Dominado pela Inércia

São seis da manhã.
Acordei. Despertei mesmo. Os olhos abriram e teimam em não voltar a fechar.
Podia ler um livro.
Podia ver um filme.
Podia ir comer umas torradas e beber um chá quente.
Podia ir até à varanda e fumar um cigarro. Ou dois.
Até podia pegar na bicicleta-pasteleira do meu mais recente vizinho e ir a pedalar até uma das praias da zona e ver o dia nascer cinzento (?) lá no horizonte.
Podia.
Sim, podia.
Também podia sair porta fora e ir dar um giro a pé, passear, laurear a pevide. De auscultadores nos ouvidos, ou não, para poder apreciar o acordar dos galos.
Mas não.
Não consigo.
Estou dominado pela inércia.
E não consigo fazer melhor que estar aqui deitado na cama, de iPad na mão, a tentar imaginar coisas que podia estar a fazer e que não consigo. Só consigo estar aqui assim, deitado, de óculos para a vista cansada postos a tentar não dar erros na porra de um texto que não vai interessar a ninguém.
Nem mesmo a mim.
E de repente apeteceu-me ir para a entrada do InterMarché à espera que abra, mas não sei bem para fazer o quê.
Felizmente, essa vontade já passou.
Mas continuo sem saber que raio hei-de ir fazer?
Acordei.
São seis e meia da manhã.
Que raio hei-de ir fazer?
Estou dominado pela inércia.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/13]

De Mãos Dadas com a Morte

Tenho um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que se faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto do tecto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.
Há muitos anos que não tenho este sonho. Não tinha.
Ontem tomei Mefloquina. Estou em África e tenho de tomar medicamento contra a malária. A Mefloquina exerce um grande poder sobre mim. Altera-me o sistema nervoso. Não fico mais irritado que o costume, que é o que faz normalmente a toda a gente, mas põe-me a sonhar. Ou a lembrar-me dos sonhos. Dos sonhos terríveis que me faz sonhar. Dos sonhos em que a morte anda comigo de mãos-dadas.
Então, ontem, dia em que tomei Mefloquina, sonhei. E voltei a sonhar o mesmo sonho que sonhava, dantes, quando ainda sonhava ou, pelo menos, me lembrava de o ter feito. Estava a correr, todo nu, numa espécie de vazio por onde escorriam coisas viscosas que não vinham de lado nenhum nem iam para nenhum lado. Simplesmente circulavam ali, à minha volta, enquanto eu corria. Mas eu também não corria para lado nenhum, nem sei de onde é que vinha. Corria. Só corria.
E de repente…
E de repente os fluídos viscosos começaram a solidificar e tornar-se corpos e a tombar à minha volta. Eu queria parar de correr, ver que corpos eram estes, mas não conseguia parar de correr. Mas vi a cara. As caras. As caras eram uma só. E era a minha. Todos aqueles corpos que tombavam à minha passagem eram eu, eu morto a cair sobre mim e não conseguia parar de correr e…
E acordei. Estava deitado na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e vi-a ao meu lado. Cheguei-me a ela e abracei-a. Senti-a viscosa. Puxei o lençol para baixo e mandei um grito. Ela estava cheia de fluídos viscosos, já não tinha corpo, era uma massa disforme gelatinosa e, quando olhei a cara, vi, novamente, que era eu. Ela era eu. E nessa altura voltei a acordar.
Acordei na cama. A transpirar. Estava a respirar com alguma dificuldade. Sentia-me cansado. Como se tivesse corrido. Virei-me na cama e deixei-me cair para o outro lado, que estava mais fresco. Mas não consegui adormecer. Não parava de pensar no sonho que tinha tido. E lembrei-me que tinha um sonho recorrente em que estou a correr, todo nu, numa espécie de limbo onde não existem formas, nem figuras, como se corresse no vazio, mas um vazio que se parece com um ouvido infectado, cheio de pus a escorrer, mas ao mesmo tempo não se vê, mas percebe-se, por isso é um vazio que me faz sentir cheio, e depois, quando me começo a sentir cansado, caio, não sei onde, num buraco qualquer e, invariavelmente, acordo aos pulinhos na cama, como se tivesse caído lá do alto sobre o colchão, depois de uma aventura com o Little Nemo.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/26]