Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

Malpica do Tejo

Malpica do Tejo. Duas da tarde. Um calor infernal.
Vejo o alcatrão da estrada a ferver. A linha de horizonte da estrada está desfocada. Parece que o mundo está a arder. Sinto as gotas de transpiração a caírem-me pelas frontes. O cabelo está colado à cabeça. Está molhado. A cabeça está quente.
Vejo à minha frente um restaurante. Já passei por dois cafés e uma tasca. Tudo aberto. Tudo de porta aberta à minha espera. Sinto-me no paraíso. Acabei de vir de uma Niza de portas fechadas a quem chega de fora. Ao Domingo, Niza leva a sério as palavras de D. Manuel Linda. O Domingo deve ser para a família. Os supermercados devem fechar ao Domingo. Em Niza, tudo fecha ao Domingo. Malpica do Tejo salva-me o dia.
Entro no restaurante. Sei que já é tarde. Peço uma bifana grelhada. Uma Sagres média. Cinco minutos, informam-me. Sento-me cá fora. À sombra de umas árvores. Ainda há árvores por aqui. Há sombras. E está-se bem à sombra destas árvores. O que as cidades têm a aprender com Malpica do Tejo.
Como. Bebo. Cimento tudo com um café.
Preciso dar um mergulho no Tejo. Quero dar um mergulho no Tejo. Preciso de refrescar o corpo. A cabeça. Vejo uma placa que diz Rio Tejo. Entro no carro e arranco na direcção da placa.
Entro numa floresta de eucaliptos. Vejo outra placa que me informa Parque Natural do Tejo Internacional. Sigo em frente. A estrada é alcatroada. Durante alguns quilómetros. Depois acaba. Entro numa picada. Terra batida. Subo e desço. Quando subo, pergunto-me para onde é que vou. Preocupo-me. O Tejo é lá em baixo, digo baixinho para mim próprio. Quando desço, sinto-me ir na direcção certa. Sorrio.
A floresta adensa-se. Já não é só eucaliptos. Alguns pinheiros. Acho que passei por alguns sobreiros, mas não tenho a certeza.
Começo a ficar com algum receio. Algumas descidas são tão íngremes que tenho medo de não conseguir subi-las no regresso. Mas sigo em frente. Quero mergulhar no Tejo. No Tejo internacional. Páro num alto. Saio do carro. Não ouço nada. Há um silêncio quase total. Sinto o som de uma pequena aragem. Não vejo ninguém em lado nenhum. Nem casas. Nem carros. Só árvores. Verde. Pareço estar sozinho no mundo. Mas não. Por cima de mim planam duas águias. Assobio-lhes. Mas não me ligam nenhuma.
Volto a entrar no carro e continuo em frente. Volto a descer. A subir. Penso que se houver um incêndio, fico ali preso. A estrada de terra batida é estreita. Um caminho para um só carro. Não consigo dar a volta. Há, de vez em quando, umas pequenas bermas arredondadas para dentro da mata onde posso dar a volta ao carro e regressar. Mas já cheguei até aqui. Continuo em frente. Não quero regressar. Devo estar a chegar ao Tejo.
De repente, depois de subir um pouco, vem uma descida mas não consigo ver a estrada. É muito íngreme. Páro o carro. Saio. Olho em frente. É uma descida muito íngreme e com areia solta. Difícil de subir por ali. Acho que não consigo regressar se arriscar descer. Volto a entrar no carro e faço marcha-atrás. Estaciono-o no mato. E desço a pé. A meio da descida vejo o Tejo a passar lá ao fundo. É bonito o Tejo. Passa numa garganta. Continuo a descer. Vou mergulhar.
Um miradouro. Um miradouro interpõe-se. Olho para a outra margem. Espanha. Lá em baixo. A outra margem, a margem espanhola, vai até ao rio. Vai até lá abaixo. Vejo um pequeno cais. Há gente do lado espanhol a tomar banho no rio. As vozes da brincadeira chegam cá acima. Ouço crianças. Adivinho lá famílias. Quero ir até lá abaixo. Mas não consigo. O miradouro é onde termina o caminho que fiz. O lado português do Tejo é uma escarpa. Porra! O Tejo afinal é espanhol. Para os espanhóis.
Sento-me numa pedra. Acendo um cigarro. Penso que gostava de ser espanhol. Hoje. Agora. Agora gostava de ser espanhol. E estar lá em baixo a mergulhar nas águas frescas do Tejo. Recupero o calor. Agora que percebo que não consigo chegar ao rio, volto a sentir o dia quente. A minha transpiração. As gotas de suor e o cheiro.
O cigarro sabe-me mal.
Ouço os gritinhos da satisfação dos espanhóis lá em baixo.
E penso Que é que falta acontecer?
E é nesta altura que ouço o barulho de um carro. Um carro lá em cima. Ao pé do meu. Olho para lá. Sinto um calafrio nas costas. Como um pressentimento. Não consigo voltar a colocar o cigarro na boca. Tenho a boca seca. Tenho a garganta seca. Tenho os olhos irritados. Sinto um arrepio de frio.
Olho lá para cima e vejo dois homens a descer até ao miradouro. O miradouro onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/12]