Hora de Recreio

Chego ao cimo da montanha. Vim cá outra vez. Preciso vir cá de vez em quando. Preciso de me cansar. Cansar as pernas. Preciso de sentir o ar rarefeito e provocar os pulmões. Preciso de olhar este horizonte longínquo que me leva para além de todos os limites. Hoje consigo ver o mar, acho. Gosto desta solidão e deste silêncio que é constantemente cortado com os sons das motorizadas a espremerem os motores nas estradas do vale e que sobem pela encosta acima e me vêm encontrar aqui sentado, como estou agora, nesta pedra que é uma rocha, ou pedaço de uma rocha, que nem sei o que é que está enfiado na terra, e só vejo este cabeço onde sento o cu e fumo um cigarro como estou a fumar agora. Gosto deste silêncio entre um barulho e outro.
O tempo está bom. Este final de dia está bastante agradável. Ainda está calor. Vejo o céu púrpura no horizonte, no mar, na linha da costa onde ficam a Nazaré, o Vale Furado, as Paredes, São Pedro de Moel. Esteve assim quente o dia todo. Por isso não encontrei ninguém na minha subida solitária. Foi tudo para a praia. Anda tudo a vingar-se da praia que não viveu o ano passado por causa da pandemia. Este ano também há pandemia mas, existe esta sensação de fim de ciclo que ameniza as coisas. As vacinas, as máscaras, o Certificado, a imunidade de grupo, tudo isto está a contribuir para esta sensação de libertação. As pessoas já não aguentam mais estas ordens restritivas e, por vezes, tão contradictórias. Tento imaginar como reagiriam, estas pessoas, estas mesmas pessoas que se têm revoltado contra as restrições, e a imposição da máscara e a vacina, todas estas manifestações, estas quase-acções de guerrilha, o confronto com a autoridade, como é que reagiriam se estivessem realmente numa guerra, debaixo do poder autoritário de alguém, ou sob o domínio discricionário de alguém. Se não estivessem numa democracia que lhes permite os actos de resistência, de contestação, de zanga pública, como é que reagiriam?
Gosto de fumar aqui o cigarro sozinho. Gosto de ver as cores pelo que o horizonte vai passando ao longo do lusco-fusco. Cada um tem as auroras boreais que consegue ter.
De todas as vezes procuro a minha casa. Nunca a consigo encontrar. Mas ela deve estar por ali, na distância, a direcção é aquela, mas a distância deve estar para além do que a minha vista alcança. Imagino-a ali, depois daquelas árvores, na continuação daquela estrada, aquela é a estrada que passa lá por casa, não é?
Apago o cigarro na rocha. Tiro uma garrafa de água da mochila. Bebo um bocado. Guardo a garrafa. Levanto-me. Inspiro. Sorrio. Às vezes sinto-me bem. Não é muito comum mas, às vezes, só mesmo às vezes, sinto-me bem, como se não tivesse nenhum problema e a vida fosse um mar de rosas.
Começo a descer. Já vou com fome. Tenho de pensar no que é que vou fazer para comer quando lá chegar a baixo. Qualquer coisa rápida. Qualquer coisa que possa comer antes de ficar insuportável comigo mesmo.

[escrito directamente no facebook em 2021/07/28]

A Vida ao Postigo

Tempos estranhos, estes. A vida passou a ser toda ela feita ao postigo. Eu ainda tinha na memória, da memória dos meus pais e da revisitação dos filmes portugueses antigos, o namoro à janela. Ela à janela, às vezes à varanda, normalmente num primeiro andar, às vezes mais acima, o que dificultava as coisas, às vezes mais abaixo, num rés-do-chão alto mas que permitia, ao rapaz, ele que estava sempre cá em baixo, era a ele que competia a luta pela janela aberta e pelo despertar do interesse da moça, pôr-se em bicos dos pés, às vezes subir pelos alto-relevo das paredes do prédio, e roubar um beijo, um beijo hoje inocente mas que, aquele tempo, incendiava corações, famílias e, às vezes, as próprias casas que não resistiam às explosões amorosas.
Tempos estranhos, estes, em que parecemos ter voltado no tempo, e trocado a janela do Estado Novo pelo postigo da Pandemia. Namorar, agora, só ao postigo. O sexo também, é ao postigo. Toda a vida, tudo na vida, acontece agora ao postigo.
Tudo começou com o pão. Depois as sopas. Finalmente os livros. Não era a solução, mas era uma solução. Toda a gente quis o postigo. Antes o postigo que nada. Mesmo alguns museus adoptaram o postigo mas, nos primeiros tempos, só podiam passear os quadros mais pequenos em frente ao postigo para deleite dos apaixonados pela arte. Os seguranças dos museus passeavam-se em frente ao postigo com as obras nas mãos, mãos enluvadas e com muito cuidado. As obras de grande dimensões não eram ainda possíveis de serem mostradas ao postigo. Dá para imaginar a impossibilidade de passear o Guernica em frente a um postigo, a um qualquer postigo, fosse lá ele qual fosse. Por outro lado, os quadros de Rothko, por exemplo, eram passeados em cima de uma espécie de skate, as esculturas, como uma Pietá, eram transportadas numa espécie de carrinho-de-rolamentos, e era engraçado a ver os seguranças a puxarem os carrinhos e a segurarem as obras em constante perigo de queda. Cai-não-cai. Não consta que alguma obra se tenha estragado. Também nada nos garante que as obras mostradas não fossem falsificações recuperadas nas garagens da Judiciária. À distância, ninguém percebia a diferença.
Ao fim de algum tempo, a estranheza tornou-se hábito e o postigo acabou por ficar. Mesmo depois de estar toda a população do mundo vacinada, ou pelo menos a maior parte, o suficiente para adquirir imunidade de grupo, não foi possível reverter o postigo da vida de todos os dias. Houve ainda tentativas. Muitas tentativas. Tentativas vãs. Foram todas infrutíferas. As pessoas tinham adoptado o postigo.
O teatro era encenado para dez pessoas de cada vez, em média, para o tamanho das salas existentes, tendo-se criado dez postigos por sala, para cada exibição. Para os concertos ao vivo, conseguiu-se um pouco mais, até porque os espaços eram maiores e dava para abrir postigos em vários andares. As peças, os concertos, os filmes passaram a ter várias exibições consecutivas. Os teatros tinham duas e três equipas a representar a mesma peça para manter uma constante exibição. Os concertos eram intervalados por várias bandas, o que permitia também, nunca parar com as exibições. Criou-se uma espécie de festivais de Verão durante o ano inteiro, consecutivamente, com bandas atrás de bandas e os postigos sempre cheios, com reservas de vários meses.
Mas o mais estranho de tudo isto, da vida ao postigo, foi ver os novos amantes, aqueles que não viviam com as pessoas do seu desejo, e que acabavam a fazer amor ao postigo. Eles com um buraco por onde enfiavam o pénis (com preservativo) para chegar ao outro lado. Elas com dois buraco onde colocavam os seios. O mais difícil foi arranjar maneira de aceder aos beijos, mas até isso acabou por ser resolvido, porque houve logo quem se chegasse à frente através dos buracos para os seios que tinham dimensões suficientes para albergar os maiores seios que a sociedade comportava.
Por mais estranho que tudo nos parecesse, e parecia, e ainda parece hoje a algumas pessoas, a mim por exemplo, o facto é que o postigo acabou por ficar e ninguém deseja agora outra coisa. A vida passou a ser vivida com menos gente, o que levou à criação de mais empatia entre as pessoas. O amor ganhou outra dimensão. Acabaram os conflitos. A democracia, pelo menos como a conhecíamos, desapareceu. Hoje vivemos de outra maneira e num sistema que é outra coisa. Não é democracia. Ainda não tem nome. Não é bom nem é mau. É diferente. É outra coisa. Uma coisa resultante do postigo. Mas há gente que recusa, que sempre recusou, o postigo. Esses são uns párias que vivem banidos, em áreas circunscritas e de onde não podem sair. Talvez venha daí, algum dia, algum problema. Para já, ainda não têm força para serem um problema. O que é um problema.

[escrito directamente no facebook em 2021/03/15]

Escondido, parte 06

[continuação de ontem]

Andei às voltas na cama. Não consegui pregar olho. A imagem dos carecas a arrearem as pessoas em festa com tacos de baseball não me saía da cabeça. Nem a rapariga. Uma rapariga nova, bonita, monstruosa.
Nunca tinha batido numa miúda.
Acabei por me levantar. Acendi um cigarro, vesti umas cuecas e fui até à varanda da sala.
Eu via a porta de armas da varanda. Continuava tudo como nos outros dias. Nada de especial. Não havia agitação no quartel. Nem no bairro.
E então, vi passar, de novo, uma carrinha de caixa aberta. Uma carrinha como as de véspera. Desta vez não traziam carecas na caixa. Mas a conduzir, e ao lado do condutor, estavam dois carecas fardados. Um deles olhou para mim ali à janela a fumar o cigarro. A carrinha passou devagar. Continuou em frente até à porta de armas. Parou lá em frente. Um militar saiu do interior do quartel e colocou-se à conversa com os carecas dentro da carrinha.
Eu deitei fora o cigarro e entrei dentro de casa. Tomei banho. Vesti-me. Bocejei. Olhei em volta, na cozinha, a pensar que tinha fome e não tinha nada em casa para comer, quando tocou a campainha de casa.
Assustei-me.
Fui devagar e silenciosamente até à porta e espreitei pelo óculo. Não havia ninguém. Era na porta da rua. Fui à sala. Espreitei pela varanda. Estava um camião militar parado frente ao prédio. A campainha voltou a tocar. Fui até à cozinha e saí pela janela da cozinha, agarrado ao algeroz e passando por cima das garagens.
Desci a rua das traseiras e contornei o bairro até voltar à minha rua mas mais ao fundo. Espreitei e vi que o camião militar continuava lá parado. Havia vários militares a rondar o prédio. Se calhar já tinham entrado em minha casa.
Voltei para trás e fui para o pinhal. Depois sentei-me lá no meio do pinhal, encostado a um pinheiro, a pensar no que fazer. E pensei que no cinema e na literatura estas escolhas eram sempre bem mais simples. Alguém pensava um pouco e rapidamente era encontrada uma solução que desatava o nó do problema. Eu percebi que não sabia mesmo o que fazer. Não tinha o telemóvel. Não podia ligar a ninguém. Tinha de ir directamente a casa de alguém. Alguém que soubesse alguma coisa. Alguém que me explicasse o que raio estava a acontecer.
E foi o que fiz. Desci até à cidade.
A cidade parecia normal. A vida corria como nos outros dias. Pelo menos, aparentemente. Mas depois comecei a ver as carrinhas. As mesmas carrinhas. Os carecas com a polícia. As pessoas no seu afã diário sem se preocuparem muito com o que estava a acontecer.
A verdade é que a maior parte das pessoas não se preocupa com o que está a acontecer. As pessoas preocupam-se primeiro com a sua família, a sua casa, o seu jardim e o seu dinheiro. Enquanto nada abalar as fundações da sua própria vida, o grosso das pessoas não se importa com o rumo que a vida possa tomar. Ir até à praia, sentar-se numa esplanada a beber uma imperial, sair à noite para o charme, entrar de manhã no ginásio para tonificar o corpo, isso sim. Agora a democracia e a ditadura… A política? Os políticos são todos iguais! Não, não são. Os populistas? Os radicais? São gente que diz as verdades, que coloca o dedo nas feridas. Não, não são.
Cheguei a casa do meu amigo. Toquei a campainha. Esperei. Nada. Voltei a tocar a campainha. Voltei a esperar. Voltou a não haver reacção.
Depois ouvi uma voz. Uma vozinha muito sumida. Uma voz que apareceu sem corpo, escondido atrás das cortinas, atrás da janela semi-aberta, receosa Levaram-no. Vieram cá buscá-lo e levaram-no.
Eu virei-me. Virei-me para onde vinha a vozinha e perguntei Quem é que o levou? Quem é que o veio cá buscar?
Mas ninguém respondeu. Vi a janela a fechar-se. Ouvi o barulho da tranca da janela. Olhei em volta. Não vi ninguém. Não vi ninguém e, no entanto…
Pus-me a caminhar pelas ruas da cidade. As ruas secundárias. A pensar no que fazer. A falta que me fazia o telemóvel. Não conseguia telefonar a ninguém. Não sabia nenhum número de telefone de cor. Teria de ir procurar alguém a casa. Mas quem?

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/23]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra que está infectada com o HIV. Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

A Vida É Difícil

Vim de carro à cidade. Tinha de tratar de uns papéis e vim de carro. Não compreendo isto. Cada vez mais tecnológicos e digitais e ainda temos de passar a vida com papéis e a comparecer ao vivo para provar que nós somos nós e não outros a fazerem-se passar por nós. E, no entanto, nós andamos por todo o lado, vendidos por toda a gente a toda a gente que nos queira comprar. Somos os novos escravos. Aqueles a quem prometeram a democracia e acabaram por levar com a tecnocracia.
Ia eu já de carro, numa estrada via-rápida, quando comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Não sei como surgiu. Nem se surgiu ali, naquele momento. Pode ter aparecido antes mas só ter dado conta ali, talvez por ser mais silencioso, talvez por ser uma zona de muitos cabos de alta-tensão, talvez por eu estar mais atento.
E pensei que, ultimamente, tenho ouvido muito zumbido nos ouvidos. E pensei mais ainda, se seria melhor ouvir zumbidos nos ouvidos ou vozes na cabeça?
Parecia-me que era melhor ouvir vozes. Seria dado como maluquinho e ninguém me levava a mal e perdoavam-me as parvoíces e descontavam-me as asneiras. Com um zumbido nos ouvidos, ninguém se preocupa nem muito menos quer saber.
O quê? o tipo dos zumbidos nos ouvidos? Esse gajo é parvo!
O quê? o tipo das vozes na cabeça? Esse gajo é tontinho, coitado, tens de dar um desconto.
A vida é difícil para quem sai da norma.
Tomo uns comprimidos. Para isto é para outras coisas. Mas às vezes esqueço-me. Não me lembro de tudo. Não consigo lembrar-me de tudo. De tudo, destas coisas, porque há coisas que não me esqueço. Por exemplo, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Em dois mil e dezanove, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Disto lembro-me. E quando me esqueço vou ao site da Pordata para confirmar. É sempre bom confirmar os factos. A história. As notícias. Não confio em ninguém que manda coisas assim, da boca para fora. Se nem eu sou de confiança para mim próprio…
Cheguei à cidade. Dei várias voltas para estacionar. Nem parece Agosto. Ou se calhar é por isso. É Agosto. Chego à repartição pública e assusto-me. A fila dá a volta ao quarteirão. São famílias inteiras. Algumas com cães. Muitas destas famílias estão em calções de banho e biquínis. Sinto-me na Praia da Vieira. Fala-se francês por todo o lado. Há algum inglês. Pouco. Um casal falava em alemão. Parecia-me.
Abri os braços para o céu. Dirigi o meu olhar para lá. Comecei a rezar um Pai Nosso em alta-voz, enquanto me aproximava do início da fila. Quando acabou o Pai Nosso, avancei com uma Avé Maria. Ao chegar ao início da fila abençoei as pessoas que lá estavam executei uma pregação sobre a vida dos escolhidos de Deus para governar a Terra e pus-me em primeiro lugar.
Já ninguém respeita ninguém. Começaram a refilar comigo. Chamaram-me herege e, perante a minha insistência em nome do Bom Jesus, deram-me uma carga de porrada que me deixaram estendido no chão.
Um funcionário público, lá do interior, viu o que estava a acontecer e chamou a polícia e o INEM. O INEM não apareceu, mas apareceram os bombeiros. Antes ainda da polícia. E levaram-me ao hospital.
Dou graças ao SNS. É a minha vingança. Os gajos que me mandaram para aqui são os gajos que estão a pagar o meu internamento. Sim, fiquei internado.
Continuo com o zumbido nos ouvidos. Agora também já ouço vozes na cabeça. Tomo vários comprimidos ao longo do dia que não sei para o que são. Ninguém me diz nada. Mas são às cores. Parecem saídos de uma embalagem de M&M’s. Eu acho que me dão inibidores sexuais para não saltar para cima das enfermeiras. São giras, as enfermeiras do SNS.
Mas agora, o que me preocupa é o carro. O ticket de estacionamento já passou do prazo há muito tempo. O que é que lhe vão fazer. O quê? Não, não levam nada para a sucata. Queres ir agora? Ah! Depois de almoço? Vamos os dois? Está bem, pá. Vamos os dois para a Praia da Vieira. Mas porquê a Praia da Vieira? Há lá enfermeiras do SNS?

[escrito directamente no facebook em 2019/08/09]

De Regresso

Regresso da minha ausência.
Os gatos correm para mim a refilar. Não param de miar. Parecem dizer-me Oh meu cabrão! Por onde é que andaste? Onde está o jantar?
O cão também se manifesta. Mas está contente. Abana o rabo e salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Eu tento afastá-lo mas ele insiste. Os gatos zangam-se com ele. Os gatos zangam-se com toda a gente. Mas dura pouco. Não tarda ignoram-me. A mim e ao cão. Voltam para o alpendre e deitam-se sobre o muro a dormitar.
Ainda há um resto de luz do dia. Muitas nuvens. Nuvens coloridas. Em tons de cinza rosados. Ou tons de rosa acinzentado. Parece um céu roubado ao quadro de algum anónimo renascentista encontrado à venda nas feiras de rua.
Entro em casa. Sinto o cheiro a mofo da casa fechada. Mas gosto de sentir o cheiro da casa no meio do mofo. Gosto de regressar. Vou olhar as prateleiras onde estão os livros. Confirmo que estão cá todos. Que nenhum deles fugiu.
Abro as janelas. Não as vou ter abertas por muito tempo porque o dia está a cair. Mas vai ser o suficiente para arejar a casa e fazer desaparecer a maior parte do cheiro da humidade que paira por aqui.
Dou comida aos gatos para se entreterem e não entrarem em casa pelas janelas abertas. Tenho de fazer redes mosquiteiras para as janelas. Para mantê-las abertas e deixar os gatos, o sardão e toda aquela população alada do lado de fora. Há três anos que me prometo o mesmo. Fazer as redes mosquiteiras. Não me levo muito a sério. Mas um dia destes…
Gosto do silêncio que recupero. Por aqui não há muito barulho. Vou para ligar o leitor de cd’s e desisto. Ligo a televisão. Num canal noticioso. Quero ouvir as notícias. Anda tudo em polvorosa. Parece que se fotografou um Buraco Negro pela primeira vez na vida. Ouço dizer que esta fotografia vem comprovar a Teoria da Relatividade da Einstein. Não entendo como. Nem porquê. Quero tomar atenção ao noticiário para ver se percebo. Acabo a ouvir sobre a nova vitória eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. Penso que as pessoas continuam a ser o elo mais fraco da democracia. Penso que as pessoas não pensam, são dirigidas por quem lhes diz o que acham que querem ouvir. Penso que as pessoas são um desastre à mercê delas próprias. Penso que os mesmos que conseguem fotografar um Buraco Negro à distância de milhões de anos-luz são também os mesmos que escolhem ser dirigidos por gente menor. Penso que as pessoas procuram sempre um paizinho-idiota que lhes pague as bebedeiras em Benidorm e se ocupe das questões que não querem compreender.
Ainda agora cheguei a casa e já sinto crescer uma pequena depressão.
Mas gosto de estar em casa.
Desligo a televisão. Desligo-me do noticiário.
Abro uma garrafa de vinho. Volto ao alentejano. Tinto.
Sirvo-me de um copo e vou para o alpendre. Acendo um cigarro e sento-me a olhar as montanhas lá ao fundo à espera que a noite caia.
E penso Depois deste copo tenho de ir fechar as janelas. Está a arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/10]

O Candidato Messias

Eu vi. Eu vi as mulheres. Eu vi os milhares de mulheres a manifestarem-se nas ruas e nas praças das cidades brasileiras. Eu vi os milhares de mulheres brasileiras na rua por todo o mundo onde há comunidades brasileiras a gritar #EleNão.
Manifestavam-se contra o candidato presidencial Jair Messias Bolsonaro.
Bolsonaro candidato que, quando votou pela destituição da, então, presidente Dilma Rousseff, dedicou o seu voto ao coronel Brilhante Ustra, que era o líder da polícia política da ditadura militar, que torturou a mesma Dilma Rousseff.
O candidato Messias defende a ditadura militar porque, ali entre 1964 e 1985, os anos de chumbo brasileiros, foi, segundo o Messias, uma época gloriosa, vinte anos de glória e progresso que só pecou por torturar demais e matar de menos.
O candidato Messias declara-se racista porque os pretos não fazem nada, nem servem já para procriar.
O candidato Messias é contra a homossexualidade e afirma que preferia que um filho seu morresse num acidente do que aparecesse com um bigodudo por aí.
O candidato Messias é contra Dilma Rousseff porque não gosta dela, é feia e nem mereceria ser violada por ele.
O candidato Messias é contra a democracia porque é uma porcaria e, se fosse presidente do país, fecharia o Congresso.
O candidato Messias também disse que, se não ganhasse estas eleições, não iria aceitar o resultado.
O candidato Messias promete salários mais baixos para as mulheres porque engravidam.
O candidato Messias tem quatro filhos e uma filha que, disse, foi uma fraquejada que teve.
E eu vi. Eu também vi. No dia seguinte às manifestações contra Jair Messias Bolsonaro, as projecções das sondagens davam-lhe uma grande subida nas intenções de voto, sendo o candidato mais votado na primeira volta e em empate técnico com o candidato Fernando Haddad na segunda.
O que eu não vi foi o candidato Messias afastado da corrida presidencial pelas bárbaras e criminosas afirmações proferidas.
Eu vejo que o Brasil está doente.
A Europa está doente.
O mundo está doente.
Mas eu já vi o que o Homem pode fazer por outro Homem.
Eu já vi o que as mulheres podem fazer.
Eu vi as mulheres na rua.
Eu vi a força das mulheres quando saíram à rua
Eu sei que elas vão tomar o seu destino nas mãos e empurrar o demónio para o seu buraco.
Eu fumo um cigarro. Estou nervoso. Estou a assistir à História ao vivo. Às transformações da História.
Só espero que as transformações sejam para o melhor. Para o melhor da humanidade.
Espero ter cigarros suficientes.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/02]