Fecha os Olhos e Deixa-te Adormecer

Abro um olho e olho para as luzes do despertador digital. São vinte horas. Ponho uma orelha de fora e ouço o zumbido. Parece o coro das cigarras. Mas a esta hora é pouco provável. Talvez o zumbido seja dos cabos de alta tensão. Ou do incêndio que, afinal, talvez esteja já aqui à porta.
Eu vi quando o fogo apareceu lá ao fundo, na zona dos eucaliptos. Mas não liguei muito. Depois dos eucaliptos há um descampado. O fogo devia morrer por ali.
Fui deitar-me em cima da cama. Devo ter adormecido. Acordei a baterem-me na porta. A chamarem-me. Levantei-me em silêncio. Fui à janela da cozinha e espreitei lá para fora. Fui ver quem era. Era gente aqui das redondezas. E a guarda. Andava toda a gente no meu quintal. Às voltas no meu quintal. Bateram à porta. Às portas. Nas janelas. Tentavam espreitar cá para dentro para ver se eu cá estava. Se estava cá alguém.
Eu não queria ver ninguém. Eu não estava. Se eu não estivesse, eles iam embora.
Voltei para a cama. Meti-me debaixo do edredão, mesmo com todo este calor. As vozes continuavam lá por fora. À volta da casa. Ninguém se foi embora, aparentemente.
Ouvi água a cair sobre as janelas, sobre a casa. As vozes aumentavam. Tapei-me com o edredão. Tentei abafar as vozes e os ruídos lá de fora.
Devo ter adormecido, de novo.
Continua a haver barulho lá fora. Já não me parecem vozes. Ou talvez sejam vozes, mas estão diferentes. Ouço um zumbido. Há, outra vez, água a cair sobre a casa. Estará a chover?
Cheira-me a torradas. Ponho o nariz de fora. Cheira-me mesmo a queimado. O zumbido! O zumbido pode ser do pinhal a arder. Talvez o incêndio tenha ido dar a volta lá por baixo, pela estrada. Talvez o descampado não tenha apagado o incêndio. As chamas podem ter dado a volta lá por baixo. Os pinheiros chegam até aqui ao quintal. Entram dentro do quintal. Estão aqui, mesmo ao lado da casa.
O zumbido parece que está mais alto. Já não parece bem um zumbido. Parece mais um crepitar. Cheira-me a queimado. E aquilo ali? será fumo?
Enfio de novo a cabeça debaixo do edredão. Quero acordar. Acorda! digo. Destapo-me e apuro os sentidos. Sento-me na cama. Ouço um crepitar de madeira. Cheira-me a queimado. Vejo fumo a invadir-me o quarto.
Sinto-me tonto. Volto a deitar-me. Tapo-me outra vez. Pode ser que não seja nada. Tenho a cabeça às voltas. Sinto-me tonto. Será uma vertigem? Sinto-me adormecer.
E então vejo-a. E ela diz Fecha os olhos. Deixa-te adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/31]

No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem qual deles põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecran, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrans das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]

Está Calor

Vou numa estrada vazia, no meio do Alentejo. Queria ir para a praia, mas acho que me perdi. Já não sei bem onde estou. Está calor.
Ouço o carro refilar. Dá três solavancos e pára. Tiro as mãos do volante para ver se acontece alguma coisa. Não acontece nada. O carro parou. Vejo, por acaso, o manómetro do combustível. Vazio.
Saio do carro. Está calor. Arregaço as mangas da camisa. Transpiro. Não avisto uma única árvore perto. Não sei onde estou. Não sei se deva ir em frente para tentar arranjar ajuda. Não sei se deva voltar para trás.
Acendo um cigarro e encosto-me ao carro. Quando era novo, em Lisboa, quando estava a estudar em Lisboa, quando um miúdo da província conseguia ir estudar para Lisboa, e estava nas paragens à espera de autocarro que nunca mais vinha, era certo e sabido que, se acendesse um cigarro, o autocarro aparecia. Rasgava o pedaço queimado e guardava o resto do cigarro. Eram tempos de poupança.
Agora já fumei o cigarro quase todo e ainda não chegou o autocarro. Está calor.
Entro para dentro do carro. As janelas todas abertas. Não há uma aragem. Ouço a cantoria das cigarras.
Deito-me no banco de trás. Vejo a luz interior do carro acesa sobre mim. Penso que a luz acesa provoca mais calor. Mas não me consigo levantar. Fecho os olhos para a ignorar. Para não a ver. Talvez assim ela não exista e, quando voltar a abri-los, talvez esteja desligada.
De olhos fechados estou onde quero. Ou vou para onde me levo. Esqueço o calor. Banho-me num mar de ondas pequenas e suaves. Nado no meio de corpos. Há um mar de cadáveres à minha volta, a subir e a descer no suave ondular das ondas do Mediterrâneo. Abro o olhos assustado. A luz continua acesa. Está calor. Transpiro.
Ouço alguém chamar Olá, amigo!
Levanto-me e saio do carro. Lá fora está um homem a pé com uma bicicleta nas mãos e os pneus em baixo. Repete Olá, amigo! Eu respondo Boa-tarde! e ele continua Precisa de ajuda?
E lá vamos nós. Eu de boleia na sua companhia. Ambos a pé. Ele a empurrar a bicicleta com os pneus furados. Eu de mãos nos bolsos. A levantar o pó das bermas secas. Tenho sede. Está calor. Nem um cigarro me apetece fumar agora. Pingo pelo corpo todo. Mas tenho a boca seca. A garganta seca.
O homem diz-me que é já ali. Mas continuamos a andar. Continuamos a andar há já umas duas horas. Talvez três. O relógio de pulso parou. Não lhe dei corda. O telemóvel não tem bateria.
Queria estar na praia. Numa esplanada, na praia. Numa esplanada, na praia, a beber uma cerveja gelada.
Finalmente aproximam-se umas casas. Uns barracões. Não, nós é que nos aproximamos. O homem diz É aqui! E vai-se embora, levantando o braço num adeus que se prolonga até o perder de vista.
Eu dou a volta aos barracões. Acabo por encontrar uma porta. Um homem. Páro à entrada do barracão a olhar para o homem. Ele vê-me e fica à espera que eu diga alguma coisa. Mas eu não consigo. Tenho a garganta seca. Insisto. Consegue sair Água!
O homem aponta uma torneira com a cabeça. Corro para a torneira. A primeira água que sai vem quente. Mas eu meto a boca lá debaixo. Engulo, engulo, engulo. Ponho a cabeça. Esfrego a cara. Os braços. Bebo mais água até me sentir saciado. Depois digo Gasolina! Preciso de gasolina!
O homem pega no telemóvel e mexe-lhe. Vejo os dedos a escrever no ecrã táctil. Vejo-os a fazerem scroll. E a cara vira-se para mim e diz Só amanhã. Hoje já não há gasolina aqui perto. É o que me diz a aplicação.
E eu deixo-me cair no chão. De joelhos.
O homem aproxima-se de mim. E diz Vá lá! Não fique assim! Tem aqui onde ficar. Onde comer. Onde beber uma cerveja. Também há aqui uma piscina. Temos terminal de multibanco e funciona. Amanhã tratamos da gasolina.
O homem estende-me a mão. Ajuda-me a levantar. Leva-me para as traseiras do barracão. Vejo uma piscina de borracha. Grande. Um chapéu de sol. Uma mesa. Cadeiras. O homem diz Esteja em casa.
Ele afasta-se. Eu dispo-me. Fico nu. Mergulho na água quente da piscina, mas sabe-me bem. Dou mais três mergulhos e saio. Sento-me na cadeira à sombra. Seco num instante. Acendo um cigarro. Olho o horizonte plano e seco à minha frente. Penso que tive sorte em encontrar este oásis.
Uma rapariga aproxima-se de mim. Fico envergonhado e tapo-me com as mãos. A rapariga é engraçada. Ri-se. Coloca uma cerveja à minha frente. Em cima da mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços. E diz Se precisar de mais alguma coisa, eu estou ali, e aponta-me para um outro barracão.
Ela vai-se embora e eu vejo-a ir. Está calor.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/14]

No Fim das Férias

Está uma ventania diabólica. Estou quase a acabar as férias e não fui à praia. Sempre muito vento. Às vezes frio. Choveu. Com estas amplitudes térmicas acabei por apanhar uma gripe que me deitou à cama por quase uma semana.
As férias chegaram e estão quase a partir sem eu ter dado por elas.
Hoje quando acordei e vi o sol, ainda vesti os calções de banho e imaginei-me a dar umas braçadas em São Pedro de Moel, na esperança que depois do meio-dia o sol também havia de descobrir por lá.
Abro a janela do quarto para o arejar, e sinto o pó a entrar às pazadas. Sinto-o logo na boca. Trinco pedaços rijos que rangem nos dentes e arrepiam-me o corpo. Corro a fechar a janela. Sacudo os lençóis, o edredão e as almofadas. Vou buscar o aspirador e ando ali dez minutos, de costas curvadas, a apanhar o pó da rua que o vento convidou para o meu quarto e me obriga a estes trabalhos extra em tempo de férias.
No fim sento-me no sofá a descansar. Penso no que fazer. Olho para a capa de Máquinas como Eu do Ian McEwan que tenho ali para ler mas não consigo estender-lhe a mão. O braço recusa-se a pegar noutra coisa que não seja o comando da televisão. O braço está ligado a uma massa esponjosa e disforme e já não mais a um cérebro. Este braço já não está ligado a nada que pense. Agora é só emoção. Dou por mim a ter de olhar para a CMTV e para a enésima reportagem sobre os incêndios de Vila do Rei. Uma reportagem que já vi. Mais que uma vez. Quero mudar de canal mas o braço não se mexe. A mão está quieta. Os dedos mortos. A vontade não é suficiente.
Começo a sentir os olhos pesados. A televisão afasta-se de mim. Perco-a no horizonte da sala que não sabia tão grande. As vozes afastam-se e perdem-se na distância.
As vozes vão e vêm. Desaparecem. Estou no vácuo. Não ouço nenhuma voz. Não ouço o canto das cigarras. Não ouço as ondas do mar. Não ouço qualquer barulho. E depois tudo volta. Os cães a ladrar. Música muito alto. Estou a uma mesa. Uma mesa grande cheia de gente que conversa. Há uma grande confusão de vozes que se misturam. Ouço barulho de conversas, mas não percebo o que se diz. Há muita confusão de muita gente. Tenho à minha frente um prato com moamba. Salivo. Moamba de galinha em óleo de palma. Funge. Vejo à minha volta toda a gente na conversa. A beber vinho tinto. A comer moamba. Eu também como a moamba. E bebo o vinho. E que bem que me sabe! Há quanto tempo não como uma moamba?
Parece que estou numa festa. Numa comemoração. Numa efeméride. Parece que estou onde já estive. Pareço reconhecer onde estou e como estou e com quem estou. Alguém levanta-se na mesa e faz o que deve ser um pequeno discurso. Não consigo ouvir o que diz. Mas as pessoas batem palmas. Muitas palmas. Grita-se de alegria.
Conheço as pessoas que estão ali comigo. J. está ao meu lado. Do outro está L. À frente de L. está C. S. está à frente de J. À minha frente está M. Mas estão lá muitas mais pessoas. Pessoas que conheço. Que conheci. Elas estão num happening. Bebem. Comem. Conversam. Ouvem música. Eu estou num regresso ao passado. Como e bebo. E ouço. E vejo. Mas aos poucos, percebo que está cada vez menos gente. Há menos barulho. Já comi quase tudo. Sinto a barriga inchada. Abro o botão das calças. Alargo o cinto. Mando um arroto. Rasgo um pedaço de pão saloio e limpo o molho espalhado pelo prato. Rapo o prato. Gosto do óleo de palma e dos restos de galinha. Quando já não tenho mais pão, chupo os dedos. Levanto a cabeça e reparo que estou sozinho. Estou sozinho naquela mesa enorme. Toda a gente bebeu, comeu e foi embora. Foram-se todos embora. Eu fui deixado ali. Sozinho. Sozinho e em silêncio. No vácuo.
E depois, depois ouço a voz da rapariga. De novo o Sporting. A rapariga fala do Sporting, da Academia e de Bruno de Carvalho. Estou de novo sentado no sofá em frente à televisão. Está na CMTV. De novo a mesma reportagem sobre os acontecimentos de há um ano. Quantas vezes já transmitiram esta reportagem ao longo deste ano? A cabeça quer sair dali mas o braço não se mexe. Penso que afinal quero um cigarro. A mão levanta-se e pega num cigarro. Coloca-o na minha boca. Acende o isqueiro. Sinto o fumo a invadir-me os pulmões. Sabe-me bem.
Lá fora continua o vento. Um vento diabólico. As férias estão a acabar-se e estou aqui preso frente à CMTV. E não me consigo mexer.
Uma notícia de última hora diz que o filho de um secretário de estado terá celebrado contractos com o Estado. Parece que não é legal. Nem ético. O cigarro sabe-me bem. Queria comer uma moamba. Queria ir à praia. Não queria que as férias acabassem. Queria ter força para desligar a CMTV e ler o novo livro do Ian McEwan. Às vezes não queria ser eu.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/30]

Abandonado numa Estrada Deserta

Está um calor de abrasar. Vejo, à frente, lá ao fundo da estrada, através do pára-brisas do carro, as ondas de calor que sobem da estrada.
Ela vai a conduzir. Eu vou ao lado. Vamos em silêncio. O rádio do carro está desligado. Não me lembro quem é que o desligou. Terei sido eu? Ela? Ela vai concentrada a olhar a estrada. Mas não precisa de muita concentração. Estamos numa recta infindável. Estamos numa estrada deserta. E não se ouve o barulho de outro carro. Só este. O barulho rouco do motor em sobre-aquecimento. E os pneus de borracha a descolar do asfalto mole, quase derretido, um quase-pântano que tenta prender o movimentos das rodas a circular.
Vou com o braço pousado na janela aberta. Vão as quatro janelas abertas. Mas não se sente quase nenhuma aragem. Estamos mesmo no reino do calor extremo.
Ela também leva o braço esquerdo fora do carro. Conduz só com uma mão. Não há muito para conduzir. Não há ultrapassagens. Não há que acelerar, travar, desviar.
Ela podia deixar-se dormir que o carro iria sozinho lá para onde vamos – e para onde é que vamos? Ela pegou no carro, mandou-me entrar, e arrancou. Arrancámos e aqui estamos.
Olho para o pulso, à procura do relógio e vejo as horas. Marca oito horas. Mas não pode ser. Oito horas, da manhã ou da tarde? Nenhuma das oito horas tem o sol tão alto. Levo o relógio ao ouvido. Está parado. Não lhe dei corda. Tiro-o do pulso e dou-lhe corda. Quero acertá-lo. Olho para o tablier do carro. Olho para os manómetros. Olho para o espelho retrovisor interior. Não há relógio em lado algum. Não há horas.
Levo a mão ao bolso das calças. Procuro o telemóvel. Não o encontro. Viro-me para ela e pergunto-lhe Viste o meu telemóvel? Ela olha para mim – e eu não sei se gosto daquele olhar. Com um gesto da cara, aponta o queixo para os meus pés. Eu olho para baixo e vejo o telemóvel partido. Pego-lhe. Pego-lhe nas peças. Nas pequenas e nas grandes peças partidas do que já foi o meu telemóvel. Sem a olhar pergunto-lhe O que é que aconteceu? e ela não me responde. Continua a conduzir o carro e atenta ao deserto que se abre perante nós.
Largo os pedaços do telemóvel na estrada. Vou deixando cair através da janela ao longo da estrada. O que é que terá acontecido ao telemóvel?
Depois, ela pára o carro. Pára o carro num descampado. Estamos parados numa estrada deserta no meio de um deserto. Não se vê ninguém. Ela diz Paragem para a mijinha. Ela abre a porta do carro mas não sai. Eu abro e saio. Dou três passos, agarro na pila e começo a mijar. E digo Foda-se! que me sabe tão bem.
E depois ouço.
Ouço o motor do carro a trabalhar. O carro a arrancar. Viro-me para trás e vejo o carro a acelerar na estrada deserta e a mão dela fora da janela, a fazer-me um pirete.
Meto a pila dentro das calças. Sinto alguns pingos a caírem nas cuecas. Mas logo secam. Corro para a estrada mas já é tarde. Como o pó que as rodas do carro fizeram ao arrancar. Vejo-o fugir de mim. Ouço-o fugir de mim.
Estou parado na estrada. Estou a transpirar. Ainda vejo o carro lá muito ao fundo, transformado numa onda de calor, a tremer. Mas já não o ouço. Só ouço a minha respiração. O cantar das cigarras. Penso nas cobras. Olho para o chão à minha volta. Pergunto-me O que é que aconteceu?
Olho para a frente, para onde o carro foi, para onde o carro desapareceu. Olho para trás, para de onde viemos. E penso Onde caralho é que estou?
Começo a andar na direcção do carro. Começo a andar na direcção do carro na esperança que ela volte atrás e me apanhe.
Mas não tenho grandes esperanças.
Acho que deve ter havido merda. Porque é que vínhamos em silêncio? O que é que eu fiz? O que é que eu lhe fiz? Devo ter feito alguma, de certeza. Mas o quê? O que é que eu lhe fiz para ela me largar aqui, assim, debaixo deste calor tórrido? E daqui a umas horas é noite. Há por aqui cobras. Não sei onde estou. Tenho a cabeça a ferver. Tenho sede.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/10]

Preciso de Sair Daqui

Mexo o braço debaixo de água. Vejo-o a mover-se lento, travado pelo atrito da água. O sol brilha, reflecte no espelho de água e, por momentos, deixo de ver o braço. Mas sinto-o a flutuar. Suave.
Deixo-me cair na água. Flutuo. Sinto pequenas ondas passarem por cima de mim. Está calor. Sinto-me bem aqui.
Tenho os olhos fechados aos raios de sol. E no entanto vejo. Vejo gente a mergulhar. A saltar da pequena prancha meio-metro acima da piscina. Vejo as explosões provocadas pelas bombas humanas lançadas em peso sobre a água da piscina para molhar as cercanias. As miúdas fogem. Fogem a rir. Algumas ainda são salpicadas por pingos de água. Despem os vestidos que largam abandonados pelo chão e mergulham na piscina. Brincam. Riem.
Alguém manda uma bola grande, insuflável. É azul. Tem escrito Nivea. É uma gigantesca bola insuflável da Nivea. Saltita na piscina. Mãos lançam-na de um lado para o outro. Não pára. Não cai à água. Alguém mais afoito bate com mais força e a bola foge para longe da piscina.
Há música no ar. Uma música alegre, fresca, dançável. Sinto-me a bater o pé. Não sei onde. Não me vejo. Mas sei que estou ali. Sei que estou ali porque sou eu que vejo o que se passa. E sinto-me a bater o pé ao ritmo da música que paira sobre o jardim, a piscina, a multidão de gente jovem e bonita.
Um casal beija-se. Um pequeno grupo dança. Uma trupe de pequenos diabretes corre de um lado para o outro disparando jactos de água de pistolas e metralhadores de plástico.
Alguém passa com uma cerveja na mão.
Uma rapariga está deitada numa chaise-longue enquanto bebe um longo cocktail colorido e cheio de adereços à volta do copo.
Um rapaz está sentado no meio da relva a comer uma fatia de melancia. Pinga-se. O sumo da melancia escorre-lhe pelo peito. Duas raparigas sentam-se ao pé dele e cortam mais fatias da melancia e também comem. Uma criança aproxima-se de uma das raparigas e senta-se ao colo dela. A rapariga dá-lhe a comer um bocado de melancia. O miúdo trinca. Depois levanta-se e vai a correr ter com os outros miúdos.
Abro os olhos. O sol já está mais baixo. Vejo o azul do céu. Não há uma nuvem. O céu está limpo. Ouço o restolhar das pequenas ondas da piscina a bater nas margens. Ainda está calor. As folhas das árvores não se mexem.
Viro-me. Nado até ao muro. Ergo-me. Saio da água. Entro em casa molhado. Deixo um rasto de água no chão da cozinha. Abro o frigorífico. Agarro numa cerveja. Abro-a. Dou um grande gole. Vou até ao jardim com a garrafa na mão. Sento-me numa cadeira e olho a piscina vazia. O jardim deserto. O silêncio. Não, o silêncio não. Ouço as cigarras. O som das cigarras é a minha companhia.
Preciso de sair. Preciso de sair daqui. Preciso de ver gente. Preciso de conversar. Tocar em alguém. Preciso de um pouco de confusão.
Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. Sinto a garrafa a escorregar-me dos dedos, não a consigo agarrar e cai sobre a relva. Ouço a cerveja a sair da garrafa. Mas não me levanto. Continuo sentado na cadeira. A olhar as pequenas ondas na piscina vazia.

[2019/06/24]