Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Doce de Chila

Sentei-me na esplanada a beber um café e uma aguardente. O dia estava cinzento. Eu estava melancólico. O horizonte de prédios cinzentos não me recuperava. Descobri um pouco de verde com uma pequena árvore a fazer strip-tease e foquei-me nela. Tentei respirar-lhe o oxigénio. Abrir os pulmões.
Acendi um cigarro.
Ao meu lado, uma rapariga explicava a outra como se fazia doce de chila. A minha atenção foi deslocada do strip-tease da pequena árvore para a rapariga que dizia Agarras na abóbora chila e lavas com água. Mandas a abóbora ao chão para se partir. Se não se partir em muitos pedaços, ajudas a despedaçá-la com uma colher de pau. Depois de estar toda partida, tens de a limpar por dentro. Tirar as pevides. O ideal é usares uma faca de madeira, daquelas para se barrar manteiga em pão quente, acabado de fazer. Porque se usares facas de metal, a abóbora vai ficar preta. Se quiseres um doce de chila preto, usas a faca de metal. Mas se a queres com aquela cor dourada, brilhante, não uses metal. Depois voltas a lavar os pedaços em várias águas, até deixar de fazer espuma. Cozes num tacho, com água e sal, até a casca se separar, o mais possível, da polpa. Coas tudo. Depois, com as mãos, separas a polpa da casca. Puxas os fios da chila. A chila é muito fibrosa. Às vezes custa um bocado. Mas é esta textura que lhe dá a característica. Depois voltas a colocar outra vez a polpa da abóbora num tacho com água ao lume, juntamente com o açúcar, na mesma quantidade que a abóbora, paus de canela e cascas de limão. Isto é a gosto. Vais experimentando até que, um dia, consigas atingir o teu próprio gosto. Deixas ferver em lume brando até a preparação ficar em calda. Depois é guardar em recipientes onde possa ser preservado. Eu, normalmente, opto por frascos pequenos para que o doce não fique muito tempo aberto. Mas tu fazes como achares melhor. Tu é que sabes.
Eu já não aguentava mais aquela conversa. Até porque há várias maneiras de fazer o doce de chila. A minha avó fazia em tacho de barro e ficava três dias e três noites de molho. Mas cada um faz como achar melhor. Levantei-me, deitei fora a beata do cigarro, e fui ao interior do café. Olhei a montra. Bolas de Berlim. Pastéis de Nata. Pastéis de Tentúgal. Brisas do Liz. Duchaises. Éclairs. Nada disto. E depois vi. Uma tartelete de Chila. Um Pastel de Chila. E agora? A-na-ni-a-na-não-fi-cas-tu-e-eu-não! Olhe, se faz favor!
Voltei para a esplanada. Aguardei o meu bolo com chila. As raparigas do lado tinham-se ido embora. Despejei o resto da aguardente e esperei. Enquanto esperava ia salivando. Até que pensei Mas eu nem gosto de bolos!
Acendi outro cigarro.
Começou a chover. Molhou-me o cigarro. Deitei-o fora. Disse Foda-se!, mas baixinho. Para mim. Para a minha melancolia.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/20]

No Aniversário da Minha Mãe

Volto a entrar em casa dela. Um ano depois. Faz um ano que aqui estive. Regresso hoje. Um ano mais tarde.
É o aniversário dela. É a única altura em que a vejo. Em que lhe dou um beijo. Em que falo com ela. Falo!… Digo-lhe Olá!… Parabéns!… Ela oferece-me uma fatia de bolo. Um copo de Vinho do Porto. Diz Já começa a fazer frio, não é? e depois começam a chegar outras pessoas, os amigos, as amigas, o resto da família, e eu vou-me embora. Não gosto de me envolver.
Normalmente levo-lhe um perfume. Um perfume qualquer. Uma embalagem bonita. Ela colecciona frascos de perfume cheios. Usa o mesmo há mais de cinquenta anos. Foi o meu pai que lho ofereceu. E nunca mais mudou de perfume. Às vezes cruzo-me com esse cheiro na cidade e olho à procura dela. Não a vejo, é claro. Não é ela que anda por ali. É só o seu perfume. E não é muito frequente sentir aquele perfume. Já é um perfume antigo e, no meio de tantas e novas fragrâncias, é uma grande pontaria cruzar-me com o perfume que a minha mãe usa já mesmo antes de eu nascer e ser filho dela. Mas colecciona frascos de perfume. Tem um móvel de vidro cheio de perfumes que nunca irá abrir. Gosta de olhar para os frascos. Todas as semanas retira-os, limpa-lhes o pó e dá-lhes novas ordens para que possa olhar para formas e cores diferentes. Quando era mais nova, tinha mais paciência e a mão mais firme, ainda desenhava os frascos de que gostava mais. Às vezes pintava-os. Aguarelas. Ainda tenho algumas aguarelas dela. E algum carvão. Desenhos e pinturas que pedi para trazer quando saí lá de casa. Para me lembrar dela. Para me recordar como tinha sido a minha vida naquela casa.
Eu chego cedo. Antes de toda a gente. A minha mãe enceta o bolo de aniversário para me fazer comer uma fatia. Bebe, ela própria, um copo de Vinho do Porto comigo, dizemos duas ou três coisas, coisas que se repetem de ano para ano, e despeço-me dela antes que comecem a chegar os convidados. Em especial a minha irmã.
Depois dou uma volta a pé pela cidade. De ano para ano torna-se, cada vez mais, estranha para mim. Já não reconheço nada. Nem ninguém. As lojas fecham e abrem outras. Outra gente torna-se senhora da cidade. Esta já não é a minha. Sinto-me desconfortável enquanto caminho ao longo da avenida principal. Não a reconheço e, ao mesmo tempo, parece-me igual a todas as outras que tenho caminhado ao longo dos anos por outros sítios que, agora, me parecem todos iguais. Está uma avenida incaracterística. Numa cidade incaracterística. Cheia de gente incaracterística.
Volto cá por causa da minha mãe. É a minha única âncora a esta cidade. Quando morrer, cortam-se todas as amarras que ainda existem. E se por um lado não quero que a minha mãe morra, antes vá eu que ela que é muito mais precisa às pessoas a quem faz bem que a inação em que me tornei, por outro tenho vontade de nunca mais cá voltar. Faz-me mal cá voltar. Regresso sempre cheio de angústia e tristeza. Penso sempre em tudo o que se perdeu aqui, na minha não-relação com esta cidade. O que eu perdi. O que a cidade perdeu. O que as pessoas da cidade e eu deixámos de ter. Por isso não volto cá mais vezes. Venho no aniversário da minha mãe. A única razão para cá por os pés. Depois…
Páro num café que já foi o meu café. Não reconheço ninguém no lado de dentro do balcão. Não reconheço ninguém na sala nem na esplanada. Bebo uma bica queimada. Como um pastel de nata demasiado doce. Talvez seja má vontade de minha parte. Talvez seja eu que já não tenho maneira de bem-receber as coisas que a cidade tem para mim.
Pago o café e o pastel de nata ao balcão. Depois pago o parque de estacionamento. E saio com o carro. Espero não ter de cá voltar se não daqui a um ano. Saio do parque de estacionamento subterrâneo e descubro que está a chover. Vejo as pessoas a correr para se abrigarem. O céu está cinzento. A cidade também. Continua sem árvores. Vá lá, há coisas que continuam iguais. E, de repente, já não há ninguém na rua.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/29]

Preciso de Ir mas Ainda Não Fui

As grossas gotas de água caíam-me em cima. A água estava fria. O meu corpo estava quente. A ferver. As gotas de água caíam como punhais cravando o meu corpo.
Estava deitado, nu, sobre a relva do quintal. O sol torrava-me. A mangueira, agarrada pela mão direita, apontada ao céu, mandava para lá a água que vinha das montanhas e saía pela agulheta. Depois caía em cima de mim, como uma chuva de Verão refrescante.
Apetecia-me fumar um cigarro, mas não havia como. À minha volta era já um charco. Não devia tardar o coaxar das rãs.
Perscrutava com toda a atenção, todo e qualquer bocadinho de céu à procura de uma nuvem, por pequena que fosse, que me agilizasse o pensamento e me fizesse imaginar alguma coisa.
Tinha a cabeça a ferver. Não conseguia pensar em nada. Um blur cinzento num mundo colorido. O verde na terra. O azul no céu. Mas a cabeça cinzenta. Preciso pensar, dizia num mantra. Preciso pensar. Mas não conseguia.
O céu estava azul. Nem uma nuvem. Nem uma amostra de nuvem.
A água continuava a cair em chuveiro sobre mim. Sobre a minha cabeça e o meu corpo. Comecei a ficar com os dedos engelhados. O corpo envelheceu. Fiquei com frio. Fiquei frio. Larguei a mangueira e ela ficou ali a engrossar mais o charco onde eu estava deitado.
Levantei-me. Tentei levantar-me. Uma cãibra. Uma cãibra na perna. Uma dor diabólica. Voltei a cair no charco. Agarrei o pé com as duas mãos e fiz força. Tentei impedir o músculo de se fechar sobre si próprio. As dores eram horríveis. Fiz força. Depois massajei o músculo. Massajei a perna. Tentei levantar-me. Estava farto daquele charco. Fiquei furioso. Estas merdas são só para me chatear. Acabei por me pôr em pé. Fui a coxear desligar a mangueira. Voltei a olhar o céu. Azul.
Eu estava molhado. A coxear. E foi a coxear que entrei em casa. Entrei na cozinha a molhar as lajes do chão. Abri o frigorífico. Uma cerveja. Fui para o alpendre. Sentei-me nu e molhado a beber a cerveja. Acendi um cigarro. E disse Está um calor do caralho. E dói-me a perna. Tudo só para me chatear.
E foi então que sorri. Já conseguia pensar. A dor no músculo libertara-me daquela dormência. Já conseguia pensar. Primeiro pensei na dor que ainda sentia no músculo onde tivera a cãibra. Depois no dia de calor extremo que estava. E finalmente decidi que era hora de ler um bocado. Precisava de ler. Andava há uns tempos para acabar de ler o Homo Deus de Yuval Noah Harari. Era isso. Mas tinha de me levantar para o ir buscar. Lá dentro. A casa. À sala. À mesa da sala. E decidi que já ia. Mais tarde. Depois de descansar um pouco.
Ainda não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/22]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender ninguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]