Sair da Cadeia e Voltar a Entrar

O dia em que saiu da cadeia foi também o dia em que voltou para lá.
Eu não o conhecia pessoalmente. Mas sabia quem ele era. Tinha ouvido muitas histórias dele. Ele também não me conhecia de lado nenhum mas, devia ter ouvido falar de mim. Foi por isso que, no dia em que saiu da cadeia, foi a casa da ex-mulher e espetou-lhe três tiros no peito. Ela morreu logo ali, segundo me contaram. À entrada de casa. Ele ficou por lá, à espera da polícia. Resignado à sua condenação. Ouviram-no dizer que a minha sorte foi não estar lá com ela. Porque, se estivesse, seguia o mesmo caminho dela. O que ele não sabia é que eu já estava com ela há muito tempo. Aquilo entre nós, entre mim e ela, durou o que durou e depois acabou. Se ele tinha ciúmes, já não precisava de ter.
Ele cumpriu dois terços da pena, uma pena a que tinha sido condenado por cenas com drogas que terminaram mal (sim, é que há cenas de drogas que terminam bem). Nunca foi condenado por violência doméstica, embora ela me tivesse contado várias vezes que ele lhe batia. E como lhe batia. E porque lhe batia. Porque havia sempre um motivo, pelo menos na cabeça dele. E havia sempre uma maneira de lhe bater. Como se fosse um ritual de vingança estúpido. Uma espécie de praxe fora de tempo, se é que elas, as praxes, têm tempo. Talvez na cabeça daquelas criancinhas malformadas, pequenos reizinhos ávidos de mandar. Geralmente ele batia-lhe com o cinto. Com a fivela do cinto. A primeira vez que vi os vergões, as cicatrizes, percebi de onde vinham. Ela precisou de muito mais tempo, e coragem, para me contar como foram deixadas ali assim.
Quando ele saiu da cadeia, eu e ela já não nos víamos. Já tínhamos acabado há algum tempo a relação que tínhamos tido. No entanto, o que lhe chegou aos ouvidos na cadeia não foi a informação toda. Para ele, ela estava a traí-lo comigo, embora eles já não fossem mais casados um com o outro. Aliás, ele já tinha tido uma Licença Precária e nessa altura foi ter com ela para lhe perguntar porque é que ela nunca o tinha ido ver à cadeia. Ela fechou-se em casa, assustada. Com medo. Eu não estava. Nessa altura estava em filmagens no norte do país. Ela telefonou-me nessa noite. Disse que estava tudo bem. Que tinha saudades minhas. Só mais tarde é que me contou que ele a procurou e que ela se tinha fechado em casa com medo. E não avisou a polícia com medo dele. Da reação dele. Ele depois regressou à cadeia.
Agora, quando saiu, agora depois de ter cumprido dois terços da pena a que fora condenado e por ter tido bom comportamento na prisão, a primeira coisa que ele fez foi arranjar uma pistola, ir a casa dela, esperar que ela abrisse a porta casa e disparar três tiros no peito dela. Ela teve morte instantânea. Ele entrou em casa dela, talvez à minha procura, mas eu não estava. Há muito que eu não estava. Depois sentou-se à entrada de casa e esperou que a polícia chegasse. A polícia ou alguém que avisasse a polícia. A polícia chegou e levou-o preso.
O meu telefone tocou pouco tempo depois. Um primo dela. Um primo que eu conhecia do tempo em que éramos um par. Foi ele que me contou tudo isto.
Eu estava em casa. Estava em casa, afundado no sofá com uma depressão a pensar o que fazer agora que o dinheiro se estava a acabar. E não tinha trabalho. Ninguém me dava trabalho. E o dinheiro estava a acabar. Estava a pensar em vender uma série de coisas, a televisão, livros, cds, dvds para ver se me mantinha à tona de água até chegar o milagre que tardava, quando o telefone tocou. Mal soube que ela tinha morrido comecei a chorar. E só pensava que podia ter ido eu no lugar dela. Enquanto ele me contava o que tinha acontecido, eu só pensava que podia ter sido eu em vez dela. E pensava isso enquanto as lágrimas me caíam pela cara abaixo. E continuei a chorar já depois de ter desligado o telefone. Não sei porque chorei assim tanto.
Depois acabei por me levantar do sofá e fui enfiar-me na cama, dentro da cama, debaixo do edredão, vestido e calçado, a pensar que iria visitar o cabrão à cadeia. Acabei a pensar de novo na minha falta de trabalho e de dinheiro e esqueci-me dele e dela e da morte dela.
Voltei a lembrar-me disso hoje, assim do nada. Continuo sem trabalho e sem dinheiro. Não sei o que fazer. E, então, pensei nas vidas desta gente. Um assassino preso pelo seu crime. Uma vítima morta. E eu. Eu no meio disto tudo. Eu e os meus problemas. Não sei. Mas não tenho vontade de me levantar da cama.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/06]

Às Voltas com o Universo

E todas as vezes que eu tomo uma decisão, não há um outro eu a criar uma nova realidade seguindo a outra hipótese, a hipótese preterida?
E de cada vez que há um sim ou um não, não nasce um outro universo que comporte o não ou o sim que ficam das opções tomadas?
E as pessoas com quem estou? que conheço? Se voltar a encontrá-las mais tarde, ainda que no mesmo sítio, serão as mesmas? Ou já serão versões alternativas de si próprias?
E não será isto tudo uma possibilidade para o mundo se recriar infinitamente?
Ando a ver a série alemã Dark, uma série sobre viagens no tempo, universos alternativos e paradoxos temporais. Nada do que tenho visto na série, que é muito boa, muito bem imaginada, escrita, realizada e interpretada é, na realidade, novo para mim. Não me é novidade a possibilidade de nos movimentarmos no tempo, no espaço e em mundos alternativos nem sequer a hipótese, não levantada na série mas muito utilizada nos universos ficcionais da Marvel e da DC, e que eu tenho vindo a alimentar desde há muitos anos na criação da ideia da perna de fiambre cortada muito fininha, sendo cada fatia, um universo com uma realidade e, todas as outras fatias que se lhe sucedem, realidades alternativas que se vão construindo à medida que vão aparecendo hipóteses diferentes para cada uma das personagens que habita esse mesmo universo primeiro, ou seja, o multiverso.
Imaginemos portanto. Eu dou um beijo numa rapariga e, com esse beijo, inicio uma relação de namoro. Mas posso não dar-lhe o beijo e cada um segue a sua vida. Ou posso dar-lhe um beijo e levar um estalo e, em consequência do estalo, posso tornar-me um psicopata. Ela, em consequência do beijo que não queria e de me ter dado um estalo, entra em depressão. Cada uma destas variações constroem um novo universo, cada universo no mesmo espaço, no mesmo tempo, mas em dimensão diferente. É aqui que nasce o multiverso. Nas camadas alternativas que cada linha da vida tem à sua espera.
Viajar no tempo, ou entre mundos, ou entre dimensões, há-de ser possível um dia, quando se criarem as condições para existirem expressos que nos levem lá, tal como há expressos que nos levam a Lisboa ou a Paris. Claro que primeiro terá de se resolver alguns problemas. Por exemplo, o fluxo de tráfego. Que quantidade de viagens por hora, por minuto, por segundo, são possíveis de fazer sem romper com a estabilidade do espaço-tempo? E como transpor portais dimensionais sem romper com as leis do universo que conhecemos e, mais difícil ainda de resolver, as leis dos universos que não conhecemos? Como serão as outras dimensões para onde vão todas as outras nossas realidades alternativas? Serão uma espécie de compilação de lados b e raridades? Ou serão mais como os bootlegs? Vidas reais mas não oficiais? Sei lá, uma dimensão em que eu sou um travesti por acção de histórias alternativas de outras personagens e não de mim próprio?
Há na série Dark um elemento que me chamou a atenção: Jonas aparece com um casaco impermeável amarelo. Na terceira temporada, é Martha que usa esse casaco. Onde é que houve a troca? É por a Martha ser de outro universo ou fui eu que perdi alguma informação? O multiverso pode destruir o pensamento linear, tal como o Final Cut e o Avid destruíram a montagem linear?
Eu já tive um casaco assim, amarelo, na minha adolescência. Aliás, quase todos os adolescentes de Leiria tiveram. Foi uma moda. Mas não era casaco de moda como o da série. Não era um impermeável com pinta. Era um casaco de plástico que os homens das obras usavam, que não deixava o corpo respirar porque era plástico e, quando chovia, a água escorria toda para as pernas e deixava-nos com as calças encharcadas. Mas em Leiria, adolescente que não o tivesse era um pária.
O casaco fez-me pensar na possibilidade de, ao voltar no tempo, no espaço, noutra dimensão, cruzar-me comigo próprio. Um paradoxo, portanto. Qual deles serei eu? Serei todos eles? Todos eles ao mesmo tempo? E como é que pensarei? Será por camadas? Ou tudo junto? E como é que verei a acção? Através de que olhos? De quais olhos? Através de que cérebro? Haverá um eu principal? Ou será tudo o mesmo? E poder-me-ei tocar? Tocar o outro eu como se fosse outro? Que consequências terá isso para o universo? Posso, através do meu paradoxo, mexer com a vida de toda a gente? ou só a minha? E se o universo explodir (ou implodir) por acções minhas, será todo o universo ou só o meu? E experimentarei sensações com as minhas outras versões temporais como os gémeos? ou como se fosse mesmo eu? e quantos eus poderei ser? e sentir?
Como é que se sai disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/01]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes a abandonar um estúdio de televisão, por ter uma entrevista interrompida, por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições deste país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]

As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

Lavar a Louça É Terapêutico

E o tipo, com um olhar muito sério, disse-me Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Estávamos na véspera da véspera do ano novo. Eu e um grupo de amigos tínhamos alugado uma casa em Vila Nova de Milfontes. Fomos uns dias antes. Para ir fazendo a despedida do ano. E eu já estava zangado com toda a gente, com o ano velho e com aquele que ainda não tinha chegado.
Naquela época eu zangava-me com muita facilidade. Era um rapaz muito sensível. Qualquer coisa, por mínima que fosse, mexia-me com os nervos.
Talvez por não fazer sexo. Naquela época não conseguia arranjar namoradas com facilidade. Eu era um tipo complicado. Muito chato. Picuinhas. Às vezes, até, um pouco arrogante. As namoradas não passavam dos primeiros dois ou três dias, de umas mãos dadas transpiradas e uns beijos sôfregos sem consequências. Talvez por não saber o que fazer da minha vida. Estava tentado a desistir do curso superior que frequentava mas também não sabia muito bem para onde ir. Muitos problemas. Muitas dúvidas. Muito vinho. Muita droga. Porra! que a vida juntou-se toda só para me chatear. Basicamente era assim, a minha vida. De problema em problema. E depois de explodir, depois de mandar toda a gente à merda, ficava sozinho. Curtia a minha depressão. A minha ressaca da zanga. Normalmente dava-me para lavar a loiça. E foi o que fiz depois da terrível discussão em Vila Nova de Milfontes sobre qualquer coisa de muito importante mas que já não me recordo hoje, passados todos estes anos.
Então, era véspera da véspera. Tínhamos acabado de almoçar. Saíram todos de casa, em grupo, e eu odeio grupos!, para irem beber café à rua. Eu fiquei em casa. Eu e a minha neura. Pus-me a lavar a loiça. A loiça de almoço de, quê? cerca de vinte pessoas? Talvez isso. Mais uma, menos uma. Durou uma hora. Ali, em pé, curvado sobre o lavatório da cozinha, de esponja na mão, embalagem de detergente a esguichar em abundância. Fazia muita espuma. Queria sentir a gordura a desaparecer dos pratos, das minhas mãos. Queria ver os copos brilhantes, sem dedadas nem lábios de batom ou de comida.
Quando acabei, doíam-me as costas e tinha os dedos enrugados.
Sentei-me no sofá a olhar para a televisão. Um programa de merda qualquer daqueles para matar horas e entreter os velhos. Um copo de vinho nas mãos. Um cigarro aceso. A neura estava a ir embora. Estar ali a esfregar pratos e talheres e copos e despejar os restos no caixote do lixo e apanhar todas as garrafas vazias de vidro de cerveja e de vinho espalhadas pela casa, tinha-me acalmado.
Depois de fumar o cigarro e beber o copo de vinho, fui à rua levar o lixo. Os caixotes já estavam cheios. Mandei tudo para cima do monte que já se erguia acima da boca do caixote. Pensei quando é que o lixo ia começar a cair para o chão. Vi que já havia muita gente da cidade em Milfontes. Os cabrões! E regressei a casa. Curtir a casa silenciosa e calma antes do regresso dos outros todos, a pensar que Vila Nova de Milfontes já estava a ser inundada de gentinha chata vinda da capital. Gente assim como eu, não é?
Acendi a lareira. Continuei a beber a garrafa de vinho tinto. Entre o calor da lareira e o embalo do vinho, deixei-me adormecer.
Fui acordado com a chegada dos outros. Disseram-me, aos gritos, que íamos fazer uma prova de vinhos cega, com os rótulos tapados. E eu, acordado assim de chofre, aos berros, por gente muito feliz e histérica, a correr de um lado para o outro para preparar a mesa disse Vão para o caralho! Eu não jogo!
Um deles sentou-se ao meu lado, no sofá, e perguntou-me Porquê, pá? e eu respondi Já bebi uma garrafa inteira, sozinho, porque estava sozinho, não estava aqui ninguém, foi-se tudo embora e eu bebi a garrafa sozinho e estou bêbado.
Ele riu-se, o filho-da-puta, e disse Estás bêbado, mas ainda não estás muito bêbado. Por isso não é grave. Só é grave quando começas a ver aranhas. Aranhas a sair dos buracos inexistentes da parede. Andas a ver aranhas? perguntou-me, e eu abanei a cabeça. Então caga nisso, disse Anda daí.
Eu levantei-me do sofá. Acendi um cigarro e fui sentar-me à mesa, à frente de um copo de vidro ainda vazio e várias garrafas de vinho tinto com os rótulos tapados. À vez iam chegando queijinhos e patés e tostazinhas integrais à mesa. Eu agarrei num bloco, numa caneta, e esperei que me servissem o vinho para começar a prova. Ainda não via aranhas.
Nessa passagem de ano continuei sem ter sexo. Lavei a louça todos os dias. Sozinho.
Nesse ano desisti do curso e fui trabalhar enquanto pensava no que fazer à minha vida.
Já passaram, o quê?, mais de trinta anos desde essa época, e eu continuo sem saber o que fazer à minha vida. Mas tenho fé que um dia descubro. Ainda gosto de lavar a louça.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/23]