O Poder do Erro

Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
O sol, envergonhado, já não conseguia furar as nuvens cinzentas permanentes sobre as nossas vidas. A chuva miudinha, era persistente. As caras fechadas das pessoas, as caras marcadas pela desgraça constante não permitiam perceber o que se passava. Quer dizer, não permitiam perceber o que se passava pessoalmente com cada um de nós mas, todas aquelas caras revelavam o mesmo.
Do ódio passou-se ao medo. Das ameaças passou-se ao medo. Dos gritos furibundos contra a corrupção, passou-se ao medo. Do apelo ao radicalismo, passou-se ao medo. Tudo passou ao medo. Medo que o dedo nos apontasse a nós.
Ele. É ele. Foi ele.
Ele é sempre o outro. Outro que se escolhe antes que nos escolham a nós. É uma maneira de manter o medo. Há que escolher um alvo antes que o alvo sejamos nós.
Era o medo o que eu via na rua. O medo tinha tomado conta de nós. Nós éramos o medo.
Os outros já não eram os negros, os muçulmanos, os ciganos, os homossexuais. Os outros éramos nós. Nós todos. Qualquer um de nós. Qualquer um de nós dominado pelo medo de estar na ponta de um dedo. A acusação não precisava de ser bem fundamentada. Bastava a suspeita. Bastava a inveja. Bastava a vingança. Bastava dizer. Bastava apontar o dedo. Ele. É ele. Foi ele.
As estradas estavam vazias de carros. Repletas de buracos. Já não havia asfalto. Não para todas as ruas. Não para estas ruas. As bicicletas ganharam novo alento. Não precisavam de combustível. Numa cidade como esta era complicado. Era fácil circular na cidade, uma cidade plana, mas sair da cidade implicava subir. A cidade fica num vale. As pessoas acartavam as bicicletas à mão no seu regresso às casas na periferia da cidade, nos arrabaldes. Era aí que cultivavam as verduras e criavam as galinhas e os coelhos que vinham vender à cidade. Mas cada vez havia menos para vender. Cada vez havia menos para comprar. Pouco dinheiro para aquisição. Poucos produtos para troca. Já assistira alguém morrer por um bocado de pão duro. Os assaltos, agora, faziam-se para lá do limite urbano. As hortas tinham de ser protegidas ou eram roubadas. A polícia não ia para além dos limites da cidade.
Os combustíveis racionados.
A internet controlada.
A televisão só a estatal.
Os jornais só os permitidos.
O SNS destruído.
A Escola Pública extinguida.
A polícia como defensora do estado.
A guarda como defensora dos poucos privilegiados.
Os militares para aguentarem tudo como tudo estava.
Ao caminhar pela rua, via no que nos tínhamos tornado.
Gente só, pobre e triste. Gente com medo. Medo de tudo menos da morte.
Já não havia livrarias. Casas de brinquedos e de jogos. Já não havia cor. Nem quadros. Os filmes eram uma reposição das matinées de Domingo. A música só para bailar. E bailar sim, poderia bailar-se aos dias indicados para bailar. Mas já ninguém bailava. Já ninguém tinha vontade de bailar. Ouvia falar que havia gente a trocar livros, mas nunca vi nenhum para além dos que consegui esconder e guardar antes da grande purga após as eleições que garantiram o poder à não-democracia.
A chuva miudinha continuava a cair. Eu continuava a caminhar ao longo da rua. Ia sem destino, mas a fingir que o tinha. Para não ser parado e inquirido. Ia pelas ruas fora a auscultar as dores da rua. Para perceber se estávamos mortos ou não. Se ainda valia a pena acreditar ou não.
Mas ao caminhar por aquelas ruas, via no que nos tínhamos tornado. E não tinha muitas esperanças no futuro. Podíamos não estar mortos, mas estávamos moribundos.

[escrito directamente do facebook em 2020/08/09]

Os Passos por Cima de Mim

Há dias em que ouço os passos no apartamento por cima de mim. Há dias em que ouço os gritos na cave por baixo de mim.
Nada disto seria preocupante se vivesse num apartamento na cidade, como já vivi, e onde a convivência com os sons da vida da vizinhança é uma companhia constante. Mas não. Vivo numa casa térrea, sem cave, e com um pequeno sótão que não utilizo e onde nunca entrei.
Há dias em que estou deitado no sofá, a olhar para a televisão num correr de zapping tão rápido que não fixo nenhuma imagem e os sons que me ficam são umas onomatopeias sem sentido, quando sinto, sobre mim, passos a caminhar. Pequenos passos a caminhar. Já pensei se não serão ratos. Mas os gatos aqui da casa já trataram de todos os ratos que por aqui havia. Agora, o que caçam, são os coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal ou que eles vão caçar ao terreno lá do outro lado da estrada. Que barulho será esse que passa por cima de mim? De quem serão os passos? E serão passos?
Há dias em que estou na cama, às vezes a dormir, e sou despertado por gritos de pânico que parecem vir de baixo, debaixo de terra, porque não há outro baixo de mim que não seja terra, não há cave, nem nenhum bunker nem túnel. Mas ouço os gritos e sinto como são aflitos e aflitivos.
Acordo e fico ali assim, em silêncio, na cama, a evitar mexer-me para não fazer nenhum barulho, e apuro os ouvidos e fico quieto, atento, à espera de novo grito. Geralmente, o grito não volta. Nem o grito nem nada que se lhe assemelhe. Mas, algumas vezes, sinto os passos que se passeiam por cima de mim como quando estou na sala deitado sobre o sofá, a passarem aqui, sobre mim, sobre mim aqui no quarto, deitado na cama. Ouço-os. Serão as patas de algum rato?
Ou será que há fantasmas aqui em casa?
Eu não sou de ter medo nem tendo a levar a sério estas coisas sobrenaturais de fantasmas e almas do outro mundo mas, nos dias em que ouço estes barulhos, descubro-me mais sensível e fico com algum receio, não de coisas transcendentes, mas de coisas terrenas, como um bandido, um assassino, alguém que vai entrar aqui em minha casa, no meu quarto, na minha cama e me vai espetar a lâmina fria de um punhal vinte vezes, trinta vezes, no peito, por todo o ódio que o punhal terá às pessoas e de quem eu serei fiel depositário.
Outras vezes descubro-me no sonho, no sonho de alguém que não eu, que eu não sonho, e percebo-me a ser perseguido por seres alienígenas que me querem raptar para me levarem para planetas distantes e analisarem-me.
Há ainda umas vezes em que me encontro num sonho em que sonho que estou no sonho de outra pessoa e pergunto-me como raio é que sei isto tudo e não me perco e depois fico com uma grande dor de cabeça, vomito e acabo por acordar em casa, no chão da cozinha, a ouvir o cão da vizinha a ladrar, coisa que faz só quando se lançam foguetes a anunciar as festas das aldeias vizinhas e umas baratas a passearem-se por cima de mim.
Hoje ainda não ouvi passos nem gritos. Mas descobri uma aranha peluda ali na parede em frente a olhar para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/15]

Faz Frio e Eu Quero Ficar na Cama

Está frio.
Não saio da cama. A meio da noite fui buscar o anorak e estendi-o por cima do edredão. Não me lembro de este ano estar tanto frio como hoje.
Está tanto frio.
Estou dentro da cama. Debaixo do edredão e do anorak com um pouquinho da cara de fora. O nariz para respirar. Os olhos para ver que, lá fora, na rua, chove que Deus-a-dá. Vejo pela janela aberta do quarto. A chuva a bater violenta nos vidros. Mais devagar era um embalo, assim mexe-me um pouco com os nervos.
Está mesmo frio.
Tenho de pôr a mão debaixo do edredão e agarrá-lo por dentro que os dedos estão a ficar gelados. Sopro-lhes ar quente de dentro de mim. Aquecem um pouco.
Queria ir mijar mas não consigo. A meio da noite, quando fui buscar o anorak, vesti as calças de fato-de-treino e uma sweat. Mas ainda sinto frio dentro da cama. Imagino lá fora. Não consigo ir mijar. Tenho de aguentar.
Está um frio!…
Se estivesse em casa dos meus pais, estaria a ajudar a podar as oliveiras. Eu a conduzir o tractor e o meu pai a dizer onde é que deveria ir e como fazer. Se estivesse em casa dos meus pais, na aldeia deles, talvez estivesse a plantar batatas. É época da batata, não é? Estaria a plantar batatas. Não havia frio na aldeia. Em casa. Frio suficiente para nos impedir de fazer o que temos de fazer. A minha mãe estaria a dar de comer às galinhas, aos coelhos. Estaria a abrir a cancela às cabras para irem pastar no terreno lá ao lado que elas não têm medo da chuva nem do frio e o que querem é um pasto verde para estarem sempre a comer, a comer, a comer.
Está muito frio.
Não me vou levantar. Nem para mijar, nem para comer. Não tenho nada para comer. Nem pão duro. Deixei-me tomar pela inércia e pelo desleixe nestes últimos dias. Hoje devia de ir ao supermercado, ao talho, à padaria. Mas está muito frio. Está a chover muito. Não consigo ver para além do vidro da janela.
Olha, olha. O telemóvel a tocar. Quem será?… A minha mãe!…
Atendo. Olá, mãe!… e ela fala. Lá do outro lado, distante, na sua aldeia onde o frio é maior que aqui mas as pessoas são mais fortes e estão mais habituadas, não há frio que as prenda a casa, à cama. O que é que fazes, mãe?… e o que é que ela haveria de fazer? Dar de comer às galinhas que ainda tem e que às vezes me manda em tupperwares cheios para semanas inteiras. É o que lhe resta. O que ainda consegue ir tratando. Já não há coelhos nem cabras. Ainda resistem as galinhas, e os ovos das galinhas, os ovos que me manda assim, em pequenas caixas de meia-dúzia ou em forma de bolo de iogurte, ou bolo encharcado de ananás. Agora quando é preciso matar uma galinha vai lá uma vizinha matar por ela. Ainda aproveita o sangue e ainda faz uma cabidela que guarda para mim. Já tenho é saudades da chanfana. Mas já não há chanfana. Já nem deve saber fazer. E eu ouça-a a falar lá do outro lado do telefone e só penso em comida. Devia dizer-lhe que já não tenho nenhum tupperware. Que já não me resta nenhuma caixinha com os seus cozinhados. Que hoje vou jejuar. Que tenho fome mas o frio é mais forte e pode mais que eu e não vou sair da cama. E depois ela diz que o vizinho comprou um gerador e hoje foram lá entregar-lho numa camioneta muito grande. E continuou a dizer que o vizinho lhe disse que as coisas estavam perigosas e que poderia faltar electricidade e que ela também deveria comprar um gerador, Nunca se sabe, as coisas estão perigosas. E então? Pergunto-lhe eu e ela diz que tenho de tratar disso. Como o homem da família tenho de tratar de comprar um gerador e mandar entregar lá em casa o mais depressa possível. Porque as coisas estão perigosas, diz. E eu digo Está bem, mãe! e o que é que eu poderia dizer?
E ela desliga o telemóvel e eu penso que, afinal, tenho de me levantar.
Está frio. Muito frio. Um frio do caralho. Mas vou levantar-me para ir mijar, ir comprar alguma coisa para comer e tratar de comprar um gerador para a minha mãe e mandá-lo levar lá a casa. E onde é que vou comprar um gerador?
Vou levantar-me. Vou contar até três e levanto-me: um, dois, três…
Não. Vou esperar cinco minutos contados no telemóvel a começar… Agora!
Só mais dois minutos…

[escrito directamente no facebook em 2020/04/01]

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

As Ninhadas

O Óscar não tem aparecido. Aliás, nunca mais apareceu desde que hibernou no final do Verão passado.
O tempo também não tem estado convidativo para pôr o seu sangue frio ao sol. Com excepção de alguns, poucos, dias de calor em Maio, e agora em Espanha e França, demasiado longe para ele viajar, a verdade é que o tempo não tem convidado ao bronze nem ao despertar hibernal.
O facto da população de felinos ter aumentado tanto por aqui também pode ter contribuído para a ausência do Óscar.
Quando o Óscar apareceu da primeira vez, não havia por cá gatos. Entretanto, depois do Óscar ter-se despedido do Verão, chegou a primeira gata. Prenha. Da ninhada sobreviveu uma gata. Passou quase um ano. A gata voltou a emprenhar. Deu à luz quatro gatos. A filha sobrevivente da ninhada anterior também emprenhou e deitou cá para fora cinco gatos. Entretanto, salvei dois gatos arraçados de siamês que foram largados na rua e estavam famintos. As gatas adoptaram-nos. Por isso, agora, cá por casa há… Há muitos gatos. É só contá-los.
Muitos gatos mas não o Óscar. Tenho saudades daquela pose majestática e fixa, digna da estatuária das Caldas.
Entretanto, com os gatos voltou a entrar leite cá em casa. Não lhe suporto o cheiro. Páro de respirar enquanto corto a ponta do pacote para despejar o leite por três ou quatro caixinhas de plástico para os gatos beberem. Enquanto bebem, molham-se uns aos outros a lamberem-se e a abanar os bigodes. São uns pequenos javardos. Mas são engraçados. Passam o tempo a brincar uns com os outros.
Desde que os gatos entraram cá em casa, não tenho tido necessidade de estar com pessoas. Os gatos são uma boa companhia. Andam por onde querem. Às vezes invadem a casa dos vizinhos. Já me trouxeram maços de cigarros e um pacote com erva. Caçam coelhos, ratos e pássaros. Já apanharam uma toupeira. Fez-me reler O Covil do Kafka que tinha para aí, perdido, numa edição da Europa-América. Dei conta que ainda tinha algumas edições da Europa-América. As coisas que se descobrem por casa.
Os gatos dormem bastante. Não me chateiam. Só quando estão com fome é que vêm para aqui todos miar que até parecem uma banda sinfónica. Dez mil anos depois entre Vénus e Marte.
Os gatos são também uns excelentes ouvintes. Leio em voz alta coisas que escrevo e eles ouvem. Às vezes de olhos fechados para intuírem melhor o que eu digo. Nunca dizem mal. Não refilam. Não se chateiam com a música que eu ouço. Nem se incomodam por eu não ter tomado banho nem lavado o cabelo todos os dias. Às vezes lambem-me os dedos dos pés. A rir, pergunto-me porquê.
Comecei por lhes dar nomes. Mas perdi-me. Esquecia-me. Eram demasiados. Passaram a ser todos Gato. Mesmo as gatas. E funciona.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/01]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]

E Então, Vindo Lá do Fundo, Comecei a Ouvir os Felt

Estava ali assim, parado, de luvas nas mãos, com o carrinho de mão à minha frente, debaixo do alpendre da arrecadação, a ver a chuva a cair. E que chuva! Uma chuvada! Uma chuvada que vinha na companhia de grossas bolas de granizo.
Tinha uma pilha de lenha cortada, descarregada na eira, e preparava-me para ir arrecadá-la para o Inverno, quando aquela chuvada, não programada, resolveu aparecer.
Senti-me perder as forças. Os braços tombaram e deixaram cair o carrinho de mão. Senti-me frustrado. E depois fiquei ali, assim, a ver a chuva a cair e a pensar quantos dias seriam necessários para a lenha secar.
Acendi um cigarro. Sentei-me na borda do carrinho. Não poderia fazer nada naquela altura. Nem no dia seguinte.
Deixei-me ficar sentado a ver a chuva a cair.
Estava chateado, mas ao mesmo tempo fascinado com a queda de água e das pedras de granizo. Enormes. Pareciam bolas de golfe. O barulho que faziam na placa de zinco por cima do poço era ensurdecedor.
Acabei de fumar o cigarro.
Parou de chover.
Comecei a ouvir uma música.
Uma música que vinha do interior de casa. Felt. Eram os Felt. Ela tinha descoberto os meus vinis de Felt e pô-los a tocar. Há muitos anos que não ouvia a banda do senhor Lawrence. Ainda me lembrava do concerto em Lisboa. Aula Magna. Apaixonadamente. Era assim que estava no cartaz. Apaixonadamente. Apaixonadamente Felt. Era estranho ouvir assim aquela música tão urbana naquele contexto tão rural. Mas encaixava bem. Soava-me bem.
Levantei-me e acendi outro cigarro.
A chuva tinha parado. O sol começava a rasgar o céu. O calor apertava.
Comecei a ver os coelhos selvagens a invadir o terreno em frente.
Sorri.
Ouvir os Felt tinha-me deixado com boa-disposição.
Fui a casa buscar a máquina fotográfica e abalei para o terreno em frente, um terreno pouco tratado e um bocado selvagem, para tirar fotografias.
Deitei-me atrás de uma árvore e esperei. Quieto. Em silêncio. E os coelhos começaram a chegar. Clic. Clic. Um melro. Clic. Ao fundo vi um coelho um pouco maior. Talvez uma lebre. Clic. Clic. Mais ao fundo ainda, um veado. Não sabia que se aventuravam assim tão longe. Para tão próximo das casas. Clic. Clic. Clic.
Os Felt ainda me chegavam de casa, muito suaves, muito lá ao fundo, mas conseguia percebê-los. Como percebi a águia a voar lá em cima. Por cima de mim. Clic. Clic.
Virei-me para o lado e parei. Uma raposa. Uma raposa a beber água da chuva numa pequena poça que se formara ali. Clic. Clic.
Sorri.
Estava um dia fabuloso.
Ao fundo continuava a ouvir os Felt.
O que seria feito do Lawrence?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/09]

A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]