Não Gosto

não gosto de dias frios em que não possa caminhar junto ao mar, nem de silêncios forçados e choros de tristeza, não gosto de flores mortas nem de plástico, de árvores arrancadas pelas autarquias e florestas ardidas, não gosto de ver crianças despidas, rotas e com fome, nem crianças a trabalhar quando deviam estar a brincar, não gosto da traição, da mentira e da ganância como também não gosto de quem não gosta de nada, não gosto de massada de peixe, de açorda com alho, ensopado de borrego, tofu e seitan, mas como, que remédio tenho se não comer, e também não gosto de cerveja morta nem de garrafas de vinho vazias, de água morna e café frio e muito menos queimado nem de pastéis de nata muito doces, não gosto da minha neura nem do meu tédio mas não lhes consigo fugir, especialmente ao domingo, um dia de que não gosto, dia de ir à missa, a que já não vou, mas ia em novo para estar com as miúdas giras da minha rua, e também não gosto da segunda-feira nem da terça, nem de nenhum dos outros dias da semana quando tenho de fazer tudo aquilo que não quero nem me apetece nem gosto, e também não gosto nada de fascistas nem de comunistas, não gosto de quem quer mandar em mim como se recebesse um contrato divino, e não gosto do liberalismo económico nem do desespero a que vota a maior parte dos homens, mulheres e crianças que não são empreendedores, porque nem todos podemos ser empreendedores e para uns serem outros não podem ser, e sim, também não gosto de ter de ser empreendedor, e não sou, também não gosto de ler livros com folhas dobradas, riscadas ou rasgadas, nem com areia da praia na cota, e é por isso que não levo livros para a praia, também não gosto de ouvir música em streaming, nem de ver filmes no computador, e não gosto que queiram que seja igual a toda a gente que se parece, nem gosto de ter respeitinho por quem não o merece, nem de maços de cigarro vazios e muito menos da carteira vazia, leve e vazia, não gosto de pão do pingo doce no dia seguinte nem da banana muito pisada, não gosto das manchas de bolor nos meus casacos nem nos tectos da casa-de-banho, não gosto que façam mal aos animais e muito menos às pessoas, em especial às mais frágeis, não gosto mesmo nada de déspotas nem de idiotas e por isso não gosto do trump nem do bolsonaro do maduro do putin ou do boris johnson, não gosto das chamadas insistentes das operadores de telecomunicação para me vender mais um pacote muito em conta quando se aproxima a data do fim da fidelidade, e também não gosto do bife muito bem passado, nem da pasta empapada, não gosto de ir às finanças, à segurança social ou ao banco, nem a lado nenhum cheio de burocratas acéfalos que não ouvem um pedido de ajuda, e não gosto de ter frio na cama e de dormir sozinho nessas noites, também não gosto quando ejaculo precocemente, quando vomito, embebedo e fico maldisposto, não gosto de calçar sapatos nem botas, nem de usar fato e gravata, também não gosto de um dia vir a ser careca, mas antes sê-lo, e sê-lo bem rapadinho, que atravessar a cabeça, de um lado ao outro, com meia dúzia de cabelos, não gosto de cortar as unhas nem as das mãos nem as dos pés, nem de fazer a barba nem de me pentear, não gosto dos ataques de bronquite nem os de asma, não gosto de me constipar nem de espirrar para cima das outras pessoas, muito menos gosto que me falte o colo da minha mãe quando estou doente, e não gosto que não compreendam que quando estou doente estou quase a morrer mesmo que não seja verdade, e já não gosto de acampar mas já gostei quando era mais novo e menos burguês, também não gosto de tunas académicas nem do quim barreiros, de música pimba em geral e dos modern talking em particular mesmo que sejam alemães e até se expressem muito bem em inglês, e também não gosto de ver novelas brasileiras, mas já gostei, nem das portugueses, mas já vi, nem gosto do prós e contras nem de nenhum dos programas de futebol em que só se fala e grita e injuria e afinal ninguém joga, também não gosto quando dizem mal do cinema português que até é muito bom e o que falta é criação de públicos e pessoas informadas e cultas para depois não votarem em políticos boçais e burros, não gosto que haja dinheiro para bancos e não para a cultura, não gosto no que as cidades se estão a tornar nem da visão mercantilista de quem as governa, não gosto da lama que me prende o passo nem da laje que me faz escorregar, não gosto da ignorância e não me importo que não gostem de mim

[escrito directamente no facebook em 2020/01/08]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

Uma Mulher Vai Destruir a Minha Vida, Outra Vai Salvá-la

Tudo começou na época em que fui despedido. A primeira vez em que fui despedido, bem entendido. Depois disso, já fui despedido muito mais vezes. Mas esses despedimentos foram consequência deste primeiro.
Na altura trabalhava num pequeno hotel. Fazia as noites. Dava entrada de pessoas que chegavam de madrugada, poucas, a maior parte delas vinha para aquecer a cama durante algumas horas antes da manhã, em encontros casuais, começados na boîte ali mesmo ao lado, e que continuavam nas camas do hotel, que eu às vezes ouvia-lhes os gritos, e cheguei mesmo a ter que pedir contenção a um ou outro casal mais afoito, e preparava as coisas para o pequeno-almoço dos clientes, antes ainda de me ir embora, e que a pessoa que me vinha substituir mantinha a funcionar até meio da manhã.
Eu estava casado há pouco tempo. O dinheiro que ganhava no hotel não era muito, mas era importante para aquele início de vida. O facto de trabalhar à noite, começou a minar a relação logo ao fim de algum tempo depois de termos casado. E o ter sido despedido acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo. O meu casamento não durou muito tempo.
Ao fim de uma semana depois de ter sido despedido, ela foi-se embora. Os papéis para assinar o divórcio acabaram por chegar mais tarde, através do advogado dela.
De um dia para o outro descobri-me sem trabalho, sem dinheiro e sem mulher.
Achei que a minha vida andava azarada. Aquilo era mau-olhado, com certeza. Inveja. Mas inveja de quê?, perguntava-me. Ora, as pessoas são muito invejosas, não importa do quê! É só inveja pura. Pura maldade.
Como a minha vida parecia não descolar, nem trabalho nem amor e o totoloto também não queria nada comigo, pensei mesmo que havia ali obra do demo.
Fui à bruxa.
Tinha ouvido falar num mulher que havia ali na Gândara dos Olivais, ali à saída de Leiria, a caminho da Figueira da Foz. Disseram-me que não cobrava nada, que era um dom que tinha e não podia cobrar por esse dom, mas que as pessoas deixavam sempre uma lembrança monetária porque a senhora também precisava de comer, pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e o telefone para onde as pessoas ligavam a pedir ajuda. Eu não telefonei, que não sou pessoa de telefonar, e fui lá directamente.
Estive muito tempo parado dentro do carro à porta da casa da senhora. A ganhar coragem para lá entrar. A rezar para que ninguém me visse e me reconhecesse.
Respirei fundo. Abri a porta do carro e fui até à casa, de olhos a rojar chão fora. Se não visse ninguém, ninguém me via.
Toquei à campainha. Alguém abriu a porta. Fizeram-me entrar. Levaram-me para uma sala onde me fizeram sentar. E esperar.
Esperei.
Esperei algum tempo.
Vieram buscar-me e levaram-me para uma espécie de sala de estar, mais pequena e vazia, mais sombria, mas com santinhos e fotografias e terços e velas a arder e incenso, numa espécie de altar… A senhora estava sentada numa poltrona a um canto. Ela indicou-me a outra poltrona. Em frente a ela. Olhou para mim. Para os meus olhos. Pediu-ma as mãos. Agarrou-as nas dela. Fechou os olhos. Inspirou fundo. E disse-me Os amores, os amores!… E eu não disse nada. Ela também não perguntou nada. Depois voltou a dizer Vão existir duas mulheres muito importantes na sua vida. Uma vai fazer-lhe muito mal. Outra vai fazer-lhe muito bem. Cabe-lhe a si a ordem pela qual as vai encontrar.
Depois abriu os olhos de novo. De novo fixou o olhar em mim. Nos meus olhos. Largou as minhas mãos e sorriu-me. E ainda disse Não há mal que sempre dure, nem sorte que perdure.
A mesma rapariga que me abriu a porta da rua foi buscar-me à sala.
À porta da rua, antes de a abrir, ficou parada a olhar para mim. As mãos presas uma à outra, à frente do colo. A olhar para mim. Em silêncio. E só então percebi. Tirei uma nota de vinte euros do bolso das calças e dei-lhos. Ela agarrou no dinheiro. Dobrou-o na palma da mão. Abriu a porta da rua e deixou-me sair. Boa sorte, disse-me.
Eu entrei para dentro do carro. Estava nervoso com o que tinha assistido. Acendi um cigarro. Fiquei ali parado a pensar no que tinha acontecido. Ou não tinha acontecido. O que é que fui ali fazer? O que é que isto ia resolver a minha vida? Quem seriam aquelas mulheres?
Passaram já alguns anos depois desta minha ida àquela casa. Bastantes, na verdade. Já fui despedido outras vezes. Aliás, fui sempre despedido dos trabalhos que tenho feito. Já tive várias relações. Nenhuma delas muito séria.
Ainda hoje estou à procura dessas mulheres de quem a senhora falou. A mulher que ia destruir a minha vida. A mulher que ia salvar a minha vida. Estava esperançado em encontrar primeiro a mulher que me ia destruir a vida. Não sabia se já a tinha encontrado ou não. Tenho dúvidas. A vida tem-me sido madrasta, mas não tenho a certeza que tenha sido destruída. E não quero encontrar a mulher que me vai salvar sem antes ter encontrado a mulher que me vai destruir. Porque prefiro ser salvo depois de ser destruído, que destruído depois de me julgar salvo.
Cada vez que uma mulher olha para mim, penso sempre qual delas será? Aconteceu agora mesmo. No linear dos frescos. A mulher olhou-me nos olhos e sorriu. Era um sorriso nos lábios, que eu percebi bem. Mas qual delas é que será esta mulher? E será mesmo alguma delas?
Tenho a vida condicionada pelo que me foi contado. Às vezes preferia não ter lá ido.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/22]

A Primeira Vez que o Vi Era Pequeno, Muito Pequeno

A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Muito pequeno. Tão pequeno que quase não o via enfiado que estava nuns panos que deviam ser cobertores mas que já não lembro porque tenho uma memória de merda ou são já tantos os anos arquivados na cabeça, demasiados, que a memória já demora mais tempo para recuperar os ficheiros arquivados, mesmo os que levam selo VIP como é o caso, mas quando não é possível não é possível, isto ainda é um Pentium, e por mais que esperneie, em birra, no chão do Centro Comercial, que parece que foi vendido a não-sei-quem e já há lojistas a sair de lá porque os novos donos querem recuperar já o investimento, em 100m sem barreiras, antes que o Natal chegue e a Popota fique com tudo naquela sua enorme bocarra e ancas roliças que se rebolam a dançar uma qualquer música da moda. E o Natal não é quando dizem que é. O Natal é móvel e segue as vontades de cada um e dos nascimentos que quiserem celebrar, com pinheiro ou macieira, uma laranjeira ou tão só a porra de uma rosa tão mal tratada e, afinal, serve perfeitamente para tudo que fica bem em qualquer lado e em qualquer lugar. E o Natal também é em Novembro. Sim. Hoje é véspera. Véspera do dia de Natal em Novembro.
Mas não era para aqui que eu queria ir. Regresso ao início.
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Tão pequeno que mal o via.
Cresceu depressa. Depressa e muito. Tão depressa que deixei de o ver. Não me apercebi. Não vi. Ele era assim, pequenino, e depois já era assim, grande, tão grande quanto eu. Que digo? Quase já maior que eu. Tudo em ele bem mais que eu.
Na deserção, vivi de ecos. Os ecos que iam chegando. De façanhas. O pequeno que mal se via cresceu para um enorme tão grande, um grande de formas cósmicas que desapareceu para o mundo. O meu.
Há um eco que não desaparece. Não foi possível formatá-lo e arquivá-lo como os outros. Os restantes. Este ficou sempre por aqui, pelo desktop frontal. Deve ter vírus. Volta não volta abre-se no preview e ocupa todo o espaço. Todos os espaços. E vejo esse eco. As formas em voo. Uma corrida em voo, que ele não corre, ele voa. Os dois pés no ar, a voar, os braços recolhidos pelo movimento da corrida. A cara rosada do esforço. A camisola amarela transpirada. Um amarelo vivo. Chama o olhar. Não é possível não ver. Não é possível não olhar. Não é possível escapar ao voo que ele faz. Um voo rasante a imitar um predador a caçar a sua vítima, coitada, presa nas garras da vitória. Uma perna à frente da outra e os dois pés no ar. Como um mestre.
Mas não é o mestre de cerimónias que eu resgato.
De novo o regresso.
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. Era pequeno. Muito pequeno. Tão pequeno que se desfez e entrou por mim dentro e por cá tem andado desde os primórdios dos tempos. Dos tempos dele.
Não parece mas está aqui. Aqui, oh! Aqui onde deve estar, mesmo quando parece que voa. Mesmo quando parece que voa de novo nas asas da distância e desaparece. Desaparece para o mundo. O meu mundo. Mas não é verdade. Porque está sempre aqui. Aqui onde deve estar. Aqui, oh!
A primeira vez que o vi, peguei-lhe ao colo. E isso nunca se esquece. Por mais que, por vezes, pareça.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/06]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]