Os Riscos nas Folhas de Papel

Todos os dias a via. Sentada no banco do jardim, virada para o rio, a desenhar. Estava ali ao pé do Moinho de Papel, depois da pequena queda de água que fazia o rio saltar de uma plataforma para outra para continuar a correr até à praia da Vieira e se transformar em espuma suja que morre na areia.
Eu passava por ali todos os dias. Passava a correr. Desde que tinha sobrevivido ao acidente que tive há cerca de três anos que comecei a correr. Corro como catarse. Fazia todos os dias o mesmo trajecto. Corria ao longo da Polis. Corria nas margens do rio Liz. Às vezes corria ao lado de um leito de rio deserto. Outras vezes ao lado de um rio que corria veloz, mais veloz que eu.
Sempre que cruzava a estrada, ali ao pé da Estação de Serviço da Total, depois de ver a pequena cascata do rio que tombava sobre um pequeno lago rodeado de árvores verdes e frondosas que tapavam a entrada de sol e tornavam aquela zona bastante fria, húmida e fria, e antes mesmo de chegar ao Moinho de Papel, o Moinho que Alvaro Siza Vieira recuperou, que a via sentada. Sentada num banco de jardim a desenhar. Desenhava o rio. As pessoas a correr. A andar. Sozinhas, aos pares e em grupo. Os homens mais sozinhos. As mulheres mais em grupo. No Verão desenhava os miúdos aos mergulhos no pequeno lago na queda de água. Desenhava o Moinho de Papel. A cascata. Às vezes levava fotografias e desenhava outras coisas. Coisas que gostava. Algumas delas pintava-as com aguarelas. Um dia esqueceu-se das aguarelas e foi ao café buscar uma bica. Pintou o desenho com o café. O café na ponta do dedo. Eu sei porque vi. Ela mostrou-me. Eu às vezes sentava-me ao lado dela a descansar. Fumava um cigarro e ela mostrava-me os desenhos com que enchia as páginas dos diferentes cadernos da Moleskine que preenchia. Folhas e folhas e folhas. Muitas delas só com rabiscos. Esboços a carvão. Experiências. Preenchia cadernos grandes. Pequenos. Cadernos japoneses com folhas que se desenrolavam em leque. Pequenas sebentas quando não havia mais Moleskines.
Acho que passava lá os dias inteiros. Mesmo nos dias de chuva. Encontrava-a lá de manhã cedo, a minha hora normal de correr pela Polis. Mas aconteceu ter de correr ao final do dia e voltei a cruzar-me com ela. E os seus desenhos, as cores dos seus desenhos, reflectiam essa diferença de luz, a queda do dia, a aproximação da noite.
E um dia passei por lá e ela não estava. Sentei-me no banco de jardim onde costumava estar sempre a desenhar e fumei um cigarro. Fumei um cigarro sozinho. E senti o vazio. Percebi que se tinha ido. Percebi que ela já não estava mais ali. Nem ali nem em mais sítio nenhum.
Larguei o resto do cigarro nas águas do rio. Continuei a correr.
Nunca mais corri ao longo da Polis. Não queria voltar a passar por ali. Por onde a via a desenhar. A desenhar-me. Desenhou-me várias vezes. Desenhou-me nas minhas calças de fato-de-treino azuis da Converse. Nas minhas sapatilhas amarelas fluorescentes da Asics Tiger. Nas minhas t-shirts velhas, algumas rasgadas, que ele reproduzia fielmente, o buraco feito pela ponta incandescente do cigarro, as garras dos gatos, o desgaste do tempo e das lavagens ao longo dos anos.
Depois dela ter desaparecido passei a subir à Cruz d’Areia, descer a São Romão, cruzar o rio ao pé do McDonalds e ir até ao Vale Sepal, subir a estrada do Vale Sepal, aquela estrada sem passeio, e descer, descer até à cidade, lá em baixo, passar ao lado da morgue e chegar às ruas entupidas de carros em aceleração e buzinas a apitar.
Arranjei uma moldura e pendurei um dos desenhos que ela me deu na parede do escritório e, todos os dias, depois de ler as notícias online enquanto bebo uma caneca de café, e antes de sair para a minha corrida matinal, olho-me desenhado naquela folhar grossa arrancada de uma Moleskine e pintado a aguarela, e recordo-a, sentada no banco de jardim, a desenhar, a pintar, a olhar tudo com muita atenção, o rio, as margens, a queda de água, o Moinho de Papel, a pessoas a correr nas suas roupas coloridas e os adeus que muitas delas lhe ofereciam quando passavam a correr e a viam a desenhar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/03]

Tarde de Piquenique

A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Sim, porque já fui miúdo. Como todos vós. Não nasci de natureza espontânea. Desci à rua pelo mesmo vaso comunicante entre o interior e o exterior. Nasci. Cresci. Estupidifiquei. Envelheci. E finalmente cheguei à razão. Já é tarde. O que me resta? As memórias.
Vamos lá então.
A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. Quantos pães? Não sei. Quantos éramos? O R. o P. o outro P. o outro R. o V. o A. e o J.P. a C. a N. e… Perco-me nas memórias. Há gente que cresceu comigo e desapareceu das histórias. Sei que estavam lá. Porque estavam sempre lá. Como eu e os outros, os que não esqueço. Os que me lembro. Estávamos lá sempre todos. Em conjunto. Em comunhão. Antes de crescermos e nos tornarmos intolerantes. Antes de virarmos à esquerda. E à direita. Antes de nos tornarmos parvos. Senhores de um nariz emproado e com a mania da razão. Filhos da certeza. Adultos. Burgueses. Malteses e às vezes. Mas divago. Isto hoje está difícil. Perco-me nas estradas da memória. Fico zangado por me esquecer. E por me lembrar.
Recomeço. Vamos lá.
A tarde era de piquenique entre nós. Os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. O que faltava? O que pôr lá dentro. O que pôr lá dentro do pão. Eu roubei duas latas de atum Bom-Petisco em casa. Uma lata de sardinhas com tomate picante. E uma lata de salsichas Isidoro, que a Nobre só chegaria mais tarde. Ninguém lá em casa daria pela falta das latas de conserva. Havia lá sempre bastantes. Cada vez que a minha mãe ia ao Ulmar, o único supermercado da cidade, trazia sempre umas latas que iam para o monte das latas. Não importava se faltavam ou não. Se eram necessárias ou não. As latas davam sempre jeito. Para aqueles dias de pressa. Para aqueles dias em que não apetecia cozinhar à minha mãe. O que quase nunca acontecia. E, então, mesmo nessas ocasiões, era um empadão de arroz com atum e umas pinceladas de ovo por cima do arroz. Para tostar no forno. Era esparguete com atum e ketchup. Era uma Salada Russa com atum, que ocupava o espaço da pescada cozida. Era um cachorro como já não se faz. O pão torrado, não aquecido, a salsicha frita, não cozida, a manteiga a barrar o pão torrado e a mostarda a riscar as salsichas cortadas a meio, e não batata-palha (que merda de conceito!) e alface migada e milho cozido em cima de uma salsicha grossa, cozida e mal parida.
Escolhemos o pinhal atrás do RAL4. Perto de casa, mas longe da vista. Sentados no chão, que a ninguém lembrou levar uma manta. Os rabos picados na caruma, nos restos de pinhocas partidas. A escolha pelos montinhos de musgo que não chegavam para todos os rabos. O pão rasgado à mão, que ninguém se lembrou de levar uma faca, uma navalha, um corta-unhas. O atum e as sardinhas, as salsichas, as fatias de fiambre popular, de mortadela, de queijo flamengo cortado toscamente e enfiado à pressão dentro do pão rasgado, que ninguém tinha levado um garfo, uma colher. Muito menos guardanapos. Em casa ainda se utilizavam guardanapos de pano, lavados depois de uma semana de uso. Ainda nos lembrámos de encher um antigo garrafão de vinho de cinco litros, de vidro, de vidro coberto de palhinhas, de água trazida da torneira exterior da casa de um de nós. A mesma torneira onde uma mangueira, no Verão, nos fazia as delícias de um duche pré-piscina, que não tínhamos, mas que éramos bons a imaginar, que a imaginação foi razão que nunca perdemos mesmo se o dinheiro e as facilidades não fosse coisa que abundasse na rua. Naquela rua da minha infância.
A tarde era de piquenique. Tinha sido de piquenique. Dez pães para cada um de nós. Pães com atum. Com sardinhas. Com salsichas. Com fiambre popular. Com mortadela. Com queijo flamengo. Com embuchanço empurrado com água de sabor a vinho tinto rasco que ainda permanecia, e iria permanecer para o resto da vida, no interior daqueles garrafões que iam constantemente a encher nas adegas sem nome que os pais conheciam. Havia sempre um amigo de um amigo.
A tarde tinha sido de piquenique. A noite seria de dores de barriga. Vómitos. Diarreia e vomitado. Nada que estragasse a minha infância. Era já ritual do habitual. No dia seguinte já estava bom para outra parvoíce qualquer.
E era de parvoíce em parvoíce que íamos gozando a nossa infância. Uns mais que outros. Eu, sempre que possível. Gostava de parvoíces. Ainda gosto. E de piqueniques. Vinho tinto rasco. Agora, sem água. E latas de sardinhas com molho de tomate picante.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/01]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]

Caído no Chão sem Me Conseguir Mexer

Estou caído no chão da cozinha e ouço os cães a ladrar lá ao fundo.
Não me consigo mexer. Estou caído no chão da cozinha e não me consigo mexer. Vejo o fumo que o cigarro que tinha na mão ainda deita. Vejo-o subir pelo ar e desaparecer. Apetecia-me ter fumado aquele cigarro. Apetecia-me fumar um cigarro.
Não sei o que me aconteceu. Estava a fumar um cigarro aqui, à janela, e, de repente, fiquei paralisado, comecei a transpirar muito, senti muito calor, senti todas as gotas de suor que começaram a descer por mim abaixo, senti as pernas a tremer, a fraquejar, perdi a força nas mãos, deixei de sentir os dedos, o cigarro caiu para o chão e a seguir caí eu. Caí no chão.
Não consigo falar. Nem gritar. Não consigo mexer nada. Não, mentira, consigo mexer os olhos. É a única coisa que consigo mexer. Os olhos. E posso olhar em vários sítios, os sítios onde os olhos podem alcançar dentro das órbitas.
Não perdi os sentidos. Estou consciente. Assustado, mas consciente.
Agora começo a ouvir os carros na rua. É estranho como só ouvia os cães a ladrar e, agora, o barulho dos carros a passar na rua está a fazer-me deixar de ouvir os cães.
Já não vejo o fumo do cigarro a subir para o tecto. Já deve ter-se apagado. E eu não o fumei.
Queria fumar um cigarro.
Queria não estar aqui assim, caído no chão sem me conseguir mexer.
Queria não estar sozinho em casa para ser socorrido.
Queria estar à janela a fumar um cigarro e a olhar para as pessoas que entram e saem da pastelaria da rua.
Queria ir à Lua. Queria ir a Marte. Queria ir à Terra do Fogo.
Queria ter escrito o Space Oddity.
Queria ter escrito A Mancha Humana.
Queria ter pintado o No.301.
Queria ter dançado o Lago dos Cisnes.
Devia sentir as costas frias e húmidas da transpiração e do chão da cozinha. Mas não sinto nada. Continuo sem sentir nada. Continuo sem conseguir mexer-me. Pareço morto. Um morto consciente.
Não virá ninguém cá a casa.
Vão passar as horas.
Se calhar, os dias.
Vou sentir fome. E sede. E uma vontade diabólica de fumar um cigarro.
E eu vou estar aqui assim, caído, paralisado, consciente.
A luz mudou. A luz lá de fora mudou e alterou a luz aqui de dentro. Já é noite.
Agora ouço o som de conversas. As conversas sobrepõem-se ao barulho dos carros. A ruas devem estar cheias de gente a passear. A passear a pé.
As horas estão a passar. Gostava de me passear também pelas ruas da cidade. Gostava de me passear debaixo das luzes de néon da cidade. E fumar um cigarro.
Mas continuo aqui. Não sinto o meu corpo. Não sinto nada. Não… Sinto medo.
O que é que eu posso fazer?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/19]