Do que É que Estou à Espera?

Do que é que estou à espera?
Estou vestido. De banho tomado e roupa interior lavada. As calças bem vincadas e a camisa engomada. Os sapatos engraxados. Estreei uma gravata. Tenho os botões de punho do meu pai. O relógio Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que também era dele. O telemóvel no bolso das calças. A carteira também. A carteira dos documentos que também é a carteira onde levo o dinheiro. As moedas vão numa outra carteira, pequenina, de pele, com fecho, que também está no bolso das calças. Um maço de cigarros novo no bolso do casaco. O isqueiro é um Zippo e também vai no bolso das calças. Tenho de ter cuidado com esta mania de acender o isqueiro dentro do bolso das calças. Limpei os óculos de sol, que estão em cima da mesa da cozinha à minha espera, e os de ler que estão numa caixa de transporte no bolso do casaco. Com tantas coisas espalhadas pelos bolsos das calças e do casaco, já percebo a moda das malinhas para transportar tanta tralha. E ainda me faltam as chaves de casa, ainda penduradas na porta de saída e as chaves do carro que estão na mesa da cozinha ao lado dos óculos de sol.
E então, do que é que estou à espera?
Lá fora está sol. Há um bocado estava encoberto. Durante a noite choveu. Mais tarde há-de chover de novo. Há ameaça de ventos fortes mas, por agora, o seu está azul, o sol brilha e está calor. Estou arrependido de ter posto gel no cabelo. Não tarda começa a escorre-me pela testa abaixo. Vou ficar com a testa brilhante, gordurosa. Vou ser o ponto de luz para quem toda a gente vai olhar. Serei o alvo de todas as atenções e não será pela melhor das razões.
Tenho um dente a latejar. Tomo já um Clonix para arrepiar caminho. As mãos estão a dar-me comichão. Já sei o que lá vem. É melhor juntar-lhe um Zyrtec. E uma bombada de Ventilan que já sinto a pieira. É dos nervos. Os nervos despertam-me a bronquite. Quando estou nervoso, fico logo cheio de pieira e logo de seguida começa a falta de ar.
Devia sair de casa. Estou em cima da hora.
Suspiro.
Tiro o maço de cigarros novo do casaco e retiro-lhe o celofane. Bato o maço nas mãos. Retiro um bocado de prata e puxo um cigarro. Acendo o Zippo e dou-me lume. Tusso. Tusso umas poucas de vezes. Não é o primeiro cigarro do dia, mas tusso umas poucas de vezes. Depois acalmo.
Sento-me à mesa da cozinha a fumar o cigarro. Na cabeça, uma música Lá-lá-lá-lá-lá lá-lá-lá lá-lá-lá-lá-lá-lá…
Tenho vergonha de estar com esta música na cabeça. Ainda bem que ninguém ouve, que ninguém sabe.
Devia ir-me embora. Do que é que estou à espera?
Estou com calor. Desaperto o nó da gravata. Tiro o casaco e penduro-o nas costas da cadeira. Sinto os pés apertados. Descalço-me. Levanto-me e sirvo-me de um copo de vinho tinto. Bebo o copo de um gole. Volto a servir-me. Dispo as calças. Puxo a gravata. Tiro os botões de punho. Dispo a camisa. Tiro a camisola interior de alças os boxers e as meias. Estou nu. Estou nu com o Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que era do meu pai no pulso esquerdo e já não vou a lado nenhum. Não. Vou. Vou até ao alpendre. Acendo um novo cigarro no resto do primeiro, agarro no copo de vinho tinto e vou nu sentar-me no alpendre. Os gatos correm para o pé de mim. O cão também, mas mais devagar. Ao fundo, as montanhas estão encobertas. Chove lá em cima. Acho que vou ficar aqui por casa. Não quero ir a lado nenhum. Quero ficar sozinho. Sossegado. Quero ficar aqui, exactamente aqui, onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

Tudo Me É, Cada Vez Mais, Impossível

Aproximo-me de mais um final de ano. Passou mais um ano. Mais um ano de merda que não deixa saudades.
Continuo a fumar um maço de cigarros por dia. Dois maços ao Sábado. Bebo uma garrafa de vinho tinto por dia. Não diminuí a quantidade mas diminuí a qualidade. Agora bebo mais barato. E não bebo antes de almoço. Como cada vez pior. Estou mais gordo. Excesso de pão. Muitos hidratos de carbono. Fritos. Cerveja. Caíram-me mais dois dentes. Andei um mês a Clonix e não resolvi nada. A minha boca é uma mina toda rebentada. Já não sei de que lado posso mastigar melhor e sem provocar dor. Estou a perder muito cabelo. Não o cortei para manter a ilusão de que continuo jovem e cabeludo. Rock’n’roll, motherfucker! Mas as entradas já são demasiado grandes para esconder, por mais que eu tente chegar-lhes cabelo para cima. Por outro lado, tenho cada vez mais pêlos a sair do nariz e das orelhas. A barba cresce de forma desordenada. Tenho algumas peladas. Os músculos dos braços estão caídos por força da gravidade. A barriga tomba por cima do cinto. O meu umbigo parece um buraco negro cada vez mais fundo e a acumular maior quantidade de cotão. A pila está cada vez mais pequena e com maior dificuldade em excitar-se. Já não a vejo cá de cima. O rabo também está com muitos pêlos e eu nem sabia que isso era possível. Tenho cada vez mais dificuldade em cortar as unhas dos pés. Maior dificuldade em me dobrar. Já não sei qual a melhor maneira para conseguir cortar as unhas. Os ataques de bronquite são cada vez mais frequentes e mais violentos. Tenho a sensação que o Ventilan já não faz efeito. Já estou à espera de ver os pulmões saltarem boca fora num ataque de tosse.
O dinheiro escorre-me pelos dedos. E só não escorre mais porque não há mais para escorrer. É só pagar. A água. A luz. O gás. O cabo. O telemóvel. A renda da casa. A prestação do carro. A prestação do computador. A prestação da máquina de lavar roupa. A prestação do frigorífico. E a sensação que quando acabar de pagar qualquer uma destas coisas estarei a precisar de as substituir. O esquentador anda a dar-me sinais. A torradeira já só funciona num dos lados. Os trabalhos que me pedem são cada vez mais espaçados. Ninguém quer pagar por coisas que não consideram. Ninguém lê. Toda a gente escreve. Ninguém quer saber de cinema. Toda a gente faz filmes. Toda a gente tira fotografias. Os grande fotógrafos já não são os que têm um olhar extraordinário, mas os melhores corpos nos sítios mais exóticos para selfies de inveja. Os fotógrafos de sucesso não estão nas revistas ou nos jornais, estão no Instagram e no Facebook.
O Continente continua a vender livros de merda. Algumas livrarias continuam a desconhecer o livro. Há quem trabalhe em livrarias como se trabalhasse num café e não precise de formação nem de conhecimento. Não sabem o que é a Douda Correria nem a Língua Morta. Desconhecem Alberto Pimenta e Vasco Gato (aqui descobrem uma edição da INCM – wow!) Mas ninguém se importa. Ninguém quer saber. A ignorância é o novo orgulho. Eu é que sou parvo. O livro é só mais uma mercadoria. E quem é que ganha?
Estou muito sedentário. Cada vez saio menos de casa. Cada vez mais a janela é o meu contacto mais directo com o mundo imediato da minha vizinhança. Mas desconheço os meus vizinhos e também não os quero conhecer.
Hoje, véspera das vésperas, dei a volta a mim próprio e saí de casa. Estou na Afficion. Estou na única esplanada do Sítio sobre a Nazaré. A melhor vista da zona. A dificuldade que é encontrar lugar numa esplanada que tem doze mesas e a melhor vista sobre a vila e o mar da Nazaré e eu estou aqui sentado. Está sol. Vejo as Berlengas lá ao fundo. Uma neblina paira sobre os Salgados. O mar, lá em baixo, está calmo. Há gente na praia mas não está ninguém a tomar banho. Não vejo o ascensor a funcionar. Já levantaram o estádio do Futebol de Praia que costuma manter-se no areal por meses a fio. Mas está montado um pequeno palco para a festa de final de ano. A Nazaré está tornada uma feira. Uma feira simpática, por enquanto. Quantas pessoas vão morrer no mar, nesta festa de final de ano?
Há muita gente a caminhar ao longo da calçada marginal. Chega-me, ao nariz, o cheiro de sardinhas assadas. Sardinhas assadas nesta altura do ano? Ontem também acordei com um manto de azedas no quintal lá de casa. Por vezes nem parece que estou em Dezembro tal a Primavera que o assaltou. Já nada me surpreende. Os meus amigos defendem Donald Trump, Jair Bolsonaro e André Ventura. Não, já nada me surpreende.
As gaivotas voam aqui à volta. Gralham muito. Não sei se ralham comigo se andam maldispostas com elas próprias. Aparece-me uma imperial aqui à frente. Bebo um gole. Dois. Sabe-se bem. Não gosto de sair de casa mas quando saio gosto de ter saído.
Vejo gente muito estranha à minha volta. Alguns até são portugueses. Ouço-as falar. Depois percebo que o estranho devo ser eu. Sou o único sozinho. O único de t-shirt. O único a fumar. Está toda a gente a comer, a petiscar, a beber vinho. Eu sou o único a beber uma imperial, a única coisa que o meu bolso consegue pagar.
Finalmente vejo os ascensores a funcionar. Vai um a descer e outro a subir. Cruzam-se a meio. Mas há também muita gente a pé. A subir a encosta pelo caminho serpenteante que vem lá de baixo até cá cima. Vejo um grupo de escuteiros a descer a encosta a pé. São um grupo grande. Com a mesma farda. Rapazes e raparigas. Vão contentes, a brincar uns com os outros. Vão a caminho de 2020. Eu também vou. Mas vou sem grande vontade.
Cai o sol. Tomba a noite. O horizonte está vermelho. Parecemos estar em Agosto. Isto anda tudo trocado. Mas que sei eu? Os inteligentes dizem que sempre foi assim e assim há-de continuar a ser. Acho que vejo as luzes de São Martinho do Porto e da Foz do Arelho. Tão longe e tão perto.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/28]

Dor-de-Dentes

Acordo com dor-de-dentes.
Fico quieto na cama, debaixo do edredão, na vã-esperança que ela se vá embora. Mas sei que não vai. Quando chega, instala-se. E sei exactamente qual dos dentes é que me dói. É este aqui de cima, este aqui, oh, este que sai da enfiada dos dentes e entra para dentro do céu-da-boca. Ainda por cima estou sempre a tocar-lhe com a língua. Não lhe consigo fugir. É como o destino. É o meu destino.
Tenho de tomar um clonix.
Não me queria levantar da cama, mas não posso não me levantar. A dor-de-dentes não se vai embora. Vou ter de a empurrar.
Levanto-me da cama. Está frio em casa. Vou à cozinha e como um bocado de pão duro para o estômago não estar vazio. O pão acaba sempre por ir parar debaixo do dente que me dói. Magoa-me. Apetece-me gritar. Mas não adianta. Não há ninguém para ouvir os meus gritos.
Engulo o pão embebido na minha própria saliva. Bebo um gole de água. Meto o clonix na boca e despacho-o para o estômago com mais um ou dois goles de água.
Regresso à cama. A dor-de-dentes regressa comigo. Penso que vai demorar a ir embora. Eu deito-me e apago a luz da mesa-de-cabeceira. Sinto-me desperto. Não vou conseguir voltar a adormecer tão cedo. Não consigo fechar os olhos.
Fico virado para o mesmo sítio para não me deitar sobre a face que me dói. E sinto uma vontade enorme de me virar para esse lado. Sei que não posso pensar muito sobre o que não devo fazer porque passa a ser o que me apetece fazer.
Materializo a dor-de-dentes. O dente que me dói parece crescer e tornar-se grande demais para a minha boca. Não a consigo fechar. Respiro pela boca. E canso-me. Estou sempre a tocar no dente. Estou sempre a levar lá a língua para perceber se está mesmo maior ou se é impressão minha. E percebo como estou a ser estúpido. Mas mesmo quando não me pergunto se o dente está maior que os outros, a língua tende a lá ir lamber o dente, lamber a dor.
Tento que a boca fique quieta como o resto de mim. Mas isso só me deixa mais inquieto. Começo a salivar. Tenho a boca cheia de saliva. Pareço ter uma nascente na boca. Deve ser do clonix. Penso em levantar-me, mas está frio na casa. Engulo a saliva. Enjoo. Por momentos sinto um vómito.
Estou há tanto tempo com os olhos abertos na escuridão do quarto que já consigo ver todos os fantasmas que cá estão instalados. Puxo o edredão mais para cima de mim. Para me esconder. O silêncio é ensurdecedor. Ouço pequenos ruídos ampliados pela ausência de outros ruídos. O mundo está todo em silêncio. E eu ouço alguns barulhos na rua. Anda aí alguém. Ou é só a minha imaginação?
O clonix demora a fazer efeito. Passam as horas. Vejo-as a passar no relógio digital e luminoso na mesa-de-cabeceira. As horas transformam-se em dias. A minha dor-de-dentes é mortal. Penso no Dr. House e que devia magoar-me noutro lado de mim para esquecer esta dor. Mas não esqueço. Nem consigo magoar-me. Sou um cobarde.
Vai-te embora! Vai! digo. Mas já não me ouço. Talvez esteja já a dormir. Talvez já seja tudo um sonho. Talvez esteja a sonhar com uma dor-de-dentes e não me esteja a doer de verdade. Talvez o barulho que ouço na rua não seja de alguém a rondar a casa. Talvez esse vidro a partir-se não esteja mesmo a partir-se. Talvez essa luz que vejo a entrar pelo quarto não esteja mesmo aqui mas sim no meu sonho. Enfio-me mais dentro da cama e puxo o edredão mais para cima da cabeça. Tento pensar em qual foi o meu disco do ano. Qual foi o meu disco do ano?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

O Poço da Morte

Voltaram as dores de cabeça. Volta-não-volta, elas estão aí. E parece que regressam mais violentas. Hoje consegui descortinar um ponto no meio da cabeça, equidistante, de onde parecia vir toda a dor que me obrigava a fechar olhos e fazia sentir uma enorme vontade de vomitar.
Tomei Brufen 600. Ben-U-Ron 1000. Aspirina MicroActive. Zaldiar. Ben-U-Ron Caff. Clonix. Dois Nespresso. E quase um litro de café da avó. Alguma coisa havia de resultar. Acabei a vomitar.
Mais aliviado, saí da casa. Fui soltar o cão e mandei-o ir chatear os cães das redondezas. Eu fiquei sentado ao sol. Se calhar não foi boa ideia. Mas na altura, foi o que me apeteceu fazer.
Sentei-me no muro do poço a fumar um cigarro.
Ouvia os cães da vizinhança a ladrar. Estavam a ladrar ao cão.
Há muitos anos, um amigo meu morreu num poço assim, como este. Andava a brincar com o irmão e caiu. Num poço mais ou menos como este. Com água. Morreu. Não sei se da queda, se afogado. Não me lembro. Não sei se alguma vez soube. O irmão nunca mais foi o mesmo. Deixei de o ver. A mãe deles deixou de sair de casa.
Fui até à estrada ver se via do cão. Continuava a ouvir ladrar.
Caminhei um pouco ao longo da estrada. Depois parei. À minha frente, a atravessar a estrada, um comboio de lagartas. Aquelas lagartas nojentas do pinheiro. Acho que se chamam processionárias. Que raio de nome. Baixei-me. Olhei para elas. Mas à distância. Parecem ter uma carapaça. Levantei-me e com o pé, juntei-as todas numa roda. Depois deitei-lhes fogo. Elas começaram a arder. Fiquei a vê-las a arder. Pensei que era horrível, o que estava a fazer. Mas já estava feito. Já tinham ardido. Era já tarde para estar com merdas.
Vi o cão ao cimo da rua. Chamei-o. Assobiei. O cão veio a correr para mim, mas depois contornou-me e continuou estrada fora.
Voltei para casa.
Voltei a sentar-me no muro do poço.
Voltei a fumar um cigarro.
Comecei a pensar se as dores de cabeça não seria por causa do tabaco. Olhei para o cigarro. Não! Que estupidez!
Tocou o telemóvel. Atendi. Ouvi. Foda-se!
O cão acabou de matar uma ovelha. Tenho de lá ir buscá-lo. Tenho de pagar a ovelha. Tenho de dar uma coça ao cão. Talvez mandá-lo para o fundo do poço.
Cabrão!
Se calhar são estas coisas que me provocam as dores de cabeça. Os problemas.
Tenho de arranjar uma gaja.
Acho que está a começar a doer-me a cabeça. Outra vez.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/12]

Vida em Desequilíbrio

Ando desequilibrado. Para vestir as calças, tenho de me sentar na cama ou encostar ao guarda-fatos. Quando levanto uma perna para enfiar na perneira, perco o equilíbrio e caio. Da primeira vez que aconteceu caí sobre a mesa-de-cabeceira e trilhei a orelha. Fez muito sangue. Tive de ir ao hospital. Levei pontos. A minha orelha já não é tão bonita como era. Por outro lado, ganhou personalidade. A cicatriz dá-me um falso ar de rufia. Como se fosse um troféu de guerra.
Também ouço um zumbido constante nos ouvidos. E, com muita frequência, uma valente dor de cabeça que me obriga a fechar os olhos e só acalma com Clonix.
Eu já estou habituado à desgraça. Contudo, evito ir ao médico. Não gosto de médicos, de hospitais e das contas finais. Contudo, tenho de lá ir por causa dos outros.
O meu pai fugiu de casa há dois dias. Deve ter-se perdido. Tem Alzheimer. Já avisei a polícia. Já percorri todos os hospitais, clínicas, lares e casas de putas da região. Nada. Se calhar apanhou o expresso para um lado qualquer no mundo e desapareceu de vez.
A minha mãe está com demência. Vive com o meu pai. Quer dizer, vivia. Ele agora não sei por onde anda. Não está com ela, isso de certeza. Ela é que organizava tudo da vida deles. Ainda cozinha. Faz a lida da casa. Toma banho sozinha. Dava banho ao meu pai. Mas depois, encetava inúmeras discussões com umas gajas que, dizia ela, lhe entravam lá por casa, para lhe roubarem o ouro, para além de andarem a construírem uma meia-casa no tecto, entre a casa deles e a dos vizinhos de cima, para abrirem uma discoteca que era também uma casa de putas onde o meu pai queria ir, mas nunca conseguiu dar com ela, isto segundo a minha mãe.
A minha filha foi embora. Casou, disse que estava farta de circo, e foi embora não sei para onde que não disse. Já não nos falamos há cerca de cinco anos. Acho que já sou avô. Mas não tenho a certeza.
Amanhã tenho um trabalho. Vai durar três dias. É para fazer um inventário. Chamam-me sempre para estes trabalhinhos de merda. Mas eu até gosto. Ando por lá sozinho. Não tenho de falar com ninguém. Na verdade, é o meu tipo de trabalho preferido. Espero que esta noite não venha a dor de cabeça. Senão, não poderei ir trabalhar amanhã. E eu preciso de ir trabalhar. Preciso do dinheiro. Hoje era o último dia para pagar a renda da casa. Vou ter de esperar até receber por este inventário para a pagar. Ao que me reduzi. A inventários! Mas tenho de pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telemóvel, a internet, o cabo, os seguros, a gasolina… Pareço estar vivo para pagar contas!
Vou deitar-me. Beber um copo de vinho. Fumar um cigarro. E deitar-me. E vou rezar. Para amanhã não ter dor de cabeça e poder fazer o inventário. Para poder pagar a renda da casa.
Devia ir à procura do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/08]

Uma Dor de Cabeça que Me Quebra

Dói-me a cabeça. Dói-me tanto a cabeça que me sinto mal-disposto. Por vezes a dor parece descer da cabeça para os olhos e tenho de os fechar. Depois regressa à cabeça e anda por lá.
Pode ter sido do sol que apanhei.
Hoje peguei numa série de livros, meti-os num caixote e fui vendê-los para a feira. Já não os leio. Já não consigo ler. Não consigo ver as letras. Elas parecem fugir página fora quando tento ligá-las umas às outras.
Precisava de mudar as lentes do óculos. Mas não posso. Tenho de manter as mesmas. Não tenho dinheiro para as novas lentes. Nem para ir ao oftalmologista.
Por isso tentei desfazer-me dos livros. Já não me servem de nada. Alguma vez serviram? Pensei que talvez conseguisse algum dinheiro com eles. Não consegui. Já ninguém lê. Já ninguém quer ler. Agora só há gente a escrever. A leitura cedeu à escrita. Todos são escritores. Mas já ninguém lê.
Voltei para casa com o caixote com os mesmos livros que tinha levado. Não vendi nenhum. Não trouxe nem um euro. Mas trouxe uma grande dor de cabeça.
Procurei no armário dos medicamentos por algum comprimido. Encontrei uma embalagem de Clonix fora do prazo. Acho que já não se fabrica. Já é um comprimido vintage. Tomei um. Já há algum tempo. Ainda não fez efeito.
Fui até à varanda apanhar um pouco de ar. Queria fumar um cigarro mas não conseguia pô-lo na boca. Só de pensar nele sentia-me enjoar. Nunca pensei ver chegar o dia em que não conseguisse fumar um cigarro.
Ao fundo, por trás dos edifícios, vi uma nuvem enorme e muito vermelha. O resto do céu ainda estava azul, mesmo que a noite se estivesse a aproximar.
Pensei que poderia ser do céu, da Lua, da força das marés ou da gravidade a responsabilidade pela minha dor de cabeça. Mas acho que foi mesmo do sol. Devia ter levado um chapéu. Mas também não tenho nenhum cá em casa.
Amanhã vou voltar à feira e tentar vender os livros. Vou levar outros livros diferentes. Talvez consiga que os comprem. Mas vou levar um chapéu-de-chuva que comprei nos chineses e que ainda anda por cá. Tenho de me proteger do sol. Não quero mais continuar com estas dores que me quebram.
Também pode ter sido do vinho…

[escrito directamente no facebook em 2018/05/19]