Escondido, parte 06

[continuação de ontem]

Andei às voltas na cama. Não consegui pregar olho. A imagem dos carecas a arrearem as pessoas em festa com tacos de baseball não me saía da cabeça. Nem a rapariga. Uma rapariga nova, bonita, monstruosa.
Nunca tinha batido numa miúda.
Acabei por me levantar. Acendi um cigarro, vesti umas cuecas e fui até à varanda da sala.
Eu via a porta de armas da varanda. Continuava tudo como nos outros dias. Nada de especial. Não havia agitação no quartel. Nem no bairro.
E então, vi passar, de novo, uma carrinha de caixa aberta. Uma carrinha como as de véspera. Desta vez não traziam carecas na caixa. Mas a conduzir, e ao lado do condutor, estavam dois carecas fardados. Um deles olhou para mim ali à janela a fumar o cigarro. A carrinha passou devagar. Continuou em frente até à porta de armas. Parou lá em frente. Um militar saiu do interior do quartel e colocou-se à conversa com os carecas dentro da carrinha.
Eu deitei fora o cigarro e entrei dentro de casa. Tomei banho. Vesti-me. Bocejei. Olhei em volta, na cozinha, a pensar que tinha fome e não tinha nada em casa para comer, quando tocou a campainha de casa.
Assustei-me.
Fui devagar e silenciosamente até à porta e espreitei pelo óculo. Não havia ninguém. Era na porta da rua. Fui à sala. Espreitei pela varanda. Estava um camião militar parado frente ao prédio. A campainha voltou a tocar. Fui até à cozinha e saí pela janela da cozinha, agarrado ao algeroz e passando por cima das garagens.
Desci a rua das traseiras e contornei o bairro até voltar à minha rua mas mais ao fundo. Espreitei e vi que o camião militar continuava lá parado. Havia vários militares a rondar o prédio. Se calhar já tinham entrado em minha casa.
Voltei para trás e fui para o pinhal. Depois sentei-me lá no meio do pinhal, encostado a um pinheiro, a pensar no que fazer. E pensei que no cinema e na literatura estas escolhas eram sempre bem mais simples. Alguém pensava um pouco e rapidamente era encontrada uma solução que desatava o nó do problema. Eu percebi que não sabia mesmo o que fazer. Não tinha o telemóvel. Não podia ligar a ninguém. Tinha de ir directamente a casa de alguém. Alguém que soubesse alguma coisa. Alguém que me explicasse o que raio estava a acontecer.
E foi o que fiz. Desci até à cidade.
A cidade parecia normal. A vida corria como nos outros dias. Pelo menos, aparentemente. Mas depois comecei a ver as carrinhas. As mesmas carrinhas. Os carecas com a polícia. As pessoas no seu afã diário sem se preocuparem muito com o que estava a acontecer.
A verdade é que a maior parte das pessoas não se preocupa com o que está a acontecer. As pessoas preocupam-se primeiro com a sua família, a sua casa, o seu jardim e o seu dinheiro. Enquanto nada abalar as fundações da sua própria vida, o grosso das pessoas não se importa com o rumo que a vida possa tomar. Ir até à praia, sentar-se numa esplanada a beber uma imperial, sair à noite para o charme, entrar de manhã no ginásio para tonificar o corpo, isso sim. Agora a democracia e a ditadura… A política? Os políticos são todos iguais! Não, não são. Os populistas? Os radicais? São gente que diz as verdades, que coloca o dedo nas feridas. Não, não são.
Cheguei a casa do meu amigo. Toquei a campainha. Esperei. Nada. Voltei a tocar a campainha. Voltei a esperar. Voltou a não haver reacção.
Depois ouvi uma voz. Uma vozinha muito sumida. Uma voz que apareceu sem corpo, escondido atrás das cortinas, atrás da janela semi-aberta, receosa Levaram-no. Vieram cá buscá-lo e levaram-no.
Eu virei-me. Virei-me para onde vinha a vozinha e perguntei Quem é que o levou? Quem é que o veio cá buscar?
Mas ninguém respondeu. Vi a janela a fechar-se. Ouvi o barulho da tranca da janela. Olhei em volta. Não vi ninguém. Não vi ninguém e, no entanto…
Pus-me a caminhar pelas ruas da cidade. As ruas secundárias. A pensar no que fazer. A falta que me fazia o telemóvel. Não conseguia telefonar a ninguém. Não sabia nenhum número de telefone de cor. Teria de ir procurar alguém a casa. Mas quem?

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/23]

Faz Agora Cem Anos, a Pandemia

Primeiro colocaram-nos em casa e trancaram as portas. Depois fecharam o país. Nada entrava e nada saía.
Era preciso estancar a disseminação do vírus. Isolar toda a gente. Impedir a propagação trazida de fora. Em casa, sem contactos físicos uns com os outros, não éramos veículos transmissores.
Só estavam a funcionar os grandes centros de distribuição alimentar. Toda a alimentação era acumulada nesses centros, criavam-se cabazes alimentares para uma, duas, três e quatro pessoas e os militares estavam encarregados de fazer a distribuição por todo o país. De porta em porta. Em todas as portas de todas as casas do país inteiro.
As únicas pessoas com autorização para saírem eram as pessoas envolvidas neste processo de distribuição, os técnicos das empresas de energia, das empresas de água e os médicos e enfermeiros que continuavam a trabalhar nos hospitais, muitos deles improvisados em tendas de campanha, pavilhões gimnodesportivos e escolas C+S, que tentavam minorar os danos da pandemia.
No início ainda haviam aulas não-presenciais dadas através da internet. Ainda havia quem fizesse tele-trabalho. Mas as redes de distribuição de internet começaram a colapsar. Demasiada gente ao mesmo tempo durante demasiado tempo a circular informação online. Os alunos começaram a desistir das aulas recebidas através dos ecrãs dos telemóveis, muitos deles com o vidro quebrado, coisa de miúdos. Os pais que estavam em tele-trabalho depressa se fatigaram de trabalharem em pijama, sem horário, a terem de proverem aos filhos e às mulheres. E o trabalho, na verdade, deixou de existir. O que havia para fazer para um mundo que estava a ficar parado?
Ao fim de algum tempo, o ócio transformou as semanas de filmes e séries em discussões violentas. Começaram a voar livros pelas janelas. Os jogos de tabuleiro eram lançados às peças para durar mais. O ódio começou a destilar. E apareceram as primeiras mortes fora do quadro directo do vírus.
Foi logo ao fim do primeiro mês de distribuição alimentar que os cabazes começaram a deixar de vir com a mesma regularidade. Foi logo ao fim do primeiro mês que os cabazes de distribuição alimentar começaram a chegar com menos quantidade e menos qualidade de alimentos. As pessoas começaram a manifestar-se nas janelas. As cidades passaram a serem coros de revolta. Um bairro inteiro a gritar palavras de ordem. A bater em tachos e panelas. Contra. Contra. Contra. Já nem se sabia bem do quê, em concreto. Contra o estado geral das coisas. O cansaço do confinamento. A fadiga da companhia. A falta da solidão. A ausência de rotinas que se foram perdendo. Já ninguém tomava banho. Ninguém lavava o cabelo. Os homens não faziam a barba. As mulheres já não pintavam as unhas, os lábios as raízes negras dos cabelos loiros. Era preciso gritar. Era preciso explodir.
Os trabalhadores do centro de alimentação e os produtores de frescos, frutas, lacticínios, carne e peixe andavam exaustos. Demasiado trabalho para tão pouca gente com a responsabilidade de milhões.
E, depois, depois a comida começou a escassear. As fronteiras fechadas. A insuficiência. E quanto mais escasseava mais escasseava ainda mais porque havia quem, na cadeia, começasse a desviar para proveito próprio.
Foi ao final do segundo mês que as coisas aconteceram.
A fome começava a instalar-se. Havia algumas pessoas mais afoitas que faziam saídas à rua, à noite, às escondidas, e negociavam no mercado negro que tinha começado a funcionar. Mas o grosso, o grosso das pessoas começava a enfrentar uma enorme fome. Muita gente já só tinha a água que continuava a correr nas canalizações. Começaram a aparecer cadáveres na rua, atirados pelas janelas e varandas dos enormes prédios das cidades-dormitório.
Quando o governo se preparava para declarar vencida a pandemia, os sobreviventes saíram para a rua e revoltaram-se contras as autoridades que encontravam pela frente. Houve muitas mortes. Mortes de parte a parte. Embora o exército estivesse armado e mais bem preparado, as pessoas traziam a fúria dos desesperados que, enclausurados durante quase três meses, e o primeiro mês foi quase um exercício de estilo pós-moderno na forma de uma quarentena auto-infligida, como umas férias forçadas para ler os livros comprados e nunca lidos à espera do dia certo, e fora esse o dia certo, cansados do ócio e do confinamento com gente com quem nunca tinham estado mais do que algumas horas por dia e a maior parte delas a dormir, partiram furiosos para cima do único inimigo que conheciam e sobre o qual queriam despejar todas as frustrações.
Muita gente morreu naquele período. E não foi só cá, neste país. Foi igual em todo o lado. Em todos os países. Em todos os continentes. A globalização normalizou-nos. E reagimos todos da mesma maneira.
No final, restaram uma minoria. Uma minoria por país. A economia estava de rastos. Era necessário recomeçar tudo. Recomeçar tudo de novo. Do zero. Só que desta vez as coisas foram diferentes. Desta vez as coisas não foram deixadas ao acaso.
Desta vez havia um único governo mundial. Um governo composto por um grupo de sábios. As pessoas tinham as suas vidas programadas desde a infância. Ninguém podia fazer menos, ninguém podia fazer mais. Ninguém passava fome, ninguém era obeso. Mas haviam contra-medidas para esta segurança da vida das pessoas. Ninguém podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Quando quisesse. Se quisesse. Toda a gente tinha de contrair matrimónio aos dezoito anos. Todos os casais deveriam ter três filhos. A manipulação genética garantia as necessidades de género. E os casais tinham de ser, obrigatoriamente, compostos por um homem e uma mulher.
Todas as pessoas tinham a sua vida programada. Desde o nascimento à morte. Cada pessoa era destinada a determinado objectivo consoante as necessidades do mundo e essas necessidades eram decididas e controladas pelo conselho de sábios.
Mas algumas pessoas não estavam de acordo.
A pandemia do Covid-19 aconteceu faz agora cem anos. Setenta por cento da população mundial pereceu nesses terríveis meses de contágio e, mais ainda, durante as revoluções pós-confinamento.
O meus bisavós foram dos poucos sobreviventes. Os meus avós aguentaram os primeiros anos de regime mundial. Depois cometeram suicídio-social. Desapareceram do mapa e criaram a primeira rede clandestina global. Os meus pais já nasceram na clandestinidade. Os dois.
E a história que vos contei hoje foi a história que me foi contada a mim, durante as longas e escuras noites que tivemos de passar escondidos, a lutar pela liberdade de todos nós, mesmo daqueles que nem sabem o que é a liberdade. A liberdade de poder escolher o seu destino ou de poder fumar um cigarro, beber um copo de vinho tinto e mandar alguém para o caralho.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/20]

Ausência de Bilhete Validado

Há dias em que não consigo evitar e baixo às emoções do Correio da Manhã. A violência toma conta de mim. Por mais que lhe queira fugir, sinto-me atraído como os insectos voadores por uma lâmpada acesa na escuridão nocturna.
Então, a notícia que estava na ordem do dia era de uma mulher negra que tinha sido espancada por um agente da polícia. Li a notícia no Facebook. Li a notícia sentado no sofá com o iPad nas mãos.
Acendi um cigarro.
Fui às páginas do Correio da Manhã. Comecei a ler.
Era tarde. Não tarde de madrugada, mas já era noite. Uma noite fria. A mãe, cansada, depois de mais um dia como os outros, a correr de um lado para o outro, a cumprir todos os horários que tinha de cumprir, depois de fazer todos os trabalhos que tinha de fazer, depois do sol já se ter escondido para lá do horizonte e das luzes da cidade lhe conferirem uma falsa vida de fantasia colorida ao seu dia, estava finalmente a entrar no autocarro com a filha pequena pela mão. O autocarro que a iria levar para casa. Depois do último trabalho tinha ido a correr buscar a filha à escola antes que a escola encerrasse. E, depois da viagem, ia chegar a casa e preparar o jantar para ela, para a filha e para os outros dois filhos que já lá estavam à espera que a mãe chegasse. Verificar se os filhos tinham feito os trabalho da escola. Um banho rápido, mais um passar por água que propriamente banho. Ela e a filha, aproveitando o mesma água, o mesmo banho. E então, finalmente iria sentar-se um pouco na cadeira da cozinha a olhar, alheada, para a televisão que debitaria qualquer coisa que não lhe iria interessar mas que lhe serviria de companhia até adormecer. Iria acordar com a filha a chamá-la do quarto porque estava a ter um sonho mau e ela iria então para a cama dormir algumas horas deitada antes de ter de se levantar de novo e, de novo, retomar outra vez os mesmos rituais de todos os dias, dias iguais, dias tristes, dias alegres, dias cheios de esperança e desilusão.
Mas não foi o que aconteceu.
À entrada no autocarro, a mãe percebeu que a filha se tinha esquecido do Passe Social. O motorista-cobrador exigiu a validação da entrada das duas. Ela estava cansada. A filha estava com fome e sono. A mãe pediu para que o motorista-cobrador deixasse entrar a filha. Afinal só tinha oito anos. O motorista-cobrador mostrou-se inflexível. É a lei. A lei é para cumprir. E os dois esgrimiram razões. A mãe exaltou-se. O motorista-cobrador também. Elas tinham que abandonar o autocarro, dizia o motorista-cobrador. Que não, era noite, estava frio e a criança estava com fome e sono e ela só queria chegar a casa, dizia a mãe.
Desvairado, o motorista-cobrador arrancou com o autocarro pelas ruas da cidade e parou junto a uma esquadra de polícia. Um agente aproximou-se do autocarro. O motorista-cobrador abriu a porta da frente. Queixou-se ao agente da polícia. Queixou-se da mãe. E da ausência de passagem validada da criança. É a lei, disse o motorista-cobrador. É a lei, concordou o agente da polícia.
O agente pediu à mãe que saísse e fosse com ele à esquadra. Mas a mãe só queria ir para casa. Com a filha. E tinha lá os outros dois filhos à espera. O polícia insistiu. A mãe também. O agente chamou-lhe recusa a uma ordem da autoridade. A mãe enervou-se. Estava cansada. O agente também se enervou. Também estava cansado. Farto das más condições de trabalho. Farto da merda de vida que tinha. E depois de um dia difícil, aquilo ali assim… Para lhe estragar o resto do dia.
O agente pegou a mãe por um braço e puxou-a para fora do autocarro. A mãe gritou. Chamou nomes ao agente da polícia que ainda se enervou mais. O agente da polícia puxou a mãe à força. A criança tentava agarrar a mãe. Chorava com medo. O agente forçou a mãe a descer do autocarro. A mãe caiu para fora do autocarro. Caiu no asfalto. Arranhou a cara. Esfolou as mãos. Rasgou as calças de ganga. Depois tentou voltar a entrar no autocarro com a filha agarrada a ela. O agente deitou a mãe ao chão e tentou imobilizá-la perante o olhar assustado da filha. A mãe debateu-se. Era forte. Cuspiu no agente. O agente bateu na mãe. Deu-lhe dois murros na cara. Rebentou-lhe o lábio. Abriu-lhe um golpe no sobrolho. A mãe gritou. A mãe era preta. Assim como a filha. Mas o sangue brilhava sobre o preto da sua pele. Debateu-se. O agente em cima dela a tentar colocar-lhe umas algemas. Ao lado, a filha chorava.
Acordei.
A cigarro tinha-se consumido inteiro. Estava todo feito num rolo de cinza. Mexi-me e a cinza caiu-me em cima. Esfreguei os olhos. Sacudi a cinza para o chão. O iPad estava a negro. Voltei a acender outro cigarro. Liguei outra vez o iPad. Estava nas páginas do Correio da Manhã. Uma mulher que fora agredida pela polícia, tinha sido constituída arguida. Desliguei o iPad e larguei-o em cima do sofá. E fiquei por lá sentado, agoniado. Não consegui continuar a fumar. Estava com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/21]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

Depois de Daniel Blake

Tínhamos acabado de ver Eu, Daniel Blake de Ken Loach na televisão. Ela estava a chorar baba-e-ranho. Eu estava furioso e com vontade de bater em alguém. Ainda olhei para ela, porque estava ali à mão-de-semear, mas Não! pensei. Ela estava em sofrimento.
Não dissemos nada.
Eu levantei-me e fui até à janela. Acendi um cigarro e olhei lá para fora. Vi o cão a andar de um lado para o outro à luz da Lua. Olhou para mim quando ouviu o som do isqueiro, e viu a luz da chama, mas continuou o seu caminho. Perdi-o de vista.
As pessoas são mesmo o pior da humanidade. As pessoas. O que conseguem fazer umas ás outras. A frieza com que tratam os mais indefesos. À tarde tinha visto um vídeo real de dois seguranças de um supermercado brasileiro a chicotear um miúdo de dezassete anos por ter roubado a merda de um chocolate. A merda de um chocolate! Sentem-se imunes. Os filhos-da-puta da roda dentada sentem-se imunes. São sempre mais papistas que o Papa. Para se sentirem superiores. Para sentirem que têm um grãozinho de poder debaixo do braço. Por vezes penso que as pessoas parecem cães a defender o seu pequeno território, o linear, o gabinete, a mesa de trabalho numa ilha espiado pelos colegas que se controlam uns-aos-outros. Mas depois percebo que não são cães, que os cães até são uns animais de respeito, são mais hienas à espera dos restos que os leões lhes deixam. Vejo que tenho a mão fechada para um murro quando tento tirar o cigarro da boca. Desfaço o punho. Agarro no cigarro com dois dedos, puxo-o e arranco um pedaço de pele dos lábios. Foda-se! digo. Magoei-me!
Ela continuava a chorar.
Gosto das redes mosquiteiras. Não posso pôr a cabeça fora da janela, mas livrei-me de moscas, melgas e mosquitos. Em noites de calor posso ter as janelas abertas para deixar correr o ar.
Ela levantou-se. Saiu da sala. Ouvi-a na casa-de-banho. Saiu, passou pela sala e disse-me Vou-me deitar, e tinha os olhos vermelhos. Há pessoas que são mais sensíveis que outras. Mas há filmes que nos viram do avesso.
A verdade é que há muito da nossa vida naquele filme. Há muita coisa em Eu, Daniel Blake pelo qual eu passei. Pelo qual ela passou. Pelo qual muita gente passou. E o filme não é lamechas. Tão só absurdamente real e triste. Humanamente triste. Triste como nós.
O problemas das redes mosquiteiras nas janelas é que não posso lançar as beatas para a rua. Acabei de fumar o cigarro. Fui à cozinha. Molhei-o na torneira do lava-louça e deitei-o no caixote do lixo.
Pensei na cena do Banco Alimentar. Revi Katie a abrir a lata de feijão e a comer os feijões crus, directamente da lata, à mão, enfiando-os pela boca, esganada. A fome é uma merda! É como um punho fechado que nos entra pelo cu e nos puxa as entranhas até não restar mais de nós que um desejo puro de rasgar algo com os dentes e saciar o estômago. Animalesco.
Acabei por ir atrás dela para a cama. E ali estávamos nós os dois, virados para o tecto, de olhos abertos, quietos e sem conseguirmos dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/03]

Esquecer Tudo o que Nos Faz Sentir Mal

Íamos os dois estrada fora. Duas faixas. Nós sempre na faixa da direita, mais devagar, a apreciar a paisagem, o verde, o amarelo, o castanho, as casas perdidas algures, entre montes e vales e muitas nas encostas. Há sempre uma casa perdida na paisagem. Já não há paisagens virgens.
Era o primeiro dia de férias. Janelas abertas. Eu com o cotovelo pousado na janela aberta. Ela com os pés esticados sobre o tablier. Uma mania. Já tínhamos sido multados por isso. Por ela ir com os pés descalços colados ao pára-brisas. Nunca cheguei a pagar essa multa. Qualquer dia vão buscar-me a casa. Se eu lá estiver.
Éramos ultrapassados por camiões cheios de pressa que nos faziam tremer na deslocação de ar das suas ultrapassagens, em velocidade bizarra e colados a nós. Cheguei a pensar que podíamos ser chupados por um túnel de vento.
Ela acendia-me um cigarro. Outro para ela. Íamos assim, descontraídos, a fumar um cigarro, com o rádio a debitar uma qualquer música local que não percebíamos por causa do ruído do vento que vinha de fora e nos enchia os ouvidos.
Então, senti a mão dela, suave, sobre o meu braço descansado sobre a alavanca de velocidades. Olhei para ela que disse Preciso de fazer chichi.
Continuei a conduzir naquela velocidade quase sonolenta mas agora atento às placas de indicação de Estações de Serviço.
Odiava aquelas Estações de Serviço. Quer dizer, para encher o depósito de combustível, eram todas iguais. Mais cêntimo, menos cêntimo, esta marca ou aquela, normal ou aditivada, era só enfiar a agulheta no buraco do depósito e encher. Mas para comer e ir à casa-de-banho, eram todas muito sofríveis. A comida era cara e geralmente muito má. O pão era seco. A manteiga margarina. O queijo corrente. O fiambre era mortadela. As vezes até a Coca-Cola era Pepsi. Quanto às casas-de-banho, por mais que fossem limpas, estava lá sempre o papel com os horários de limpeza e a assinatura da funcionária responsável, nunca perdiam aquele cheiro entranhado a mijo, as retretes entupidas, a falta de papel-higiénico, as torneiras automáticas que não davam tempo de mudar a mão de um lado para o outro e os secadores que, por mais que as mãos ficassem lá por baixo a esfregarem-se, nunca ficavam secas.
Saí na primeira indicação. Não valia a pena escolher. Eram todas iguais. Entrámos mais uma vez em contra-mão no parque de estacionamento da Estação de Serviço. Nunca acerto com as direcções pintadas no chão, e entretanto apagadas pelos pneus dos milhares de carros que entram por ali diariamente, e as placas de trânsito com as suas mil-e-uma informações ao utente e qual-é-a-minha, porra?
Parei num lugar vago debaixo do sol escaldante. Nestas Estações de Serviço nunca há árvores. Ela tirou os pés a contra-gosto do tablier e enfiou-os nas Havaianas.
Saímos do carro.
Entrámos no bar da Estação de Serviço. Encostei-me ao balcão. Ela encostou-se a mim. De costas para o balcão. Abraçada a mim. A morder-me o pescoço. Eu pedi Duas Coca-Colas e un bocadillo de calamares cortado pela mitad. E ele respondeu Solo Pepsi. Ela riu-se. E eu disse Entonces, puede ser.
Ela deixou-me encostado ao balcão, e foi, a rir, em direcção à casa-de-banho. Eu mandei um grande gole na Pepsi. E disse Foda-se! Comecei a comer uma metade do pão com calamares.
Ela apareceu. Branca como a cal. Agarrou-se a mim. Estava a tremer. A tremer que nem varas-verdes. Caíam-lhe gotas de suor pelas têmporas. E eu perguntei O que foi? e ela encostou-se mais a mim, aproximou a boca do meu ouvido e disse, num sussurro quase inaudível, assustado, quase-morto Acho que está um feto morto na casa-de-banho. No meio do caixote de lixo. Era assim uma coisa… E começou a chorar. A chorar baixinho.
Eu tirei uma nota de dez euros do bolso. Larguei-a no balcão. Agarrei na outra metade de pão com calamares, em vários guardanapos e saí do bar, com ela agarrada a mim, a querer cair por mim abaixo, a querer desmaiar, a querer adormecer e despertar de um horrível pesadelo.
Entrámos no carro. E arranquei, de novo, pela estrada fora.
Levávamos as janelas abertas. A rádio desligada. Ela não falava. Eu não dizia nada. Continuámos em silêncio. Continuámos em frente mas já não sabia se queríamos ir para onde íamos.
Às vezes basta um pequeno acidente no percurso para nos mudar a vida. Para o bem ou para o mal. Para nos mudar, com certeza.
Já não somos os mesmos depois da paragem naquela Estação de Serviço. Mas também ainda não sabemos o que é que somos. Ainda estamos a processar as coisas. Estas coisas que nos acontecem. E não pedem autorização para acontecer. E nos mudam, assim, de repente.
Parei o carro à beira da estrada. De um lado e outro, descampado. Ao fundo, o touro da Osborne. Eu mijei virado para o touro. Quando regressei ao carro, vi que ela estava agachada entre o carro e a porta aberta. Eu entrei no carro. Ela também. O carro arrancou. Ela acendeu um cigarro e deu-mo. E depois acendeu outro para ela. E fomos, estrada fora, a fumar, a ouvir o vento a entrar pelas janelas abertas, e a tentar esquecer todas as coisas que nos fazem sentir mal.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/20]

Fazer um Reset e Começar de Novo, mas Agora em Bom

Eu descia todos os dias lá de cima do bairro para ir ter com ela ao bairro lá em baixo.
Fazia aqueles quase dois quilómetros a descer a voar, e mesmo quando regressava, e tinha de os subir, não lhe dava pela dificuldade, pela lonjura nem pelo tempo que passava a dar às pernas para estar alguns momentos com ela. Em dias de chuva. Em dias de frio. Em dias de calor e sol de torrar.
Chegava lá abaixo, sentava-me no muro em frente ao prédio dela e esperava. Esperava que ela me visse da janela do quarto ou da janela da sala. Depois esperava que ela viesse ter comigo. Que descesse de elevador. Que abrisse a porta da rua. Que me fizesse um sinal para ir ter com ela, e não ela comigo, para que o pai não nos visse juntos, lá de cima da janela da sala, enquanto fumava um cigarro a acompanhar o café de cevada que bebia sempre depois de almoço. A mãe já sabia. As mães sabem sempre e sabem logo. Até já tínhamos ido à praia os três. Os quatro, quando o irmão dela também foi. Mas o pai… Ah, o pai era outra conversa. Ela era a filhinha.
Dávamos um beijo. Um leve roçar dos lábios. Os meus nos dela. Cheirava-lhe o perfume que lhe tinha dado pelo Natal. Dávamos as mãos. As minhas começavam logo a transpirar de ansiedade. Ela sorria. Seguíamos por baixo das varandas, junto aos prédios do bairro, e íamos para o terreno baldio que havia na periferia do bairro. Íamos até à árvore que lá havia. Subíamos às suas braças e olhávamos o castelo, ou ficávamos em baixo, sentados no chão, rabo na erva, as costas no tronco da árvore, a falar. Muito falávamos nós. Eu contava-lhe dos novos grupos que ia conhecendo e que quase mais ninguém conhecia. Falava-lhe das letras das músicas. O que elas diziam. O que elas queriam dizer. O que eu achava que elas queriam dizer. Ela contava-me dos livros que lia. Dos livros que andava a ler. Sempre mais que um ao mesmo tempo. Às vezes trazia-me um. Lê, dizia. E eu lia. Depois falávamos do livro. Discutíamos. Às vezes acabávamos zangados. Eu ia para casa e à noite fazia uma MixTape com as melhores músicas do mundo e levava-a no dia seguinte. E fazíamos as pazes. O que eu gostava de fazer as pazes!
Esculpi os nossos nomes no tronco da árvore. Esculpi um coração trespassado pela seta de Cupido.
Partilhámos palmiers recheados. Bolos da festa que partíamos ao meio e cada um levava uma metade para casa. A minha metade não chegava a casa que eu devorava-a toda na subida que fazia depois de a deixar.
Um dia chegaram as férias de Verão. Ela foi para um lado. Eu fui para outro. Ela chegou diferente. Eu também.
Nunca mais voltei ao terreno baldio.
Anos mas tarde encontrei-a por puro acaso numa cidade que não era de nenhum de nós. Ela tinha ido a uma reunião. Eu… Eu estava de passagem. Estou sempre de passagem. Bebemos um café. Falou-me dela. Três filhos, entre os vinte e os vinte e cinco anos. Divorciada. O ex-marido era oficial da marinha mercante. Andava sempre no mar. Em viagem. Um dia não voltou. Nunca lhe disse nada. Um dia chegaram, pelo correio, os papéis do divórcio. E foi só. Era funcionária pública. Alto quadro. Bom salário. Uma vida tranquila. Mas já não tinha tempo para ler. E ainda tinha de cuidar dos filhos, coitados. Não sabem fazer nada sem ela. Ainda estão todos por casa. A estudar, mas por casa. Ouve música na rádio. Não liga a nomes. Filmes no vídeo-clube do cabo mas, regra geral, adormece no genérico inicial.
Mas estão, e tu?! Fala-me de ti!, disse.
E eu não sabia o que lhe dizer. O que é que eu tinha para contar? Que vida é que eu tinha para lhe contar? Que também já não era nada do que tinha sido? Que tudo tinha morrido algures, nem sabia bem onde nem como nem porquê? Que eu estava sempre de passagem? Estava sempre de passagem entre lugares nenhuns?
Despedi-me dela. Tenho pressa!, disse-lhe. Desculpa!, pedi. Temos de nos encontrar um dia destes. Uma noite destas. Vamos jantar, menti.
E fui embora.
E enquanto ia embora, levava todo o vazio da minha vida. Um vazio que se torna tão pesado quando não sabemos dizer a alguém que já nos foi tão próximo, o que é que fizemos com toda esta vida que tínhamos para viver,
Naquela altura gostava de ser uma aplicação. Fazer um reset à minha vida. Começar tudo de novo. Mas agora em bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/25]

Estou à Espera

Estou à espera.
Estou de cigarro na mão à espera.
Estou sentado no sofá. Ouve-se o som fanhoso vindo do rádio FM que está na cozinha. É o rádio do pequeno-almoço. O rádio que utilizo quando estou a tomar o pequeno-almoço, de manhãzinha, para ir sabendo das notícias do dia.
Chego-me à frente e deposito a cinza no cinzeiro.
Ela está ao meu lado, no sofá. Está de telemóvel na mão. Provavelmente a navegar no Facebook.
Estamos calados. Não estamos chateados. Estamos só calados. Estamos bem os dois, em silêncio. Não temos de estar sempre a conversar. Conversamos quando temos o que dizer.
Estamos os dois em silêncio. Eu, estou à espera de cigarro na mão. Ela espera comigo, enquanto navega pelas redes sociais. Pelo menos é o que me parece. Não vou espreitar. Eu não tenho necessidade de ir espreitar. E ela não tem necessidade de me mostrar. Temos confiança um no outro. Aliás, mais que confiança. Nem sequer equacionamos isso.
Ouço, por cima do som fanhoso que sai do rádio FM, o som de um carro que se aproxima da casa. Tomo atenção. Procuro perceber se vem para cá. Mas não. Segue em frente. Desaparece. Fica só o som solitário do rádio FM.
Acabo o cigarro. Chego-me outra vez à frente e apago-o no cinzeiro.
Acendo outro.
Ela olha para mim. Coloca a mão na minha perna. Percebe que estou um pouco impaciente e tenta acalmar-me. Eu olho para ela. Ela sorri-me.
Recosto-me no sofá. Olho para a televisão desligada. Olho para o crucifixo com um Jesus loiro, com uma coroa de espinhos, que está pendurado na parede por cima da televisão. Eram restos da vida da minha mãe. Restos que deixei que entrassem pela minha vida dentro. Não me incomodam. Ou incomodava-me mais alterar estes restos da sua passagem.
Olho lá mais em cima, para o tecto, para as sancas. Olho para a esquina do tecto. E vejo uma aranha. Uma aranha que está a construir uma teia. Aquela aranha está por ali há já bastante tempo. Nunca a tirei de lá. Ela também não. E vai continuar por lá.
Vejo o jarro em cima da mesa. Tem o resto de umas flores. Não sei que flores são. Nunca soube o nome das flores. Só das Rosas. E estas não são Rosas. Mas devem estar a morrer. Há pétalas caídas à volta do jarro. As flores já não têm quase pétalas. Já não têm folhas. Mas o jarro ainda tem água. Acho que morreram, as flores.
Há um livro caído na mesa. Ao lado do jarro. Tento ver que livro é aquele. Não é meu. Não sou eu que o ando a ler. Deve ser dela. Que livro é? Tento focar as letras da lombada, mas tudo o que vejo é um borrão. Ainda me viro para ela para lhe perguntar o que é que anda a ler. Mas já não vou a tempo.
A campainha da porta toca.
Nem me apercebi que vinha lá alguém. Nem me apercebi da chegada de algum carro. Mas há alguém à porta. Alguém que toca a campainha. Eu não me mexo. Ela olha para mim. Sabe que sou eu que tenho de ir à porta. Sabe que é a mim que procuram. Sabe que é a mim que vêm buscar.
Eu olho para ela. Há uma despedida neste olhar. Sei que ela o vê.
Apago o cigarro no cinzeiro. Levanto-me. Caminho para a porta. Ouço-a levantar-se atrás de mim. Ouço-a caminhar atrás de mim. Abro a porta. Estão dois polícias à entrada de casa. Viro-me para ela. Ela abraça-me. Dá-me um beijo. Eu não consigo evitar um soluço.
Um dos polícias tem umas algemas nas mãos. Eu largo-a e estendo as mãos ao polícia. E deixo-me ser conduzido por eles.
E enquanto vamos pelo caminho até ao carro da polícia, ouço a porta de casa a fechar-se nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/04]

Alguém Bate na Janela do Quarto

Já passa da meia-noite. Desço a Mouraria. Há silêncio no bairro. Ouço, ao longe, um rádio que transmite uma canção. Não distingo o idioma. Está muito distante. Mas não é português. Não saberia dizer o que é. Não reconheço estas línguas asiáticas. Soam-me todas ao mesmo. Sei que não são. A falha é minha.
Desço devagar com medo de escorregar nesta calçada suja e escorregadia. Não há ninguém nas ruas. Ou quase ninguém. Vejo um homem a fumar um cigarro à janela, emoldurado por uma luz amarela que vem por trás. Está de camisola de alças. Está calor. Ele olha para mim e segue-me com o olhar enquanto fuma o cigarro. Não está a observar-me. Exercita o olhar. Descontrai. Olha para mim porque estou em movimento.
Mais à frente cruzo-me com alguém que deve ser autoridade. Pela farda. Mas não me parece polícia. Talvez seja um guarda-nocturno. Não sabia que ainda existiam.
Continuo a descer. A Mouraria é sempre a descer. Sinto, no ar, cheiros diferentes do meu habitual. Mas não tão intensos quanto os que sinto quando aqui passo de dia e os restaurantes indianos, paquistaneses, nepaleses, do Bangladesh e até um chinês, na rua mais em baixo, estão a funcionar em pleno para servir, na maior parte dos casos, gente da terra.
Gosto de vir comer por aqui. No início cheguei a ter algum receio de me fazer mal ao estômago. Não estou habituado a estas especiarias. Mas passei incólume pelo baptismo. Já lá vão muitos anos desde que andei por aqui a primeira vez. Mas está quase tudo na mesma. Quase. Os anos não passam por estas ruas. Mas já começaram a chegar os novos empreendedores.
Já passa da meia-noite e o bairro parece dormir. Não há um bar. Um café. Um restaurante mais tardio. Está tudo fechado. As luzes desligadas. Pelo menos pelas ruas que eu vou serpenteando enquanto vou para baixo, para a baixa da cidade. Permanecem os candeeiros públicos. De luz amarela. Não intrusiva.
Ouço os meus passos ecoados nas paredes silenciosas do bairro. Não há ninguém.
Atrevo-me a descer por ruas mais esconsas e escuras. Ruas onde nunca passei. Procuro vida. Mas acho que está toda a repousar.
Do fundo vejo subir um homem. De mãos nos bolsos. Mochila às costas. Como eu. Também desço de mãos nos bolsos. De mochila às costas. Cruzamos-nos a meio da descida e ele diz-me Boa-noite! Eu respondo com outro Boa-noite! É brasileiro. O sotaque dançado em forma de samba. A cara, um pouco na sombra de uma iluminação pública suave, e vista somente de relance, não parecia a de um homem a dar largas ao seu samba, mas já imerso no fado. Acho que senti dor. Mas talvez a dor fosse minha. Talvez me tivesse visto nele. Sozinho. De mochila às costas. Perdido na cidade. A tombar sobre qualquer coisa que me magoa o corpo e que só vou descobrir mais tarde quando me lançarem uma mão para me levantarem.
Acabo de descer a ladeira. Não escorreguei. Não caí.
Ao contrário do resto do caminho que fiz, agora aqui, em baixo, nesta rua sinuosa e comprida, há gente. Pouca gente, mas alguma. Gente com má vida às costas. Dois rapazes estão tombados nos degraus do pequeno largo que pontua a rua. Uma rapariga, fuma um cigarro e olha em frente. Não me vê. Não me sente passar por trás dela. Eu continuo. Depois ouço, sonoro na noite Oh, foda-se! Acorda, caralho! Levanta-te. Temos de ir lá acima senão o gajo vai-se embora.
Eu ainda viro ligeiramente a cabeça para trás e vejo a rapariga. A abanar um dos rapazes. Cigarro ao canto da boca a cuspir palavras. Anda, porra!
Há muito lixo na rua. Nesta rua. Lixo ao lado dos caixotes. Mas espalhado em volta. Como se alguém tivesse andado a remexer nele. Cheira mal. Vejo restos de comida. Parece-me comida. Caixotes. Muitos cartões. Papel. Algum plástico. Não vejo cães. Nem gatos. Talvez ratos. Acho que vi ali agora um a passar.
Encontro a porta do meu destino. Está aberta, a porta. Está sempre aberta. Acendo a luz do telemóvel para ver nas escadas. Para ver onde ponho os pés. Há muita sujidade. Papéis. Beatas. Uma bota rota. Não vejo seringas. Já não é mau.
Abro a porta do apartamento e sigo para o meu quarto. Está abafado. Cheira a humidade. Abro a janela do quarto e lembro-me que a janela não dá para a rua. Dá para outro quarto. Só me lembro quando abro a janela para trás, para entrar um pouco de fresco da noite, e vejo passar, molhada, com uma toalha enrolada à volta do corpo, uma mulher que, pelos vistos, é a minha vizinha.
Corro a fechar rápido a janela. Fecho-me no quarto. Eu e o cheiro a humidade.
Deito-me sobre a cama. Acendo um cigarro. Penso que não devia estar a fumar no quarto fechado. Mas não me apetece ir à rua para fumar. Quero estar na cama. Quero enterrar-me na cama. Afundar-me na cama. Fundir-me com a cama.
E é então que ouço bater na janela do quarto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/30]

O Homem que Vivia Duas Vidas

Naquele tempo eu vivia num pequeno quarto acanhado na Estrada de Benfica, ali para os lados do Arabesco.
Era um quarto assim mais para o comprido e muito estreito. Na verdade, o quarto era metade de uma antiga sala que o senhorio dividiu para poder alugar quartos a estudantes. A gajos assim como eu sem dinheiro para grandes mordomias.
A cama, que na verdade era um divã, ficava num canto sobre o comprido do quarto, com a cabeceira encostada à parede da rua. Isto era num rés-do-chão. Às vezes parecia que as pessoas que passavam na rua estavam dentro do meu quarto, dentro da minha cama, dentro de mim.
Aos pés da cama tinha uma pequena secretária com um banco que enfiava todos os dias debaixo da secretária. Ao lado da secretária, a caminho da porta do quarto, um pequeno baú onde guardava as cuecas e as meias. O resto da roupa estava empilhada em cima da secretária e encostada à parede do outro lado do quarto. As pilhas de roupa faziam companhia às pilhas de livros. Debaixo da cama tinha um cinzeiro. Estava sempre a limpar o cinzeiro. Não gostava do cheiro do tabaco frio. Fumava na cama. E não gostava de fumar na cama. Mas o meu quarto também era a minha sala. A alternativa era ir fumar para a cozinha. Mas aí tinha de partilhar espaço e conversa com os outros inquilinos da casa e o senhorio que, durante a semana, vivia lá. Ao fim-de-semana ia não-sei-para-onde. Mas nunca estava lá. Ia embora à Sexta-feira. Voltava no Domingo à noite. Às vezes à Segunda-feira de manhã.
Foi na minha última semana lá em casa que a conheci.
Tinha saído na Sexta-feira à noite. Andei pelo Bairro Alto. Fui ao Estádio. Ninguém conhecido. Agarrei-me aos flippers. Fui gastando as moedas que tinha no bolso. Na última moeda fiz tilt. Fiquei furioso. Dei uma pancada com força na máquina. Esticaram-me um charro e disseram Acalma-te aí, man! Uma voz de rapariga. Era ela. Passei o resto da noite a entrar e sair de portas no Bairro Alto. A bebedeira ainda nos levou ao Cais do Sodré. Mas durámos pouco por lá. Perguntei-lhe Queres vir lá a casa? E ela disse Yeah!.
Subimos a Rua do Alecrim à procura de táxi. Chegámos a casa. Entrámos no quarto. Entrámos na cama que era um divã. Ela ficou com os pés fora da cama. Foi então que me apercebi que ela era grande. Maior que eu.
Adormecemos os dois agarrados um-ao-outro para não tombarmos no chão. Passámos assim o Sábado. Passámos assim o Domingo. Não comemos. Fumámos cigarros e virámos uma garrafa de Brandy Croft que tinha lá debaixo da secretária. Só saíamos do quarto para ir à casa-de-banho.
Eu acabei por arranjar uma vela que acendi para camuflar o cheiro do tabaco. Não era uma vela de cheiro. Acho que nem havia velas de cheiro naquela altura. Ou eu não as conhecia. Era uma vela daquelas para iluminar a casa quando faltava energia. Estava em cima da secretária.
Foi no princípio da noite de Domingo que aconteceu. Estávamos na cama. No divã. Eu estava em cima dela. Dentro dela. Ela estava com os pés fora da cama. Era grande. Maior que eu. E num momento de maior emoção, deu um esticão com as pernas e bateu na secretária. A secretária abanou. Deitou a vela abaixo. Mas a vela não se apagou. Só demos por ela quando nos cheirou a queimado. Eu ergui a cabeça e vi umas pequenas chamas. A secretária estava a arder. Eu levantei-me. Ela levantou-se. Ela saiu pela porta do quarto. Nua. Foi a correr à cozinha. Eu, nu, pus-me a mijar para cima da secretária. Para apagar as chamas. Quando ela voltou para o quarto, nua, com uma tigela com água para despejar na secretária, cruzou-se com o senhorio, que já tinha regressado a casa.
Ela parou à frente dele.
Ele olhou-a admirado.
Eu tinha acabado de mijar sobre as chamas da secretária e olhei para eles os dois.
Ela disse Olá, pai.
Ele disse Olá.
Eu sacudi-me. Ela entrou no quarto e começou a vestir-se. O senhorio virou-se para mim e disse Vais-te embora. Hoje, e voltou para o quarto dele.
Eu senti-me um bocado perdido. Acabei por me vestir, também. Acabei por sair com ela. Entrámos no Viriato, um pequeno restaurante que havia lá ao pé de casa. Sentia-me com muita fome. Ela também. Pedi um bitoque. Ela também. Mas o dela sem ovo. Bebemos cerveja. E, então, ela contou-me.
Aquele homem, o meu senhorio, era o pai dela. Era o pai dela durante os fins-de-semana. Os fins-de-semana que passava lá em casa. Com a mãe. Com o irmão. Durante a semana era suposto andar a viajar. Caixeiro viajante. O pai era representante de uma marca de tintas e passava a vida na estrada a mostrar o produto que vendia. Atender clientes. Dar apoio. Logística. Afinal, era mentira. Afinal durante a semana era senhorio de uma casa onde alugava quartos a jovens estudantes.
Eu saí de casa ainda durante aquela noite. Subi três andares e fui para casa de um vizinho que conhecia. Duas semanas depois fui dividir um apartamento com mais três amigos da Faculdade.
Ainda andei alguns meses com ela. Depois fui passar uma Queima-das-Fitas a Coimbra e nunca mais regressei a Lisboa. Desisti do curso. Tornei-me DJ em Coimbra, e por lá fiquei.
Lembrei-me hoje desta minha aventura ao ler na revista Visão a história de um homem que tinha duas famílias. Duas famílias simétricas. Duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Um casal de filhos de cada mulher. De idades similares.
O pai dela não tinha duas famílias. Mas vivia duas vidas. Não sei como é que elas terminaram. Nem se terminaram. Nunca mais a vi. Nem a ela nem o pai dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/21]