Decadência

Dói-me muito as costas. Aqui, aqui mesmo. Aqui mesmo ao fundo. Ao fundo das costas. Não percebo se me dói a zona muscular ou os ossos. Talvez seja ciática. Mas não sei. Não sei nada disto. Nem sei mesmo o é que me dói. Só sei que me dói aqui. E que me dói bastante. E incapacita-me.
Não consigo estar bem sentado. Tenho dificuldades em me baixar. Não consigo fazer algumas tarefas bem simples.
Tenho de me sentar para vestir os boxers. Para vestir as calças. Calçar as meias ou as sapatilhas é um drama. Tenho de levantar as pernas. Descansar uma em cima da outra. Não consigo baixar-me para tocar nos pés, enfiar as meias, atar os atacadores.
Quando me sento, tento sentar-me numa cadeira alta e rija. Evito o sofá. Enterra-me. Entorta-me as costas. Na cadeira sento-me direito. Com ângulos de noventa graus. Para ficar direito. Para não sentir as dores.
Hoje deram-me banho. Nunca pensei chegar a este ponto. Já não conseguia tomar banho de imersão. Não conseguia estar deitado na banheira. Tomo de duche, mas não consigo levantar os braços para lavar a cabeça. Não consigo dobrar-me para lavar os pés. Hoje ela deu-me banho. Foi a primeira vez. E tive o vislumbre do meu futuro. Do que me espera. A dependência. A decadência.
Ela não entrou para o duche comigo. Ficou de fora. Molhou-me todo, primeiro. E eu em pé. A tentar estar direito. A tentar esquecer que estavam a dar-me banho porque me tornei incapaz. Depois o champô no cabelo. O sabonete pelo corpo. Não usou luvas. Eram as mãos dela no meu corpo. Debaixo dos braços. No rabo. O sexo. E eu corei. De vergonha. Voltou a molhar-me. A água estava quente e, no fim, acabou por me agradar. Secou-me. Vesti-me sozinho, com muita dificuldade.
Fui sentar-me numa cadeira na mesa da cozinha.
Fumei um cigarro. Li o Correio da Manhã. Folheei-o. Parei nas folhas de Classificados. Olhei para os convites para as massagens de Relax. Para o Convívio. Havia algumas fotografias. De mulheres nuas. De pernas abertas. A convidar-me. E senti um peso no peito. Uma tristeza que se apoderou de mim. Apaguei o cigarro no cinzeiro. Levantei-me e disse, sem a olhar, que ia dar uma volta, assim Vou dar uma volta!
Saí da cozinha para a rua e senti o olhar dela nas minhas costas. Pressenti um olhar preocupado.
Desci o caminho. Fui até à estrada. Fui devagar.
Na estrada virei à direita e fui.
Não me lembro quando tempo caminhei. Quando dei por ela já estava quase a escurecer. Não sei onde estou. Algures, na estrada, no meio de campos cultivados. Girassóis. São girassóis. Não os reconheci porque já estavam virados ao contrário, à espera que o sol volte a nascer amanhã.
Uma luz ilumina a estrada, os girassóis, o mato. É um carro. É ela. Foi à minha procura. Encontrou-me. Abre a porta. Eu entro muito devagar no carro. Sento-me muito direito no banco. Ela põe-me o cinto de segurança. E faz todo o caminho com uma condução suave por causa das minhas costas. E diz-me Está lá em casa uma massagista para te massajar as costas. Mas sem final feliz. Eu sorrio. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/26]

Um Corpo Flácido e Enfraquecido

Convivo mal com a decadência do meu corpo. Os anos passam por mim, na sua cadência segura, e vão deixando um rasto de velhice que se aproxima perigosamente da morte.
Sinto-me dividir em dois. Os anos passam, a cabeça continua arrogante e lúcida mas o corpo está flácido e enfraquecido. Sou dois homens num corpo só. E o que me entristece é que sinto a decadência do corpo a ganhar vantagem sobre a lucidez da cabeça.
Levanto o braço para agradecer os parabéns e sinto os músculos dos braços a abanar, descaídos, sem forma, sem força.
Urino na casa-de-banho e começa a ser normal pingar os pés, as calças. Às vezes sinto vergonha quando saio da casa-de-banho todo pingado. Por vezes sinto que não deitei fora tudo o que devia deitar e percebo que o perigo se alastra pelo algodão suave das cuecas. Trago uma mancha colorida. Sinto vergonha pelo cheiro que devo arrastar comigo. Sinto vergonha por aquilo que me estou a tornar.
Descobri um quisto sebáceo nas costas. Não lhe conseguia chegar. Foi crescendo. Mas cresceu tanto que foi alargando a pele e a pele tornou-se mais fraca. Rebentou sozinho. Um cheiro fétido saiu-me pelas costas, junto com uma massa pastosa. Só o consegui expurgar debaixo do duche. Não sei quantas horas lá estive. Com a água a lavar o meu nojo. E depois… E depois o buraco nunca mais se fechou. O meu corpo já não se regenera. O que perco, fica perdido. Já não recupero nada do que fui perdendo. Foram-se os dentes. Foi-se o cabelo. Foi-se a vista. Tenho de actualizar constantemente as lentes. As unhas partem-se. A barba está branca. Tenho manchas no corpo. Saem-me pêlos por todos os buracos. Ouço mal. Coxeio.
Hoje o meu corpo já mal reage a estímulos. Fujo ao contacto físico com outros corpos para não me envergonhar. Tenho medo do que possa acontecer. Ou melhor, do que possa não acontecer.
É um cansaço constante. E de físico também passa a intelectual.
A preocupação com a perca das qualidades do corpo começa a tomar conta da minha cabeça. Não consigo não pensar nisso.
Evito ir à praia. Vestir calções. Despir a camisola. Tenho vergonha da barriga que tomba sobre os calções. Das veias que ganham dimensão nas pernas. São as varizes. Já nem o moreno do sol as esconde. Agora tenho de usar um factor pelo corpo. Senão, queima. Faz-me mal. Perigo dos melanomas, diz o médico. Sim, agora passo a vida no médico. Colecciono mazelas. Algumas vêm dos excessos da juventude. Outras, porque sim.
Doem-me as costas. Doem-me sempre as costas na cama, por causa do colchão. Doem-me as costas a caminhar porque tenho o vício da postura. O vício de anos com as costas tombadas sobre os pés. Não posso acartar pesos. Não consigo dobrar-me. Não posso fumar. Não devo beber vinho. Nem cerveja. Muito menos café. Tenho de ter cuidado com o açúcar. Fugir dos fritos. E das gorduras. Carne vermelha só muito raramente. Mas não é difícil que não a posso pagar. Devia comer mais peixe cozido. E enfardo cavala, o mais barato. Mas já estou enjoado.
Chega uma altura em que o corpo começa a dizer à cabeça que já chega. Já chega de aventuras. A cabeça resiste. Mas sente-se a ser perfurada. Aos poucos a cabeça começa a ceder ao corpo. Aos poucos começa a perceber que, se calhar, já não vale a pena continuar a lutar por algo que já não regressa. A juventude do corpo ficou no passado. Hoje é só uma memória. E a cabeça começa a cansar-se de memórias. Começa a sentir que isso é viver por procuração.
Tomo vários comprimidos repartidos ao longo do dia. Há dias em que não os tomo. Há dias em que quero parar a marcha inevitável do tempo. E regressar ao passado.
Mas esta não é uma história de ficção.
Sinto o meu corpo a morrer. E a cabeça com ele.
E é nessa altura que regresso à varanda. Com um copo de vinho numa mão e um cigarro aceso na outra. E digo baixinho, para mim É sempre inevitável.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/26]