O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Dor-de-Dentes

Acordo com dor-de-dentes.
Fico quieto na cama, debaixo do edredão, na vã-esperança que ela se vá embora. Mas sei que não vai. Quando chega, instala-se. E sei exactamente qual dos dentes é que me dói. É este aqui de cima, este aqui, oh, este que sai da enfiada dos dentes e entra para dentro do céu-da-boca. Ainda por cima estou sempre a tocar-lhe com a língua. Não lhe consigo fugir. É como o destino. É o meu destino.
Tenho de tomar um clonix.
Não me queria levantar da cama, mas não posso não me levantar. A dor-de-dentes não se vai embora. Vou ter de a empurrar.
Levanto-me da cama. Está frio em casa. Vou à cozinha e como um bocado de pão duro para o estômago não estar vazio. O pão acaba sempre por ir parar debaixo do dente que me dói. Magoa-me. Apetece-me gritar. Mas não adianta. Não há ninguém para ouvir os meus gritos.
Engulo o pão embebido na minha própria saliva. Bebo um gole de água. Meto o clonix na boca e despacho-o para o estômago com mais um ou dois goles de água.
Regresso à cama. A dor-de-dentes regressa comigo. Penso que vai demorar a ir embora. Eu deito-me e apago a luz da mesa-de-cabeceira. Sinto-me desperto. Não vou conseguir voltar a adormecer tão cedo. Não consigo fechar os olhos.
Fico virado para o mesmo sítio para não me deitar sobre a face que me dói. E sinto uma vontade enorme de me virar para esse lado. Sei que não posso pensar muito sobre o que não devo fazer porque passa a ser o que me apetece fazer.
Materializo a dor-de-dentes. O dente que me dói parece crescer e tornar-se grande demais para a minha boca. Não a consigo fechar. Respiro pela boca. E canso-me. Estou sempre a tocar no dente. Estou sempre a levar lá a língua para perceber se está mesmo maior ou se é impressão minha. E percebo como estou a ser estúpido. Mas mesmo quando não me pergunto se o dente está maior que os outros, a língua tende a lá ir lamber o dente, lamber a dor.
Tento que a boca fique quieta como o resto de mim. Mas isso só me deixa mais inquieto. Começo a salivar. Tenho a boca cheia de saliva. Pareço ter uma nascente na boca. Deve ser do clonix. Penso em levantar-me, mas está frio na casa. Engulo a saliva. Enjoo. Por momentos sinto um vómito.
Estou há tanto tempo com os olhos abertos na escuridão do quarto que já consigo ver todos os fantasmas que cá estão instalados. Puxo o edredão mais para cima de mim. Para me esconder. O silêncio é ensurdecedor. Ouço pequenos ruídos ampliados pela ausência de outros ruídos. O mundo está todo em silêncio. E eu ouço alguns barulhos na rua. Anda aí alguém. Ou é só a minha imaginação?
O clonix demora a fazer efeito. Passam as horas. Vejo-as a passar no relógio digital e luminoso na mesa-de-cabeceira. As horas transformam-se em dias. A minha dor-de-dentes é mortal. Penso no Dr. House e que devia magoar-me noutro lado de mim para esquecer esta dor. Mas não esqueço. Nem consigo magoar-me. Sou um cobarde.
Vai-te embora! Vai! digo. Mas já não me ouço. Talvez esteja já a dormir. Talvez já seja tudo um sonho. Talvez esteja a sonhar com uma dor-de-dentes e não me esteja a doer de verdade. Talvez o barulho que ouço na rua não seja de alguém a rondar a casa. Talvez esse vidro a partir-se não esteja mesmo a partir-se. Talvez essa luz que vejo a entrar pelo quarto não esteja mesmo aqui mas sim no meu sonho. Enfio-me mais dentro da cama e puxo o edredão mais para cima da cabeça. Tento pensar em qual foi o meu disco do ano. Qual foi o meu disco do ano?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

A Casa Abandonada

Às vezes estou a lavar a louça à mão, no lava-louça da cozinha, e vejo, através da janela que fica mesmo em frente ao lava-louça, para além do vidro, para além do alpendre, para além das árvores do quintal, para além da estrada e no meio das árvores no terreno em frente, mas muito lá para a frente, muito lá para o fundo, em direcção às montanhas, mas não tão longe que eu não visse, uma casa abandonada.
Já conheci essa casa abandonada, assim como está hoje, não tão destruída, claro, mas bastante, quase como hoje. Quando vim para cá, quando vim viver para aqui, a casa estava abandonada mas, os miúdos da escola costumavam ir para lá partir os vidros, as portas, as telhas… Um dia deitaram uma parede abaixo. Hoje já não vão para lá. Já não há lá quase nada para partir. Mas às vezes ainda lá vão uns tipos passar droga e uns casais com pressa.
Quando estou aqui assim a lavar louça, a água quente a correr sobre a louça suja que vou esfregando com a esponja Scotch-Brite com um fio de Fairy verde, e a espuma a envolver-me as mãos, olho para a casa e imagino-a como um portal para outro lado. Para outro mundo.
Imagino-me a transpor a porta que já não existe, a entrar dentro das paredes que ainda não vieram a baixo e caminhar até ao centro da antiga sala, onde o tecto já desabou, e esperar pelo novelo quântico que me irá permitir a passagem até um sítio diferente deste.
Mas nunca apareceu o novelo quântico. E eu regresso à cozinha, ao lava-louça, ao Fairy e à minha vida do lado de cá da janela.
Também já pensei que a casa podia ser um terreiro para as bruxas aqui da zona. Dizem que há bastantes por aqui. É verdade que se encontram vassouras perdidas um pouco por todo o lado. E às vezes vêm-se por aí carros da cidade, a rolar muito devagar, com mulheres de meia-idade e cabelo armado, à procura da santinha. Ouço dizer. E então, imagino-as a chegar a cavalo de vassouras voadoras, a despirem as vestes e a mergulharem numa festa de bacantes. Imagino-me a correr para lá, para a casa abandonada, mas ao chegar não está lá ninguém, reina o silêncio, a escuridão o cheiro da erva molhada pela chuva e os cogumelos selvagens que se erguem ao céu nocturno. Regresso a casa e colho os cogumelos que deixo secar e mastigo.
Quando estou assim a lavar louça aqui, no lava-louça, olho lá para fora e vejo a casa abandonada e penso que gostava que a minha vida fosse mais do que a casa abandonada. Uma casa abandonada que poderia ser mesmo uma casa, a casa de alguém, mas que nunca é visitada pelo dono, e que as ervas selvagens já começaram a cobrir.
Às vezes penso que a minha vida é assim como aquela casa abandonada. Tanta expectativa e tão pouco resultado. Uma vida cheia de potencial, reduzida ao meu abandono.
No outro dia, era de noite, acendeu-se uma luz dentro da casa. Larguei a louça e fui dar fé. Vi-me ir. Vi-me a descer a ladeira. Vi-me cruzar a estrada. Vi-me caminhar ao longo do matagal selvagem do terreno em frente. Vi-me aproximar da casa abandonada e espreitar lá para dentro. Vi-me entrar na casa e nunca mais sair.
Não sei o que é que me aconteceu. Eu não sou eu. Eu que estou aqui a contar a estória sou só uma projecção astral de mim que entrou naquela casa e não mais saiu. É por isso que estou aqui a lavar a louça, no lava-louça da cozinha. Porque foi a última coisa que fiz antes de entrar na casa abandonada e não voltar a sair. Sou a minha assinatura. Mas não sou eu. Embora também o seja.
É difícil de perceber. Às vezes até eu não percebo muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

Houve uma Época

Houve uma época em que gostei do Natal. Houve uma época em que eu brinquei ao Natal como todas as outras pessoas, crianças e adultos que, nesta altura, brincam às amizades, aos amores e à paz no mundo entre os homens.
Houve uma época em que me levantava de manhãzinha para ir ao fogão da cozinha buscar as prendas que o Pai Natal lá deixava. Não era na lareira porque não havia lareira lá em casa. Nem era na chaminé porque a chaminé era um buraco negro e escuro lá em cima, por cima do fogão onde a minha mãe cozinhava as filhoses e as fatias douradas, dias antes do Natal, e o bacalhau na noite em que nos reuníamos os quatro à volta da mesa, felizes com o que tínhamos porque não sabíamos que havia mais para ter, que havia gente que tinha muito mais e gente que não tinha nada. Naquela altura o Natal não era quando um homem quisesse, era mesmo a 24 de Dezembro a cair para o 25 a festejar o nascimento do Cristo.
Houve uma época em que a mesa da sala levava um acrescento a meio, e a mesa da cozinha ia fazer companhia à mesa da sala para albergar toda a gente que ia jantar lá a casa. Eram os pais, os filhos, os avós, alguma família de todos os lados de todas as famílias, alguns amigos. Gente, muita gente. Muitas prendas que toda a gente presenteava os outros, em especial os mais pequenos. As prendas não era muitas. Mas não havia cá prendas das lojas dos chineses nem a um euro e despacho já o Natal de toda a gente. Dava-se o que era preciso, preferido, desejado. Livros. Jogos. Roupa. Alguns brinquedos. Sim, éramos uma geração estúpida que ainda não tinha encontrado a sagração da tecnologia.
Houve uma época em que nos sentávamos todos à mesa a comer bacalhau, polvo, peru. Mousse de chocolate, pudim flan e molotov. Filhoses, coscorões e rabanadas. Os jantares terminavam com um café da avó a acompanhar uma fatia de Bolo Rei, de que toda a gente retirava as frutas cristalizadas, e uma bebida branca, licores para os mais fraquinhos e whiskey para os mais fortes.
Houve uma época em que tive família e o Natal era, por excelência, a minha festa. A festa da minha família. Numa época em que até eu tive família.
Houve uma época, houve.
Depois, depois deixou de haver uma época. A família desintegrou-se. A morte rondou. Zangas. Separações. Ódios. Oh, tantos ódios e invejas. A família desentendeu-se. A desgraça veio ao caminho da família e irmãos de armas transformaram-se em irmãos com armas.
Sento-me agora aqui fora e deixo-me ir com eles. Com todos eles. Com as crianças que choram. Com os adolescentes de telemóvel em punho e olhar vidrado. Com homens atrasados. Com mulheres desesperadas. Tudo a correr. Tudo a comprar. Compram-se uns aos outros para, em cinco minutos, voltarem a virar costas uns aos outros e até para o ano que haverá mais. Temos de nos encontrar mais vezes, dizem. Eu telefono, continuam a dizer. E fingem acreditar.
Estou sentado aqui fora na rua há duas horas. Já tanta gente passou por aqui e ninguém me viu. Estão todos muito ocupados. Demasiado ocupados para olharem em volta. Para verem.
Hoje morreu alguém. Alguém que eu conhecia. Hoje morreu alguém que eu conhecia e morreu sozinho. Sozinho e na miséria. Esquecido de todos. Eu também o esqueci. Não sou melhor que os outros. Não me lembro melhor que os outros. Acho que só choro um pouco mais. Porque também eu estou esquecido. O Natal não mora aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/10]

Sol de Inverno

O dia acordou bem disposto. O sol lá no alto, brilhante, mentia-me sobre estar em Dezembro, a caminho do Natal, numa altura em que, à minha frente, se devia estender um tapete de neve. Mas não. Não havia neve. Estava um sol quente pendurado num céu azul de meter inveja a Agosto. Não fosse o frio dentro de casa, desta casa, e podia jurar que tinha viajado no tempo, não era o nascimento do Cristo, era o meu.
Depois de almoço, depois de ter comido um abacate, esmagado com o garfo, em cima de uma fatia de pão alentejano torrado, com um ovo estrelado e polvilhado com colorau e um pouco de pimenta moída, que acompanhei com um copo de vinho de um garrafão de palhinha, sem rótulo, que um amigo com produção própria me ofereceu, uma zurrapa que me deixou a garganta e o estômago a arder mas só preciso de insistir um pouco, e logo bebo mais um copo ou dois e resolve-se, vim sentar-me aqui na soleira da porta da cozinha.
Dois dos gatos vieram logo encostar-se às minhas pernas.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos e deixo-me banhar pelos raios de sol. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer que tenho de acabar um trabalho para entregar antes do final do dia. Está muito bom, aqui. Quente. Confortável.
É só um bocadinho. Só um bocadinho de sol a bater-me na cabeça. Na cara. No corpo. Sentir-me bem.
Ouço os camiões a passarem na estrada, mas parece que a estrada fugiu para muito longe de mim. Está agora muito distante. Mas ainda ouço os camiões a passar. É um embalo. O roncar daqueles motores é um embalo que me leva, suave, dia fora, até…
Que dia é hoje?
Tenho alguma coisa para fazer?
Foda-se! como se está bem aqui onde estou.
Gosto do Verão. Do sol. Da praia. Do mar. De comer umas amêijoas pretas na companhia de umas imperiais fresquinhas. Das miúdas em biquíni… Em monoquíni… Sem quini…
Sorrio. Sorrio da minha parvoíce. Às vezes sou um pouco parvo. Gosto de pequenas parvoíces. Das minhas pequenas parvoíces. O que é um homem sem parvoíces? Como é que se pode ser homem sem parvoíces? Um homem perfeito? Um chato do caralho, obviamente. Gosto dos meus erros. Das minhas falhas.
Ouço uma música. Está distante, a música. Que música será esta? Parece-me conhecida. Parece-me que a conheço. E acho que até gosto dela. Que música é? De onde é que ela vem? Olha, olha, aproxima-se. O som está mais alto. Parece que vem daqui. Daqui, ao pé de mim. Daqui do meu lado.
Abro os olhos.
Foda-se!
É quase de noite. Foi-se o sol. Está frio. Estou gelado. Tenho um arrepio.
O telemóvel está a tocar. Agarro-o. Olho para o visor, leio o nome de quem me está a ligar e digo, assustado, Que porra! O trabalho!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/06]

Há Mais um Cão Cá em Casa

O cão apareceu por aí ao final do dia. Ou melhor, eu só dei por ele ao final dia. Tinha estado a chover durante toda a tarde. Ainda me aventurei pelo alpendre a fumar uns cigarros. Mas refugiei-me em casa. A chuva vinha tocada a vento e entrava pelo alpendre dentro e molhava tudo, a cadeira onde costumo sentar-me, a mesa onde amparo o copo de vinho, os tapetes onde os gatos costumam estar deitados na ronha. Ainda agarrei nos tapetes e levei-os para a cozinha para não se molharem mais.
Não sabia dos gatos. Nem do cão.
Passei a tarde na sala a acabar de ler Bem-Vinda a Casa, as memórias de Lucia Berlin (acho que me apaixonei por esta mulher fora do tempo, e não só pelas suas capacidades de escrita e criatividade, quando a olho na sua fotografia colorida que a Alfaguara publica nas badanas dos livros editados, percebo que era uma mulher lindíssima, muito bonita, de um olhar mágico e sedutor que o cigarro pendurado entre os dedos da mão esquerda ajuda a compor e a arrasta para dentro dos meus sonhos acordado) e esqueci-me que havia vida lá fora.
O luz do dia começou a cair. Ainda não era tarde mas a noite principiava a cair. A chuva continuava no seu embalo. Não chovia muito, mas era constante. Então lembrei-me dos gatos e do cão. Lembrei-me que precisava de lhes dar comida. Que tinha passado o dia todo sem lhes dar comida.
Saí para o alpendre e despejei ração para todos eles. Mas não aparecia ninguém, o que não era normal. O normal é os gatos e o cão virem logo, a correr, comer. Às vezes até arranham a porta para me lembrarem Então pá! Onde é que está a nossa paparoca? Normalmente o cão aspira tudo de uma vez, sôfrego. Os gatos comem às mijinhas. Vão lá várias vezes. Pequenas doses de cada vez. A guardar sempre para mais tarde. Mas não sabia deles.
Saí para a chuva. Dei uma volta pelo quintal. Vi que as laranjeiras estavam carregadas de laranjas. Apeteceu-me um sumo natural e fresco. Pensei em apanhar algumas. Mas lembrei-me que andava à procura do cão e dos gatos, que estava a chover, eu estava sem casaco e sem chapéu-de-chuva, nem sequer um cesto para apanhar as laranjas e decidi que ficava para o dia seguinte de manhã, de manhãzinha, para ainda conseguir espremer umas laranjas para o pequeno-almoço.
Dei a volta à casa e fui às traseiras. Vi os gatos empoleirados onde quer que fosse que estivessem no alto. Todos a olharem para o mesmo sítio. O cão estava mais à frente, em pose de guarda. Estático. Muito direito. Quase sem pestanejar. Ao fundo, junto à parede de fundo do telheiro, um cão, um outro cão, um cão pequeno, não percebi a raça, encolhido, acossado, tentava passar despercebido mas a sentir que era o centro das atenções.
Era um cão de caça. Daqueles cães pequeninos, mas muito afoitos. Devia ter sido abandonado por algum caçador. Raios os partam. Já tinha ouvido histórias destes cães abandonados pelos caçadores. Cães que já estão velhos. Cães que não são tão bons para perseguir as presas como os seus donos desejam. Ou simplesmente cães que já não são precisos e fica caro alimentar toda aquela canzoada. Esses cães abandonados costumam juntar-se e formar matilhas selvagens que sobrevivem matando as galinhas das redondezas.
O coitado do cão estava muito assustado. Estava magro. O pêlo, molhado, fazia-o parecer-se com um rato de esgoto. Por onde é que o cabrão do cão teria entrado?
Tive pena dele. Tenho sempre pena dos animais. Mais que das pessoas. Sim, eu sei, é estúpido. Mas os animais tocam-me mesmo cá dentro, no fundo do coração. Sou um emotivo.
Agarrei no cão que estava em pose. Fiz-lhe umas festas. Acalmei-o. Falei-lhe ao ouvido. Palavras meigas e suaves. Depois chamei-o para que viesse comigo. E ele veio. Os gatos ficaram lá a olhar para o cão.
Fui buscar uma tigela com ração. Pus a tigela ao pé do cãozinho, com o outro a olhar e eu a falar para os dois. O cãozinho olhava assustado para nós todos.
Entretanto parara de chover. Já era quase noite. Chamei o cão e os gatos para virem comer e deixei lá a comida para o outro.
Já estava há algum tempo no alpendre, com os gatos e o cão a comerem, eu a fumar um cigarro encostado ao pequeno muro, quando vi aparecer o cãozinho perdido. O cão olhou para ele, mas continuou a comer. Os gatos ignoraram-no. O cãozinhoo olhou para nós lá de baixo, deitou-se no chão do quintal e ficou a olhar para o alpendre.
Deitei fora o cigarro. E pensei que tinha mais um cão lá em casa. Ia ser um processo de aprendizagem com os outros todos. Vai ser aos poucos. E disse para mim próprio Eu não ganho é para os alimentar. E entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/30]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]