A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

O Faz-Tudo que Não Cobra IVA Nem Passa Recibos

À minha volta há tendência para o desgaste, para a avaria, para a morte ou, pelo menos, para o acidente. Tudo tende a estragar-se nas minhas mãos.
Depois dos elevadores do prédio que se avariam todas as semanas, desta vez foram as persianas da sala. E precisamente quando estava com uma louca vontade de voltar a pegar num cigarro e fui impedido de o fazer, não conseguindo chegar à varanda.
Lá telefonei para o tipo faz-tudo que não cobra IVA nem passa recibo. É um gordo enorme com dificuldade em respirar. Chegou cá a casa a deitar os bofes pela boca – os elevadores estão avariados, outra vez. Os dois.
Depois de lhe dar um copo de água da torneira, sentei-me no sofá a apreciar a mestria do homem e a dificuldade em levantar os braços para tirar a tábua da caixa onde se esconde a persiana. Lá tive de ir buscar o escadote. E a chave-estrela. O canivete-suíço – não sei bem para quê. O rolo de cozinha – esse percebi que era para ensopar a testa.
Depois de fazer descer a persiana, retirou uma série de réguas que, parece, estavam estragadas, telefonou e deu uma data de instruções em linguagem de iniciados.
Ficou parado a olhar para mim. Passado um bocado tocam à campainha e era o correspondente feminino de tipo faz-tudo com uma série de réguas debaixo do braço.
Enquanto o tipo faz-tudo colocou as mãos na cintura a olhar, a rapariga, A minha filha que está a seguir as pegadas do pai, disse com grande orgulho, esta arranjou as persianas tão rápido que nem tive tempo de perceber que já estavam a sair de casa com o tipo faz-tudo a dizer que viria receber na próxima semana Quando vier arranjar a fechadura da porta de entrada que está por um fio, e, se não me engano, a canalização da cozinha que quando tirou água para o copo percebi aí um barulho muito estranho que lhe irá dar problemas.
O que seria de mim sem esta gente?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/24]

Um Sorriso Rasgado

E as gajas não se calavam.
Uma dentro do balcão. A outra do lado de fora. Não sei se era um engate. Podia não ser. Mas para mim, que estava ali sozinho, afogado em cerveja, cada vez que precisava de nova imperial tinha de interromper a conversa, porque não me ligavam nenhuma nem queriam saber se o meu copo estava vazio, só podia ser.
Depois de me tirar a quinta imperial e a depositar à minha frente, sempre sem olhar para mim, tive de levantar a mão para lhe pedir Uns amendoins, por favor, que precisava de acamar o estômago.
Entretanto chegou-se ao balcão um tipo todo elegante e bem cheiroso. Largou um porta-chaves da Porsche, como quem não quer saber da coisa e pediu um Scotch, simples. Olhou para mim. Olhei para ele e arrependi-me logo. O tipo abriu-se num sorriso e sentou-se ao meu lado.
Larguei uma nota em cima do balcão e saí do bar. Tive pena de falhar o fim da estória das raparigas. Mas não me estava a apetecer estar com pessoas. Cansam-me.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/23]

Cansado

Cheguei a casa cansado e deixei-me cair sobre o sofá. Adormeci.
Acordei algumas horas mais tarde com o som da televisão do vizinho de cima. Som de novela. Grande gritaria. Tiros. Algumas frases que já esqueci mas que me fizeram pensar que o nível dos argumentistas de televisão estava a descer muito.
Fui até à cozinha. Peguei numa faca de serrilha e cortei uma carcaça. Abri o frigorífico e retirei o pacote de manteiga. Barrei a parte de baixo do pão aberto ao meio. Comecei a comer. Fui até à janela da cozinha e pus-me a olhar para fora.
A gritaria lá em cima continuava. Malditas novelas. Maldita surdez.
Da janela da cozinha vi chegar um carro da polícia. Depois outro. Os agentes saíram rápidos dos carros e desataram a correr. Ouvi outro tiro da novela. E depois o silêncio. Os agentes passaram a correr à beira da minha porta.
Ouvi bater na porta do vizinho de cima. Depois o estrondo de uma porta a abrir-se à força.
Deixei-me cair de novo no sofá, Estava cansado. Queria que o sono me levasse para outra novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/22]

O Cheiro da Proximidade da Morte

O que mais me incomoda é o cheiro. O cheiro da proximidade da morte. A urina. A flatulência. Os odores exalados do corpo. Os dentes podres e a cair. As feridas que não saram. O sangue que não pára de pingar sobre as carpetes que eu tenho de limpar. A casca das cicatrizes arrancadas para o chão. O vómito provocado pela comida ingerida à força para alimentar um corpo que se quer despedir.
Mas o que mais me preocupa é que isto tudo é uma antevisão do que me espera. Os cheiros serão os meus. O desejo de despedida será o meu.
Repetimo-nos eternamente. De uma forma quase sagrada. Obrigatória. Até desaparecermos todos.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/21]