Um Tempo que Me Falha

Os dias passam vorazes por mim. Perco-me no tempo. Mal acordo e me levanto, já é noite, hora de jantar e ir para a cama. Não sei para onde vão os dias, as horas, os minutos. Não sei como fazer o que tenho para fazer no pouco tempo que os dias têm.
Penso que há menos tempo no tempo dos dias de hoje do que havia nos dias de ontem. Não é só uma sensação. É factual. As coisas que eu conseguia fazer ao longo do dia eram muito mais do que consigo fazer hoje. Os dias de antigamente eram enormes faixas de tempo onde cabiam inúmeros mundos. Hoje, essa faixa de tempo é uma ausência. Espirro e termina. Esvai-se num estalar de dedos.
Lembro-me dos dias de Verão da minha infância. As férias grandes, grandes porque eram de facto grandes, enormes. Quando chegávamos a Setembro tínhamos saudades da escola, dos amigos da escola, do cheiro dos livros novos, das folhas imaculadas dos cadernos novos, as novas canetas e as várias versões coloridas, azul, preto, vermelho e verde, eram Bic laranja e cristal. Naqueles Verões havia tempo para viver muitas vidas. Eu vivi muitas vidas. Muitas vidas num só dia. Acordava de manhã. Pequeno-almoço de uma fatia de pão saloio torrado e um copo de leite com Ovomaltine enquanto lia uma banda-desenhada da colecção Falcão ou alguma revista de cowboys da colecção Histórias do Faroeste ou do Buffalo Bill. Vestia-me e ia para a rua. Encontrava outros como eu. Íamos para o pinhal procurar os nossos Rochedos do Demónio em terra firme. Ou para um prédio em construção dar saltos do primeiro andar, ou do segundo, para o monte de areia que às vezes era rija e mais parecia rocha. Subíamos às nespereiras e às figueiras, as árvores mais imponentes da rua, para navegar em alto mar e encher o bandulho de fruta fresca nascida espontânea e sem químicos. Às vezes ia mesmo verde. Às vezes entrávamos dentro dos mares de silvas para apanhar as amoras. Eram pretas. Eram vermelhas. Eram agridoces e muito boas. Regressava a casa para almoçar. Era obrigatório dormir a sesta. E era o que fazíamos. Dormíamos a sesta. Eu deitava-me em cima da cama a ler uma banda-desenhada e deixava-me adormecer. Transpirava porque fazia sempre muito calor. Acordava e lanchava. Não podia sair de casa sem lanchar. E depois ia jogar à bola num dos pátios da rua. Ou um jogo de tabuleiro, normalmente o Monopólio, na garagem de algum de nós, ou íamos brincar para o pequeno riacho que lá passava perto, que não dava para mergulhar nem nadar mas dava para andar na brincadeira, molharmo-nos todos e chegarmos a casa e levarmos uma palmada ou um puxão de orelhas. A infância daquele tempo vinha com alguns castigos físicos, mas que compensavam a maluquice daqueles dias que nunca mais acabavam. E não! Não acabavam. Eram enormes. E ainda havia tempo para fazer asneiras como ir roubar na mercearia da rua ou entrar em casa de alguém que deixara a porta no trinco para roubar pacotes de batatas fritas Dora-Dora ou pacote de bolacha Maria torrada que barrávamos às mãos-cheias de manteiga Primor.
Agora sento-me em frente ao computador, depois de me levantar de manhã e beber uma caneca de café, e quando dou por mim tenho a página do Word em branco, não fiz nada, e a noite já cai lá fora.
Que porra de tempo este que me falha cada vez mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/16]

(Des)Concentração

Não consigo concentrar-me.
Descubro-me frente ao computador a olhar para um formulário, a tentar ler o que lá está escrito, a tentar perceber o que me é pedido, e parece que estou a olhar para uma página escrita nalguma linguagem desconhecida. Pronuncio as palavras alto para as ouvir e entender, mas não dá resultado. Esqueço-me do que acabei de falar. Esqueço-me do que acabei de ouvir.
Baixo a tampa do computador. Levanto-me e acendo um cigarro. Olho em volta. Noto que estou na cozinha. Trabalho muito na cozinha, digo em silêncio para mim.
Coço o rabo. Suspiro.
Abro a porta da rua, do alpendre. Os gatos vêm logo ter comigo a miar. Olho para as tigelas deles e vejo que têm comida e água. São uns pedinchões, vocês, ralho-lhes. Vejo o cão ao fundo, no quintal, parado a olhar para mim. Ela não vem ter comigo. Dá o espaço aos gatos.
Disparo a beata do cigarro para longe com um golpe do dedo médio como uma mola. Como se estivesse a jogar com berlindes nas traseiras do pavilhão de ginástica do colégio, quando ainda tinha idade para andar no colégio e jogar ao berlinde e ainda não tinha medo do futuro. Este futuro.
Entro em casa. Vou até à sala. Sento-me no sofá. A televisão desligada. A janela aberta. As persianas e os vidros. Gosto da aragem que entra em casa e me afaga. Sinto um certo conforto. Ao meu lado, pousado no sofá, um livro de banda-desenhada. Os Vampiros do Filipe Melo e Juan Cavia. Pego-lhe. Tem uma marca. Retomo a leitura na marca. Não sei o que estou a ler. Recuo duas páginas. Quatro páginas. Seis páginas. Não recordo aqueles desenhos. As pranchas parecem-me desconhecidas. Não me lembro daquela estória. Tento ler mas não consigo. A cabeça foge para outros lados. Não consigo concentrar-me.
A cabeça começa a doer-me.
Levanto-me e regresso à cozinha. Olho a mesa e o computador em cima da mesa. Penso que há qualquer coisa no computador que requer a minha atenção. Não consigo lembrar-me do quê.
O coração começa a bater muito rápido. Cai-me uma enorme angústia em cima. O que é que se passa? O meu corpo começa a contorcer-se. Quer chorar. Mas antes que comece a chorar, o chão começa a tremer. Sinto a casa a abanar. A portas dos móveis abrem-se e fecham-se com fortes pancadas sonoras. Ouço, vindo lá de dentro, talvez da sala, o som do que me parece uma garrafa a cair no chão e a estilhaçar-se.
Não sei quanto tempo está o mundo a abanar, mas parece uma eternidade. Devia estar com medo. Não estou. Sinto mesmo um certo alívio. O tremor-de-terra é a minha trepanação. Liberto a pressão.
Sopro. Deito fora o ar que me enche os pulmões. Acendo outro cigarro. O chão ainda treme. Uns pratos escorregam no lava-loiças e caem para dentro da pia. Acho que não se partiram. Coloco a mão na mesa.
Suspiro. De repente deixo de sentir o chão a tremer. Acabou sem eu dar por isso.
Olho para o computador fechado em cima da mesa da cozinha. Deixo-o assim. Não o vou abrir. Não consigo. Não consigo ler. Não consigo perceber.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Não vejo os gatos nem o cão. Devem estar com medo. Sento-me no alpendre. Os gatos aparecem de onde estavam e vêm para cima de mim. O cão vem atrás deles e deita-se aos meus pés.
Estamos todos juntos. Juntos e vivos.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/15]

Eu Sou uma Obra de Arte

Eu sou uma obra de arte. A verdadeira. Não uma simples representação. Não uma mera reprodução. Não o resultado de trabalho à volta da estética, de escolas, de discussões, de fórmulas políticas ou representativas.
Eu sou o produto real. Verdadeiro. Não reproduzível. Único.
Eu e a minha vida. Com os meus erros. As minhas mentiras. Os meus problemas. Com tudo o que eu construo e crio e transporto comigo, sou uma obra de arte total, conceptual e complexa. Não sou a falsidade de uma representação ou de um olhar ou de um desejo ou de um estudo académico ou um fruto momentâneo filho da época.
Eu não sou o retrato, eu sou a coisa. A obra. Eu e os anos que transporto em cima de mim. E os vindouros. Eu e os meus caracóis, com nuances grisalhas. As minhas rugas. As minhas olheiras. O papo no meu pescoço. A minha corcunda. A barriga que se diz de cerveja mas que já é da cortisona e do excesso de pão, a comida do pobre. Os meus pulmões que chiam a cada cigarro fumado. O rabo que tende a desaparecer à medida que a barriga aumenta. A pila que já nem consigo ver cá de cima, com olhos a necessitar de óculos. Eu. Este sou eu. Gordo. Feio. Marreco. A ficar careca. Desdentado. A cheirar mal da boca quando não lavo os dentes com Colgate Total. Eu sou a obra. A obra ricamente defeituosa, como convém à obra de arte. A arte não se quer perfeita. É feita de barro. Pincelada. Cinzelada. Martelada. Não é ciência (embora possa ser) nem uma equação matemática (embora o possa também ser). A obra, e esta obra, tem enganos, erros, asneiras. A verdade é feita de esquecimentos. De quedas. Eu sou uma mentira verdadeira. Uma verdadeira mentira. Um conjunto de perguntas e respostas, de estímulos e estimulados. Sou o que vêm e o que não vêm. Mas podem percepcionar. Calcular. Imaginar. Podem ser levados ao engano. Ao erro, estão a ver? Mas sou real, verdadeiro. Toquem-me. Sintam-me. Façam-me mal. Façam-me chorar. Magoem-me. Percebam quem sou e o que sou. Olhem para mim. Vejam-me. Olhem-me. Percebam-me. Abram-se a mim, à minha experiência. Ao meu sabor. Ao meu cheiro. Às minhas acções. Às minhas escolhas. Sou uma obra de arte e sou igual ao resto dos resto de gente que se parecem comigo, mas não são eu. São outros.
Eu sou uma obra de arte. A sala de exposição onde estou é o mundo, as cidades por onde passeio, as casas onde vivo. Dou-me gratuitamente para vosso regalo. Sou a obra que ninguém paga para ver e apreciar.
Por vezes sou esquecido. Por vezes sou ignorado. Por vezes tendem a não ver-me, a esquecer a obra de arte, por troca de nada. O vazio é, por vezes, apelativo. Trocam-me por um frio ecrã de computador, tablet, telemóvel. Mas eu estou aqui. E aí. Também posso estar no ecrã. Em qualquer ecrã. A fazer o que faço. A comer. A beber. A trabalhar. A descansar. A ler. A conversar. A dormir. A defecar. A foder. A beijar. A matar. A ser morto. A falar. O que eu posso falar! Querem escutar?
É possível eu ser morto? Não. De todo. Posso ser destruído. Dizimado. Desfeito. Mas morto, morto não. Já sou uma obra de arte. Estou no mundo. Entrei na cabeça de algumas pessoas. No olhar de outras. Já fui visto e falado, comentado. Já faço parte da história do mundo. Posso desaparecer. Mas não morro.
Sou uma obra de arte e estou com um livro na mão. A obra de arte é sedenta de conhecimento. Enquanto se deleitam comigo, eu deleito-me com outras pequenas obras de arte. Pequenas obras que fazem de mim grande.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/01]

A Minha Casa Tem um Buraco por Onde Me Foge Tudo

Às vezes penso que há um buraco temporal em minha casa.
Há coisas a desaparecerem.
Por vezes vou à procura de um livro que sei que tenho e dou com o sítio mas não com o livro. Percorro todas as prateleiras à procura dele, como se fosse possível eu colocá-lo fora de ordem. Procuro nas pilhas de livros a aguardarem vez de leitura ou vez para serem armazenados por ordem alfabética nas prateleiras. Procuro onde não devem estar. Mesmo na casa-de-banho. Mesmo no frigorífico. Já procurei no congelador. Em vão.
Não vem ninguém a minha casa. Há muitos anos que ninguém franqueia as portas de entrada. Agora nem mesmo a senhora que me vinha fazer a limpeza da casa. Mandei-a não vir mais que não tinha dinheiro para lhe pagar. Passei eu a aspirar a casa uma vez por semana. Uma vez por semana mudo os lençóis da cama e as toalhas da casa-de-banho e faço duas máquinas de roupa. De mês a mês sacudo os tapetes. No início da Primavera, lavo os tapetes no quintal, mando-lhes com uma mangueirada para cima, despejo-lhes um bocado de detergente e esfrego-os com uma escova. Todos os dias arejo a casa. Abro as janelas. Pus mosquiteiros para evitar a entrada de moscas e outras bichezas. Mas não impede a entrada do pó. Às vezes quando caminho descalço por casa, vejo o pó que se me agarra à planta dos pés. Fico com os pés pretos. É então que dou uso ao bidé. Cá em casa serve para lavar os pés.
A casa não é rota.
Por onde fogem os livros?
No outro dia andei à procura de uma tostadeira. Queria fazer uma tosta. Uma tosta-mista. Não encontrei a tostadeira em lado nenhum. Só a torradeira que está em cima da bancada da cozinha e ligada com o cabo de alimentação à ficha de electricidade. Mas eu juro que tenho uma tostadeira. Ou tinha. Pelo menos, acho que tinha. Já começo a pôr tudo em dúvida. Vejo-me a fazer uma tosta-mista, com aquela tostadeira, aqui, na cozinha cá de casa. E se é tudo mentira? Uma efabulação? E se fui eu que criei essa memória para justificar ter uma tostadeira que, afinal, nunca tive?
E os livros? Poderá ser o mesmo princípio? Será que nunca tive os livros que penso ter? Que tinha? Que até os via ali, arrumados nas prateleiras das estantes, uns ao lado dos outros?
Tive uma namorada. Acho que aqui já nesta casa. Ela também desapareceu.
Posso estar enganado e afinal a namorada não ser minha e estar a confundir tudo com algum filme francês visto nas noites da RTP2, mas acho que não. Acho que era mesmo minha namorada. Tenho uma vaga ideia de a ver caminhar descalça aqui pela cozinha, abrir a porta do alpendre e ir fumar um cigarro lá para fora. E eu estar aqui na cozinha, sentado nesta mesa, nesta mesma mesa onde estou agora, frente ao computador, e olhá-la em contraluz, no alpendre, com as montanhas lá ao fundo, a fumar um cigarro. Mas também posso estar enganado.
É provável que exista um buraco do tempo aqui em casa. Um buraco que me rouba livros, dinheiro e, pelo menos, uma namorada. E posso estar a esquecer-me de outras coisas, que já me baralho muito.
Por vezes ouço a voz de uma rapariga, vou corredor fora à procura dela e não a encontro. Talvez haja no meu corredor um portal para outras dimensões. A minha casa pode estar num meio de coordenadas cabalísticas. Ou o que o valha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/24]

As Galerias

Estou em frente ao computador e aguardo. É preciso paciência. Tenho os cotovelos cravados na mesa da cozinha e o queixo suportado nas mãos entrelaçadas, à espera. É preciso muita paciência.
No ecrã do computador, uma bolinha colorida gira sobre si própria. E continua a girar a filha-da-mãe. O computador está como eu. Velho. Velho e lento. O tempo que o computador demora a processar as informações que lhe dou é como o tempo que eu demoro a processar as informações que vou recebendo. Cada vez demoro mais. Demoro mais a receber a informação e cada vez demoro mais a descodificar essa informação. É preciso uma enorme paciência.
Acendo um cigarro.
A minha cabeça foge. Afinal, não tenho grande paciência. Ou então, é a minha maneira de escapar a este processo que me consome, antes que me consuma mesmo.
Hoje fui à cidade. Passei junto a umas antigas galerias, coisa que já não existe em nenhuma cidade moderna do mundo, mas ainda existe aqui, nesta cidade, uma cidade onde partes dela parecem paradas no tempo, enquanto outras tentam entrar no futuro. Mais ou menos, não é? porque o futuro, o futuro será o que for.
As galerias existem mas também não existem. Podem ser as duas coisas ao mesmo tempo. Eu não percebo nada de física quântica mas, neste caso, o mesmo corpo é e não é ao mesmo tempo e no mesmo espaço.
Quando passei naquela zona da cidade, reparei que as galerias ainda existiam, fisicamente, quero dizer. O edifício onde houve outrora umas galerias comerciais, ainda existe, ainda continua erguido, envergonhado, no meio da cidade. Está fechado. As janelas tapadas com papéis de jornal. Umas janelas estão partidas. Acumula-se lixo. E sujidade. As portas estão fechadas. Entaipadas. Todas? Bom, afinal, não todas. Hoje, e depois de tantos anos de engano, tantos anos a passar ali ao lado a pensar naquele cancro, uma ferida aberta, mas fechada, no meio da cidade, descobri que, afinal, uma porta está aberta e nos franqueia a entrada para um edifício moribundo que ainda alberga, no seu interior, um sapateiro que trabalha, ainda trabalha, ainda arranja meias-solas, cola tacões, vende palmilhas e atacadores e dá uso a umas máquinas que, estranhamente, fazem barulho e ainda funcionam.
Esta loja deve ser uma anomalia. Deve estar perdida no tempo. No tempo e no espaço. Que espaço é este? Existe este espaço? Não descortino como é que os clientes sabem da sua existência, como é que aqui vêm. Possivelmente velhos, velhos como o que vi atrás do balcão de atender o cliente, a colocar umas meias-solas nuns sapatos que ainda querem percorrer muitos quilómetros antes de serem trocados por uns sapatos comprados na loja dos chineses e que queimam os pés e os deixam a cheirar mal. Como é que os velhos sobem as escadas das galerias? As escadas das galerias fechadas, abandonadas e deprimentes. Como é que o velho, este velho, o velho que está ali de volta das meias-solas, sobe as escadas das galerias? Dormirá lá dentro? dentro da loja? Será esta a sua casa?
Acabo o cigarro. Bebia um copo, penso. Mas olho a garrafa vazia, esvaziada durante o almoço, e era a única. Não há mais vinho cá em casa. Tenho de ir ao Intermarché. Mas descobri que fechou por ter sido descoberto um surto de coronavírus no Intermarché aqui ao pé de casa.
Maldita sorte, a minha.
A bolinha colorida continua a girar no meio do ecrã, frente aos meus olhos. Se calhar, encravou, esta merda. Nunca mais pára. É como a vida nas galerias que julgava mortas. Afinal, não está. As baratas estão por todo o lado e são sobreviventes. Até dentro do meu computador. Até dentro da minha cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/19]

Tempo Bipolar

Tempo bipolar, este.
Acordei com a chuva a bater-me na janela do quarto. E os gatos a miar. Tive de me levantar e levar-lhes comida. O dia estava escuro. Voltei para a cama e tapei-me com o edredão.
Voltei a acordar, agora com calor. Estava transpirado. Os raios de sol entravam sem pedir licença pelo quarto, pela casa. Levantei-me e tomei um duche rápido. Depois fui ao alpendre fumar um cigarro.
Gosto de estar ali assim, no alpendre, nu, de pila ao léu, lavado, bem cheiroso, a fumar um cigarro, o primeiro cigarro do dia.
Vi as horas e percebi que já tinha perdido o pequeno-almoço e o almoço. Depois ri-me. Na verdade não tinha perdido nada. Tinha aprendido com os últimos anos de vida da minha mãe. Tens alguém à tua espera? Então come quando tiveres fome. E tinha fome? Mais ou menos. A verdade é que sou difícil de perceber. Por via das dúvidas resolvi fazer uma sandes.
Abri o frigorífico e olhei. Não vi nada. Nada que se comesse assim, de uma forma simples sem ter de cozinhar. Acabei por abrir uma lata de atum. Desfiz o atum numa tigela. Miguei um pouco de cebola. Misturei duas colheres de maionese. Abri uma carcaça e enfiei lá o que coube. Guardei o resto no frigorífico. Tapei a tigela com película aderente. Enchi um copo com vinho tinto. Voltei para o alpendre. Continuava nu. Sentei-me na cadeira e comi. E bebi. E arrotei um pequeno arroto.
Pensei E agora? O que é que vou fazer agora?
Fiquei por ali sentado a pensar e esqueci-me do que estava a fazer ou do que queria ou devia fazer.
Deixei-me adormecer.
Acordei picado por umas formigas.
O sol tinha regressado outra vez lá para trás de um céu cinzento, tão cinzento que nem se viam nuvens, era só cinzento, cinzento escuro. Não estava a chover nem parecia estar a ameaçar chover. Mas já não havia sol nem estava calor. Senti um arrepio e disse Ainda estou nu!
Entrei em casa. Vesti uns calções. Uma camisola. Fui fumar outro cigarro para a porta da cozinha, encostado à ombreira. Não se viam as montanhas lá à frente.
Tocou o telemóvel. Até me assustei. Não estou habituado a que o telefone toque. Atendi. Queriam vender-me um pacote. Eu disse que já tinha e desliguei. Senti o coração a bater mais depressa. Irritam-me estas chamadas telefónicas das operadoras. São uma chatice. Não dizem nada de novo. Não oferecem nada a ninguém. Incomodam. Deixam-me o coração a bater demasiado depressa.
Lancei fora o resto do cigarro, zangado. Não muito zangado. Mas irritado. Sim, irritado. E pensei que, um dia destes, terei de apanhar as beatas que vou lançando para o quintal. Um dia destes, sim.
Voltei para o interior de casa. Fechei a porta. Sentei-me à mesa da cozinha e abri o computador. Tinha um texto para escrever para o jornal.
Já passaram duas horas e ainda aqui estou. A página do word em branco. A garrafa de tinto vazia. O cinzeiro cheio de cinzas e beatas.
O tempo está bipolar e eu sem imaginação. E, finalmente, lá comecei:
Tempo bipolar, este.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/29]

Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Westworld

Tinha acabado de ver o Westworld. Tinha acabado de ver o último episódio da temporada. O oitavo episódio da terceira temporada. O genérico passou. A televisão ficou a transmitir uma imagem qualquer, uma imagem parada, à espera que eu desse seguimento à coisa. Um play qualquer. Um return. Uma escolha de menu. Mas, no momento, nem me apercebi. Não estava ali. Estava ali, no sofá, de cu enterrado no buraco do sofá a precisar de ser estofado, de cigarro consumido na mão, a cinza do tamanho do cigarro à espera de cair, à espera que eu a depositasse no cinzeiro antes de tombar livremente sobre o tapete da sala já de si bem sujo e a precisar, não já só de uma aspiradela, mas de uma limpeza a fundo, de escova e água com detergente, como a minha mãe me pagava para eu fazer, e foi assim que fui comprando os discos mais caros da minha vida, quando os discos eram em vinil, caros, de capas bonitas, e os ao vivo e duplos, coisa rara, e só raramente bons, esses raros mereciam todo o esforço que fizéssemos, como esfregar os tapetes de casa à mãe, assim, de cu para o ar, a esforçar os músculos ainda adolescentes, mas cheios de vontade de fazer a vontade e poder ter mais um disco fabuloso. Foi assim que consegui o Still. O Alchemy. Mas não estava lá. Estava ainda no interior daquela guerra entre humanos e androides, entre máquinas do destino e um qualquer ditador de algoritmos e razões de ser antes de verdadeiramente o ser. Quem é quem?
Despertei para a vida ao notar uma pequena baba a escorrer pela boca aberta. Estava de boca aberta de espanto. Não estava à espera da volta que Westworld viria a dar depois daquela primeira temporada tão sensaborona a fazer lembrar o Jurassic Park com mais dinheiro, melhores efeitos especiais e uma mais imaginativa equipa de argumentistas, com J.J. Abrams a segurar os fios para que tudo não se estilhaçasse. E, no entanto, aqui estamos.
Foda-se! foi o que me saiu sonoro. Foda-se!
Estava aterrado pelas possibilidades.
E se tudo fosse verdade? E se tudo é verdade?
Esqueci a cinza do cigarro e o cigarro e vi-os caírem sobre o sofá, não fizeram um buraco porque já estava frio, mas fizeram uma enorme mancha cinzenta, que tentei limpar com a mão e que acabei por espalhar ainda mais e tornar aquela mancha de sujidade numa mancha ainda maior. Levantei-me do sofá e fui até à mesa da cozinha onde tinha o computador e comecei a escrever o que me ia na cabeça assim, de jorro, sem ler nem reler o que estava a escrever, embora, ao escrever, tudo fizesse sentido e, no fim, publiquei-o no Facebook, sem ler nem reler, coisa que se pode confirmar, nem sei já o que é que lá está, nem as gralhas que possa ter, mas foi o que precisou de sair de mim naquele momento, naquele preciso momento, em que estava possuído pelo espírito da estória e pelo espírito digital de Dolores.
Depois parei. Respirei fundo. Tinha um resto de Herdade dos Grous que estava na bancada ao fundo a olhar para mim e servi-me de um copo. Acendi um cigarro, na esperança de me poder dedicar a espreitar os jornais online para bisbilhotar as notícias do dia quando dei por mim, de novo, ou talvez sem ter saído de lá afinal, naquele mundo de possibilidades.
Elon Musk já tinha avançado com a possibilidade de vivermos uma simulação. E se, mais que uma simulação, não passássemos de androides de última geração? Um mundo fabricado? Com 0s e 1s? E se o útero de uma mulher não for mais que uma impressora 3d que imprime crianças? Que a informação para essas crianças e para a sua impressão vai no esperma do homem?
Foda-se!
E toda esta guerra de informação, de dados pessoais, conquistados através de aplicações aparentemente tão inocentes como o FaceApp, não estarão a construir uma enorme base de dados que irá criar uma máquina tão potente e perversa como a Rehoboam, uma máquina transformada em deus, e se a máquina pode ser deus, porque é que nós não podemos ser máquinas? E já agora?… Não!…
Tinha acabado o copo de vinho. Tinha acabado o cigarro. Estava a enrolar um anel de cabelo nos dedos da mão direita.
Estava nervoso. Ansioso. Já não tinha mais vinho. Nem cigarros. Nem a porra de um Xanax.
Levantei-me da mesa e saí de casa. Precisava de mais vinho e cigarros para continuar a organizar as minhas ideias. Organizar as ideias antes que elas me abandonassem.
E foi nesse entretanto, entre o ir à mercearia e o regressar, que toda a estrutura da ideia que estava a construir se esboroou. O início estava cá. Tanto estava cá que consegui regressar a ele. Mas já não sabia para onde é que estaria a dirigir-me, para onde é que estava a ir. Ou a querer ir. Como se um algoritmo tivesse aproveitado esta pausa para me colocar no caminho de outra coisa qualquer. Uma coisa qualquer que não interessava para nada. Uma coisa inócua. Mas que deveria desviar-me do caminho que levava anteriormente.
E foi então que me lembrei que hoje era Domingo. Embora agora os jogos de futebol se prolonguem por toda a semana, e não haja um só dia sem futebol, a verdadeira forma de manter a adicção, hoje era o dia do Trio de Ataque, onde se fala de futebol por quem não o joga, mas por quem o analisa. Sim, hoje tenho de ver o Trio de Ataque. Beber aquela sapiência futebolística. Perceber o que se passa com o Benfica. Não é isso que importa na vida? Não?…
Há, no entanto, qualquer coisa cá dentro de mim que está a tentar esgravatar. Está a querer sair. Está a tentar dizer-me coisas. Como se o Trio de Ataque não fosse importante. Algoritmo. Desejo. Androide. Philip K. Dick. Westworld. Máquina. Deus. Porra. Porra. De repente tenho uma sopa de letras a formar-me palavras na cabeça.
Foda-se! Foda-se! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/21]

Desapareço

Sento-me na mesa da cozinha. Tenho o lençol de banho sobre as costas. Ora tenho frio, ora tenho calor. Acabei de vomitar na retrete. Lavei os dentes. Senti um arrepio de frio e coloquei o lençol de banho sobre as costas. Vim até à cozinha.
Liguei a chaleira eléctrica.
Estou sentado na mesa da cozinha à frente do computador. Quero escrever. Quero escrever qualquer coisa. Uma pequena estória. A estória do dia. Sinto-me transpirar. Deixo cair o lençol de banho pelas costas abaixo. Estou nu na cozinha. Os chinelos nos pés. Transpiro. A chaleira deu um estalito e parou de fazer barulho. Levanto-me. Despejo água numa caneca e coloco-lhe um saco de tília. Volto para a mesa. Olho para a página em branco no computador.
Acordei com uma grande dor de cabeça. Talvez fossem enxaquecas. Tomei uma colher de Ben-U-Ron xarope e deixei uma segunda colher a dissolver-se na boca, debaixo da língua. Costuma fazer efeito. Hoje não fez.
Fiz café. Fiz torradas. Sentei-me na mesa da cozinha para o pequeno-almoço e não consegui comer nem beber. Comecei a sentir-me enjoado. Senti um vómito a querer chegar à boca. Corri para a casa-de-banho e vomitei. Vomitei bastante. Lavei os dentes. Voltei para a cama. Deixei-me estar deitado de barriga para cima. Ora com o edredão a tapar-me, ora com o edredão ao fundo da cama.
Adormeci e acordei. Voltei a adormecer e voltei a acordar.
Ao final da tarde, acordei. Acordei de novo. Desta vez com vontade de vomitar. Fui para a casa-de-banho. Vomitei um fiozinho de espuma. Uma espuma esverdeada. Lavei os dentes. Senti um arrepio de frio e coloquei o lençol de banho sobre as costas.
Levo a chávena à boca, mas sinto-lhe o ar quente, a queimar. Sopro-lhe e volto a largá-la na mesa.
Estarei a morrer? É sempre o que penso quando não estou bem. Estarei a morrer?
Os dedos mexem-se sobre o teclado do computador. Escrevem rápido, rápido e sem parar. Olho a página para ler o que estou a escrever e está tudo em branco. Não há letras nem palavras nem frases. Não há estória. Não há nada.
Volto a sentir um arrepio de frio pelas costas. Puxo o lençol de banho para cima de mim. E desapareço.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/20]