Ausência de Bilhete Validado

Há dias em que não consigo evitar e baixo às emoções do Correio da Manhã. A violência toma conta de mim. Por mais que lhe queira fugir, sinto-me atraído como os insectos voadores por uma lâmpada acesa na escuridão nocturna.
Então, a notícia que estava na ordem do dia era de uma mulher negra que tinha sido espancada por um agente da polícia. Li a notícia no Facebook. Li a notícia sentado no sofá com o iPad nas mãos.
Acendi um cigarro.
Fui às páginas do Correio da Manhã. Comecei a ler.
Era tarde. Não tarde de madrugada, mas já era noite. Uma noite fria. A mãe, cansada, depois de mais um dia como os outros, a correr de um lado para o outro, a cumprir todos os horários que tinha de cumprir, depois de fazer todos os trabalhos que tinha de fazer, depois do sol já se ter escondido para lá do horizonte e das luzes da cidade lhe conferirem uma falsa vida de fantasia colorida ao seu dia, estava finalmente a entrar no autocarro com a filha pequena pela mão. O autocarro que a iria levar para casa. Depois do último trabalho tinha ido a correr buscar a filha à escola antes que a escola encerrasse. E, depois da viagem, ia chegar a casa e preparar o jantar para ela, para a filha e para os outros dois filhos que já lá estavam à espera que a mãe chegasse. Verificar se os filhos tinham feito os trabalho da escola. Um banho rápido, mais um passar por água que propriamente banho. Ela e a filha, aproveitando o mesma água, o mesmo banho. E então, finalmente iria sentar-se um pouco na cadeira da cozinha a olhar, alheada, para a televisão que debitaria qualquer coisa que não lhe iria interessar mas que lhe serviria de companhia até adormecer. Iria acordar com a filha a chamá-la do quarto porque estava a ter um sonho mau e ela iria então para a cama dormir algumas horas deitada antes de ter de se levantar de novo e, de novo, retomar outra vez os mesmos rituais de todos os dias, dias iguais, dias tristes, dias alegres, dias cheios de esperança e desilusão.
Mas não foi o que aconteceu.
À entrada no autocarro, a mãe percebeu que a filha se tinha esquecido do Passe Social. O motorista-cobrador exigiu a validação da entrada das duas. Ela estava cansada. A filha estava com fome e sono. A mãe pediu para que o motorista-cobrador deixasse entrar a filha. Afinal só tinha oito anos. O motorista-cobrador mostrou-se inflexível. É a lei. A lei é para cumprir. E os dois esgrimiram razões. A mãe exaltou-se. O motorista-cobrador também. Elas tinham que abandonar o autocarro, dizia o motorista-cobrador. Que não, era noite, estava frio e a criança estava com fome e sono e ela só queria chegar a casa, dizia a mãe.
Desvairado, o motorista-cobrador arrancou com o autocarro pelas ruas da cidade e parou junto a uma esquadra de polícia. Um agente aproximou-se do autocarro. O motorista-cobrador abriu a porta da frente. Queixou-se ao agente da polícia. Queixou-se da mãe. E da ausência de passagem validada da criança. É a lei, disse o motorista-cobrador. É a lei, concordou o agente da polícia.
O agente pediu à mãe que saísse e fosse com ele à esquadra. Mas a mãe só queria ir para casa. Com a filha. E tinha lá os outros dois filhos à espera. O polícia insistiu. A mãe também. O agente chamou-lhe recusa a uma ordem da autoridade. A mãe enervou-se. Estava cansada. O agente também se enervou. Também estava cansado. Farto das más condições de trabalho. Farto da merda de vida que tinha. E depois de um dia difícil, aquilo ali assim… Para lhe estragar o resto do dia.
O agente pegou a mãe por um braço e puxou-a para fora do autocarro. A mãe gritou. Chamou nomes ao agente da polícia que ainda se enervou mais. O agente da polícia puxou a mãe à força. A criança tentava agarrar a mãe. Chorava com medo. O agente forçou a mãe a descer do autocarro. A mãe caiu para fora do autocarro. Caiu no asfalto. Arranhou a cara. Esfolou as mãos. Rasgou as calças de ganga. Depois tentou voltar a entrar no autocarro com a filha agarrada a ela. O agente deitou a mãe ao chão e tentou imobilizá-la perante o olhar assustado da filha. A mãe debateu-se. Era forte. Cuspiu no agente. O agente bateu na mãe. Deu-lhe dois murros na cara. Rebentou-lhe o lábio. Abriu-lhe um golpe no sobrolho. A mãe gritou. A mãe era preta. Assim como a filha. Mas o sangue brilhava sobre o preto da sua pele. Debateu-se. O agente em cima dela a tentar colocar-lhe umas algemas. Ao lado, a filha chorava.
Acordei.
A cigarro tinha-se consumido inteiro. Estava todo feito num rolo de cinza. Mexi-me e a cinza caiu-me em cima. Esfreguei os olhos. Sacudi a cinza para o chão. O iPad estava a negro. Voltei a acender outro cigarro. Liguei outra vez o iPad. Estava nas páginas do Correio da Manhã. Uma mulher que fora agredida pela polícia, tinha sido constituída arguida. Desliguei o iPad e larguei-o em cima do sofá. E fiquei por lá sentado, agoniado. Não consegui continuar a fumar. Estava com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/21]

Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Um Agente da G.N.R. Tocou a Campainha da Porta da Rua

Fiquei sem gasolina na motorizada. É uma merda ficar sem gasolina na motorizada às sete da manhã, depois de uma noite de trabalho em dia que promete chuva.
Sou o único a fazer as noites aqui na fábrica. O que fica a funcionar à noite é tudo automatizado, mas alguém tem de estar de vigia não vá o diabo tecê-las e alguma das máquinas parar, ou aquecer demasiado. Quando a fábrica acabou com o turno da noite, ninguém se prontificou a continuá-lo. Eu ofereci-me. Gosto de trabalhar à noite. Recebe-se um pouco mais. Não é muito mais. Mas ainda é algum. De qualquer forma, não tenho ninguém à minha espera em casa. Com excepção da minha filha quando cá vem. Ela vem e vai assim, quando lhe dá na telha. Nem diz água vai. Quando se farta da faculdade, dos colegas, do namorado, vem cá passar uns dias a casa. Às vezes mal a vejo. Ela entra e sai. Eu também entro e saio. Às vezes jantamos. Jantamos cedo para eu entrar ao serviço. Mas jantamos. Às vezes também tomamos o pequeno-almoço juntos. Já aconteceu eu estar a chegar a casa e ela ter a mesa posta, torradas feitas e barradas com manteiga e uns ovos mexidos, coisa que nunca como ao pequeno-almoço mas que me agrada que ela faça. Mas não acontece muito. Geralmente está a dormir quando chego a casa. E quando acordo, ela já não está por lá.
Começa a chover. Uma merda nunca vem sem companhia. Gaita.
Logo à noite tenho de vir mais cedo para fazer o caminho a pé e trazer um jerricã com combustível para a motorizada. Até me faz bem andar a pé mas, ao fim de uma noite de trabalho, quero é esticar-me na cama e deixar-me adormecer. Não andar a fazer maratonas. Já não tenho idade para maratonas. E agora chove. E começa a chover com alguma força.
Não vale a pena acelerar o passo. Já estou encharcado. E não consigo andar muito mais depressa com esta perna apanhada pelo reumatismo. Maldita velhice. Maldita vida de pobre.
As luzes dos candeeiros de rua ainda estão acesos. Já há alguns carros na estrada. E ali vai a carreira para Lisboa. Também ia nela para Lisboa. Ia ao Estádio da Luz ver o voo da águia Vitória. Ia a Belém comer um Pastel de Nata, daqueles a sério. Apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia até Cascais. Depois voltava. Gosto de viajar ali assim, ao lado do rio que é quase já mar. Há zonas lá que quando as ondas estão mais furiosas quase que atingem o comboio. Gosto de ver isso. Gosto de ver a fúria daquele quase-mar quase em cima de mim. Já uma vez lá fui. E gostei. Prometi que voltava. Nunca mais voltei.
Também gostava de apanhar o Cacilheiro e cruzar o rio até à outra margem. Passear-me ali pelo Cais do Ginjal. Ver aqueles carros que se enfiam por lá, a tentar sair sem cair ao rio. Há gente muito doida. Muito doida mesmo.
Fumava um cigarro, mas molhava-se todo. É melhor não.
Também ia comer um bife à Portugália. Um dia não são dias. E levava a miúda. Se ela quisesse ir comigo. Gosto daqueles bifes com molho. Acho que é um molho de mostarda, não é? E um ovo estrelado por cima do bife. E as batatas fritas. Gosto de molhar as batatas fritas naquele molho. E tenho de pedir o bife mal passado. Quase cru. Senão, torram-no todo. Há quantos anos não vou a Lisboa?
Nem sei porque é que estou a pensar nestas coisas. Sei que não vai acontecer. Eu nem posso sair daqui. Quem é que iria fazer as noites na fábrica? Ninguém quer fazer as noites na fábrica. Só eu.
Tenho de fumar um cigarro antes de entrar em casa. Não fumo em casa com a miúda lá. Ela não gosta do cheiro. Eu percebo-a. E não me custa nada, não é?
Aqui. Aqui na paragem dos autocarros. Sento-me aqui um pouco e fumo um cigarro. A casa é já ali. Fumo um cigarro e depois vou descansado para casa.
Acendo o cigarro. Faço um esquema do meu dia. Tomo um banho. Seco-me. Deito-me. Adormeço. Tenho de me levantar mais cedo, amanhã. Para ir buscar combustível para a motorizada e fazer o caminho a pé até à fábrica. Como qualquer coisa. Arranjo o farnel para a noite. E vou à estação de serviço. E agora, um banho antes de me deitar. Estou encharcado. Encharcado e com frio. Talvez ela tenha feito o pequeno-almoço.
Acabo com o cigarro. Vou até casa. Entro. A casa está às escuras. E em silêncio. Cheira-me a café. Vou até à cozinha. A máquina do café esta ligada. Ela fez café, mas não fez pequeno-almoço.
Está uma folha de papel em cima da mesa da cozinha. Agarro no papel.
Fui-me embora. Não sei quando venho outra vez. Arranja um telemóvel. Xi♥. A tua filha.
Fico ali um bocado em pé com o bilhete na mão. Sei que nos vemos pouco. Que não conversamos muito. Mas agora que sei que ela voltou, de novo, para Lisboa, sinto a casa ainda mais triste. Triste e fria. Tenho um arrepio de frio. Lembro-me que estou molhado. Bebo uma caneca de café que ela deixou feito e vou para a casa-de-banho. Tomo um duche quente. Seco-me. Vou para o quarto. Deito-me na cama. Estou cansado. Ponho o despertador e fecho os olhos. Aguardo que o sono me leve.

Sou acordado com a campainha da porta da rua a tocar. Abro os olhos. Vejo as horas. Ainda é muito cedo. Muito cedo para mim. Levanto-me. Visto umas calças. Calço uns chinelos. Saio do quarto. Percorro o corredor e abro a porta da rua. Está um agente da G.N.R. do outro lado da porta aberta. Conheço-o. Faço uma interrogação com a minha cara. Ele diz Houve um acidente com a carreira que ia para Lisboa.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/14]

As Tardes Frias de Inverno

Então era assim que eu passava as tardes frias de Inverno até à noite, tarde da noite, altura em que, já bêbado de sono, me arrastava para a cama, num quarto frio, e me enfiava debaixo do edredão com uma botija de água quente da loja dos chineses a aquecer os lençóis e, talvez os pés.
Acordava todos os dias tarde para estar o máximo de tempo possível no quente da cama. Depois ia para a cozinha, comia uma papa Nestum com Mel, quando havia, ou aquelas papas de aveia, que os supermercados têm na zona dos integrais ou da vida saudável, por causa dos dentes, não podia mastigar comida sólida e as papas escorregavam pela garganta abaixo até ao estômago sem grandes trabalheiras. Mas não gostava de papas. Nunca tinha gostado. Era um martírio comê-las. Mas, ao almoço, era com elas que convivia.
Ia para a cozinha, acendia a salamandra e ficava por lá sentado à mesa a escrever no computador, a tarde e a noite, no quentinho, ainda calçava umas luvas sem dedos para poder trabalhar e, às vezes, em dias de maior frio, um barrete de lã que enfiava pela cabeça abaixo. Duas ou três vezes por semana saía de casa e ia procurar lenha perdida no mato perto de casa. Uns gravetos. Pinhocas. Ripas de pequenas construções abandonadas. Restos de madeira, qualquer tipo de madeira, às vezes até antigos móveis abandonados que partia em pedaços pequenos e levava para casa para alimentar a salamandra. Ainda encontrei duas cadeiras, tipo poltrona, de madeira, que estavam em condições, talvez um pouco velhas, essas não as parti em pedaços mais pequenos, lixei-as, dei-lhes tratamento, arranjei umas almofadas e ainda hoje tenho essas cadeiras.
Ao meu lado uma chávena de chá que estava sempre cheia. Então gostava muito de chá. Bebia bastante. Tinha, em cima do balcão da cozinha, uma chaleira onde estava sempre a aquecer água. Tinha sempre uma caneca fumegante ao lado. Às vezes acompanhava com um cigarro. Mas tinha de controlar os gastos com o tabaco. Não podia fumar mais de meio-maço por dia. Com o chá estava à vontade. Reciclava-o. Um pacote de chá dava para várias canecas, até perder o sabor.
Escrevia até cansar-me. Depois levantava-me, ia até à janela e olhava para fora, para a rua. Olhava as janelas da vizinhança. As pessoas que passavam lá em baixo, na rua. Enfiadas nos seus grossos casacos. Não conhecia ninguém. Às vezes estes olhares tornavam-se histórias e serviam-me de inspiração, outras vezes era só mesmo para desentorpecer as pernas e descansar do ecrã branco e das letras que se posicionavam como pulgas atrás umas das outras.
Ao início da noite olhava para o fogão e via lá a panela de sopa. Geralmente tinha sempre sopa que fazia numa panela grande e que durava alguns dias. Ia ao supermercado da rua, comprava batatas, às vezes chuchu, cenouras, nabos, alho francês. Triturava tudo. Deixava um ou outro pedaço maior para poder saborear. Depois mandava tudo para dentro da panela. Às vezes juntava alguns feijões de lata, já previamente cozidos, ou umas massas, tipo cotovelo, ou macarrão. Uma couve lombarda. Enfim, os legumes que conseguisse comprar. Ia tudo para dentro da panela. As minhas sopas eram sempre iguais e, ao mesmo tempo, sempre diferentes. Dependia do que arranjava. E conseguia comer aquilo, mesmo sem mastigar.
Em certos dias, dias com mais fome e saturado daquelas papas e da sopa, apetecia-me comprar carne moída para fazer um chili com carne. Sonhava com esse dia. O dia em que os dentes já não me doessem e eu conseguisse mastigar. Estava então sentado na mesa da cozinha a trabalhar, depois de ter comido o Nestum com Mel, quando olhava para o fogão e via a frigideira com o chili e sentia uma fome danada. Um desejo de fome. Mas não estava lá chili nenhum. Era só a minha vontade. Há muito tempo que não comia chili com carne nem outras comidas sólidas. Não gostava das papas, mas gostava bastante de sopa. E não me queixava.
Então, era raro o telefone tocar. A campainha da casa, nem sequer me lembro de a ouvir. Todos os trabalhos que queriam de mim, todos os trabalhos que me encomendavam, era pedidos por e-mail. Não tinham que me encarar. Nem de ouvir a minha voz. Não havia contacto.
Naquela altura passei bastante tempo em silêncio. Em casa e em silêncio. Às vezes nem reconhecia a minha voz.
Então, no calor da salamandra, desejava que chegasse o Verão.
Porque tudo passa. Ou não?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

Naquela Época…

Naquela época não havia grande diferença entre o Natal e a noite de Passagem de Ano. A minha mãe passava os últimos dias na cozinha a popularizar odores que enchiam a casa. Havia talvez menos gente na Passagem de Ano. A comida também era diferente. Menos doces. Menos comida de adulto. Mais petiscos. E o que eu adorava petiscos. Também se bebia mais. Não eu, que tinha direito ao mesmo copo de sumo de laranja da Superfresco no Natal e na Passagem de Ano, mas os meus pais diversificavam o que bebiam e que eu ia percebendo pelas diferentes garrafas que se iam abrindo. No Natal era mais o vinho tinto, de garrafas iguais que se iam despejando, umas atrás das outras, enquanto que na Passagem de Ano mudavam frequentemente de garrafa de tipo de bebida e as garrafas não eram bebidas até ao fim. Com excepção do espumante que vertia metade para o chão da sala, sobre a alcatifa que, anos mais tarde, seria toda levantada e o chão de madeira afagado até porque a alcatifa fazia mal à minha bronquite, e o resto era despejado pelas goelas dos meus pais, aos poucos, e a mim era dado a provar um pouco daquelas borbulhas que me faziam impressão no nariz e que jurei nunca vir a gostar. E a verdade é que não gosto muito de espumante. Mas chega a noite da Passagem de Ano e, se ainda estiver em pé, é que há anos em que não chego acordado à meia-noite, já para não falar das Passagens de Ano que faço agarrado ao lava-louças, a lavar a louça do jantar e a evitar falar com quem quer que seja com quem me incompatibilizei por qualquer motivo tão estúpido quanto sem sentido e do qual já nem sei a razão, despejo uma garrafa pelo gargalo e no final arroto sonora e satisfatoriamente para gáudio da criançada que por qualquer azar do destino por cá se encontre.
Naquela época ainda acreditava no Pai Natal, em unicórnios e na bondade do homem. Naquela altura tudo isto me parecia mágico.
Agora a magia termina quando a carteira fica vazia. E tão facilmente ela fica vazia.
Agora sento-me na varanda, uma mantinha por cima dos ombros, e aguardo o fogo-de-artifício que a câmara municipal faz questão de mandar do alto do castelo. Tenho um volume de cigarros e um pacote de dez litros de Capataz. Deve chegar até à meia-noite e mais alguns minutos a acompanhar o fogo-de-artifício pelo ano novo dentro. Depois vou deitar-me. Talvez já bêbado. A desejar que o ano que se abre seja melhor que o que se foi. E doze meses depois perceber que é sempre igual. É sempre tudo igual. A história repete-se. E a minha vida também.
Estou um velho chato e demente. No meu tempo é que era bom. No meu tempo, no tempo em que os meus pais é que tratavam de tudo e eu não precisava de ser nada mais que um miúdo traquina que os pais amavam mais que a vida, é que as Passagens de Ano eram boas.
Agora só quero que tudo passe o mais rápido possível para que a vida recupere o seu regular caminho igual, monótono e chato com que consigo lidar todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/31]

A Passagem de Ano Já Chegou?

À minha volta é a azáfama. Ultimam-se os preparativos para a Passagem de Ano. Sou um privilegiado. Eu sei.
Estou na cozinha, encostado à janela aberta, a fumar um cigarro, e já sinto o frio que não esteve durante a tarde mas que começa agora a chegar.
Vejo, em cima da mesa, uns frascos individuais com Panna Cotta. Alguém pôs o bacalhau a cozer em leite. Alguém está a fazer molho béchamel (Isso de comprar em pacotes já feito, no supermercado, é para meninas, ouço dizer). Dizem-me que é para o Bacalhau com Natas que vamos comer amanhã ao jantar. Eu ainda adianto que Bacalhau com Natas não é comida de Passagem de Ano, mas logo alguém me responde que a cozinha está à disposição se eu quiser cozinhar algo digno da Passagem de Ano. Eu faço um sorriso amarelo e declino o convite.
Alguém passa por mim e deposita-me um copo de gin nas mãos. Não é um copo grande, em balão, para gins modernos. Não. É um copo alto, clássico, a lembrar as noites a perder madrugadas nos idos de ’80. É Bombay, dizem-me. Aceno um agradecimento.
No fogão fritam-se batatas. Voltam a dizer-me que é para o Bacalhau com Natas. Eu aceno, entendido, a cabeça. Mas fazer Bacalhau com Natas desta forma artesanal dá muito trabalho. Eu costumo comprar bacalhau já desfiado, batata palha e béchamel em pacotes. Mas antecipo um pitéu à maneira. Que venha o Bacalhau com Natas.
Na mesa vão crescendo pequenas taças com patés vários que alguém está a fazer. Azeitonas com alho e azeite. Jaquinzinhos da Horta. Toda a gente faz coisas. Eu fumo um cigarro e observo. Alguém tem de dar conta do que se faz e contar para memória futura.
No ano de 2019, nos fundilhos da calças já gastas do final do ano, houve alguém que se deu ao trabalho de cozinhar coisas boas para eu comer.
Lanço fora a beata do cigarro já consumido e vou pôr música. Alguém tem de cuidar do que é realmente importante. Ponho o No Home Record da Kim Gordon, aquele que foi, para mim, o álbum do ano. Aumento os decibéis a rebentar as colunas e os tímpanos. Há gente a abanar a cabeça enquanto trabalha em prol dos outros.
É para amanhã? Não, também é para hoje. Também comemos hoje, não? Ou ninguém tem fome?
Descubro pudins, bolos, um Tiramisú, um Strawberry Cheese Cake, na mesa da cozinha que vejo cada vez maior e mais cheia. Só doces. Onde estão os salgados, pá? Adivinhando as minhas preces, alguém leva-me um rissol de camarão à boca. É bom, a porra do rissol. Mas desfez-se num instante. Assim como o meu gin.
Agora vou eu fazer um. Pergunto quem quer. Copos altos, elegantes. Copos do tempo. Despejo gelo. Espremo limão. 1/3 do copo de Bombay. 2/3 de água tónica. Faço a distribuição. Esta gaita é boa.
Acendo novo cigarro.
Alguém chega com camarão. Passa-o por água. Coloca numa caixa de plástico e deposita-o no frigorífico. E eu pergunto-me porquê? Por mim morria já agora aqui. Mas sigo as ordens dos outros. Às vezes esqueço-me como é viver em comunidade. Como é viver com os outros. Então tenho de fazer um esforço para não ser parvo. E fico quieto. À espera que alguém decida. Tome a razão. Agrupe as vontades. O camarão é para amanhã. Assim seja.
Outro alguém passa por mim e larga-me uma pedra nas mãos e diz Faz aí uma, se queres ver. E eu tenho um momento de pausa. O que faço ao cigarro que tenho na mão?
Mando o cigarro pela janela. Faço o charro. Acendo-o. Dou-lhe mais duas passas e passo-o ao outro. No caso, à outra. Uma das que está a trabalhar aqui na cozinha.
Depois está toda a gente a rir. Depois está toda a gente a comer. Depois alguém diz, Deixem alguma coisa para amanhã. Depois alguém estende a mão e diz-me Faz outra! e larga-me outra pedra na mão. E eu faço outra. E fumo-a. E passo-a ao lado. E já toda a gente se ri. Eu também me rio. Nem me reconheço. Depois toda a gente come. Depois alguém diz Caga na Passagem de Ano.
E ouve-se uma gargalhada geral amplificada pelos sentidos de percepção aguçados e muito sensíveis que eu tenho.
Eu sou muito sensível, ouço-me dizer. E toda a gente me ouve dizer. E toda a gente se ri. E eu também me rio de mim.
Alguém abre uma garrafa de espumante. A rolha salta e ninguém vê para onde foi. O espumante espalha-se pelo chão da cozinha. Alguém diz Que se foda a Passagem de Ano. E depois toda a gente bebe pelo gargalo. E alguém diz Tu não que tens herpes. Tenho herpes é o caralho, responde outra voz.
A garrafa circula. Alguém agarra numa esfregona e tenta limpar o chão da cozinha.
Alguém agarra-se a mim e beija-me. Sinto uns lábios a roçarem-se nos meus. Sinto uma língua a entrar dentro da minha boca. Sinto uma mão à procura do meu sexo. Ouço uma voz sussurrada dizer-me ao ouvido Feliz Ano Novo. E eu penso Mas ainda não é hoje, ou é?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/30]