste últimos dias tenho levado com uma massiva campanha comercial do Dia dos Namorados. Quem não tem namorado namorada mulher esposo consorte amante amigo-colorido é um pária que não merece viver debaixo do mesmo céu azul-brilhante que todas aquelas pessoas belas e bonitas inteligentes e bem-parecidas, frequentadoras de ginásios e atletas de jogging diário, de manhã preferencialmente, antes de ir trabalhar para aparecerem no estúdio bem tonificadas, e sexualmente bem resolvidas na vida, que me querem enfiar opiniões pela goela abaixo. Eu tenho trocado todas essas escolhas atléticas por garrafas de vinho tinto e cigarros sem filtro que me fazem a voz sexy mas sem companhia matinal para a apreciar. Mas tanto os ouvi falar que deixei que me enfiassem o enorme prazer da companhia que quer um só dia no ano para se fazer existir que, derrotado, acabei por me deixar entrar na onda, dei por mim ansioso por não ter namorada, cocei os braços como um caruncho à espera da próxima dose e a tentar descobrir onde ir buscar o papel para o cavalo, que peguei no carro, desci à cidade, a cidade de Leiria, ali mesmo em baixo, entrei numa sex-shop e comprei uma boneca insuflável. Ufa! Ao pagar percebi que convidar uma mulher de carne-e-osso, talvez mesmo daquelas que percorrem o Marachão, nas margens do Liz, para-trás-e-para-a-frente a olharem-me nos olhos, me teria saído mais em conta mas, ao mesmo tempo, pensei que, assim, não tinha de manter conversa e podia ser que esta relação durasse para além do dia 15 de Fevereiro ou, pelo menos, até se romper que, cá por casa, quando era mais novo, as bóias não duravam mais que a primeira semana de férias, e isto em anos bons.
Foi durante a noite que as coisas começaram a ficar mais esquisitas.
Para me habituar à companhia, e como ainda faltavam dois dias para o Dia dos Namorados, convidei-a a dormir comigo.
Na penumbra do quarto, iluminado por vezes pelos faróis dos carros que passavam no exterior e invadiam a minha privacidade, olhava para o lado esquerdo da cama e via uma boca aberta, parecia estar mesmo à minha espera.
O desejo é uma coisa muito esquisita. Esquisita e estranha. E mais estranha fica, à medida que lhe vamos dando lastro.
Malditos programas vespertinos de televisão. Maldito Dia dos Namorados.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/12]

Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]

As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]