Cathy Come Home

Sentei-me na sala, sozinho, com um copo de vinho e um maço de cigarros. Ao fundo uma vela acesa, por causa do cheiro do tabaco. A janela aberta, com pouco barulho vindo da rua.
Sentei-me no sofá disponível para ver Cathy Come Home, colheita de 1966 de Ken Loach. Um filme feito para televisão. Uma obra-prima (sim, já sei o que vão dizer, mas quero que se fodam!). Um filme político. Um filme-denúncia. Um filme-resumo das políticas sociais britânicas dos anos ’60.
E foi uma má escolha.
Não, o filme é excelente. Filme para televisão mas cheio de cinema lá dentro. Cathy Come Home é o realismo inglês. A nova vaga do cinema britânico nascido ainda nos anos ’50. Locais naturais. Assuntos sociais. Revolta. Grandes planos. A sujidade e a tristeza da vida como ela é. Sem filtros ou paninhos quentes.
Mas terminei o filme deprimido. E a achar que entre Cathy Come Home e Eu, Daniel Blake, que se distam 50 anos, tanta coisa mudou na Europa para estarmos quase no mesmo sítio.
Mas tenho de começar pelo fim. O texto, em cartela, depois do desenlace final, sobre a cara de Cathy, em grande plano, a chorar angustiada, adverte:

“Tudo o que se passou neste filme, aconteceu em Inglaterra nos últimos 18 meses.
4.000 crianças foram tiradas aos seus pais, e institucionalizadas, por estes não terem habitação.
A Alemanha Ocidental construiu o dobro das casas que Inglaterra construiu após o fim da guerra.”

Este filme é sobre o falhanço das políticas sociais inglesas. É sobre uma máquina autofágica que existe para se sustentar a si própria. É sobre políticas, leis e ideias, aprovadas em gabinetes assépticos, distantes da realidade, e sem serem bem pensadas.
Lembro o desdém da Economia sobre as Ciências Sociais. E depois penso que foi assim que chegamos aqui. Porque há coisas mais importantes que outras (salvam-se os bancos e matam-se as pessoas).
Somos muito piedosos. E somos muito gananciosos.
E quem não trabalha é calão, não quer trabalhar, é ocioso. Está marginal. E a culpa, e aqui falamos sempre de culpa, porque há sempre culpados, são eles, nós-eles, somos os que sofremos com as directivas dos outros, os que vivem de outra maneira. Protegidos. Poupados à barbárie do dia-a-dia. Poupados ao acordar, de manhã, e não saber como irá ser logo à noite. Se vão ter um tecto para dormir. Eles. E as mulheres. E as crianças. As famílias. Como vai ser amanhã? Logo? Daqui a pouco?
Aqui, tudo começa com Cathy a fugir da sua pequena cidade onde nada se passa para a cidade grande onde brilham as luzes e onde a magia acontece. Há gente, restaurante, bares, cinema, gente, gente diferente e vida. Muita vida.
Cathy conheceu Reg e apaixonaram-se. Reg era motorista numa pequena empresa. Casam. Alugam uma bela casa de classe-média. Mas Reg sofre um acidente. A empresa não tem seguro. E precisa de continuar a funcionar. Reg vai para o hospital e é despedido. Cathy engravida. Ficam sem dinheiro. A partir daqui, e com uma passagem por casa da mãe de Reg (casa social, pequenina, cheia de gente), Cathy e Reg entram numa espiral descendente que parece nunca mais terminar.
Vivem a Lei de Murphy: tudo o que pode correr mal, corre mal.
Começa a queda no poço de onde nunca mais vêm o fundo, já que é sempre a cair. Não conseguem encontrar um quarto para alugar. Entretanto já nasceu o segundo filho. Entram numa lista interminável para umas casas sociais que estão a ser construídas mas, e até lá?
Nasce o terceiro filho. São expulsos de casas vazias que ocupam. Vão para uma rulote, mas até daí são expulsos, porque há interesses, há sempre uns interesses financeiros, imobiliários. O estado tem um programa para ajudar famílias em dificuldades, mas é só para as mulheres e as crianças. Um quarto. Um quarto só. Agora, porque três meses depois, se não arranjarem nada têm de sair do quarto e o que lhes resta é uma cama para mulher e filhos em camaratas onde se aglomeram todas as falhadas que a sociedade produz.
E os homens? Os homens que se lixem. Desenrasquem-se. E assim separam-se famílias. Criam-se problemas. E as crianças são retiradas e metidas em instituições, porque já não há famílias. O Estado rompeu com elas. Destruiu-as.
É, aliás, assim que termina o filme, com Cathy a ser despejada da sua cama e, numa estação (comboio? autocarro?) onde estava a repousar com os dois filhos (o mais velho já estava à guarda da sogra), vem a polícia com os assistentes sociais retirar as crianças e deixá-la sozinha, perdida entre as suas lágrimas e todos os sonhos que tinha e que viu serem-lhes roubados.
O filme acaba. Acabei com a garrafa de vinho e tenho o cinzeiro cheio de beatas.
Estou nervoso.
Sinto que, mesmo assim, a minha vida não é tão má. Que, mesmo assim, enquanto sociedade chegamos mais longe… Mas logo depois questiono-me Chegámos mesmo? Aquilo que vi acontecer ali, nos anos ’60, alguns dos sítios onde Cathy e Reg viveram fizeram-me lembrar as fotografias dos biddonvilles que os portugueses ocuparam na emigração para França. Lixo, ratos, plástico, placas de zinco, sujidade, muita sujidade, doenças. Sim, estamos longe disso, penso. Acho.
E depois penso nas gentes que vi dormir junto aos Centros Comerciais do Martim Moniz, em Lisboa. E das gentes que vi dormir nos vãos de escada de prédios onde a porta da rua está sempre aberta. E nos degraus de algumas montras. Nas pequenas salas de algumas caixas Multibanco. Debaixo das estátuas. A dormir no Metro até serem de lá postas fora.
Tudo isto não há muito tempo.
Chegámos mesmo mais longe? Ou alguns de nós chegaram mais longe? Alguns mesmo, demasiado longe? E os outros? Os que não conseguem acompanhar? Os que não conseguem ser filhos-da-puta? Os que não são gananciosos? Competitivos? Os que não conseguem ser, nem querem ser, iguais aos outros?
Há duas frases no filme que resumem tudo o que éramos, na altura, e somos ainda hoje:

“Vocês não se importam. Só fingem importar-se.”

Tenho a casa às escuras e estou à janela da cozinha a fumar um cigarro enquanto olho as luzes brilhantes da cidade e penso que depois de toda a depressão e mal estar que o filme de Ken Loach me provocou, o que ainda anda cá por dentro a remoer é a capacidade que aquelas duas alminhas do filme, a Cathy e o Reg, que, no meio de toda a merda em que se transformou a sua vida, ainda tinham para se amar.
Foda-se! E isto é tanto.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/03]

O Zolpidem É Bom

São nove da noite. Já jantei. Comi uns restos que ali tinha. Uns restos de restos que se foram acumulando em pequenas caixas em plástico, sem datas para não assustar.
Bebi um copo de vinho tinto. Estava já um pouco azedo. Mas bebi-o.
Já lavei a loiça que sujei. Toda a loiça. E o lava-loiças. E espremi a esponja e fechei a tampa da garrafa de detergente.
Lavei os dentes e sacudi a escova.
Escolhi roupa escura para lavar e pus a máquina a trabalhar. Depois olhei para mim e disse Foda-se!, estava com roupa escura que queria pôr a lavar e esqueci-me. E a máquina não estava cheia. Queria aproveitar os dias de sol que têm estado para secar a roupa no estendal. Gosto do cheiro da roupa secada ao sol.
Depois sentei-me aqui, onde ainda estou, aqui no sofá, a olhar para o noticiário que a televisão debita. Mas não lhe ligo muito. Deprime-me mais do que estou deprimido. Sinto-me enterrado no fundo do sofá. Todo enterrado, só com os olhos de fora. E os olhos querem-se fechar, mas não tenho sono.
Bebia qualquer coisa, mas não tenho nada para beber. Acabei com o pacote de vinho. E já estava azedo. Podia fazer um chá e despejar-lhe um pouco de álcool etílico. Mas não me apetece levantar.
Estico a mão para a mesa de apoio e pego nos cigarros. Acendo um. Penso que devia ir fumar para a varanda. Mas não consigo levantar-me. Quem é que se vai chatear?
Vou soprando o fumo em direcção à televisão, como se quisesse tapar as imagens. Mas na verdade não sei porque o faço. Talvez por brincadeira. Desfastio.
Olho à volta e não encontro o cinzeiro. Merda!, penso. Deixo cair a cinza na palma da mão em concha. Queima. A porra da cinza queima, mas não a posso deixar cair para o chão.
Acabo o cigarro. Apago-o na sola da sapatilha e ponho a outra mão por baixo para aparar a cinza que cai. Depois ponho-me a pensar no que fazer à cinza e à beata que tenho na mão. Tiro um lenço de papel do bolso das calças e despejo-lhe a cinza em cima. E faço uma bola com o lenço que deixo a rebolar na mesa de apoio. A bola cai da mesa e abre-se no chão espalhando a cinza sobre a carpete.
Já não digo nada.
Viro-me e deito-me sobre o sofá. Não tirei as sapatilhas. Não abri o cinto. Não fui apanhar a cinza. Não quero saber da novela que começa a dar na televisão.
Só penso O zolpidem é bom, e fecho os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/22]

A Vida como Ela É

Eu fui ao Web Summit de Lisboa em Novembro de 2017. E fui mais por causa dela. Tem uma start-up de uma coisa que não entendo muito bem o que é, mas que já está avaliada em vários milhões de euros. O futuro sorri-lhe. Mas eu é que tive de pagar as entradas.
Não consegui foi aguentar tanto digital e virtual e futurista e algoritmo e IA e acabei por sair antes ainda de revelarem os vencedores deste ano. Não sabia ainda se ela tinha ganho.
Acabei então por sair e ir consumir um pouco de analógico e fui ler um livro para ao pé do rio. Sentei-me na sua margem e deixei-me evadir por entre as páginas amareladas que me contavam a estória de uma família disfuncional, onde o pai sai de casa da mãe e leva os dois filhos para recomeçarem a vida noutro lado. E cedo descobrem que a sua disfuncionalidade os acompanha, que o problema nunca esteve no passado e na relação, ou seja, no outro, mas sempre no presente e em cada um deles. Enfim, a vida como ela é. Tenho de deixar de ler estes livros que me deixam deprimido. E, para tal, já me basta a própria vida. Vou voltar ao universo inócuo da Disney. Preciso que o mundo se torne cor-de-rosa e me beije, e acarinhe, e me diga que eu sou único e especial.
Larguei o livro ali pela margem à espera que servisse a alguém mais compreensivo que eu.
Entrei num café com wi-fi. Pedi um gin qualquer da moda com muitas coisas perdidas lá dentro a boiar mas que não sei nomear e liguei o iPad.
No Facebook não se falava de outra coisa que não do Web Summit. Ela não ganhou.
E, de repente, no feed de notícias, uma fotografia chamou-me a atenção. Uma fotografia de alguém a ler um livro nas margens de um rio. Observei a fotografia durante algum tempo e achei nela alguma familiaridade, quando percebi que era eu próprio, sentado à beira rio, a ler o livro que por lá deixei, apanhado pela câmara de alguém que o depositou na rede social e cujo algoritmo se encarregou de me entregar.
Assustei-me com a pequenez que o mundo revelou. Assustei-me ser encontrado por quem não quero. Assustei-me que haja pessoas a ver fotografias minhas e a fazer juízos de valor através de uma imagem de um momento muito específico.
Cada vez gosto menos de pessoas. E agora também não gosto do algoritmo.
E nunca mais voltei a casa dela. Não quero saber nada da sua start-up. E fui roubar um livro numa grande superfície. Afinal gosto de ler estórias sobre a vida como ela é. É que me parecem muito mais reais que a minha própria.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/09]