A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]

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As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

A Cadeira Miniatura da Minha Avó

No alpendre aqui de casa há uma cadeira pequenina, de madeira, comprada numa feira de artesanato, que lembra as clássicas cadeiras grandes de madeira, mas em miniatura, que era mais decorativa que outra coisa mas que o gato adoptou e para onde costuma ir dormir, principalmente se eu estou sentado lá fora, a fumar um cigarro, a beber um copo de vinho e a ler um livro ou, simplesmente, a olhar as montanhas em frente, carecas, secas e verde-musgo no Verão, cheias de neve branca no Inverno.
Às vezes, quando vejo o gato a dormir nessa cadeira em miniatura, lembro-me da minha avó materna que, lá em casa, em casa dos meus pais, tinha uma cadeira assim, parecida com esta, um pouco mais resistente e cómoda, onde a minha avó se sentava. Era a cadeira dela. Sentava-se naquela cadeira estivesse na cozinha a descascar batatas, na sala a ver as suas novelas, na varanda a respirar ar fresco ou no quintal a ver-me, a mim e à minha irmã, a brincar feitos cabritos, aos pinotes por todo o lado e a subir a nespereira que lá estava, para tomar conta de nós e ver se ninguém caía e partia a cabeça.
A minha avó só não se sentava naquela cadeira às refeições porque senão não chegava à mesa.
Sempre me interroguei o porquê de ela sentar-se sempre naquela cadeira.
Talvez porque tenha sido o meu avô a fazê-la com as suas mãos, de propósito para o corpo da minha avó. Talvez porque como ela era pequena, sentada naquela cadeira em miniatura conseguia ficar com as pernas num ângulo de noventa graus e não quase de pé como eu a via quando ela se sentava à mesa para almoçar ou jantar e só se encostava com o rabo à cadeira, até que um dia a cadeira escorregou e ela caiu. Não partiu a bacia, mas andou uns dias dorida. Depois, a partir desse dia, passou a sentar-se com o rabo na cadeira e os pé passaram a ficar pendurados como ficavam os meus quando eu era pequenino e queria ser grande. Ou talvez porque na sala ela enterrava-se no sofá e não conseguia sair sem ajuda e tinha a sensação que se ia afundar no fofo do sofá e ser engolida pelo monstro do conforto e nunca mais nos veria, a mim e à minha irmã, os seus diamantes, a quem permitia todas as brincadeiras por mais estúpidas que fossem.
Mas não sei. Nunca lhe perguntei. Nem nunca perguntei à minha mãe.
Lembro-me disso agora, quando vejo o gato deitado naquela cadeira miniatura que está no alpendre aqui de casa e que comprei numa feira de artesanato nem sei bem porquê.
Nos dias frios e de cacimbo, o gato dorme lá em cima, todo enrolado nele próprio, como uma bola de pêlo. Nos dias de calor deita-se esticado, por vezes com a cabeça tombada para o chão.
Quando o cão passa por lá, dá uma lambidela no pêlo do gato. A maior parte das vezes o gato ignora. Outras vezes levanta a cabeça, olha para o cão e volta a dormir. A vida é muito complicada para os gatos.
Acho que até a minha avó, velhinha, já com muitas dificuldades de locomoção, era muito mais interactiva que o gato.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/04]

A Morte a Rondar

De novo a morte. Ela ronda. Anda sempre a rondar. Como se quisesse dizer que está ali, sempre presente. À nossa espera. Que não somos mais que ninguém. Que todos temos um bilhete de ida e volta e, o regresso, é inevitável.
A morte não precisa de se anunciar ao nosso lado. Não precisa ser dentro de casa. Não. Basta ser à distância. É só um lembrete. Quem julgas que és?
Hoje foi assim. Primeiro um aviso noticioso no telemóvel. Depois as redes sociais. Primeiro timidamente, em seguida de jorro. Por último a televisão.
Não se lhe pode escapar. Não era dentro de casa. Era exterior. Mas um exterior que andou anos e anos a entrar em casa através da televisão, dos livros, das ideias. Um nome muito presente se bem que um pouco esquecido nos últimos anos. Mas basta um pequeno clique para que tudo venha à tona.
A morte. A morte de alguém é sempre a consciência da nossa própria mortalidade.
Dou por mim encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. O dia está limpo. O céu está azul chroma. Não há nuvens. Vejo na perfeição os contornos das montanhas e as poucas árvores existentes naqueles montes carecas estão recortados no céu.
Será assim a morte? Uma luz tão forte e tão branca que não vejo nada e só lembro os dias ensolarados da minha vida? Ou uma escuridão de breu onde nada existe a não ser o sonho da minha própria morte numa repetição sem fim?
Divago.
Tenho uma relação muito estranha com a morte. Não me mete medo, mas incomoda-me. Não tenho medo que chegue quando achar que deve chegar, mas chateia-me quando me leva quem eu amo e queria ter aqui ao meu lado para sempre. Pelo menos para todo o meu sempre.
Estou encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. Acendo um cigarro. Penso que posso morrer um dia destes de cancro do pulmão. Mas não me impede de aspirar, com algum prazer, o fumo, e prendê-lo nos pulmões.
O gato vem ter comigo. Roça-se nas minhas pernas enquanto faz curvas impossíveis entre uma perna e outra. Senta-se à minha frente a olhar, apático, para mim. Mia. Mia sem grande convicção. Acho que mia porque é da sua condição miar. Mas tem comida na tigela. E água. A areia das necessidades está limpa. A cama sacudida, embora prefira dormir em qualquer lado menos na cama que lhe destinei.
Olho para o gato e pergunto-lhe O que vai ser de ti quando eu morrer? E o gato levanta-se e vai-se embora. Ignora-me. Acho que eu preciso mais dele que ele de mim.
Apago o cigarro. Entro em casa e ponho um tacho com água ao lume. Vou cozer um bocado de esparguete. Depois misturo atum. Está a apetecer-me comer algo assim, simples e estúpido. Vou partilhá-lo com o gato.
Fico sempre assim, perante a morte. Não tenho medo. Mas incomoda-me. E dá-me para a estupidez. Como comer esparguete com atum.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/03]

A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]