Para um Diário da Quarentena (Décimo Primeiro Andamento)

O tempo passa e passa por mim. Vai passando. Umas vezes devagar, outras mais depressa. Eu estou desistente. A minha promessa de construir um diário da quarentena ficou-se pela vontade. Não tenho tido forças para levar com o projecto em frente. Não tenho forças para escrever. Não tenho forças para nada.
Ouço os relatórios diários sobre o número de mortos. Não sei se os ouço todos os dias. Mas vou ouvindo. Eu ainda não morri. Ainda não pertenço às estatísticas. Mas às vezes penso que teria sido uma bênção.
Há já uns dias que não visito a minha mãe. Telefono-lhe todos os dias. De manhã e à tarde. Nestes últimos dias só à tarde. As manhãs já não existem para mim. As manhãs são passadas na cama, o edredão por cima da cabeça, ausente, inerte. À espera que tudo passe sem passar.
Pergunto à minha mãe se precisa de alguma coisa. Ela diz que não. Que não precisa de nada. Eu sei que ela está a mentir. Eu sei que ela nunca iria dizer que precisava fosse lá do que fosse. Eu sei que ela sabe que eu estou sem conseguir ser alguma coisa por mais que me custe não o ser. E custa. Mas não consigo erguer a cabeça. Sinto-a pesada. E leve ao mesmo tempo. Está aqui, deitada sobre a almofada, e por vezes dói-me, e por vezes anda não sei por onde, mas sei que me leva a sítios onde eu nunca estive, mas que ela conhece bem.
Há dias que não vejo a minha mãe. Nem os meus filhos. Nem as minhas amantes. Há semanas que não me apetece ter sexo. Já nem me masturbo. Não tenho vontade nem desejo. Sinto-me morto.
Caí na cama e deixei-me apagar. Já não sei quando foi isso. Talvez ontem. Talvez na véspera. Estou deitado na cama. Acordei já o sol ia alto. Ainda não consegui levantar-me. Não fui à casa-de-banho. Não comi. Não tenho fome. Não me apetece comer. Não me apetece levantar.
Foda-se!
Faço o diário. Vá lá, não custa nada. É só organizar o que (não) vivi hoje.
Estive deitado toda a manhã. Acho que dormi. Acho que dormi toda a manhã. Acordei com o sol já bastante alto. Virei-me para o outro lado. Precisava de um comprimido para voltar a dormir.
Não preciso de ir à casa-de-banho. Não tenho fome. O tempo está cinzento. Pus o braço de fora e arrefeceu. Agora está outra vez dentro da cama. Colado ao corpo. Aquecem-se um ao outro. Procuro um comprimido na mesa-de-cabeceira. Quero voltar a dormir. Não encontro nenhum. Já os devo ter tomado todos. Vou ter de me levantar. Ir à rua. Mas não vai ser agora. Nem hoje. Talvez amanhã.
Mais logo irei telefonar à minha mãe. Vou falar sozinho e alto, um pouco antes, para que a voz não soe tão triste. Ela descobre-me nestas pequenas pontuações. Não quero que ela saiba que não consigo levantar-me.
Viro-me na cama. Agora que já decidi que o meu objectivo, hoje, é telefonar à minha mãe ao final da tarde, tenho mais algum tempo para estar deitado na cama sem me sentir culpado. Mas sinto. Sinto-me culpado desta inércia. De não fazer nada. De nem fazer a barba nem lavar os dentes. De não tomar banho. Mas a verdade é que não quero saber. Não quero saber de lavar os dentes nem se fico com os dentes todos podres e escuros e a boca e o cu a cheirar a podre. Não quero saber. Não quero saber de nada.
Às vezes queria ir para o Pingo Doce desprotegido para ser contaminado e resolver de vez esta ansiedade de ser ou não contaminado. É claro que vou ser. Vamos todos ser contaminados. E quando? Quando é que vou ser contaminado? E porque não agora?, agora que não tenho nada para fazer, que não me apetece fazer nada, agora que o corpo pode bem menos que a cabeça e a cabeça já não pode grande merda?
Dobro mais o meu corpo na cama, debaixo do edredão, fico em posição fetal, ponho as mãos entre as pernas para sentir o calor que vem de mim, e agarro na pila e está murcha, muito murcha e eu sinto-me como ela, murcho, cansado e ausente. Estou mais magro. Sinto os ossos a roçar as peles.
Logo ao final do dia terei de estar acordado e telefonar à minha mãe. Logo, logo mais ao final do dia, vou levantar-me e fumar um cigarro. Beber um copo de vinho. Ainda tenho vinho? E cigarros? Vou ter de comer qualquer coisa. Qualquer coisa. Talvez uma torrada com manteiga. E depois vou sentar-me e escrever qualquer coisa para uma espécie de diário da quarentena. Um relato destes dias. Para mais tarde me lembrar como foram estes dias. Para mais tarde alguém saber como foram estes meus dias. Qualquer coisa para o futuro. Para se saber alguma coisa sobre alguém. Mesmo alguém tão anónimo e insignificante quanto eu.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/27]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Um Dia como os Dias São

Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado. Adormeci.
Acordei com fome. Ainda chovia. Estava frio. Gosto de andar nu por casa. Mas tive de vestir um fato-de-treino e calçar umas meias. Passei na casa-de-banho. Fui à cozinha. Abri uma lata de atum. Desfiz o atum numa taça. Piquei um pouco de cebola. Acrescentei um pouco de salsa. Uma colher de sopa de maionese. Misturei. Cortei uma rodela de tomate. Abri um pão duro. Torrei-o um pouco. Coloquei o atum com maionese numa das metades do pão. Uma fatia de queijo Limiano. A rodela de tomate por cima. Coloquei a outra metade do pão. Levei-o à tostadeira. Prensei-o. Abri o frigorífico. Uma garrafa de vinho branco. Enchi um copo. Tirei a tosta de atum da tostadeira e coloquei-a num prato. Sentei-me à mesa da cozinha a comer a tosta de atum e a beber o vinho branco.
Lá fora continuava a chover. Senti um arrepio de frio pelas costas.
A maionese escorria-me pelos dedos e eu lambia-os. Acabei o copo de vinho antes da tosta e voltei a enchê-lo. A garrafa ficou vazia. Coloquei-a ao pé do lixo, dos vários sacos de lixo fechados com um nó à espera de irem para o rsu ao fundo da rua. Pensei que teria de sair. Teria de ir à rua brevemente. Mas não me apetecia.
Acabei de comer a tosta. Lambi os dedos. Despejei o segundo copo de vinho branco. Olhei as horas. Duas da tarde. Olhei a rua. Céu cinzento. Chuva. Frio. Voltei para a cama. Despi-me e enfiei-me debaixo do edredão.
Acordei com vontade de ir à casa-de-banho. Estava sol. Fiquei por momentos a tentar processar as informações. Ainda era o mesmo dia. O dia que amanheceu chuvoso, continuou chuvoso ao longo da manhã e início de tarde e agora estava sol. Levantei-me e fui à casa-de-banho. Passei pela janela do quarto e espreitei lá para fora. A estrada estava molhada. Os poucos carros estacionados na rua estavam molhados. Fui à casa-de-banho.
Regressei ao quarto. Voltei a deitar-me.
Acordei com o barulho da buzina de um automóvel. Era de noite. A buzina não parava. Virei-me para o outro lado. A buzina continuava a tocar. Levantei-me. Espreitei à janela. Um carro bloqueava outro. Com tantos lugares vagos aqui na rua, um carro parou a bloquear outro que queria sair e não podia. Vi um sujeito a correr vindo da farmácia. Levantou o braço a pedir desculpa. Um homem saiu do carro a discutir. O sujeito entrou dentro do carro. O homem aproximou-se a gesticular com os braços. O sujeito arrancou com o carro. O homem fechou o carro e acabou por ir embora a pé. Não entendo as pessoas.
Voltei para a cama. Virei-me para o outro lado. Os olhos abertos. As sombras nas paredes. Virei-me de novo de lado. Os néons da farmácia a piscar nos vidros da janela. Estava desperto e já não conseguia dormir. Já não tinha frio. Não tinha sono. Não tinha fome. Não queria mais estar na cama.
Levantei-me. Fui nu até à cozinha. Abri uma Terra d’Alter tinto. Servi um copo. Sentei-me à mesa da cozinha. Abri a tampa do portátil. Acendi um cigarro. Estalei os dedos. Bebi um gole de vinho.
E comecei os lamentos.
Acordei com a chuva. Virei-me para o outro lado, escrevi.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/15]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

Para um Diário da Quarentena (Segundo Andamento)

Acordei com a luz do dia a bater-me na cara. Virei-me para o outro lado. Fechei os olhos. Tentei dormir mas já não era possível. Os olhos abriam-se e olhavam para a parede em frente onde batem as sombras das árvores e produzem uma espécie de sombras chinesas. Recomeçaram de novo as histórias de todos os dias projectadas ali, naquela parede. Os ouvidos colocaram-se logo à escuta. Havia vento lá fora. Puxei o edredão mais para cima de mim. Sentia o frio à minha volta no quarto.
Estava desperto mas não tinha vontade de me levantar. Tinha de ir mijar, mas estava a protelar. Sentia-me bem ali deitado na cama. No quente da minha cama.
É início da semana. Mas que semana? Este início de semana é parecido com o fim-de-semana. Estou em casa. Estou sempre em casa. Estou sempre em casa todos os dias de todas as semanas e fins-de-semana. Trabalho em casa. Trabalho à distância que o wi-fi me permite. Trabalho como quero e quando quero e passeio-me pela rua fora, pelas ruas curvas e sombrias e solarengas e subo à serra e mando seixos ao rio e apanho fruta das árvores e oferecem-me ovos verdadeiros de galinhas verdadeiras que vivem em galinheiros no meio do campo alimentadas a milho e que passam os dias a depenicar o chão à cata sabe-se-lá-do-quê.
Não me apetece levantar.
Hoje não me apetece trabalhar.
Estou… Estou uma série de coisas que poderia enumerar. Neura. Melancólico. Deprimido. Preguiçoso. Cansado. Psicologicamente cansado.
Não me apetece ouvir música. Nem ver um filme. Nem uma série. Não quero ler um livro. Nem folhear uma revista. E tenho aqui tantas revistas atrasadas para folhear, ler, reler, guardar alguns artigos, algumas revistas inteiras. Não me apetece ver ninguém. Não me apetece falar com ninguém.
Nada. Nada de nada.
Virei-me para o tecto. Havia luz no quarto, a luz do dia, de um dia com um pouco de sol a bailar entre tufos de nuvens. O dia não estava escuro, até estava mais-ou-menos brilhante, com um sol amarelo a fugir às nuvens. Durou pouco. Ao início da tarde o sol morreu, as nuvens desapareceram e o céu escureceu e ficou cinzento. O vento mantinha-se e manteve-se. Um vento a grande velocidade e muito frio.
Não. Não me queria levantar.
Tocou o telefone. Deixei-o tocar. Chegou uma mensagem. Não a fui abrir.
Pensei que o mundo poderia ainda estar pior que na véspera. Estiquei o braço e liguei a rádio que está com o despertador. Estava na TSF. Os noticiários foram-se sucedendo. Ao longo do dia.
Eu fui dormitando. Adormecia. Acordava. Ouvia um segmento noticioso. Bocejava. Voltava a dormir. Esqueci-me que tinha vontade de mijar.
Quando dei por mim já era de noite. A TSF continuava a debitar notícias. Percebi que a vida continuava lá fora. Mas já tinha havido a primeira morte em Portugal. A fronteira com Espanha ia ser fechada. E falava-se na possibilidade de se levantar um estado de emergência.
Foda-se! Levantei-me rápido e fui mijar. Mijei. Senti-me aliviado e, por momentos, esqueci-me da quarentena e destes dias de excepção.
Lavei as mãos. Senti fome. E decidi fazer uns ovos mexidos.
Lembrei-me da mensagem que tinha recebido. Talvez tivesse recebido mais. Talvez alguns mails. Talvez… Não. Não haverá nada. Talvez só uma mensagem com a conta do telemóvel para pagar.
E pensei Amanhã não posso não fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/16]

Um Fantasma Caminha pela Cidade em Tempos de Emergência

Caminho pelo passeio irregular de calçada portuguesa. Quando era criança caminhava só pelas pedras azuis, fazia as curvas com ângulos de noventa graus e às vezes, a minha mãe tinha de esperar por mim ao fundo da rua que as pedras azuis afastavam-me dela, do trajecto dela, e depois era o cargo dos trabalhos para regressar ao regaço familiar sem pisar nas pedras brancas. Agora ignoro as linhas, os desenhos, as cores das pedras. Agora caminho a direito ao longo do passeio indiferente aos desenhos marcados na calçada.
Caminho numa cidade quase-fantasma. Não há mais ninguém a caminhar na rua. Algumas lojas estão fechadas. Outras estão abertas. Mas estão vazias. Não há clientes. Vejo, através das montras, um solitário atrás do balcão à espera do improvável cliente para um qualquer produto não-essencial. Caminho sozinho pelo passeio, mas há mais carros na estrada, parece-me. Sinto o cheiro do combustível queimado. Não é normal sentir este cheiro. Talvez eu esteja demasiado sensível. Talvez o cheiro esteja mais forte. Talvez haja mais carros na cidade. Talvez se queime mais combustível. Talvez seja as profundezas da cidade em ebulição.
Passo ao lado da garagem dos autocarros. A enorme porta de ferro pintada de azul celeste está corrida. Não há autocarros a partir dali. Talvez passem pela cidade a caminho de outros destinos mais distantes e mais importantes. Talvez passem pela cidade e larguem algum passageiro. Talvez levem outro. Mas daqui não sai nenhum autocarro. A cidade é pequena. Não tem importância política e muito menos económica. Ninguém vem para esta cidade. Só eu.
O tempo está cinzento. Não está frio, também não está calor, mas está desagradável. Sinto um desconforto desde que cheguei à cidade. Como se alguma coisa se abatesse sobre mim. Mas eu tive sorte. A mim vieram trazer-me. Eu estava fora e trouxeram-me. Livraram-me de uma viagem de autocarro, provavelmente cheio, cheio de gente que não saberia de onde vinha, com quem teriam estado e se transportariam algum inferno dentro deles.
Páro um pouco na rua e olho os prédios em frente, do outro lado da estrada. Há gente nas casas. Mas não há gente nas varandas. Como se estivessem escondidos. Com medo. Acendo um cigarro. Retomo o caminho. Penso no Harrison Ford de cigarro ao canto da boca (se calhar não havia cigarro) e gabardina de três quartos, gola levantada a proteger o pescoço da chuva miudinha que teima em cair, a caminhar ao longo de uma rua de neons e fumo que sai de vários sítios e ampliam aquela imagem de herói-anti-herói rebelde do Blade Runner, que por vezes se mistura com as sombras que o devoram, e sinto-me como ele, de casaco curto e de corte mais clássico, cigarro nos dedos da mão a caminhar ao longo de uma rua deserta à luz de um dia cinzento. Não, eu nunca poderia ser um Rick Deckard. Não sei caminhar daquela forma como se dominasse o mundo e o fosse devorar. Eu encolho-me a um simples aviso de alerta. Eu evito entrar em autocarros que possam vir cheios e contaminados. Eu sou um medricas que só não é cobarde porque nem tem coragem para o ser.
Ouço um som melodioso. Um som de piano que vem lá da frente. Aproximo-me e o som aproxima-se de mim. É uma melodia bastante agradável. Suave. Parece pegar em mim e levantar-me no ar e, por momentos, pareço flutuar. Aproximo-me do largo do Teatro e vejo um homem sentado a um piano de cauda a tocar. Não há ninguém ao pé dele. Está sozinho. Ele e o seu piano. E as notas que produzem em conjunto. Sinto-me como uma personagem de uma leve comédia-romântica. Agora vejo algumas caras coladas aos vidros das janelas das casas a olhar para o homem. Não sei porque é que ele está ali. Não sei porque é que ele está ali a tocar piano, mas sinto-me agradado com o encontro, com aquela surpresa, e páro por momentos ao pé dele a vê-lo e ouvi-lo enquanto acabo de fumar o cigarro. Belisco-me para perceber se estou acordado e magoo-me. Não importa. Penso como às vezes a vida pode ser tão bonita. Sempre gostei do som de piano. Gostava de ter aprendido música. Gostava de saber tocar guitarra. Gostava de saber tocar piano. Gostava de saber tocar com as baquetas numa bateria e produzir um som agradável, ritmado. Mas sou uma nulidade sem par. Não tenho jeito para a música. Não sei cantar. Tenho uma voz de merda e nem no coro da igreja me quiseram. Aguentaram-me dois dias. Ao fim do segundo dia disseram-me para não voltar no dia seguinte. Foi aí que decidi jogar andebol. Também não fui grande coisa, mas fui um pouco melhor.
Gosto muito de ouvir o som de um piano. E a cidade ganha outra dimensão. Ganhou pulsão nas suas artérias, mesmo que vazias de almas. Até parece que as nuvens se abriram aos raios de sol, mas é mentira. O cinzento do céu mantém-se. Eu é que, por momentos, fiquei um pouco mais feliz. Por momentos esqueci os tempos difíceis que vivemos e senti um fogo no peito, um fogo que me aqueceu e me deu alento.
O alento comigo é sempre sol de pouca duração.
Largo a beata no chão, aos meus pés. Deixo o pianista inundar as ruas da cidade com as suas notas melodiosas e entro no Pingo Doce lá mesmo ao lado. E fico parado à entrada. Eu só ia comprar umas carcaças e um pacote de manteiga e há toda uma multidão de gente no que parece um happening com vários carrinhos-de-supermercado cheios até cima, a abarrotar com o que me parecem ser pacotes de papel-higiénico, garrafões de água, latas de conserva e frescos. Parece que se anunciou o fim-do-mundo e há que fazer uma festa. Que é o que está a acontecer ali, nas filas para as caixas do supermercado. As pessoas conversam. Riem. Mantém uma certa distância entre elas, mas comunicam e, em certa medida, divertem-se. Talvez tentem iludir-se. Ou sou eu que estou iludido.
Saio por onde entrei. Não tenho paciência para esperar sobreviver aquele mar de gente e confusão. Eu não me sinto alegre como eles, mesmo que o piano no largo do Teatro me tenha deixado bem disposto.
Saio para a rua. Acendo novo cigarro. Penso que as ruas da cidade estão desertas porque está toda a gente nos supermercados a comprar tudo o que podem para se fecharem em casa e esperar pela salvação.
Há um café mais à frente. Vou até lá. Espreito pela montra. Também tem muita gente, mas menos que o supermercado. Fico à entrada a acabar o cigarro. Depois entro. Vou ao balcão. Descubro que têm pão. Compro três carcaças. Compro mais três rissóis de camarão. Peço um café mas depressa descubro que vem queimado e fico logo com azia. Penso que tenho Kompensan em casa. Ao mesmo tempo descubro um pastel-de-nata queimado a sorrir para mim. E digo-me que dias-não-são-dias. A rapariga que está ao balcão percebe-me e sorri. Coloca-me o pastel-de-nata à frente. E um frasquinho de canela. Agradeço com um Obrigado! que é mais gesticulado pelos lábios que audível. Ouço uma senhora ao meu lado perguntar se o café vai fechar e o dono dizer que não. Que tem de trabalhar. Que não sabe nada de política. Que a política dele é o trabalho. Que tem a família para sustentar. Que tem doze pessoas a dependerem do trabalho dele. Que não tem medo do medo. E eu como o pastel-de-nata, acabo de beber o café queimado, pego no saco de papel com as carcaças e os rissóis, pago tudo e saio do café.
Na rua olho para o caminho que vou ter de percorrer até casa e vejo-o deserto. Não entendo por onde é que caminham todas estas pessoas que estão ali no café e as que  estavam no supermercado. Não caminham pelas ruas, isso é uma certeza. Pelas ruas caminho eu. Sozinho. E pergunto-me se não serei eu um fantasma.
Se não for para casa quem dará pela minha falta?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/13]

O Tempo Estranho e os Meus Dias

Tempo estranho este que domina os meus dias.
Ontem estive aqui na Nazaré. Estive aqui à frente, na praia. Descalcei-me. Despi-me. Fui em cuecas mergulhar no mar. Sem toalha, deixei-me secar debaixo do sol. Estava quase seco quando decidi ir de novo ao mar. E fui. Mergulhei na água fria mas agradável. Deu para dar umas braçadas. Voltei a sair. Caminhei um pouco junto à beira-mar em cuecas a deixar-me secar pelo sol de fim-de-dia e pelo frágil vento que se levantou. Estava agradável. Tenho memórias de Verões da minha infância de dias fechado em casa por culpa do frio, da chuva e das marés-vivas que traziam o mar até à marginal.
Em fim-de-dia, vestido de novo, sem cuecas, que estavam molhadas, vi o céu púrpura que antecipava a noite. Sentei-me numa esplanada a beber um imperial e a ver o sol desaparecer, a luz do dia dar lugar à noite e os faróis dos carros em procissão constante iluminar a estrada à beira dos meus pés.
Agora estou aqui, quase no mesmo sítio.
Estou sentado num dos bancos da marginal, na mesma linha onde ontem mergulhei no mar. Está a chover. Está frio. O mar está picado. As ondas rebentam com força e espalham espuma branca pelo areal.
Hoje estou molhado pela chuva. Ontem estava molhado pela água do mar.
Estou debaixo da chuva e não consigo ir embora. Tenho o capuz do casaco sobre a cabeça. Olho o mar lá ao fundo e penso que não tardará a chegar cá acima. Já há comerciantes a fecharem as lojas. A colocarem barreiras de protecção nas janelas, nas montras, nas portas.
Nos hotéis aqui atrás de mim há gente nas varandas à espera de ver a subida do mar. É uma excitação. Ouço os gritinhos da impaciência.
Já não há quase ninguém na rua. Há pouco passou por aqui um carro da polícia. Esteve parado atrás de mim, senti-o, mas ninguém me disse nada. Não me virei. Ignorei o carro. Mesmo quando ouvi a sirene tocar. Fiz-me surdo. O carro da polícia acabou por partir. Nada garante que o mar suba realmente aqui acima. Mas é muito provável.
Ainda não é de noite mas já está muito escuro O céu está cinzento. Ontem estava azul e o horizonte púrpura. Hoje não há horizonte. Acima da linha de rebentação das ondas há um desfoque que não permite linha nem horizonte. Há uma mistura entre o céu e a Terra que não consigo perceber onde se dá. E tudo em cinzento. Cinzento escuro, molhado e maldisposto.
Já mal se consegue ver o Forte e a rocha que o defende. Mas ainda se consegue perceber a explosão das ondas que ao bater na rocha, se espalham em toda a volta e para cima.
Será que ainda há gente no Forte?
Será que ainda há gente na Praia do Norte?
E as marquises da praça? Como é que vão ser protegidas? Ou serão já elas uma primeira linha de defesa dos restaurantes, marisqueiras e cafés que existem por trás das paredes de acrílico?
Até a Batel acabou por fechar mais cedo. Há andaimes no prédio da Batel. Será que vão aguentar-se se o mar chegar cá acima?
E eu? Devia ir embora. E vou? Eu queria ir. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Sinto-me preso. Não consigo deixar de olhar o mar. Estou à espera dele. Acho que estou à espera dele. Acho que ele vem à minha procura. Vem buscar-me.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/01]

A Cidade-Subúrbio

Desço à cidade. Às vezes dá-me para isso. Desço à cidade para matar saudades. Normalmente arrependo-me. O passado não regressa e, este presente parece envenenado.
Vejo as montras das lojas da cidade transformadas em montras de lojas chinesas. Máscaras. Mentiras. Enganos. Roupagens tipo. Super-homens. Super-mulheres. Cowboys. Índios. Polícias. Bruxas. Princesas, tantas princesas. Médicos. Enfermeiras (não deixo de reparar na dimensão extremamente curta da bata das enfermeiras e do seu enorme decote) – parece a montra de uma sex-shop, mas não é, é uma montra de loja que, se não é de chineses é de alguém que lhes quer roubar o monopólio do mau-gosto da má-qualidade e baixo-custo.
Coço-me ao ver as roupas. Imagino-as sintéticas. Sinto arrepios pelas costas. Os pêlos dos braços eriçam-se. Sinto comichão. Coço-me. Coço-me até fazer sangue nos braços.
O Carnaval está abandalhado. Parece que as Matrafonas de Torres Vedras com as suas meias de vidro rotas e soutiens XXL coçados e com roupas de mulheres de outros tempos, de cores que já nem me lembro o nome, em corpos de homens musculados e peludos, sem curvas nas ancas e sem saber andar em saltos-altos, tomaram de assalto o país. Parece que somos um imenso subúrbio.
Por outro lado, está tudo asséptico. Procuro nestas montras e não vejo. Onde estão as bombinhas de Carnaval? Os estalitos que se lançavam ao chão e assustavam as moças? Os estalitos que rebentávamos nas mãos fechadas em concha como pipocas a pipocar num tacho ao lume? As bombinhas de mau-cheiro? Os fulminantes para as pistolas de cowboys? As pistolas de água, que enchíamos com água tintada e, às vezes, de outras coisas que jurámos nunca revelar?
Entro num snack-bar que não reconheço. É novo, parece. Ouvi dizer que nos últimos tempos têm aberto e fechado restaurantes e cafés e pastelarias à medida de vários por semana. Toda a gente acha que pode gerir um estabelecimento de restauração. Depois descobrem que aqueles horários e aquela vida não estão de acordo com a família. Abrem e fecham. Abrem e fecham. Abrem e fecham.
Ao balcão peço um extracto de Absinto. Não há. Uma Ponte de Amarante. Não há. Uma Macieira. Não há. Um brandy Croft. Não há. Uma 1920. Não há. Uma Aldeia Velha. Não há. Então, o que há? Há um gin muito bom, com muitas coisas a boiar, que custa oito euros. Peço uma imperial que vem morta.
Regresso à rua.
Acendo um cigarro.
Hoje não há sol. O dia está cinzento.
Pergunto-me o que é que vim aqui fazer?
Os carros caminham parados uns-atrás-dos-outros. Ninguém tem pressa. Ninguém tem para onde ir. Já foram ao Shopping. Agora estão ali. Uns-atrás-dos-outros. A encher a cidade de gases tóxicos. Quem se passeia a pé, como eu, o único a pé na cidade, é que sente o cheiro da gasolina queimada. Salva-me o cigarro. Acalma-me.
Vou embora. Regresso a casa. Regresso a casa arrependido.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/16]

Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]