As Ninhadas

O Óscar não tem aparecido. Aliás, nunca mais apareceu desde que hibernou no final do Verão passado.
O tempo também não tem estado convidativo para pôr o seu sangue frio ao sol. Com excepção de alguns, poucos, dias de calor em Maio, e agora em Espanha e França, demasiado longe para ele viajar, a verdade é que o tempo não tem convidado ao bronze nem ao despertar hibernal.
O facto da população de felinos ter aumentado tanto por aqui também pode ter contribuído para a ausência do Óscar.
Quando o Óscar apareceu da primeira vez, não havia por cá gatos. Entretanto, depois do Óscar ter-se despedido do Verão, chegou a primeira gata. Prenha. Da ninhada sobreviveu uma gata. Passou quase um ano. A gata voltou a emprenhar. Deu à luz quatro gatos. A filha sobrevivente da ninhada anterior também emprenhou e deitou cá para fora cinco gatos. Entretanto, salvei dois gatos arraçados de siamês que foram largados na rua e estavam famintos. As gatas adoptaram-nos. Por isso, agora, cá por casa há… Há muitos gatos. É só contá-los.
Muitos gatos mas não o Óscar. Tenho saudades daquela pose majestática e fixa, digna da estatuária das Caldas.
Entretanto, com os gatos voltou a entrar leite cá em casa. Não lhe suporto o cheiro. Páro de respirar enquanto corto a ponta do pacote para despejar o leite por três ou quatro caixinhas de plástico para os gatos beberem. Enquanto bebem, molham-se uns aos outros a lamberem-se e a abanar os bigodes. São uns pequenos javardos. Mas são engraçados. Passam o tempo a brincar uns com os outros.
Desde que os gatos entraram cá em casa, não tenho tido necessidade de estar com pessoas. Os gatos são uma boa companhia. Andam por onde querem. Às vezes invadem a casa dos vizinhos. Já me trouxeram maços de cigarros e um pacote com erva. Caçam coelhos, ratos e pássaros. Já apanharam uma toupeira. Fez-me reler O Covil do Kafka que tinha para aí, perdido, numa edição da Europa-América. Dei conta que ainda tinha algumas edições da Europa-América. As coisas que se descobrem por casa.
Os gatos dormem bastante. Não me chateiam. Só quando estão com fome é que vêm para aqui todos miar que até parecem uma banda sinfónica. Dez mil anos depois entre Vénus e Marte.
Os gatos são também uns excelentes ouvintes. Leio em voz alta coisas que escrevo e eles ouvem. Às vezes de olhos fechados para intuírem melhor o que eu digo. Nunca dizem mal. Não refilam. Não se chateiam com a música que eu ouço. Nem se incomodam por eu não ter tomado banho nem lavado o cabelo todos os dias. Às vezes lambem-me os dedos dos pés. A rir, pergunto-me porquê.
Comecei por lhes dar nomes. Mas perdi-me. Esquecia-me. Eram demasiados. Passaram a ser todos Gato. Mesmo as gatas. E funciona.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/01]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]

E Então, Vindo Lá do Fundo, Comecei a Ouvir os Felt

Estava ali assim, parado, de luvas nas mãos, com o carrinho de mão à minha frente, debaixo do alpendre da arrecadação, a ver a chuva a cair. E que chuva! Uma chuvada! Uma chuvada que vinha na companhia de grossas bolas de granizo.
Tinha uma pilha de lenha cortada, descarregada na eira, e preparava-me para ir arrecadá-la para o Inverno, quando aquela chuvada, não programada, resolveu aparecer.
Senti-me perder as forças. Os braços tombaram e deixaram cair o carrinho de mão. Senti-me frustrado. E depois fiquei ali, assim, a ver a chuva a cair e a pensar quantos dias seriam necessários para a lenha secar.
Acendi um cigarro. Sentei-me na borda do carrinho. Não poderia fazer nada naquela altura. Nem no dia seguinte.
Deixei-me ficar sentado a ver a chuva a cair.
Estava chateado, mas ao mesmo tempo fascinado com a queda de água e das pedras de granizo. Enormes. Pareciam bolas de golfe. O barulho que faziam na placa de zinco por cima do poço era ensurdecedor.
Acabei de fumar o cigarro.
Parou de chover.
Comecei a ouvir uma música.
Uma música que vinha do interior de casa. Felt. Eram os Felt. Ela tinha descoberto os meus vinis de Felt e pô-los a tocar. Há muitos anos que não ouvia a banda do senhor Lawrence. Ainda me lembrava do concerto em Lisboa. Aula Magna. Apaixonadamente. Era assim que estava no cartaz. Apaixonadamente. Apaixonadamente Felt. Era estranho ouvir assim aquela música tão urbana naquele contexto tão rural. Mas encaixava bem. Soava-me bem.
Levantei-me e acendi outro cigarro.
A chuva tinha parado. O sol começava a rasgar o céu. O calor apertava.
Comecei a ver os coelhos selvagens a invadir o terreno em frente.
Sorri.
Ouvir os Felt tinha-me deixado com boa-disposição.
Fui a casa buscar a máquina fotográfica e abalei para o terreno em frente, um terreno pouco tratado e um bocado selvagem, para tirar fotografias.
Deitei-me atrás de uma árvore e esperei. Quieto. Em silêncio. E os coelhos começaram a chegar. Clic. Clic. Um melro. Clic. Ao fundo vi um coelho um pouco maior. Talvez uma lebre. Clic. Clic. Mais ao fundo ainda, um veado. Não sabia que se aventuravam assim tão longe. Para tão próximo das casas. Clic. Clic. Clic.
Os Felt ainda me chegavam de casa, muito suaves, muito lá ao fundo, mas conseguia percebê-los. Como percebi a águia a voar lá em cima. Por cima de mim. Clic. Clic.
Virei-me para o lado e parei. Uma raposa. Uma raposa a beber água da chuva numa pequena poça que se formara ali. Clic. Clic.
Sorri.
Estava um dia fabuloso.
Ao fundo continuava a ouvir os Felt.
O que seria feito do Lawrence?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/09]

A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]