Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

Um Dia que Até Tinha Começado Muito Bem

Um ano depois volto a ter aspirador. Depois de tantos meses a varrer a casa. Depois de tantos meses a respirar o pó da casa. A engolir o cotão. A sobreviver a ataques de asma. Depois de tantos meses a maldizer o aspirador e as avarias que consomem os novos electrodomésticos construídos para serem substituídos ao fim de alguns meses, numa febre-Ikea. Depois de tudo isso. Depois de tanto azucrinar-me a cabeça. Depois de tanta Merda! e Caralho-Foda-se! que gritei. Depois de tudo isso descubro que, afinal, o aspirador estava entupido.
Estava para levá-lo para o lixo. Estava a ocupar a casa. Estava, feito mono, deitado no chão da despensa que, na verdade, não o é. Estava lá, abandonado. Peguei-lhe. Espreitei pelo tubo, coisa que pensava já ter feito. Espreitei e não vi nada. Não vi nada do outro lado. Enfiei o cabo da vassoura. Prendeu. Forcei. Forcei mais. Rompeu do outro lado. Uma bola de pêlo. De pêlos e fios e cotão e nojo, tudo enrolado numa bola de pêlo.
Fiquei contente. Fui experimentar. Aspirei a casa. Aspirei a casa toda. Tapetes e carpetes. Casa-de-banho e cozinha. Até a varanda.
Estou a transpirar. Estou cheio de calor. Mas estou satisfeito. Tenho a casa limpa. Bom, limpa, limpa, não. Está aspirada. O que é melhor do que tem estado. Estou cansado. Sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Mas agarro num cinzeiro. Não quero borrões de cinza caídos numa casa acabada de aspirar.
Fiquei com fome. Decido. Acabo o cigarro e vou almoçar. Aqui em baixo. Há uma pequena tasca aqui em baixo. No rés-do-chão de casa. Comida caseira. Acho. Barata.
Acabo o cigarro. Apago-o no cinzeiro. Vou à casa-de-banho. Olho em volta e não vejo os pêlos da barba nem os cabelos em queda espalhados por lá. Também estou sem óculos, é certo. Lavo as mãos. Lavo as mãos e a cara. Espanto a transpiração com um sabonete da Ach. Brito. Gosto do cheiro que me deixam.
Desço ao rés-do-chão. Vou de elevador. Está a funcionar. Estão os dois a funcionar. Parece um dia de festa. Tenho de jogar no Euromilhões.
Entro na tasca. Hoje há bife de cebolada com puré de batata e petinga frita com arroz de tomate. Opto pela petinga. Mas arrependo-me. Afinal, a petinga está toda oleosa e mole. O arroz de tomate está empapado. Fico um desconsolo. Salva-se o vinho tinto. Uma zurrapa de pacote de cartão. Doce. Mas bate. É o que preciso. Que bata. E bate. Relaxo. Estou na esplanada. Na pequena esplanada debaixo de um corredor exterior de arcos. Gosto de sentir o frio. Já me passou a transpiração. E acabo por continuar a comer aquelas petingas oleosas e o arroz empapado. Não desperdiço comida.
E é então que ouço o craque. Primeiro ouço o craque e depois percebo que parti alguma coisa na boca. E percebo, logo, o que foi. Foda-se!-Caralho!, penso. Mas não digo. A placa. A placa dos dentes. A placa de baixo. Em cima não tenho placa. Ainda tenho os meus dentes. Ao trincar a cabeça de uma petinga mole e mal enjorcada, parti a porra da placa.
Olho para o relógio. Duas da tarde. Ainda não deve haver ninguém no dentista. Disfarçadamente, retiro a placa para o guardanapo de papel. Estou envergonhado. Muito envergonhado. Levanto-me e vou ao interior, ao balcão, pagar. Quanto devo?, pergunto. Com a mão a tapar a boca. Com a mão a disfarçar a falta de dentes na parte de baixo da boca. Tenho dificuldade em falar. Tenho dificuldade em soletrar as palavras. Pago e voo para casa.
Entro em casa e sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Penso Quanto custará arranjar isto? Olho de novo o relógio. Duas e cinco. Ainda é cedo para o dentista. Ou se calhar não. Posso telefonar para lá. E quanto é que me custará arranjar isto? Não. Prefiro lá ir. Directamente. E digo alto, para me ouvir, Quanto é que terei de pagar por esta merda?
O dia até que tinha começado muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/12]

Ainda Estou Zangado?

Parámos em frente um do outro. Apanhados na coincidência. Ela a sair. Eu a entrar. Ela parou dentro do elevador com a mão a bloquear o sensor. Eu fiquei lá fora, à espera de poder entrar.
De início foi um reflexo condicionado. Intuitivo. Esperar que saíssem para eu entrar. Ela vinha, simplesmente, a sair do elevador. Mas entretanto, demos um com o outro. E bloqueámos. A porta do elevador, e não só.
Foram só alguns segundos. Talvez mesmo, uns nano-segundos. Mas que pareceram minutos. Uma hora. Talvez a eternidade.
Quando fora a última vez que estivéramos assim tão próximos? Fisicamente, digo. Quando? Talvez em São Pedro de Moel, quando ela disse o que disse. Ela na sua toalha. Eu na minha. Estávamos também assim, a esta distância um do outro. Mas um muro a separar-nos. Um fosso. Uma incomunicabilidade. Lembro-me que me levantei da toalha. Corri para o mar. Mergulhei. Mergulhei no mar de São Pedro de Moel. No mar Atlântico de São Pedro de Moel. Estava maré cheia. Mergulhei. Furei uma onda. Depois nadei um pouco em frente. Estava furioso. Mas ainda ouvi o apito da Natália. Prrrri! Prrrri! Sabia que o mar estava perigoso. Bandeira vermelha. Mas não conseguia voltar para trás. Encarar toda a gente. Levar um ralhete da Natália. Virei para a esquerda. Nadei ao longo da praia, mas para fora daquela zona. Para longe de toda aquela gente. Para longe dela.
Ela estava com a mão a bloquear o sensor para não deixar fechar a porta. Não sei se estava à espera que eu entrasse ou se queria sair mas não queria passar por mim. Não sabia bem o que estava ali a acontecer. Mas pensei na relatividade do tempo. Pensei que todas as análises que estava a fazer, como se fosse um algoritmo, estavam a acontecer à velocidade da luz e que, na realidade, este cruzamento não durou mais que um breve instante. Não mais que o momento em que os meus olhos olharam os olhos dela que olharam os meus. Um sopro.
O que é que estás aqui a fazer? pensei. O que é que estou aqui a fazer? pensei.
Nadei ao longo da costa. Passei a praia. As várias concessões. As várias Natálias. E saí já depois da zona das rochas. Nas praias mais afastadas. Estava cansado. Deixei-me cair na areia. Na areia molhada fustigada pelas ondas da maré cheia. Sentia a areia a fugir debaixo do meu corpo. Mas estava cansado. Precisava de descansar um pouco antes de me levantar. E quando me levantei, estava cheio de areia. No corpo. Dentro dos calções. No rabo. Na cabeça. Nas orelhas. Mas fui em frente. Subi a duna. Andei pela mata. Apanhei uma estrada. Uma estrada esburacada. Uma rua. Entrei num café. Pedi para fazer um telefonema. Telefonei. E disse Vem buscar-me, e sentei-me numa mesa, molhado, cansado, descalço e só de calções de banho. Pedi uma imperial. E elas foram chegando até chegar quem me vinha buscar. Não sei o que aconteceu depois. Perdi-me nas imperiais. Acho que fiz uns submarinos. Está tudo muito nebuloso. Mas nunca mais a vi. Nunca mais nos vimos. Até hoje. Até agora.
Ela tirou a mão do sensor e saiu do elevador. E quando saiu disse Olá!, quase sobrepondo-se ao meu Olá!, que disparei mal a vi mexer-se e sair do elevador, mas um bocadinho mais atrasado que o dela. Não sei se ela ouviu o meu cumprimento. Eu ouvi o dela. E entrei no elevador. Quarto andar. Dentista. Será que ela ouviu o meu olá? Ou acha que sou mal-educado? Ou que ainda estou zangado com ela? E estou? Ainda estou zangado com ela?
E o que é que isso importa, agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/09]

Quero Algo para as Dores da Alma

Parti um dente. Ou melhor, parti um pedaço de um dente que já estava partido. A minha boca parece um palácio antigo, que já foi glorioso e está decadente, a precisar de obras. Já me faltam alguns dentes, mas são atrás, na boca, e não me dói.
Este começou a doer. Mal o parti, percebi logo. Um primeiro rasgo de dor mal o parti. Ele partiu-se rente à gengiva. Talvez tenha magoado a gengiva. A verdade é que ela inchou.
Estava no café quando o parti. Estava a beber uma bica. E a comer uma fatia de Bolo Rei oferta da casa para festejar o Natal. Não gosto de Bolo Rei. Mas sou educado. Dei uma trinca. Dei duas. Trinquei a fava. Percebi logo. Percebi o barulho. O dente a trincar a fava. O dente a partir. A dor na gengiva. A dor aguda na gengiva. Contraí-me. Abri a boca e o pedaço de dente caiu para cima da mesa. Fiquei ali a babar-me. Um pedaço de cuspo, encarnado, saía da boca até ao pedaço de dente. Ao mesmo tempo havia outros pedaços de cuspo a caírem-me pelo queixo abaixo. Foda-se, ao que cheguei!
Levei a mão à boca. Já não consegui beber o resto da bica. Nem comer o resto da fatia de Bolo Rei. Deixei uma moedas ao balcão. A rapariga viu-me ir embora assim, tão rápido, que me perguntou Está tudo bem?, e eu nem lhe respondi.
Na montra mais próxima olhei-me para um vidro. Via-me mal. Era um vidro, não um espelho. Abri a boca. E percebi a falta do dente. Tinha de ir ao dentista. E fui. Urgência. Era possível? Sim, era! Tinha de esperar um bocado. E esperei. Esperei. Gastei a bateria do telemóvel. Esperei. Esperei. Dormitei. Fui acordado. Fui atendido. E agora? O que fazer?
Arrancar a raiz e colocar um dente? Quanto é? Ah, não. Não arrancar a raiz. Não! Quero algo para as dores. Quero algo para o inchaço. Quero algo para prevenir uma inflamação. Quero ter dinheiro. E outra vida. Quero festejar o Natal. Ser feliz. Sim! Mas basta-me um anti-inflamatório e um paracetamol. Obrigado! Sim, pago lá fora. À saída. À menina da recepção. Um Feliz Natal. Sim, sim! Obrigado.
Saí com uma receita para aviar. Químicos para as dores físicas. As outras têm de aguentar. O Natal não é para todos. O Natal não é quando um homem quiser.
Ao descer no elevador olhei para o espelho. Olhei para mim no espelho. Abri a boca. Vi o buraco. Uma cratera. Um poço sem fundo. Tudo em mim doía. Principalmente o amor-próprio. Sentia-me um pedaço de dente partido e deixado caído no chão. Sentia-me um traste. Um traste despido e com a pila encolhida frente a uma multidão.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/21]