Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Tenho uma Amante

Tenho uma amante.
Tenho uma amante que conheci na zona dos frescos do InterMarché. Estávamos ambos desesperados com a falta de frescura dos legumes e saladas, já era tarde, já estava tudo muito escolhido e mexido, quando ela disse Esta Couve Lombarda está mais engelhada que a minha. E parou a olhar para mim depois de perceber o que tinha dito e dito alto. Levou a mão à boca a censurar-se. Tarde demais. Eu parei a olhar para ela a tentar perceber se o que ela tinha dito foi o que tinha querido dizer. Achei que sim. E deu-me uma tesão louca. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim na zona dos frescos do InterMarché.
Quando dei por mim estávamos no Motel Caribe, ali a caminho da Maceira. Entrámos de carro directamente para uma garagem. Subimos da garagem ao quarto. Nem tivemos tempo para mais nada. Rasgámos as roupas e fodemos logo ali, à entrada do quarto alcatifado, lembro-me de que o quarto era alcatifado porque ela queimou as costas e eu os joelhos.
Foi só depois de tratarmos do desejo que nos apresentámos.
O meu nome. O nome dela. Ela era casada. Mas estava a passar por uma crise. Não estamos sempre todos? Depois disse que devia de ter ido buscar os filhos ao ATL, mas que o desejo que eu demonstrara por ela tinha sido mais forte e cagara nos filhos.
Foi ali que decidimos que éramos amantes.
Encontrava-me duas ou três vezes por semana com ela. No Íbis. No Motel Caribe. Assim em hotéis baratos. Sempre para foder. Não tínhamos mais nada em comum além de uma grande tesão. Podia tê-la trazido para casa. Sou um solitário. Vivo sozinho. Mas achei que a relação que tinha com ela era uma relação de hotéis. Eu nunca lhe disse que vivia sozinho. A única coisa que lhe disse foi o meu nome. E podia ter mentido que ela não iria duvidar.
Na semana passada encontrei-me com ela no Hotel Villa Batalha. Ia fazer seis meses que nos conhecíamos, achei que podíamos ter um upgrade de hotel.
Nem jantámos. Eu cheguei primeiro. Tomei um banho e esperei por ela. Ela chegou e eu não esperei que ela tomasse banho. Só foi tomar banho depois.
Enquanto ela tomava banho, abri a janela da rua e ouvi uns acordes e alguém a cantar Ela é amiga da minha mulher // Pois é pois é // Mas vive dando em cima de mim // Enfim enfim // Ainda por cima é uma tremenda gata // Pra piorar a minha situação // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Não pego, eu pego // Não pego, eu pego // Não pego não…
Acendi um cigarro e fiquei ali a ouvir Seu Jorge que dava um concerto no campo da bola ali perto. A minha sorte, não? Seu Jorge em Agosto na Batalha. Seu Jorge no meu querido mês de Agosto.
E pensei Tenho uma amante. E sorri. Sorri da amante. Do Seu Jorge. De estar ali assim, num hotel com uma mulher casada. De me sentir ainda apto à vida. E ela chegou. E perguntou-me Porque é que ris? E eu encolhi os ombros e disse Por nada.
E ela começou. Foda-se, ela tinha de começar. Enquanto estávamos ali à janela a ouvir o Seu Jorge, eu a fumar um cigarro, nu, a apreciar o fresco da noite, o cheiro fresco que ela trazia do banho, começou a contar-me o dia que tinha tido. As chatices com o chefe. A estafa com os filhos. O desinteresse do marido. As amigas que passam férias em Varadero. A vontade que chegasse a noite para estar comigo. O stress para arranjar alguém que ficasse com os miúdos. A mentira que teve de construir para o marido, para poder estar ali assim, comigo.
E eu comecei a ouvi-la a distanciar-se de mim. A distanciar-se cada vez mais. A ir para longe. Tão longe que deixei de a ouvir. Era já só uma memória de uma foda no Motel Caribe.
Eu tinha uma amante. Mas começava a achar que não tinha paciência.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/26]

À Queima-Roupa

Hoje assisti a uma coisa. A um coisa a que queria não ter assistido.
Vivo na baixa da cidade. Mesmo no centro. No que já foi o coração da cidade e agora não passa de um cancro. Um cancro a espalhar as suas metástases.
As traseiras de minha casa dão para uma rua onde reina a marginalidade. É uma espécie de inferno onde a polícia prefere não ir.
As lojas fecharam. Os escritórios mudaram-se. Os bancos e os cafés escolheram zonas mais modernas. Os velhos foram postos a andar das suas casas na esperança de uma recuperação da zona. Condomínios. Alojamento local. Um hotel. Restaurantes. Mas a crise passou uma rasteira aos investidores. A rua ficou como estava. Sem vida, degradou-se. E acabou entregue à bicharada.
Primeiro foram os ratos a ocupar as casas vazias. A alimentarem-se do lixo. Chegaram os gatos vadios. Os cães de rua. Depois chegou a droga para alimentar as veias da cidade. Em seguida veio a prostituição para pagar a droga. Não foi um processo rápido. Não. Mas foi um processo implacável.
Da janela cá de cima vejo as miúdas, cada vez mais novas, encostadas à entrada dos prédios vazios. Sentadas nos degraus das escadas sujas. Entregues à economia dentro de carcaças vazias de antigos carros que a autarquia não retira da via pública.
Já assisti a umas quantas overdoses. Quezílias. Zangas. Roubos. Violência. Violações. Femininas e masculinas que isto de levar no cu não escolhe género. Às vezes chegam-me alguns gritos aqui a casa. O que é que posso fazer para além de ficar mal-disposto?
Já vi lá passar carros de polícia. Mas só passam. Passam devagar. Olham. Não saem do carro. Alguns dedos erguem-se para eles. Umas risadas. E é tudo.
As poucas vezes que lá fui, e já lá fui comprar cavalo, já lá fui à procura de sexo numa altura mais complicada da minha vida, já lá fui procurar alguém que podia estar por lá (não estava, mas também não sei por onde anda que nunca mais a encontrei, e portanto até pode estar por lá, metida nalgum muquifo), fui de botas. Aquele chão é perigoso. Aquele chão é uma armadilha. Preservativos usados, lenços de papel sujos, agulhas, seringas partidas, sangue… Aquela rua é uma lixeira a céu aberto. Aquelas pessoas vivem abaixo de humano. Aquelas pessoas que lá vivem já não são pessoas.
Mas hoje assisti a uma coisa.
Estava à janela da cozinha a fumar um cigarro. E olhava para a rua. Os movimentos. Os carros que passavam. Mas não estava realmente a ver nada. Estava só a olhar para lá para não ter que olhar para as minhas paredes vazias. Num apartamento vazio. Numa vida, também ela, vazia.
Estava a olhar para lá, de cigarro na mão, quando vejo um homem abrir a porta de um carro lá parado e disparar dois tiros. Dois tiros à queima-roupa. Até dei um salto. Pam-Pam. Assim. Um som seco. Pam-Pam. Silêncio. Depois um grito de mulher. De rapariga. Uma miúda saiu do outro lado do carro e correu para o homem que esticou o braço para ela, na mão uma pistola, e voltou a disparar. Dei outro salto. Pam-Pam. Foi o que se ouviu. Pam-Pam. O som seco dos tiros de pistola disparados à queima-roupa. Pam-Pam. Assim. Económico. E simples. Pam-Pam.
Perdi o cigarro que tinha na mão. Caiu não sei para onde.
O homem prendeu a pistola no cinto. Nas costas. Debaixo do casaco. E foi embora. A andar. A andar devagar. Como se não fosse nada com ele. Nem foi ver a rapariga. Nem quem deixou no carro. Ninguém. Nada. O vazio e a indiferença.
Eu peguei no telemóvel. Escondi a minha identificação. Liguei o 112 e avisei.
Começaram a aparecer pessoas. À volta da miúda. À volta do carro. Começou a haver algum choro. Gritos.
Eu devia lá ter ido. Mas fazer o quê? Não era nada comigo. Avisei a polícia.
Não quero chatices.
Estou a pensar mudar de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/22]