As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]

O Silêncio

Reina o silêncio cá dentro de casa.
Páro no corredor. Vou a caminhar, descalço, pelo soalho de madeira e páro. Escuto o silêncio que está em casa. Não ouço nada.
Aos poucos começo a descobrir que este silêncio é mentiroso. Aos poucos começo a descobrir pequenos sons que matam o silêncio.
O primeiro som em que reparo é o da minha respiração. Tento respirar em silêncio, mas não consigo. Tenho uma respiração pesada. Respiro pela boca. Tenho o nariz entupido. Respiro pela boca e a boca fica seca. Ouço a respiração. Não é ofegante. Mas é sonora. E não consigo que não seja.
Depois percebo uma mosca ao fundo na sala. Ou se calhar não. Se calhar é aqui mais perto de mim. Não tenho uma audição tão boa. Não me é possível ouvir uma mosca a voar ao fundo, na sala. Ou é?
Com atenção, ainda percebo um ping-ping de umas gotas que caem no depósito de água da sanita.
Ouço uns estalos nos ossos do meu corpo. Primeiro nos joelhos. Talvez pelo esforço de estar aqui assim, em pé, parado, no meio do corredor. Depois as costas. Faço força para me endireitar e os ossos das costas estalam e parece que o corredor amplia o som dos ossos a estalar como uma caixa de ressonância.
Não ouço mais nada.
Retomo o caminho. Ouço-me a caminhar. Ouço os pés nus a colarem-se e descolarem-se do soalho de madeira. Vou até à sala. E ouço uma folha do jornal a esvoaçar. Mas é impossível. Não há janelas abertas. Não há corrente-de-ar. Não se produz vento. Como é que a folha do jornal esvoaça?
Vou até à janela. Olho lá para fora. Está lá o gato, sentado num muro. O gato olha para mim e abre a boca. E eu ouço o gato miar. Eu ouço o gato miar do outro lado de uma janela com vidros duplos e a uma distância de, talvez, cinco metros.
Uma águia a planar sobre a casa chama-me a atenção. Levanto o olhar. Observo-a. E ouço o som das asas a cortar o ar fffffffffffff. Vejo-a a cair sobre a terra. Desaparece atrás de umas árvores. Logo depois volta a subir. E leva algo nas garras.
E então começo a ouvir uma música como se fosse uma banda sonora. Uma banda sonora do filme da minha vida. E isto soa-me ao que John Barry fez para o Out of Africa.
E eu penso que devo estar a sonhar. Belisco-me. Dói-me. Magoo-me. Dou um berro. Acabo com o silêncio. E não percebo o que se passa comigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/20]

Tomei Banho

A serra ali em frente tem sempre um capacete a proteger-lhe o cume. Às vezes nem o vejo. O capacete subtrai-o. Outras vezes o capacete ganha umas abas que descem serra abaixo e, milagre, a serra desaparece.
É normal haver capacete sobre a serra e o resto do céu estar limpo. Azul, azul-água, azul-bebé, cinzento, branco-sujo. Mas sem nuvens. Elas juntam-se sobre a serra numa orgia monumental: por vezes percebo as nuvens movimentarem-se, lentamente, sobre a serra, a acariciá-la, a dar-lhe mimo. Por vezes chove. Por vezes chove só mesmo lá na serra.
É o que está acontecer agora, na serra. Está a chover. Aqui está sol. Um sol amarelo. Envergonhado. Não há nuvens. Não vai chover. Mas chove lá em cima. Na serra. Percebo daqui.
Estou no alpendre a tentar arranjar o aspirador. Desde que ele avariou que nunca mais aspirei a casa. Já lá vão quantos meses? Nem sei. Perdi-lhes a conta. Mas vejo a quantidade de cotão nos cantos da casa. O pó. Percebo-o quando respiro. Respiro mal. Sinto-o entrar-me pelos pulmões. Sinto-lhe o cheiro. Percebo-me a dificuldade em respirar.
Sentei-me no chão do alpendre e já desmontei o aspirador. Descubro que uma peça de lego estava a tapar a passagem do tubo. De onde é que terá vindo a porra da peça?
Retiro a peça. Sopro lá para dentro. Espreito. Não vejo nada. Volto a montar o aspirador. Coloco-lhe um saco de lixo novo. Levanto-me. Não!… Tento levantar-me.
Não estou habituado a estar sentado no chão. Os músculos estão a armar-se em parvos. Não querem ceder. Os ossos também não estão melhor. Foda-se! Rebolo no chão. Tento levantar-me de costas. Empurro o rabo para cima. Ajudo com os braços. Agarro-me à cadeira. E, finalmente, lá estou eu em pé. Estico-me. Agarro-me ao varandim do alpendre e estico-me. Estico os braços. As pernas. Tento elevar o corpo para cima. Ouço-me estalar. É bom sinal, não?
Começo a aspirar a casa. Começo aqui na cozinha e deixo-me ir por aí fora. O barulho embala-me. Corredor. Sala. Corredor. Quarto. Corredor. Quarto. Esqueço a serra, o capacete, a chuva. Esqueço o cotão que vai desaparecendo dentro do aspirador engolido pelo tubo de aspiração.
Mudo o saco do lixo. Duas vezes.
Com a casa aspirada e o aspirador arrumado na despensa, batem à porta. Ouço o toc-toc das nozes dos dedos a bater na madeira.
Abro a porta. É a vizinha. Traz uma cafeteira com café da avó e umas filhoses.
Sento-me no alpendre. Ela senta-se comigo. Bebemos o café. Trincamos uma filhós. Olhamos a chuva a cair na serra mas não vimos nada. Olhamos um para o outro. Tenho a casa limpa. Tenho a cama feita de lavado. Tomei banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/02]

Fui Eu Quem Assaltou Tancos

Fui eu quem assaltou Tancos.
Estava ali mesmo ao lado. Tinha ido à Brandoa. Na volta passei por Tancos. O portão aberto. A guarita deserta. O paiol a chamar-me. E eu a precisar. Sim. Aceitei o convite. Como diz o povo A ocasião faz o ladrão.
Tenho andado com medo.
Fiz uma lista e fiquei com medo.
Atentem. Atentem na lista:
Donald Trump; Nicolás Maduro; Daniel Ortega; Giuseppe Conte; Matteo Salvini; Viktor Órban; Mateusz Morawiecki; Recep Erdogan; Benjamin Netanyahu; Bashar al-Assad; Teodoro Obiang; Mohammad bin Salman; Vladimir Putin; Kim Jong-Un; Rodrigo Duterte.
E agora Jair Bolsonaro.
E, agorinha mesmo, que vi a capa do jornal i pendurado no quiosque, o Tomás Taveira.
Estes são os que me lembro assim, de repente, numa lista feita de cabeça entre o semáforo Vermelho e o Verde. Há quem enfie o dedo no nariz e apanhe macacos. Eu faço listas. No Natal e Fim-de-Ano é uma paranóia sem fim.
Tinha que dar cabo deste medo antes que este medo desse cabo de mim.
Fui ao paiol. Carreguei-me. Carreguei o carro. Apetrechei a casa.
Depois fui ao supermercado. Ainda passei no Pingo Doce, que é perto de casa, mas estava uma tristeza. Pouca coisa. Coisa ruim. Fruta verde. Pouca variedade. Muita gente.
Acabei a fazer compras no Continente Online e vieram trazer a casa. O futuro é risonho.
Agora estou preparado.
Entro no Facebook e já não me assusto com tanta facilidade. Estou preparado para esta gente. Para os Haters. Para os que Acham. Para os que Sabem Sempre Tudo. Para os que Têm Certezas e Nunca se Enganam. Para os Admiradores de Cavaco Silva. Para o Hernâni Carvalho.
Agora estou preparado e não preciso mais de sair de casa.
Quer dizer, preciso de sair para comprar pão fresco, que não consigo comer pão duro e a torradeira está avariada, e pagar as contas no Multibanco, que não gosto que me saquem dinheiro directamente da conta sem confirmar se está tudo correcto. Esta gente não é de confiança.
Depois fico aqui. Deitado no corredor. Frente à porta da rua. Em cima de uns sacos de areia que fui encher à Praia do Pedrogão.
À noite, quando me deito, deixo a porta armadilhada com C4. Antes de me foderem, fodem-se a eles.
Mas agora, lembrei-me, E se precisar de uma gaja?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/04]

Não às Mulheres Cá em Casa

Ela tomou banho cá em casa, hoje. Mas não era suposto. A verdade é que acabou por me arranjar um grande problema.
Cruzei-me com ela ontem à noite, ao balcão de um bar. Pediu-me um cigarro, e eu ainda tinha. Dei-lho. Estávamos os dois bastante bebidos, mas com vontade de beber mais. Acabámos ambos na rua. Há uma altura em que os bares fecham e os clientes, mesmo os bons clientes, são postos na rua. Ficámos os dois a vomitar para a mesma sarjeta. Quando demos por isso, estávamos os dois a rir, que nem parvos, abraçados um ao outro, a limpar a boca às mangas das camisolas.
Sem sabermos para onde ir, e sem dinheiro para ideias, acabei por lhe perguntar se queria ir até lá a casa. Aceitou. E eu arrependi-me.
Lá em casa não era, de facto, uma casa. Era um quarto. Um quarto alugado em casa de uma senhora que não gostava que levássemos mulheres para lá. Dizia que As mulheres que aceitam ir para o quarto de um homem são umas vadias, para não dizer pior. Por isso não quero cá mulheres em casa. Mas já era tarde, ela já tinha dito que sim, já íamos os dois a caminhar abraçados ao longo da estrada, um aparava o outro, e ela já tinha percebido, que eu já lhe tinha dito, que tinha uma garrafa de jeropiga lá em casa.
Tentámos não fazer muito barulho, para não acordar a dona da casa.
Entrámos no quarto. Despimo-nos e enfiamo-nos na cama. Não tivemos grandes preliminares. Ela agarrou na garrafa de jeropiga, meteu o gargalo à boca e bebeu. Deixou-me um restinho. Depois tratou logo de resolver o assunto do sexo comigo e eu acabei rapidamente por o encerrar. Estava cansado. Queria dormir. E ela tinha-me bebido a jeropiga toda.
No final de nos termos satisfeito perguntei-lhe Queres que chame um táxi?, ao que ela respondeu Não, não tenho dinheiro para o táxi, e além do mais, quero dormir contigo. Acabou de falar, virou-se para o outro lado e adormeceu.
Eu fui até à janela. Abri-a. Acendi um cigarro e fiquei ali à janela a fumar e a olhar para a cidade deserta. O que é que se há-de fazer?, pensei.
Acabei por me deitar na cama, ao lado dela e acabei também por adormecer.
Acordei cedo e chamei-a. Ela foi tomar banho. Tomou um longo banho.
Voltou ao quarto, enrolada na minha toalha. Vestiu-se e eu fui levá-la à porta da rua. Despediu-se com um beijo nos lábios e disse-me Quero voltar a ver-te, virou costas e foi embora.
Eu fechei a porta e voltei para o quarto. No corredor cruzei-me com a dona da casa que me disse Acho que precisamos de falar, ao que respondi, Mais tarde, mais tarde.
Agora estou fechado no quarto a tentar não me cruzar com a dona da casa. Que raio é que lhe hei-de dizer?

[escrito directamente no facebook em 2018/02/11]

Abrir as Janelas e Deixar Entrar o Ar

Ela abriu a porta e eu entrei.
A casa estava com um cheio a bafio. Sentia-se a humidade ao longo do corredor até chegar à sala.
Ela sentou-se numa poltrona, com os pés debaixo do rabo, e cobriu-se com uma mantinha. Encostou a cabeça a trás e deixou tombar o olhar para o chão.
Sentei-me no sofá grande. A olhar para ela. Não sabia o que dizer.
Levantei-me e fui abrir as janelas para deixar entrar o ar. Olhei em volta e vi restos de fruta espalhados por todo o lado, cheios de mosquitos. Vi uma caixa grande, aberta, com metade de uma pizza já toda ressequida. Várias garrafas de plástico de água, umas vazias, outras com restos, algumas deitaram água fora e via-se a mancha molhada em redor. Vi uma embalagem de gelado meio-cheio com um gelado já líquido.
Aproximei-me dela e sentei-me no braço da poltrona. Fiz-lhe uma festa na cara e puxei-lhe o cabelo para trás e perguntei-lhe Queres ir dar uma volta? De carro! Vamos sair, mas ela respondeu abanando a cabeça de uma forma quase imperceptível.
Levantei-me e fui até ao quarto dela. Abri as janelas. Mudei-lhe a roupa da cama. Apanhei todas as peças de roupa que estavam caídas pelo quarto e pela casa-de-banho, levei-as para a cozinha e coloquei-as na máquina de lavar. E liguei a máquina. Aproveitei e abri também as janelas da cozinha.
Abri o frigorífico. Depois fui à despensa. Fritei um tacho de arroz. Encontrei duas coxas de galinha já a entrar em fase colorida, mas ainda sem mau cheiro, e resolvi assá-las no forno. Polvilhei-as com sal e pimenta, juntei uma folha de louro, um bocado de manteiga em cima da carne e coloquei no forno.
No fim, deixei tudo em cima da mesa da cozinha.
Voltei à sala e sentei-me, de novo, no braço da poltrona. Tens tomado os comprimidos?, perguntei-lhe, e ela acenou com a cabeça. Puxei-a para mim e envolvi-a nos meus braços. E ela deixou-se abraçar. Mas algum tempo depois saiu da sala e foi para o quarto. Fui atrás dela e, da porta, disse-lhe Tenho de me ir embora, mas venho jantar contigo. Já deixei tudo feito. Tomas um banho e jantamos na sala, está bem?, e ela acenou que sim e puxou o edredão sobre a cabeça.
Fechei as janelas do quarto. Voltei à sala, e apanhei todo o lixo que por lá estava e fechei, também, as janelas. Passei na cozinha e peguei no saco do lixo que lá estava e, carregado de sacos do lixo, saí de casa dela.
Sabia que quando voltasse, ela iria estar ainda ali, dentro da cama. Mas sabia que tinha de a ajudar. Não sabia era bem como.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/01]