O Poço da Morte

Voltaram as dores de cabeça. Volta-não-volta, elas estão aí. E parece que regressam mais violentas. Hoje consegui descortinar um ponto no meio da cabeça, equidistante, de onde parecia vir toda a dor que me obrigava a fechar olhos e fazia sentir uma enorme vontade de vomitar.
Tomei Brufen 600. Ben-U-Ron 1000. Aspirina MicroActive. Zaldiar. Ben-U-Ron Caff. Clonix. Dois Nespresso. E quase um litro de café da avó. Alguma coisa havia de resultar. Acabei a vomitar.
Mais aliviado, saí da casa. Fui soltar o cão e mandei-o ir chatear os cães das redondezas. Eu fiquei sentado ao sol. Se calhar não foi boa ideia. Mas na altura, foi o que me apeteceu fazer.
Sentei-me no muro do poço a fumar um cigarro.
Ouvia os cães da vizinhança a ladrar. Estavam a ladrar ao cão.
Há muitos anos, um amigo meu morreu num poço assim, como este. Andava a brincar com o irmão e caiu. Num poço mais ou menos como este. Com água. Morreu. Não sei se da queda, se afogado. Não me lembro. Não sei se alguma vez soube. O irmão nunca mais foi o mesmo. Deixei de o ver. A mãe deles deixou de sair de casa.
Fui até à estrada ver se via do cão. Continuava a ouvir ladrar.
Caminhei um pouco ao longo da estrada. Depois parei. À minha frente, a atravessar a estrada, um comboio de lagartas. Aquelas lagartas nojentas do pinheiro. Acho que se chamam processionárias. Que raio de nome. Baixei-me. Olhei para elas. Mas à distância. Parecem ter uma carapaça. Levantei-me e com o pé, juntei-as todas numa roda. Depois deitei-lhes fogo. Elas começaram a arder. Fiquei a vê-las a arder. Pensei que era horrível, o que estava a fazer. Mas já estava feito. Já tinham ardido. Era já tarde para estar com merdas.
Vi o cão ao cimo da rua. Chamei-o. Assobiei. O cão veio a correr para mim, mas depois contornou-me e continuou estrada fora.
Voltei para casa.
Voltei a sentar-me no muro do poço.
Voltei a fumar um cigarro.
Comecei a pensar se as dores de cabeça não seria por causa do tabaco. Olhei para o cigarro. Não! Que estupidez!
Tocou o telemóvel. Atendi. Ouvi. Foda-se!
O cão acabou de matar uma ovelha. Tenho de lá ir buscá-lo. Tenho de pagar a ovelha. Tenho de dar uma coça ao cão. Talvez mandá-lo para o fundo do poço.
Cabrão!
Se calhar são estas coisas que me provocam as dores de cabeça. Os problemas.
Tenho de arranjar uma gaja.
Acho que está a começar a doer-me a cabeça. Outra vez.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/12]

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Não Voltar a Olhar para Trás

Eram oito da noite e eu estava com fome. Abri o frigorífico mas a única coisa que lá estava era uma garrafa de litro de cerveja, já aberta, e provavelmente morta. Ainda olhei o congelador mas só lá encontrei uma garrafa de Stolichnaya. Estava com frio e acabei por beber um shot de vodka, bem gelado, para aquecer.
Vesti o casaco de lã e desci à rua. Fui ao restaurante em frente comer uma sopa ao balcão. Havia sopa de cozido. Pedi umas azeitonas e despejei-as na sopa. Esgravatei na cesta do pão e ainda encontrei uma fatia de broa.
A sopa estava muito boa. Soube-me bem. Apaziguei um pouco a fome. Pedi um café. Bebi-o. Paguei e sai para a rua para fumar um cigarro. Mas descobri o maço vazio. Amarrotei o maço vazio de cigarros e lancei-o para o chão do passeio. Ainda lhe dei um chuto com o pé. Mas não lhe acertei em cheio e acabou por rolar um pouco para fora do passeio. E fui até ao quiosque, ao fundo da rua, para comprar um novo maço.
A meio do caminho uma carrinha fez uma travagem brusca para fugir a um miúdo que cruzou a estrada de surpresa, e o carro que vinha atrás, acabou por se enfaixar por baixo da carrinha, com grande estrondo.
Eu parei para ver o acidente. Mas não havia nada de aparatoso. Só um carro que bateu por trás num outro. Ninguém se magoou, não houve despiste, só chapa. Mas, entretanto, o homem do carro saiu e barafustar alto e a gesticular muito e dirigiu-se à carrinha. Percebi que tinha um ferro na mão. Vi-o abrir a porta do condutor da carrinha e puxá-lo para fora, deitá-lo ao chão e começar a bater-lhe com o ferro.
Eu fiquei nervoso e levei as mãos aos bolsos do casaco à procura de um cigarro, mas lembrei-me que não tinha.
E então vi as outras portas da carrinha a abrirem-se e saírem de lá três homens fortes que agarraram o homem do carro, retiraram-lhe o ferro da mão e deram-lhe uma coça tão grande que o deixaram inanimado no asfalto. Pegaram no condutor da carrinha, cheio de sangue, e enfiaram-no pela porta traseira. Depois entraram todos na carrinha e um deles foi a conduzir.
Eu fiquei ali a ver, cada vez mais nervoso, com uma vontade de fumar um cigarro e de todas as vezes a esquecer-me que não tinha tabaco. Vi o acidente, vi a fúria de um deles, vi o desacato, vi um homem a levar com uma barra de ferro, vi três homens a malhar noutro e a deixá-lo enrolado no chão, vi a carrinha a partir e vi o outro homem ficar caído no chão, frente ao seu próprio carro.
Comecei a ouvir as sirenes da polícia, estava muito nervoso e parti. Eu e todas as outras pessoas que tinham assistido a tudo. Partimos todos dali para fora.
Fui ao quiosque comprar o maço de cigarros. Acendi logo um e mandei umas valentes passas para acalmar. Senti o fumo a entrar-me pelos pulmões dentro e comecei logo a acalmar. Fiquei mais sossegado. Relaxei. E gostei da sensação.
Regressei a casa. A meio do caminho a polícia estava a vedar a estrada e a tentar gerir o trânsito que se tornara caótico. Os paramédicos estavam a colocar o homem numa maca para o levarem.
Eu continuei o meu caminho para casa, a fumar o cigarro. Olhei duas vezes para a polícia e para o homem na maca. Mas depois de passar, não voltei a olhar para trás.
Antes de chegar a casa ainda acendi outro cigarro. E fiquei cá em baixo, na rua, a fumá-lo. Mas não voltei a olhar para trás.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/10]