O Circo Chegou à Aldeia

Foi na Quinta-feira de manhã que as vi chegar. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Com elas vinha um altifalante a anunciar-se. Começam cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. O cão começou a ladrar. Passaram as primeiras auto-caravanas. Depois uns camiões TIR. Uns deles transportavam jaulas. A primeira que vi trazia um tigre. Um enorme tigre de Bengala. Pensava que tinham sido proibidos.
Passaram aqui em frente e desapareceram. O altifalante morreu em fade.
À hora do almoço voltei a ouvir o altifalante. Mas desta vez parecia que não queria ir embora. Fui à janela. Olhei. Estava uma carrinha estacionada na estrada aqui em frente. Uns rapazes andavam de um lado para o outro a colocar umas placas nos postes de electricidade e nas árvores. Um deles estava parado a fumar um cigarro e a olhar aqui para cima. Aqui para casa. Eu deixei-me estar quieto onde estava. Não me mexi para não me detectarem.
Depois do almoço desci à estrada. Fui ver. Tinham andado a colocar publicidade. Era o Circo. O Circo Chegou a Esta Localidade, informava um cartaz. Assim, sem identificar a localidade e dando para todas as localidades por onde passassem. Também informava 30 Animais na Arena. Voltei a pensar que tinha sido proibido haver animais no circo.
Voltei para casa.
À noite, depois de jantar, dei uma volta a pé. Fui até ao circo. Estava cheio de gente à entrada. Era dia de semana e havia muita gente pronta para assistir ao espectáculo de circo. Gente que entrava em magote para dentro da enorme tenda. Ao lado da entrada, um rapaz fumava um cigarro e olhava as pessoas. O olhar dele cruzou-se com o meu. Desviei o olhar.
Há anos que não ia ao circo. Sempre achei que era deprimente. Triste. Mas pensei em ir. Olhei o cartaz à entrada. De Quinta-feira a Domingo às 21:30’. Sábado e Domingo também às 16:30’. Tinha tempo, pensei.
Acendi um cigarro e voltei para casa a fumar.
Passaram os dias. E as noites. Foi-se o fim-de-semana. A carrinha com o altifalante continuou a passar várias vezes na estrada lá em baixo para me convidar a entrar na tenda grande e assistir à vida na arena. Mas fui empurrando a vontade, que não era nenhuma, até deixar passar a última sessão.
Era já Segunda-feira de manhã quando as vi partir. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Desta vez iam em silêncio. Não havia altifalantes a anunciar a partida. Vão cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. Primeiro passaram as auto-caravanas. Depois os camiões TIR. O último a passar transportava uma jaula. Uma jaula com o tigre de Bengala. E eu vi-o afastar-se ao longo da estrada enquanto fumava o cigarro. Depois desapareceu. Chegou o silêncio.
E estava instalado o silêncio quando ouvi o primeiro grito. Logo depois o segundo. E, em seguida, vários gritos em confusão. A localidade estava toda a acordar ao gritos. Vi gente a correr na estrada lá em baixo. Vi passar um jipe da GNR. Um vizinho viu-me no alpendre, aproximou-se do muro, ao fundo, e gritou-me As crianças! As crianças desapareceram todas! E eu perguntei-me Que crianças?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/04]

Nervoso num Autocarro

Estou nervoso.
Há gente que quando está nervosa disfarça. Não diz nada a ninguém. Foge à condição. Não gosta que se saiba. Talvez para não se sentir diminuída. Talvez porque ninguém tem nada a ver com isso.
Há gente que quando está nervosa, anuncia por todo o lado. Não consegue fingir. Os nervos são bem evidentes. A perna não pára de abanar. O pé está sempre a bater no chão. As mãos transpiram. Há um dedo que está sempre a subir à cara. Há sempre uma angústia latente.
Eu sou destes últimos. Quando estou nervoso digo logo. E digo a toda a gente. Acho que para me exorcizar. Talvez para diminuir os nervos. Talvez para desculpar alguma asneira provocado pelo nervosismo.
Estou num autocarro. Estou a caminho da cidade grande.
O autocarro está cheio. Há gente mascarada. Há gente adulta mascarada. Com saias de tule. Caras muito pintadas. O cabelo armado. Estou no meio da loucura.
Há um palhaço sentado duas filas mais à frente que está sempre a voltar-se para trás. Para mim. Para olhar para mim. Se calhar conhece-me. Eu não consigo perceber quem é. Não assim, mascarado.
Sinto algum medo de palhaços. Talvez algum trauma de infância. Talvez algum espectáculo de circo não percebido. Talvez alguns desenhos-animados perversos.
O autocarro cheira mal. É o cheiro de muita transpiração junta. Mais os perfumes. Os bons e os maus. Nesta altura já é só tudo mau. Mau cheiro. Alguma flatulência, com certeza. E isto deixa-me mal-disposto. Nervoso.
O autocarro não tem Wi-Fi. Não consigo ver as últimas notícias.
Agora entro numa estação. Uma pausa de dez minutos. Para o motorista fazer chichi. Fumar um cigarro. Também fumava um cigarro. Mas estou demasiado nervoso para fumar.
Há gente a sair. Há gente a entrar. Mais mascarados. Há uma mulher-barbuda. Não sei se é a sério ou de Carnaval.
Lá fora um homem mostra castanhas assadas. Pergunta se quero. Eu finjo que não o vejo. Olho em frente. Para a cabeça do tipo que está sentado à minha frente e não se levantou nesta pausa.
Chega uma mulher que fala alto. Fala alto e não se cala. Conta a sua vida. A sua vida hoje. Andou a sambar. Mas é portuguesa. E não se cala.
Não há Wi-Fi no autocarro.
Não era suposto haver Wi-Fi na Rede Expressos?
Estamos de regresso aos anos ‘80 do século passado. Mas sem poder fumar em sítios fechados.
Tudo isto me deixa ainda mais nervoso.
A mulher não se cala. Agora fala ao telemóvel com alguém. Estás no Pingo Doce? Eu chego daqui a uma hora. Leva comida para o cão, coitado.
Eu fecho os olhos. Tento abstrair-me. Tento dormir. Tento esquecer a voz da mulher. Mas não consigo.
O cão foi deixado no Pingo Doce. Abandonado. A mulher disse ao segurança Pode agarrar-me o cão enquanto vou comprar umas coisas? E nunca mais voltou. Um cão muito giro. Com franja. Bom para os penteados.
Porra. Cala-te, mulher, penso.
Começo a ficar mal-disposto.
Não há Wi-Fi no autocarro. Não consigo dormir no autocarro. Não consigo descansar no autocarro. Malditos mascarados. Malditos cães. Maldita mulher que não te calas. Pum!
Estou nervoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/03]

A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

Vida em Desequilíbrio

Ando desequilibrado. Para vestir as calças, tenho de me sentar na cama ou encostar ao guarda-fatos. Quando levanto uma perna para enfiar na perneira, perco o equilíbrio e caio. Da primeira vez que aconteceu caí sobre a mesa-de-cabeceira e trilhei a orelha. Fez muito sangue. Tive de ir ao hospital. Levei pontos. A minha orelha já não é tão bonita como era. Por outro lado, ganhou personalidade. A cicatriz dá-me um falso ar de rufia. Como se fosse um troféu de guerra.
Também ouço um zumbido constante nos ouvidos. E, com muita frequência, uma valente dor de cabeça que me obriga a fechar os olhos e só acalma com Clonix.
Eu já estou habituado à desgraça. Contudo, evito ir ao médico. Não gosto de médicos, de hospitais e das contas finais. Contudo, tenho de lá ir por causa dos outros.
O meu pai fugiu de casa há dois dias. Deve ter-se perdido. Tem Alzheimer. Já avisei a polícia. Já percorri todos os hospitais, clínicas, lares e casas de putas da região. Nada. Se calhar apanhou o expresso para um lado qualquer no mundo e desapareceu de vez.
A minha mãe está com demência. Vive com o meu pai. Quer dizer, vivia. Ele agora não sei por onde anda. Não está com ela, isso de certeza. Ela é que organizava tudo da vida deles. Ainda cozinha. Faz a lida da casa. Toma banho sozinha. Dava banho ao meu pai. Mas depois, encetava inúmeras discussões com umas gajas que, dizia ela, lhe entravam lá por casa, para lhe roubarem o ouro, para além de andarem a construírem uma meia-casa no tecto, entre a casa deles e a dos vizinhos de cima, para abrirem uma discoteca que era também uma casa de putas onde o meu pai queria ir, mas nunca conseguiu dar com ela, isto segundo a minha mãe.
A minha filha foi embora. Casou, disse que estava farta de circo, e foi embora não sei para onde que não disse. Já não nos falamos há cerca de cinco anos. Acho que já sou avô. Mas não tenho a certeza.
Amanhã tenho um trabalho. Vai durar três dias. É para fazer um inventário. Chamam-me sempre para estes trabalhinhos de merda. Mas eu até gosto. Ando por lá sozinho. Não tenho de falar com ninguém. Na verdade, é o meu tipo de trabalho preferido. Espero que esta noite não venha a dor de cabeça. Senão, não poderei ir trabalhar amanhã. E eu preciso de ir trabalhar. Preciso do dinheiro. Hoje era o último dia para pagar a renda da casa. Vou ter de esperar até receber por este inventário para a pagar. Ao que me reduzi. A inventários! Mas tenho de pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telemóvel, a internet, o cabo, os seguros, a gasolina… Pareço estar vivo para pagar contas!
Vou deitar-me. Beber um copo de vinho. Fumar um cigarro. E deitar-me. E vou rezar. Para amanhã não ter dor de cabeça e poder fazer o inventário. Para poder pagar a renda da casa.
Devia ir à procura do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/08]