A Besta Espalha os Seus Tentáculos

O tipo já lá estava quando eu cheguei.
Sentei-me ao balcão e pedi uma imperial. O homem do bar colocou-me uma imperial e um pires com tremoços à frente. Trinquei dois. Bebi um gole de cerveja. E ouvi Esta merda agora é tudo racismo, tudo racismo. Sabem lá eles o que é racismo! e eu olhei para o lado e vi o tipo que já lá estava antes de mim, sentado ao balcão, com um copo de bagaço à frente. Ele virou-se para mim, à procura de coro e disse E eu não sou racista. Até tenho amigos pretos! Aquilo não é racismo. Aquilo é uma provocação do preto, e eu olhei para a televisão que estava pendurada lá no alto e vi as imagens com o jogador que abandonou o jogo futebol por causa dos adeptos que estavam a imitar o som de macacos.
Virei-me para a frente. Para a minha frente. À minha frente estavam umas garrafas de bebidas brancas expostas em prateleiras de vidro cheias de pó. Por trás das garrafas via-me estilhaçado, em pequenos pedaços que o espelho reflectia. Via-me velho. A barba mal aparada. Uma barba grisalha. Fazia lembrar-me do meu pai. Não na barba, que ele não usava barba. O meu pai fazia a barba todos os dias, durante toda a vida. Não falhava um dia. Só nos últimos dias é que deixou de conseguir fazer a barba. Fui eu que lha fiz, nesses dias. Não, não era por causa da barba que me lembrava dele. Eram as feições da cara. Uma cara escavada. As olheiras. A face um pouco chupada. A boca descaída. A mim a boca via-se mal mas, percebia-se pelo corte na barba onde estava boca e como é que ela era. A cara dele na minha. Uma cara triste. Acho que sempre tivemos isso em comum. Uma cara triste.
Senti uma mão a pousar-me no braço. Ouvi Oh, amigo!… e afastei o braço da mão que me agarrava. Fiz um olhar duro, duro e fixo para o tipo que se tinha abeirado de mim. O tipo era magro. Magro e seco. Cabelo curto. Um dente partido mesmo à frente, que se via cada vez que abria a boca. Oh, amigo!… Criei uma barreira. Não estava com vontade de o aturar e fiz-lhe ver isso.
Agarrei no copo da imperial e despejei-a de uma vez. Os meus olhos procuraram os olhos do homem do bar. Levantei um pouco a mão. O homem trouxe outra imperial. Trinquei mais uns tremoços. O tipo regressou ao banco frente ao copo de bagaço.
Quando é com um branco nunca é racismo!, ouvi o lamento do tipo que virava o olhar da televisão para mim, ainda não convencido que eu não queria conversa.
Na televisão passavam imagens de claques a manifestarem-se num campo de futebol.
O homem do bar colocou a imperial à minha frente. Trinquei mais uns tremoços. Agarrei na imperial. Bebi um gole.
O meus olhos voltaram a pousar no meu reflexo. Na verdade não me parecia nada com o meu pai. Éramos bem diferentes. Com a mesma idade, o meu pai não usava barba e era careca. Eu uso barba e tenho bastante cabelo. Mas tudo em mim me fazia lembrar dele.
Vindo do lado, voltei a ouvir o tipo Esta gente precisava era de umas arrochadas!… Afinal, somos nós que lhes pagamos para poderem ter a vida que têm! Mal agradecidos! A cuspir na sopa!
Nós quem? Quem de nós é que pagava o que quer que fosse a alguém? Olhei para o tipo. Vi-o despejar o bagaço. Depois levantou o braço com o copo e disse São todos uns corruptos. Pretos e corruptos. São todos iguais. Todos não. Este não! Este sabe! Oh, este sabe! Este é esperto! Este diz as verdades! Segui o olhar do tipo e vi a besta na televisão. Vi a besta a vociferar ódio contra toda agente que não fosse igual a ele. Toda a gente que não pensasse como ele. E durante o pouco tempo em que olhei para a televisão, a besta não fechava a boca e não deixava mais ninguém falar. O tipo ao balcão gritava loas à besta. De braço levantado. De vez em quando olhava para mim. Provocava-me?
Eu chamei o homem do bar, Pedi uma cerveja em garrafa. Despejei o copo de imperial. Comi mais uns tremoços. Larguei uma nota de cinco euros. Agarrei na garrafa. Na garrafa cheia de cerveja. Aproximei-me do tipo e dei-lhe com a garrafa na cabeça. Vi a garrafa partir. Vi cerveja cair pela cabeça do homem. Vi o sangue a começar a escorrer pela cara dele abaixo. Vi o tipo cambalear. Vi o tipo cair.
Vi-me a mim, reflectido no espelho.
O homem do bar colocou uma garrafa de cerveja à minha frente. Agarrei na garrafa e saí do balcão. Passei por trás do homem que continuava sentado ao balcão a olhar a televisão, e saí do bar.
Na rua acendi um cigarro. Encostei-me à parede do bar, uma perna flectida e o pé na parede, a fumar o cigarro e a beber a cerveja da garrafa.
E pensava, Este mundo está muito doente.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/18]

Uma Concentração de Taxistas

Parecia uma concentração de taxistas. A rotunda estava cheia de carros pretos com o tejadilho verde. Estavam todos parados. Parados à volta da rotunda. Mas cada vez mais entravam carros novos. Táxis. Não sei para onde é que se enfiavam. Não via os carros no interior da rotunda mexer. Mas estavam sempre a entrar carros novos. Talvez se encolhessem. Talvez entrassem numa outra dimensão. Talvez fosse uma ilusão de óptica e não entrasse nenhum carro novo. Ou entrava e os carros na rotunda circulavam e eu é que tinha a sensação que não. Não sei. Talvez. É estranho.
Eu entrei na rotunda vindo de cima. Da rua de cima. Queria cruzar a rotunda. Ir para o outro lado. E voltar a subir na rua em frente.
Comecei a caminhar pelo passeio. A circundar a rotunda. Passei pela pastelaria. Pelo quiosque. Pelo carro da polícia estacionado no passeio com as sirenes luminosas ligadas. Passei pelo cinema fechado num edifício degradado. Pelo cabeleireiro africano. Faziam tererés, anunciavam em folhas A4 escritas à mão e coladas à montra virada para a rua.
Eu caminhava ao redor da rotunda mas não conseguia chegar ao outro lado. Era uma linha de horizonte que se afastava ao mesmo tempo que me tentava aproximar.
Ouvi uma primeira buzinadela. Depois outras. Não tardou a que a rotunda começasse numa sinfonia insuportável de buzinas de táxis a soprar alto a sua frustração.
Parei a olhar a rotunda. Os táxis. Os taxistas de mão na buzina. Dedo no nariz. Cigarros entre os dedos. Escarro soprado fora. Para fora do carro através do vidro da janela aberto. Todos em conjunto. Ao mesmo tempo.
Só tive tempo de saltar em frente e entrar dentro de um táxi livre com luz verde. Entrei e gritei É para subir em frente. Ele encolheu os ombros e disse Estamos parados. Há greve dos semáforos. Estão todos vermelhos. Zangado, abri a porta e disse Então fico aqui. Ele desligou o taxímetro e pediu Cinco euros, se faz favor.
Fiquei admirado. Cinco euros porquê? Não tinha andado. O táxi não estava funcional. Abri a porta e saí, irritado.
Nesse momento passou uma motoreta de entrega de pizzas e atropelou-me. Navegando aos esses entre os táxis parados, a motoreta levava umas pizzas para clientes quando me bateu. Fiquei com uma Pizza Bacana (as pizzas eram da Telepizza) tombada na cabeça. O motorista levantou a motoreta e arrancou pela rotunda fora. O taxista saiu do carro, agarrou-me e exigiu-me a pizza como pagamento da corrida. E eu perguntei Que corrida?
O taxista fez-me má cara enquanto trincava uma fatia de pizza. E eu pensei estou a ficar com fome. Estou a ficar com fome, os carros não se mexem e eu não consigo chegar a lado nenhum. Maldita greve.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/08]

Ainda Aqui Estou à Espera, a Salivar

Era novo.
Tinha dezasseis anos. Dezoito. Vinte. Finquei os pés no chão. Queria o que queria. E ia fazer tudo pelo que queria.
Fartei de correr. Agarrei com unhas e dentes. Parti dedos. Feri a boca. Sangrei o coração. Desloquei o maxilar. Insisti.
Entre o tempo, os dias magros de chuva miudinha e as noites negras, de lâmpadas fundidas, passei muito tempo no Estádio. Sentado solitário a uma mesa cheia de gente no meio de outras mesas. Outras mesas todas cheias de gente. Sempre muita gente.
A cabeça pendente sobre o peito. A enrolar um cigarro. A enrolar um charro. A agarrar uma média Sagres. A beber pela garrafa. Nunca beber imperial no Estádio. Nunca.
Entrava lá sossegado. Silencioso. Na companhia das mulheres do bairro que ainda restavam por ali, àquelas horas vespertinas. Ainda tão cedo e vazio que ouvia o eco da minha voz quando pedia, de forma sonora, uma cerveja. Um brandy Croft quando mais abonado de dinheiro. Macieira quando as coisas corriam mal. E tanto que elas corriam mal.
De tempos-em-tempo, um renovar de esperança. Um recomeço. O corpo a perder a postura do falhanço. Re-crescia centímetros. Os que tinha perdido. Voltava a ser gente. Voltava a ser grande. Enorme. O mundo era meu e estava pronto para o devorar.
Mas…
Estou velho.
Já tenho… Já nem sei quantos anos tenho. Muitos, com certeza. Perdi-lhes a conta.
O Estádio já não existe. Já não se fuma nos sítios onde perdemos as horas da nossa vida. Nem eu fumo já. Nem cigarros, nem charros. Troquei a cerveja, o brandy Croft e a Macieira pelo copo de vinho. Copo de vinho tinto. Que pode ser de pacote. Capataz. Cinco euros a caixa de cinco litros.
Já não corro. A bronquite não mo permite. Já não tenho dedos. Parti-os todos a tentar subir a parede do El Capitán. Os dentes comi-os. Tinha fome.
Já não quero ir a lado nenhum. Já não quero ser nada. Já não ambiciono ser nada.
Quero só estar por aqui enquanto por aqui estiver.
E quero estar sossegado. A ver a morte avançar, sorrateira, disfarçada. Cheia de lantejoulas. A ouvir canções em streaming. A ver filmes pirateados. A ler PDF’s de livros cheios de direitos de autor e de herdeiros. A olhar de esguelha para as notícias na televisão. As notícias banais de gente banal a morrer de forma tão banal. E eu com a língua de fora. Como os cães. A salivar.
E ainda aqui estou. À espera. A salivar.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/22]

O Miúdo

A primeira vez que vi o miúdo foi dentro da sala. Da sala de exposições. Era uma exposição digital interactiva com projeções pelas várias paredes que se alteravam com a participação das pessoas. Ele andava lá dentro a correr de um lado para o outro. Já sabia o que fazer e onde e quando. Parecia que fazia parte do quadro e, no entanto, parecia deslocado. Estava sujo. Cabelo desgrenhado. O ranho a cair pelo nariz e a entrar na boca. As calças, grandes demais para ele, arrastavam-se. Tentavam cair pelo rabo abaixo. Não tinha cinto. Via-se as cuecas e ele tinha de estar sempre a puxar as calças. As sapatilhas estavam rotas. O dedo grande do pé, sem meia, teimava em pôr a cabeça de fora. Colocava uma mão na parede e formava-se uma onda gigante. Um tsunami. E ele corria para outra parede e baixava-se, arrastava a mão junto ao solo, e a onda transformava-se num mar calmo sem ondas nem marés, uma praia em Torremolinos, sempre com o mesmo caudal, a mesma ondulação, a mesma suavidade.
Enquanto o vi por lá, não consegui interagir com a exposição. Via-o a ele a interagir. Deixava-me ser arrastado por ele. Via-lhe as brincadeiras. As pequenas loucuras de quem é criança e está em casa. De quem se sente em casa. E que me levava assim com ele. Guiava-me. Levava-me pela mão através da modernidade tecnológica. Que raio! Quem seria este miúdo?
E, de repente, sumiu-se.
Deixei de o ver.
Segui o caminho da exposição. Experimentei a interactividade. Achei alguma piada. Mas não deixava de pensar no miúdo. No miúdo que parecia estar em casa. Para quem aquela acção parecia uma naturalidade. E que, para mim, não passava de uma mera experiência para a qual nem tinha muito jeito. Aquele mundo digital foi feito para ele. Não para mim.
Acabei por despachar a exposição. Não estava com grande vontade de fazer o que tinha de fazer. Comecei a sentir uma certa insuportabilidade. Sentia chegar-me a neura. Às vezes não sei porque faço o que faço. Talvez por desfastio. Uma resposta que utilizo muito mas que, na realidade, não significa nada. Porque raio o desfastio? Desfastio de quê? E porque raio tinha eu vindo aqui? Este mundo nem é o meu. Gosto de universos mais orgânicos. Pegar num livro. Riscar-lhes as páginas. Absorver as suas letras, palavras, frases. Os seus sentidos ou a ausência deles. Cheirá-los. Largá-los num sítio qualquer. Agarrar num, ou noutro, ao acaso. À sorte.
Mas não parava de pensar no miúdo.
E foi então que o vi pela segunda vez.
Eu já tinha saído da exposição. Já estava na rua. E através da confusão de um monte de gente que caminhava para uma mesma direcção, vi-o. Vi-o sentado no chão. Sentado em cima de um bocado de cartão. No chão. Na rua. Na rua movimentada por gente que caminhava toda na mesma direcção. De telemóveis apontados. A cartografarem as férias. A vida. E ele ali.
Estava ao lado um velho. Sujo como ele. De barba selvagem. De cabelo comprido e desgrenhado. Os pés descalços. Azuis. Não percebi se de surro se gangrenados. À frente do velho, uma caixa de cartão, de sapatos, com umas moedas. O miúdo escolhia as de um euro, ou dois, e colocava numa caixa pequena que dava ao velho. Este guardava a caixa pequena dentro da camisa suja e rota. Depois o miúdo deitou-se com a cabeça no colo do velho e este fez-lhe umas festas no cabelo seboso. E o miúdo acabou por adormecer debaixo das festas do velho.
Tirei uma nota de cinco euros e fui colocar na caixa em frente ao velho. O miúdo despertou. Agarrou na nota. Dobrou-a. Entregou-a ao velho que a guardou na caixa pequena. Depois continuou a fazer festas no cabelo do miúdo. E o miúdo pareceu abandonar-se e adormecer debaixo dos mimos do velho. Dos mimos de dedos grossos e sujos. De unhas pretas. Algumas feridas. Duas ou três verrugas. Mas carinhosos.
Enquanto me afastava continuava a pensar no miúdo. E nos dedos grossos e sujos cheios de ternura. E perguntava, para mim próprio, O que é a felicidade? E respondia-me que podia ser tanta coisa, mas que não era nada que se procurasse. Era algo que nos encontrava. Estivéssemos lá onde estivéssemos.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/07]

Formas de Me Deixar Desconfortável

Vinha da praia.
Vinha cansado, salgado, a pingar e cheio de sede.
Entrei na esplanada. Acendi um cigarro. Pedi um copo de Alvarinho. Bem fresquinho que estava com sede e a morrer de calor.
Ao fundo, na sombra, uma tela projectava um jogo do Campeonato do Mundo de Futebol na Rússia. Já não sei que países se defrontavam. Nem me recordo das cores. Mas o bailado estava bonito. A bola movimentava-se de um lado a outro. Os jogadores corriam, lançavam a bola em profundidade, e acabaram por marcar vários golos. Já não recordo quantos. Mas alguns.
Acabei o copo.
Pedi outro.
Entrou outro eu na esplanada. Alguém que também chegou molhado, cansado e, aparentemente, cheio de sede. Trazia um cão pela trela. Era um misto entre o Labrador e o Terrier. Na verdade nem sei que cão era. Visualmente fazia lembrar-me uma mistura entre os dois.
O tipo pediu um gin daqueles esquisitos cheio de coisas a boiar em copo extra-large.
Sacou de um ventilan do bolso e mandou uma bombada. Depois virou-se para o cão, levantou a ponta da trela, em jeito de ameaça e disse Deita! Deita, já disse! Queres que me chateie?
O cão até estava calmo. Em pé, mas calmo. O dono é que parecia agitado.
Aquilo incomodou-me. Acendi outro cigarro no resto do anterior.
Pensei que os cães já podiam entrar nos sítios públicos, nos cafés, nos restaurantes, nas esplanadas.
E pensei nas pessoas que têm fobia aos cães. Pensei nas pessoas, nas crianças, que têm medo de cães. Nas pessoas que já foram mordidas e que agora fogem aos animais e que acabam por ter de partilhar o mesmo espaço com eles.
Beberiquei um pouco do Alvarinho. Estava bem fresco. Gaita, sabia-me mesmo bem.
Olhei para o tipo e para o cão e percebi que ali, naquele momento, naquela situação, o problema nem era o cão. Era o dono.
O dono do cão estava a deixar-me desconfortável. Era uma personagem nervosa. Irritável.
Levantou a pega da trela e bateu com ela no focinho do cão. Duas vezes. Deita! Deita, já disse! E o cão deitou. Chegou o gin e o tipo bebeu quase metade do copo no primeiro gole.
Eu não conseguia mais estar ali.
A esplanada tinha-me parecido um refúgio. Um espaço para um momento. Uns copos para relaxar numa espécie de oásis. Onde recuperar forças.
Mas já não era. Não aquilo.
Não! Não aquilo!
Acabei o copo. Larguei cinco euros na mesa na esperança que chegasse para pagar os dois copos que bebi. E saí da esplanada.
Precisava de calma na minha vida. Muita calma.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/24]

Sardinhada de Santo António

Era noite de Santo António. Mas veio o São Pedro e fodeu tudo.
Eu comi umas sardinhas assadas no forno. Polvilhadas de sal grosso. Fiz uma salada de pimentos verdes e vermelhos, cebola e alho e levei a aquecer numa frigideira com azeite. Só uma ligeira cozedura. Depois aqueci na torradeira uma fatia de pão de Rio Maior.
O cheiro começou a invadir a casa. Tive de fechar a porta da cozinha para libertar os quartos deste cheiro.
Coloquei a fatia de pão num prato. Fiz a cama no pão com os pimentos e a cebola e coloquei a sardinha por cima. Com uma colher retirei um pouco de azeite da frigideira dos pimentos e da cebola e espalhei por cima da sardinha.
Abri uma garrafa de Tellu’s, Douro 2016. Sentei-me à mesa e degustei. Lambi os beiço. Estava um sabor.
Liguei a televisão para o noticiário me acompanhar o jantar.
Lisboa estava à pinha. Os pequenos largos dos bairros mais populares estavam cheios de turistas a pagarem cinco euros por uma sardinha mirrada tombada numa fatia de broa, pequena e seca.
Estava a ver o directo na televisão quando, de repente, e sem aviso, caiu uma carga de água sobre Lisboa e levou de enxurrada os santos populares.
Os turistas nem se aperceberam do que lhes caiu em cima. Estavam sorridentes, encharcados e gritavam para a televisão que continuava em directo Very typical! OMG, it’s very typical!, e sorriam, sorriam com pedaços de sardinha presos entre os dentes.
As noivas de Santo António ficaram retidas na Sé de Lisboa. Os noivos saíram para ir ao Campo das Cebolas comprar tabaco e nunca mais regressaram.
O resto da equipa do Sporting pediu a rescisão de contratos e Bruno de Carvalho ficou sozinho como presidente, vogal, treinador, jogador e empresário.
Desliguei a televisão e fui fazer café. Bebi-o.
Abri a porta da rua e desci à cidade. Aqui estava uma bela Primavera a caminho do Verão. Acendi um cigarro e deixei-me levar pelas ruas vazias de turistas da cidade e a pensar A Edilidade da minha cidade fez um belo trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/12]

Retalhos de uma Cidade Entediante

Sentei-me na esplanada a beber uma imperial e a ver os turistas a passear.
Eu era o turista dos turistas. Eles passeavam-se ali em frente, na praça, para meu belo prazer. Acompanhavam a minha imperial. Eu olhava-os a olhar.
Ao fim de algum tempo entediou-me. Eles eram todos parecidos. Mochilas. Sapatilhas práticas, leves e arejadas. Óculos de sol. Um casaquinho de algodão pendurado na mochila. Uma garrafa de água. Mudavam os tamanhos da garrafa de plástico. Alguns empurravam carrinhos de bebé. Todos de máquinas fotográficas ao peito ou telemóvel na mão. A disparar.
Pedi outra imperial e mudei o assunto de entretenimento.
Na esplanada, à minha frente, estava uma rapariga a esticar os cabelos com os dedos. Curvava a cabeça. Esticava de um lado, com uma mão, esticava do outro, com outra mão, depois abria os dedos de uma mão e, com a outra, tirava os cabelos que lá estavam agarrados. Repetia a acção com as outras mãos. Depois chegava-se à frente e beijava, levemente, o rapaz que a acompanhava. Chegava-se de novo para trás e recomeçava tudo. Ela tinha o cabelo liso. E só ela é que falava. O rapaz só ouvia e só se chegava à frente quando ela o fazia para ser beijado levemente nos lábios. Eu não conseguia ouvir o monólogo. Mas aquele ritual estava a enervar-me.
Lá mais ao fundo estava um jovem, em pé, no meio da esplanada, com um quase recém-nascido ao colo. Orgulhoso, ostentava o bebé virado para a frente, para as pessoas. Via-se a satisfação no seu olhar e na postura do corpo. Mostrava o seu filho para toda a gente. Falava das suas virtudes. Que dormia lindamente. Acordava invariavelmente de quatro em quatro horas. Fazia cocó sem dificuldade. Arrotava mal o punha aos ombros depois de mamar. Quando vomitava, e vomitava muitas poucas vezes, o cheiro do seu vómito não era azedo. Nem uma bronquiolite! Aquele bebé era um milagre e aquele pai um homem cheio de sorte. Não vi a mãe.
Suspirei, ansioso.
Pedi uma terceira imperial. A vida naquela esplanada era muito sofrível. Mas a imperial era fresca e estava a saber-me bem.
Chegaram duas turistas alemãs, acho que eram alemãs porque estavam de sandálias de borracha com meias brancas, e pediram-me que as fotografasse com o castelo em fundo. Falaram em inglês. E eu assim fiz. Agradeceram.
Chegou a terceira imperial. Vinha na companhia de uns tremoços. Olhei à volta e só vi tédio.
Bebi a imperial de uma só vez. Deixei uma nota de cinco euros debaixo de um copo. Peguei nos tremoços com uma mão e fui embora. Fui passear pela cidade feito turista enquanto ia comendo os tremoços e largando as cascas pela rua. Cheio de tédio.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/10]

Melancolia Outonal

Estava no café a tomar o pequeno-almoço. Depenicava uma meia-torrada e bebia um sumo de laranja natural, enquanto lia um livro. Andava de volta do Knausgård. No Outono parecia-me um bom título para a época. E o facto de serem crónicas, tornava-o uma boa companhia ao pequeno-almoço.
Estava portanto a ler enquanto ia trincando a torrada quando ouvi a porta da rua a abrir e, instintivamente, levantei os olhos. E vi-a. E ela viu-me. E depois já era tarde para voltar para trás. Mas notei aquela breve hesitação entro-não-entro, que durou nano-partes de um segundo, mas que percebi, e resolveu entrar. Veio directa a mim e disse Olá! Tudo bem? Estou com pressa, ali assim em pé, frente a mim, que fiquei com a torrada na mão a encharcar-me os dedos de manteiga. Fez um aceno baixo com a mão, como uma pequena e breve despedida, e foi até ao balcão.
Não esteve lá muito tempo. Aproveitou o facto do empregado estar atarefado com outros clientes para fingir pressa e não poder esperar. Deu meia-volta e, ao passar por mim deitou Estou com pressa. Não posso esperar. Beijinhos, enquanto passava por mim rápida. E eu, de torrada ainda suspensa na mão, com a manteiga derretida a cair para o prato, vi-a a sair porta fora e ir embora.
Coloquei a torrada no prato. Limpei os dedos. Agarrei no livro para voltar à leitura, mas não consegui. Não conseguia concentrar-me. Fechei o livro. Levantei-me. Bebi o resto do sumo em pé, larguei uma nota de cinco euros e saí.
Na rua olhei à minha volta, como a tentar perceber para onde deveria ir quando voltei a vê-la. Ela estava do outro lado da estrada, junto ao poste de sinalização, e parecia estática. Estava a olhar para o chão. Virou-se para um lado, depois para o outro. Parecia em luta consigo própria sobre para onde deveria ir. Pensei em ir ter com ela. Pensei seriamente em ir ter com ela. Ainda ensaiei um arranque, quando finalmente ela olhou para cima, levou a mão à cara, esfregou-a, e seguiu para um dos lados.
Eu fiquei ali, à saída do café, a vê-la perder-se no meio da multidão até se tornar numa pequeno ponto e depois desaparecer.
Encostei-me à parede do café a olhar o vazio lá para onde ela desapareceu e pensei O Outono deixa-me melancólico. Porque é que não fui ter com ela?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/06]