A Mulher, parte 04 e final

[continuação de ontem]

Ela ia no autocarro a caminho de casa. Ia no caminho inverso ao que fazia todos os dias a esta hora. A esta hora estava a caminho do trabalho. Hoje estava a caminho de casa. Normalmente ia em pé porque o autocarro já ia cheio quando parava ao pé de casa. Hoje ia em pé, mesmo com muitos lugares vagos, porque estava nervosa. Ansiosa por chegar a casa. Queria ver o filho. Queria saber se estava bem.
Ia em pé, agarrada ao varão perto da porta de saída do autocarro. Contrariava as curvas da estrada com posições do corpo. Voltou a telefonar. Ninguém atendia.
O autocarro parou na sua paragem. Ela saiu. Ela saiu a correr e foi a correr, o correr possível que o seu corpo cansado e já muito gasto pelas amarguras da vida lhe permitia. Cruzou a estrada depressa. Sem olhar. O seu foco era a casa. Subiu a rua. Subiu a rua até ao cimo. Depois virou à direita e entrou dentro do bairro. E depois foi andando em passo rápido, rua-a-rua, lá no interior do bairro. Ruas pequenas e estreitas. Casas baixas como se quisessem passar despercebidas aos olhos da lei, da ordem e das finanças. Saltou por cima de uns esgotos que corriam a céu aberto. Sim, ainda havia disso ali, naquele bairro. Naquele bairro de emigrantes. Naquele bairro de onde vinham os braços para limpar as casas douradas da cidade. Da capital. Uma capital de luxo ancorada nos braços da precariedade.
Chegou a casa. Enfiou a chave na fechadura. Abriu a porta. Correu para o cubículo que era o quarto do filho. A cama estava vazia. Ela levou a mão à boca para sufocar um grito de desespero. Os olhos largaram lágrimas que corriam desalmadas sem pedir licença. E então ela ouviu Mãe?! O que é que estás aqui a fazer?
Ela virou-se para trás e viu, sentado à mesa, à entrada de casa, a tomar o pequeno-almoço na forma de uma tigela com cereais e leite, o seu filho. O filho que era dela. Só dela. Ela largou o saco de cartão com a bata para lavar e a carteira no chão e lançou-se sobre ele estendendo-lhe os braços como tentáculos e sufocando-o no seu amor de mãe-pai que julgava que o seu mundo tinha desabado mas afinal não. Afinal ele estava ali. Estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço antes de sair para a escola. Camisa branca. Calças de ganga limpinhas. A mochila arrumada com tudo o necessário.
Mãe?!… Sai… Deixa-me acabar de comer para ir embora, disse o filho. E ela sorriu. Limpou as lágrimas às costas da mão a sorrir. E retirou suavemente as mãos-tenaz de cima do filho. E disse-lhe Desculpa. Desculpa não ter vindo ontem à noite. Eu logo explico. Agora vou tomar um banho rápido que estou atrasada.
Ela deu-lhe um beijo na face. Entrou naquele pequeno polibã e deixou que a água fria lhe lavasse o medo. Foi uma lavagem rápida que estava atrasada. Mais passar o corpo por água. Vestiu uma roupa limpa. Meteu uma bata lavada no saco de cartão e deixou a suja numa bacia. Despachou-se mais depressa que o filho. Ela era aquilo. Rápida. Decidida. Não perdia tempo com preâmbulos. Ela conhecia as exigências da vida. Deu um beijo rápido na face do filho e saiu de casa a correr. Aquele correr dela, que era um andar assim mais depressa. Até porque os anos e o cansaço não a deixavam ser mais rápida. Ainda ouviu um Até logo, mãe! Adoro-te! que o filho lhe gritou. Sorriu. Ruborizou. E continuou a sua caminhada, agora em sentido inverso, pelas mesmas ruas pequenas e estreitas do bairro de emigrantes.
Saiu do bairro. Virou à esquerda. Desceu a rua embalada que para baixo todos os santos ajudam.
O autocarro que queria apanhar estava a chegar à paragem.
Ela viu-o. Viu-o e decidiu que tinha de o apanhar. Estava já atrasada.
Ela pôs o pé na estrada para a atravessar, para a atravessar a correr para não deixar fugir o autocarro, pôs o pé na estrada, sem olhar para um lado, nem para o outro, a correr, naquela sua correria que era mais um andar depressa, o mais depressa que os anos e o cansaço lhe permitiam e foi então que apareceu um táxi, que não a viu, e lhe bateu, a ela que não o viu, e a levantou pelo capot acima até ao pára-brisas que rachou com o impacto e a projectou uns metros à frente, mandando-a de rojo pelo chão de asfalto, até ela parar, quieta, silenciosa, com o corpo dobrado em dobras impossíveis, no chão sujo e triste.
O táxi parou. O taxista saiu do carro e levou as mãos à cara. Os autocarros pararam. O autocarro dela não arrancou. As pessoas começaram a aproximar-se do corpo inanimado.
Ao fundo, o filho dela cruzou a estrada, olhou para aquela confusão mas seguiu em frente. Ia para a escola. Tinha de ir para a escola. Era a única coisa que a mãe lhe exigia. Que fosse para a escola. Que estudasse. Que fosse alguém na vida. Alguém que ela nunca tinha sido.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/16]

Ela Deu-me um Estalo e Eu Fui-me Embora

Ela deu-me um estalo.
Deu-me um estalo e depois ficou ali assim, parada, muito direita na cadeira, sem dizer nada, só a olhar.
Eu senti a cara a ficar vermelha. Não só do estalo. Forte. Sonoro. Mas também de vergonha. Vergonha das pessoas que, no café, viraram a cara para o que estava a acontecer e aguardavam uma resposta de minha parte. E olhavam para mim. Ostensivamente. Nem disfarçavam.
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Ela continuava parada, muito quieta, à minha frente. Mas as feições da cara estavam a mudar. Estava com uma expressão dura. Como se estivesse para rebentar. Ou me quisesse rebentar a mim. Olhava-me mas entrava dentro de mim.
Eu estava bastante incomodado. Não queria estar ali. Mas estava.
Algumas pessoas tinham retomado as suas conversas. Mas ainda havia algumas a olhar de esguelha. Outras a espreitar por cima do jornal. Havia mesmo um miúdo que tinha o telemóvel virado na minha direcção. Estava a gravar, o cabrão.
Ela não dizia nada. Se calhar não tinha nada para dizer. Tudo ficara já dito quando me dera o estalo.
Eu olhei para baixo. Para a mesa. O café ainda estava na chávena. Um café queimado. A espuma era da cor da ferrugem. E já devia estar frio. Bebo-o ou não? Eu gosto muito de café. De todo o tipo de café. Expresso, americano, de saco, da avó… Aquele já tinha mau aspecto quando veio para a mesa, lembro-me bem mas, naquela altura, parecia mesmo intragável.
Não voltei a subir o olhar, mas senti os olhos dela em mim. Espetados em mim. Olhos agressivos. Frios. Facas disparadas à velocidade da luz.
Peguei na chávena e bebi o café de um gole. Travei um solavanco de vómito. O café sabia mal. Mas aguentei-o no estômago. Não queria mais vergonhas. Já bastava.
Coloquei a chávena sobre o pires. E contei Um… Dois… Dois e meio… Três!…
Coloquei as mãos na mesa e ajudei ao impulso para me levantar da cadeira. Virei costas e saí dali.
Não disse nada.
Enquanto percorria o café sentia o olhar desanimado das outras pessoas em mim. Não tinha havido sangue. Eu não tinha respondido. Aquele estalo não tinha tido consequências violentas. Que desatino. Que frustração.
Já estava a sair para a rua e a colocar as mãos nos bolsos das calças quando ouvi atrás de mim Espera! Espera aí! Onde vais?
Não me virei. Continuei em frente. Ia-me embora. Havia uma sessão de cinema no Miguel Franco e era para lá que ia. Nem sabia que filme era. Não importava. Uma sala de cinema vazia e escura era o que eu estava a precisar.
Atrás de mim continuava Ouve! Espera aí! Desculpa!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/25]

Fui Eu que o Encontrei

A Lua estava alta. Alta e brilhante. Pendurada lá em cima. Era só um bocado da Lua. Um bocado rasgado. Mas um bocado luminoso que me guiava através da escuridão da casa.
Esperei que ela saísse.
Ela saiu. Eu entrei.
Ainda tinha uma chave. A fechadura era a mesma.
Não acendi luzes.
Sabia onde queria ir.
Acabei por tropeçar. A casa era a mesma mas estava diferente. Outras coisas noutros sítios. Outros sítios. Outras coisas. Caminhos diferentes. Caminhos obstruídos. Caminhos libertos.
Esperei. Esperei, habituei os olhos e a Lua ajudou-me. A luz deste bocado de Lua acabou por guiar-me através daquela casa igual mas diferente.
Circulei pelos corredores. Espreitei as outras divisões, nem sei bem porquê. Talvez curiosidade. Talvez nostalgia. Talvez só desfastio.
Entrei no escritório. Dirigi-me à estante. Procurei. Procurei a letra. Procurei na ordem. P. Paul Éluard. Sim, ainda organiza como eu. Pelo primeiro nome. Um homem é o seu nome, não o nome da sua família. Paul Éluard. Recreios Vagos, a Boneca. Série K da &Etc.
Era meu. É meu. Fui eu que o encontrei. Fui eu que o comprei. Fui eu que o li.
Peguei no livro e olhei para ele. Feliz regresso, murmurei-lhe. Voltei para trás.
Refiz os passos todos. Segui a luz da Lua.
Assustei-me com as suas sombras agora mais marcantes. Mas continuei.
À entrada vi o Gato das Caldas. O Gato em porcelana. O Gato das Caldas com um enorme mangalho. Estiquei o dedo para o focinho do Gato. Olhei-o. Toquei-lhe. Comecei a empurrá-lo devagar. Devagarinho. E ele virou-se. Caiu. Estilhaçou-se.
Ups, disse. Desculpa, continuei. E sorri. Um sorriso velhaco. Vingativo.
Às vezes sou mesmo merdoso.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/19]

Um Corpo Áspero

Ela puxou-me para dentro da tenda e eu fui. Por que raio haveria de não ir?
Estávamos os dois já muito bebidos. Eu talvez mais que ela. E deixei-me levar. Ela levou-me e eu fui.
Entrámos ruidosos na tenda. O parque estava em silêncio. No mais silêncio que um parque de campismo em pleno Agosto consegue ficar. Era tarde. Já de madrugada. Para além dos pinheiros já se adivinhava a chegada de uma pequena claridade. Entrámos na tenda e fechámo-nos lá dentro.
Ela agarrou-se a mim e começou a beijar-me onde calhava. Onde conseguia chegar com os lábio gretados. Pensei que precisava de baton hidratante.
Eu esforcei-me para conseguir descalçar as sapatilhas no pouco espaço que ela me permitia. Primeiro os beijos, depois as mãos pelo corpo e por fim a vontade de me tirar a t-shirt, coisa que fui eu que acabei por fazer.
Tirei-lhe também a dela. Passei a minha mão pelos braços, pelas costas, pela barriga e senti um corpo áspero.
A minha primeira reacção foi de repulsa. Mas tentei esconder-lha.
Insisti.
Voltei a passar as minhas mãos pelo corpo dela e não conseguia não pensar na pele que ia descobrindo. Uma pele áspera. Pele de anfíbio. Réptil. Às escamas.
Larguei-a.
Encostei-me ao fundo da tenda.
Tentei olhar para ela mas não consegui vê-la bem. Estávamos na penumbra.
Ela tentou aproximar-se, mas repeli-a. Gaita. Tinha aquela sensação nas minhas mãos. E não conseguia deixar de pensar na pele que não via, mas sentia. E não gostava do que sentia.
Era doentio. Eu estava em pânico. Precisava de sair dali.
Disse-lhe Não és tu, sou eu. Claro que ela percebeu que era uma desculpa. Mas não fez nada para me contrariar.
Parou.
Parou a olhar para mim. Ou para onde eu supostamente estava naquela penumbra.
Peguei na t-shirt e nas sapatilhas, disse Desculpa! e saí da tenda.
Na rua vesti a t-shirt. Calcei as sapatilhas. Acendi um cigarro e saí do parque.
Fui até à praia.
Caminhei junto ao mar.
E pensei no que se tinha passado.
Pensei nela. Na pele dela. E pensei em mim. E pensei no que tinha experimentado. Pensei no corpo dela e no que senti. No que achava que tinha sentido. E, depois, no que eu lhe podia ter provocado. E pensei que o problema não era a pele dela. Claro. Burro. Eu é que era o problema.
Ela tinha-se arrepiado com o meu toque no seu corpo e eu não percebera isso.
Voltei para trás.
Corri.
Entrei no parque de campismo a transpirar e fui procurar a tenda dela.
Não encontrei.
Nunca mais a encontrei.
Ainda hoje a procuro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/02]

O Chão de Tijoleira, Talvez pela Última Vez

Agarrei-lhe os cabelos e puxei-lhe a cabeça para trás. Mas não como quando a beijo. Não havia ali nada de beijos, nem de desejo. Não havia ali nada de sexual. Estava furioso com ela. Havia fúria naquela mão. Havia fúria na força que exercia sobre os cabelos que ela tinha pintado de loiro mas cujas raízes escuras já começavam a ser muito evidentes.
Ela não se ficou.
Fechou a mão, com força, e com o punho mandou-me um murro no sexo.
Larguei-lhe os cabelos. E dobrei-me de dor.
Acertara-me em cheio nos testículos. Parecia que iam rebentar.
Acabámos por cair os dois no chão. Ela viu como eu fiquei e ficou preocupada. Gatinhou até mim. Agarrou-me a cara com as duas mãos e disse Desculpa! Desculpa! Mas a culpa foi tua.
A porra da culpa era sempre minha.
Claro que a culpa era sempre minha porque era sempre eu que pagava os copos.
E agora?
Era isso que lhe estava a dizer enquanto lhe puxava os cabelos loiros mal pintados no pequeno salão caseiro da vizinha do primeiro direito. E agora? E agora como é que íamos pagar a renda da casa?
Ontem deixou-me um bilhete preso no frigorífico. A única coisa que o frigorífico comportava para além de uma garrafa de água do Continente por metade: Estou no Bar. Vem cá ter.
E eu, parvo, fui.
Eram oito horas da noite.
Ela já lá estava desde as quatro da tarde. Vá lá, reconheceu-me. Principalmente porque estava à minha espera para pagar a despesa do que já consumira.
Acabámos por ficar lá até às três da manhã. O Bar fechou às duas mas continuámos por lá até nos porem na rua.
Hoje de manhã é que percebi o que tinha acontecido.
Aconteceu o que já tem acontecido bastantes vezes nos últimos tempos.
O pouco dinheiro que me restava no bolso das calças já não chegava para pagar a merda da renda da casa.
E já é dia seis.
Temos… Temos?!… Tenho, eu, eu tenho dois dias para um milagre. Se não, rua.
Quando isto acontece cinco vezes num ano, não há senhorio que seja compreensivo.
E foi do que me voltei a lembrar enquanto ela me acariciava a cara, pedia desculpa mas dizia que a culpa era minha.
Voltei a agarrar-lhe aqueles cabelos louros mal-pintados e puxei-lhe a cabeça outra vez para trás. Mas desta vez olhei-a de outra maneira. E os olhos dela viram as coisas de outra forma. E ela deixou ir a cabeça para trás, deixou-a ser puxada pela minha mão enquanto libertava o pescoço, branco, suave, desejável. E mo ofereceu.
Estávamos os dois caídos no chão.
Eu aproximei-me dela e beijei-lhe o pescoço. Mordisquei-o. Mordi-o. Sangrei-o.
Quando demos por nós estávamos os dois nus a rebolar no chão de tijoleira da cozinha. E a pensar que podia ser o nosso último dia ali, numa casa, sem ver as estrelas, e com a voz da Júlia Pinheiro como pano de fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/19]

Eu, a Preto e Branco

Tinha uma data de livros empilhados à entrada de casa. Não sabia onde os meter. A casa é pequena e não abunda espaço vazio. Mas ali à entrada estavam no caminho das baratas. Tinha de os tirar de lá.
Abri o armário e vi o aspirador. O aspirador que já não saía dali há meses porque estava avariado. Tirei-o do armário e coloquei-o na rua, à porta de casa. Peguei nos livros e enfiei-os no armário. Ficaram empilhados na mesma, sem ordem, só uns em cima dos outros. Pelo menos consegui que ficassem com a cota virada para a entrada. Para perceber que livros eram. Mas não fiquei satisfeito com a arrumação. Não gosto dos livros arrumados assim, em pilhas, como se estivessem acampados. Como se eu fosse desleixado com eles. Como se eu não me importasse com a sua vida. Com as estórias que me contam. Mas importo. Importo sim. Às vezes até mais do que com as pessoas.
Fechei a porta do armário e pus-me a varrer a casa. É inacreditável a quantidade de cotão que surge do nada. Os montes de lixo agrupado nos cantos, debaixo dos móveis, no trajecto dos cabos de todos os aparelhos eléctricos e electrónicos da casa.
No fim transpirava. A respiração estava pesada. Aquele pó todo tinha-me activado um ataque de asma. Sentei-me no sofá e acendi um cigarro. Senti os pulmões a acalmar. E eu também. Relaxei. Levantei-me e abri a janela para deixar sair o fumo do cigarro, mas sabendo da quantidade de lixo que viria a entrar, de novo, em casa.
Depois saí. Peguei no aspirador e fui levá-lo ao ponto do lixo. Deixei-o de fora, encostado ao caixote do rsu.
E fui jantar.
Fui a uma cervejaria ali da zona. Sentei-me ao balcão. Pedi um bitoque e uma imperial. Enquanto esperava, fui à rua fumar um cigarro. Estava a chover. Tinha começado a chover e enfiei-me debaixo do beiral do prédio. Os pingos da chuva caíam no passeio e espalhavam-se por todo o lado e iam molhando-me as sapatilhas.
Ao fundo vi um casal a caminhar à chuva. Ela levava um chapéu-de-chuva. Ele levava a gola do casaco de ganga levantado. Mas iam a passo, como se a chuva não os incomodasse. Ela refilava com ele. Falava alto. Dizia muitas asneiras. Insultava-o. Mas nenhum deles olhava para o outro. Passaram à minha frente mas ignoraram-me. Ela continuou a falar alto para ele como se não me tivessem cruzado. A dizer coisas que eu não queria ouvir. Não devia ouvir. Mas as pessoas são assim. Fervem em pouca água. Agridem os outros. Dizem o que querem e o que não querem. Acusam-nos de tudo. Das maiores vilanias. Dos maiores crimes. Dali a pouco ela estaria a pedir-lhe perdão. Desculpa, diria ela. Ele não iria conseguir dizer não. E aquela relação iria perdurar até um deles se cansar, se passar e fazer alguma merda. Daquelas merdas que ocupam páginas no Correio da Manhã ou os programas do Hernani Carvalho.
Mandei fora o resto do cigarro e entrei na cervejaria à procura do meu bitoque.
Quando me sentei ao balcão olhei em frente e vi-me. Vi-me no espelho que estava à minha frente. Senti-me a preto e branco. Pesado. Cansado. E percebi que eu era a minha única companhia. Ninguém me gritava. Ninguém me batia. Ninguém me agredia. Ninguém iria fazer-me merda. Ou pelo menos assim eu acreditava.
O bitoque chegou.
Rasguei um bocado de pão e molhei-o no ovo a cavalo. A minha boca abriu-se e engoli aquele creme amarelo, tão saboroso que rapidamente me fez esquecer a minha solidão. E pensei que, lá em casa, dentro do armário, estava um livro à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/26]

Como É que Chegámos Aqui?

Ela mandou-me um estalo. Com força. Desequilibrei-me. Mas aguentei.
Tínhamos estado a discutir. Coisa normal nestes últimos tempos. Qualquer coisa servia para nos agredirmos. Para nos odiarmos. Para nos fazermos mal.
Tínhamos estado a discutir. E eu mandei-a à merda. E ela bateu-me com a mão na cara. Um estalo dado com força. Parecia uma cena de um filme francês. Desequilibrei-me momentaneamente, levantei a mão e estive quase quase a responder com um estalo, também. Mas não o fiz.
Virei costas, agarrei no casaco e saí de casa.
Fui dar uma volta até às margens do rio.
Estava frio. Tinha estado a chover, mas depois saiu, lá detrás das nuvens, um solzinho muito amarelo que não aquecia nada, mas trazia luz e fazia brilhar a água do rio.
Sentei-me num banco daqueles públicos, de madeira, com ripas, a olhar o rio a correr lá em baixo. Acendi um cigarro. Reparei que o banco estava molhado. Ainda havia gotas da chuva agarradas à madeira. Mas não sentia o rabo molhado.
O cigarro estava a acalmar-me.
Não sabia como lidar com aquela situação.
Mas a maneira mais fácil era sair dela. Acabar de vez. Aquilo já era doentio. As discussões eram diárias. O sexo perdia-se lá para trás, no tempo. A intimidade já não existia. As novas conversas terminavam sempre em discussão. E, ultimamente, ela a dar-me um estalo. E estava a aprimorar o gesto. Cada vez me doía mais.
Era a saída mais lógica, mas não estava preparado para ela. Não queria deitar a toalha ao chão. Admitir mais um fracasso. Achava que ainda havia salvação.
Achava mesmo? Estava convencido disso?
O telemóvel tocou. Olhei-o. Era ela. Não atendi.
O cigarro terminou e acendi outro. Dar cabo dos pulmões libertava-me a cabeça.
Ouvi o sinal de mensagem. Abri-a. Era dela. A chamar-me nomes por não ter atendido o telefone. A refilar pela discussão. A mandar-me à merda. E, no fim, a pedir desculpa por tudo e que ainda gostava de mim.
Como raio é que chegámos aqui?
Somos todos tão inteligentes e cultos e urbanos e adultos e, de repente, nas relações, retrocedemos à infância e não passamos de umas crianças mimadas.
Fiquei ali sentado no banco a fumar o cigarro e a olhar a água do rio a passar.
Começou a chover. Poucochinho, mas a chover.
Fiquei ainda um bocado sob a chuva e depois resolvi ir embora. Mas não fui para casa.
Pus-me a pensar qual dos meus amigos tinha o sofá mais fixe. E qual deles tinha paciência para me aturar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/13]