Do que É que Estou à Espera?

Do que é que estou à espera?
Estou vestido. De banho tomado e roupa interior lavada. As calças bem vincadas e a camisa engomada. Os sapatos engraxados. Estreei uma gravata. Tenho os botões de punho do meu pai. O relógio Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que também era dele. O telemóvel no bolso das calças. A carteira também. A carteira dos documentos que também é a carteira onde levo o dinheiro. As moedas vão numa outra carteira, pequenina, de pele, com fecho, que também está no bolso das calças. Um maço de cigarros novo no bolso do casaco. O isqueiro é um Zippo e também vai no bolso das calças. Tenho de ter cuidado com esta mania de acender o isqueiro dentro do bolso das calças. Limpei os óculos de sol, que estão em cima da mesa da cozinha à minha espera, e os de ler que estão numa caixa de transporte no bolso do casaco. Com tantas coisas espalhadas pelos bolsos das calças e do casaco, já percebo a moda das malinhas para transportar tanta tralha. E ainda me faltam as chaves de casa, ainda penduradas na porta de saída e as chaves do carro que estão na mesa da cozinha ao lado dos óculos de sol.
E então, do que é que estou à espera?
Lá fora está sol. Há um bocado estava encoberto. Durante a noite choveu. Mais tarde há-de chover de novo. Há ameaça de ventos fortes mas, por agora, o seu está azul, o sol brilha e está calor. Estou arrependido de ter posto gel no cabelo. Não tarda começa a escorre-me pela testa abaixo. Vou ficar com a testa brilhante, gordurosa. Vou ser o ponto de luz para quem toda a gente vai olhar. Serei o alvo de todas as atenções e não será pela melhor das razões.
Tenho um dente a latejar. Tomo já um Clonix para arrepiar caminho. As mãos estão a dar-me comichão. Já sei o que lá vem. É melhor juntar-lhe um Zyrtec. E uma bombada de Ventilan que já sinto a pieira. É dos nervos. Os nervos despertam-me a bronquite. Quando estou nervoso, fico logo cheio de pieira e logo de seguida começa a falta de ar.
Devia sair de casa. Estou em cima da hora.
Suspiro.
Tiro o maço de cigarros novo do casaco e retiro-lhe o celofane. Bato o maço nas mãos. Retiro um bocado de prata e puxo um cigarro. Acendo o Zippo e dou-me lume. Tusso. Tusso umas poucas de vezes. Não é o primeiro cigarro do dia, mas tusso umas poucas de vezes. Depois acalmo.
Sento-me à mesa da cozinha a fumar o cigarro. Na cabeça, uma música Lá-lá-lá-lá-lá lá-lá-lá lá-lá-lá-lá-lá-lá…
Tenho vergonha de estar com esta música na cabeça. Ainda bem que ninguém ouve, que ninguém sabe.
Devia ir-me embora. Do que é que estou à espera?
Estou com calor. Desaperto o nó da gravata. Tiro o casaco e penduro-o nas costas da cadeira. Sinto os pés apertados. Descalço-me. Levanto-me e sirvo-me de um copo de vinho tinto. Bebo o copo de um gole. Volto a servir-me. Dispo as calças. Puxo a gravata. Tiro os botões de punho. Dispo a camisa. Tiro a camisola interior de alças os boxers e as meias. Estou nu. Estou nu com o Omega Constellation Chronometer Electronic F300 Hz que era do meu pai no pulso esquerdo e já não vou a lado nenhum. Não. Vou. Vou até ao alpendre. Acendo um novo cigarro no resto do primeiro, agarro no copo de vinho tinto e vou nu sentar-me no alpendre. Os gatos correm para o pé de mim. O cão também, mas mais devagar. Ao fundo, as montanhas estão encobertas. Chove lá em cima. Acho que vou ficar aqui por casa. Não quero ir a lado nenhum. Quero ficar sozinho. Sossegado. Quero ficar aqui, exactamente aqui, onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

Um Rio Furioso

Passa um rio furioso à minha porta. Vem com pressa e barulhento. Parece que está cá dentro de casa, ao meu lado, a olhar, comigo, para onde deve estar a televisão desligada. A luz foi-se há quase uma hora e ainda não voltou. O rio furioso está lá fora, passa lá fora, zangado com o mundo.
Tenho medo que comece a entrar por baixo das portas. Tenho medo que suba as paredes, parta os vidros e entre pelas janelas. Tenho medo de morrer afogado. Tenho medo de ser levado pelo turbilhão de águas revoltas que passam furiosas junto aqui a casa. Tenho medo de ir na enxurrada da tempestade.
Queria fumar um cigarro. Queria beber um copo de vinho. Queria acender uma vela (acho que ainda existem velas aqui por casa). Queria luz. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Penso que se me mexer dou cabo do frágil equilíbrio da casa. Penso que se me mexer, a água vai forçar a entrada e vai arrastar-me encosta abaixo.
Tenho os olhos abertos como se estivessem fechados.
Ainda continua a chover muito. Às vezes ainda ouço a trovoada. Sinto as bátegas a martelarem o telhado da casa.
Junto às mãos à frente do peito. Quero rezar. Quero rezar mas não consigo. Ainda sei rezar. Ainda me lembro das orações que aprendi em casa e no colégio. E aprender as orações foi como aprender a andar de bicicleta. Não me esqueço. Nunca me esqueço. Mas não consigo. Não consigo mais.
Fico assim, de mãos juntas em frente ao peito, em prece. De olhos abertos como se estivessem fechados, na escuridão da casa, a ouvir o rio a berrar lá fora, um monstro galopante a ameaçar-me e eu só consigo dizer Não entres! Não entres!

[escrito directamente no facebook em 2020/08/19]

Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

Perante a Impossibilidade

Estamos a meio de uma Pandemia. Prestes a entrar numa situação de Contingência, seja lá isso o que for. O normal já não é normal. As pessoas adaptam-se. As pessoas tentam sobreviver. Alguns não conseguem. Há sempre alguns que não conseguem. Não porque sejam piores, menos capazes, insuficientes. Não conseguem porque não conseguem.
A maior frustração de um homem é estar a tentar contar uma história (a história, a sua história, afinal, a sua razão) a alguém que tem os ouvidos fechados e, como resposta só lhe sai São as regras. E as regras são invioláveis. Mesmo quando mudam. Porque às vezes têm de mudar. Porque o mundo muda. Tudo muda. Até, fartaram-se de me zurzir aos ouvidos, já não existem empregos para a vida. Tudo muda. A máquina burocrática não. É posta a funcionar por alguém. Ninguém sabe quem. Mas quando começa a trabalhar já não pára até finalizar o que tem para finalizar. O coitado do novo Josef K. será enviado de balcão para balcão, de um departamento para outro, guichet atrás de guichet, a preencher formulários cujas perguntas não entende, a dar a mesma informação que já deu tantas vezes, todas as vezes, que já não as consegue enumerar porque não tem dedos e dentes suficientes para as contar, as mesmas informações que constam do seu processo, dos seus processos, porque ele é sempre o mesmo, com as mesmas informações de sempre, para lhe darem a mesma resposta em balcões diferentes, em departamentos diferentes, por gente diferente de postos e guichets diferentes Não é aqui, e não sei onde possa ser. Talvez indo…
Em Peniche há uma espécie de promontório, de rochas bem escarpadas que entra pelo mar. Assusta caminhar lá por cima. Às vezes há pequenos buracos que levam directamente ao mar. Alguns são pequenos, o pé dentro de uma sapatilha atravessa-os, como uma ponte, de lado a lado. Sentimos a fúria do mar lá dentro, lá debaixo, mas há outros que são grandes o suficiente para nos provocarem a queda e, mesmo que não nos levem ao mar, nos levam a outro lado donde talvez não se consiga sair. Quando se caminha por estas rochas pontiagudas, escarpadas, sente-se o medo da violência do mar. A minha mãe dizia-me sempre de todas as vezes que eu ia mergulhar Com o mar não se brinca. E ali percebe-se o que ela queria dizer. Há dias em que as ondas batem nessas rochas e explodem em todo o seu esplendor e fazem cair sobre quem se aventura por ali, uma forte chuvada de água salgada que nos pode fazer escorregar, tropeçar, fazer cair nas escarpas e levar até à fúria da maré.
Às vezes quando estou perante a impossibilidade de passar para além da porta, do segurança que protege a passagem através dessa porta, uma porta que devia ser nossa mas que se porta cada vez mais como a porta de ninguém, sinto que estou a caminhar sobre as escarpas dessa espécie de promontório em Peniche, e que o rebentamento de uma onda caída sobre mim me vai fazer tombar num mar violento de onde não vou conseguir sair.
É onde eu estou agora. É como eu me sinto agora. E tomba-me em cima um desespero que me faz gritar e ouço ao lado o cochichar de pessoas que ainda não se transformaram em K. mas hão-de transformar-se, porque este momento K. calha a todos, a dizer Mais um maluco. Eles acabam todos aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/10]

O Revólver Debaixo da Almofada

Durante três anos dormia com uma garrafa de vinho na mesa-de-cabeceira, um cigarro no cinzeiro pronto a acender, o isqueiro estava mesmo logo ao lado, perto do despertador, e o revólver debaixo da almofada. Durante três anos.
Ela só soube do revólver ao fim dos três anos. E foi aí que me disse Ou o revólver ou eu. E eu precisei de um fim-de-semana inteiro para escolher entre um e outro. E no fim, acho que escolhi mal.
Guardei o revólver no pequeno cofre. Escolhi-a a ela. Passei a acordar de hora-a-hora todas as noites. Acordava transpirado, cheio de suores frios. Com medo. Tinha de me levantar e ir fumar um cigarro para a varanda e esperar acalmar. Sentia falta da segurança que o revólver me dava, ali assim, junto à minha cabeça, debaixo da almofada, onde eu levava a mão para ver se ele ainda lá estava. Bebia um gole de vinho, pelo gargalo, e deitava-me. Depois ouvia-a sempre resmungar Vai lavar os dentes!
Ao fim de um mês ela acabou por se ir embora.
O revólver voltou para debaixo da almofada.
Não sei como é que tudo começou. Mas começou com medo. Foi um medo que me começou a consumir cá por dentro. Foi aí que comprei o revólver. Enfiá-lo debaixo da almofada como companhia foi um pormenor.
Depois dela se ir embora, passei a dormir com o revólver na mão debaixo da almofada. Às vezes acordava a meio da noite. Acordava com algum barulho. Ficava ali parado, a orelha virada para cima atenta a qualquer alteração da ordem lá de casa. Às vezes acabava por me levantar e fumava um cigarro ali mesmo na cama, em silêncio. Largava o revólver e acendia o cigarro. Bebia um gole de vinho. E voltava a deitar-me. Às vezes ouvia-a falar Vai lavar os dentes! E então, tinha mesmo de me levantar e ir lavar os dentes ou então não conseguia deixar de pensar nela e na ordem que ela me dava e eu não cumpria. Mas então, tinha de o fazer.
Um dia fui acordado com uma chuva violenta a bater na janela do quarto. Talvez já tivesse bebido um pouco mais. Talvez tivesse fumado algo mais que um cigarro. Sei que estava a dormir profundamente, com o revólver na mão. Acordei sobressaltado com o barulho da chuva a bater, violentamente, no vidro da janela. Levantei-me num salto, puxei o braço que estava debaixo da cabeça, o revólver veio preso à mão, o dedo mexeu-se, carregou no gatilho e o revólver disparou. Ouvi o som metálico, estridente, mesmo junto a mim. Fiquei surdo por momentos. Fiquei cego. Não bem cego. A vista enturvou colorida. Senti uma pasta na perna, a percorrer-me a perna, percebi o lençol molhado.
Acendi a luz da mesa-de-cabeceira. Tinha dado um tiro na minha perna. Na minha própria perna. E não parava de deitar sangue. Às golfadas.
Ainda consegui telefonar para o cento e doze antes de desmaiar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/02]

É Verão, Caralho!

Acordo com as portadas a baterem nas janelas. Viro-me para o outro lado da cama e tento voltar a adormecer. Mas penso que as portadas estão a bater com tanta força nas janelas que as podem quebrar. Mando o edredão para o fundo da cama e levanto-me maldisposto. Faço o corredor a refilar e saio pela porta da cozinha. Na rua está vento, um vento forte, e cai uma pequena chuva que mais parece cacimbo ou a maresia das manhãs de São Pedro de Moel. Estou longe de São Pedro de Moel. Estou nu e descalço. Volto atrás. Continuo a refilar. Visto uma camisola. Uns boxers. Calço uns chinelos. Volto à rua. Já há luz, mas ainda é de madrugada. Está um pouco de nevoeiro. Não vejo as montanhas. Não vejo grande coisa para além do meu próprio quintal. Dou a volta à casa e fecho as portadas das janelas. Depois penso que devia abri-las. Prendê-las, mas deixar as janelas abertas. Já há luz do dia, mesmo que de dia cinzento. Não tarda é manhã. Volto a dar a volta à casa a abrir as portadas das janelas e a prendê-las bem às paredes.
Entro em casa e descubro-me molhado.
Dispo-me e entro no duche. Tomo um banho rápido. Seco-me. Regresso à cama. Dou voltas. E voltas. E mais voltas. Já não consigo voltar a dormir. Estou desperto.
Levanto-me da cama. Estou outra vez nu e descalço, mas estou em casa. Volto à cozinha. Ligo a máquina do café.
Sento-me à mesa da cozinha à espera do café. Acendo um cigarro. Tenho à minha frente A Noite em que Gwen Stacy Morreu, de Gerry Conway e Gil Kane, a morte do primeiro amor de Peter Parker, o Homem-Aranha. Pego na novela gráfica mas não tenho coragem para ler. Não hoje. Não agora. Não quero mais angústia. Já ando angustiado que chegue.
A máquina do café faz barulho. Levanto-me para ir tirar um café. Olho para a rua e está a chover com mais intensidade. Penso É Verão, caralho! e suspiro.
Apago o cigarro no cinzeiro. Desligo a máquina do café sem ter tirado nenhum café. Agarro na novela gráfica do Homem-Aranha. Regresso ao quarto. À cama. Deito-me e tapo-me com o edredão. Deito-me agarrado à novela gráfica. Tenho um olho aberto e vejo a janela por uma nesga do edredão. Agora chove copiosamente. As portadas estão abertas mas presas. Não batem. Não fazem barulho. O único barulho agora, é da chuva a bater nos vidros das janelas de casa.
Sinto-me embalar ao som da chuva a cair. Sinto-me embalar no conforto da cama ao ouvir e ver a chuva a cair lá fora.
Fecho o olho aberto e viro-me na cama. Penso na Gwen. Acho que estou a ser puxado para dentro do sono. Não discuto. Não forço. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/27]

A Memória Vem e Logo se Desvanece

É estranho as pequenas peças acessórias a que nos prendemos. De tanta vida que vivemos juntos durante aqueles anos, o momento que recordo com mais claridade e, afinal, com mais saudade, é um agarrar na mão dela e puxá-la comigo enquanto atravessávamos a estrada fora da passadeira e eu a via e sentia aos pulinhos com as suas sandálias de meio-salto que ela não dominava assim tão bem por ter-se licenciado a caminhar com botas, daquelas de meio-cano e rasas.
Estamos no passeio e eu decido que temos de passar naquele momento para não perdermos o que não poderíamos perder de maneira nenhuma, e eu agarro-lhe na mão, com a minha, e puxo-a e vejo-a vir atrás de mim, um pouco assustada e ao mesmo tempo empolgada, aos pulinhos nos meios-saltos, a atravessar a estrada e, ao chegar ao outro lado, encosta-se a mim, agarra-me, envolve-me com os dois braço em volta do meu pescoço, eu sinto o seu coração a bater, galopante, a cara rosada da excitação, a respiração pesada e a dizer Podíamos ter caído!, enquanto encosta os seus lábios nos meus, porque ainda não tinha coragem suficiente, nem nunca chegaria a ter, para enfiar a língua na minha boca e tocar na minha língua a mostrar-me como o desejo a consumia, mas os lábios húmidos dela encostados aos meus, secos, num beijo suave, assim de passagem, têm o mesmo efeito sedutor e dou comigo, tantos anos volvidos, a pensar precisamente nisso, nesse momento primordial, tão simples e aparentemente tão banal que afinal ganha alforria para aparecer como a súmula de todos aqueles anos. Nem sei porque passámos a estrada a correr. E importa, isso?
É o que recordo mais de todos aqueles anos em que vivemos juntos.
Muitas outras coisas aconteceram, claro. Muitas delas muito importantes, para o bem e para o mal. Mas nada me marcou tanto como aquele quase-nada que foi quase-tudo.
Acendo um cigarro. Estou debaixo do toldo de uma loja. Uma loja de comida de animais. O cheiro daquela comida enjoa-me. Está a chover. Estou molhado. Estou molhado mas consigo manter o cigarro seco e praticável. O Verão é chão que já deu uvas e a chuva rompe por Agosto.
Acabei de passar a estrada aos pulinhos para evitar as poças de água no asfalto. Não fugi aos pingos, mas tentei. Foram os pulinhos que me levaram no tempo. Foram os pulinhos que me trouxeram a memória.
Fico aqui debaixo do toldo da loja a fumar o cigarro. Vejo a chuva a cair. Aos poucos, a memória desvanece-se. Não é o que sucede com todas as memórias?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/20]

A Última Vez que Andei de Skate

Começava logo de manhãzinha, no meio da rua, a chamá-lo. Aos berros. Para se ouvir bem lá em cima, no terceiro andar onde ele vivia com os pais. Mas não o chamava pelo nome que os pais lhe tinham dado à nascença. Chamava-o pelo nome de rua. Era assim que ele era conhecido, era assim que o conhecíamos, e evitávamos que aos primeiros berros cá de baixo, do meio da estrada, os pais fossem logo à janela para ver quem eram os amigos malcomportados do filho. Eu não era malcomportado. E os pais dele conheciam-me. Até eram amigos dos meus pais. Nós chegámos a ir de férias um com o outro quando éramos mais miúdos. Agora já não íamos de férias juntos com os pais de um ou de outro. Agora já éramos demasiado crescidos e, bem vistas as coisas, demasiado insuportáveis. Mas nas férias, eu ia ali ao prédio dele chamá-lo, aos berros, e depois, pouco tempo depois, lá aparecia ele, a cruzar a porta de vidro de entrada do prédio, com o skate na mão e íamos por ali fora, a voar pelo asfalto, às vezes a descer até à cidade. Mas voltávamos sempre à hora do almoço. Íamos sempre almoçar a casa. Cada um almoçava na sua. Durante a semana não podíamos almoçar em casa dos outros porque os pais não tinham tempo para nos aturar. Só ao fim-de-semana. E não todos. E então, quando estávamos na cidade, regressávamos agarrados aos pára-choques dos autocarros urbanos e subíamos até casa. Às vezes a polícia passava e tínhamos de andar a fugir. Era sempre uma chatice porque corríamos o risco de chegar atrasados ao almoço e isso tinha sempre consequências. O confisco do skate. E da bicicleta. Às vezes uma multa pecuniária que se resolvia numa diminuição da mesada.
A última vez que descemos à cidade foi num dia assim como o de hoje. Um dia de Agosto. Quase meio do mês. Eu e ele estávamos a gastar os últimos cartuchos. Depois tínhamos quinze dias de martírio com os nossos pais no Algarve. Cada um no seu lado do Algarve. Ele em Lagos. Eu em Tavira. Ele numa casa que o pai tinha comprado há muitos anos em time-sharing. Eu a acampar na ilha de Tavira. Os meus pais eram assim um pouco freaks e gostavam da natureza. Eu não gostava muito. O chão fazia doer-me as costas, mas não tinha outro remédio. O que me causava maior confusão era ir à casa-de-banho onde ia toda a gente e onde havia sempre muita gente e onde se ouvia os barulhos de toda a gente. Um horror.
Era então um dia assim, um dia chocho de Agosto. Ameaçava chuva e acho que até acabou por chuviscar um pouco.
Nesse dia fui chamá-lo como chamava normalmente, cá de baixo da rua, chamando-o pelo nome de rua, e pouco depois ele apareceu, cruzou a porta de vidro do prédio com o skate debaixo do braço. Fomos andar pelas ruas do bairro, como fazíamos normalmente. Depois ele disse Bute até à cidade? E eu respondi Yeah! e fomos até à cidade, a descer em alta velocidade a estrada de asfalto que ligava o bairro ao centro da cidade. Depois passeámos pela zona histórica. Roubámos umas laranjas numa mercearia e fomos comê-las para a praça. Andámos de skate na zona nas praças de pedra lisa. Competimos com outros miúdos de outros bairros da cidade. Íamos andando ao estalo, mas não chegámos a tanto. À hora do almoço decidimos ir embora. Corremos até à paragem do autocarro e esperámos. Quando o autocarro chegou, engoliu as pessoas e partiu. Nós partimos com ele.
A meio da viagem, um carro da polícia apareceu por trás do autocarro, por trás de nós, e ligou a sirene. Eu, que estava junto ao passeio, larguei o pára-choques e fugi logo pelas ruas adjacentes. Ele tentou fazer o mesmo mas, estava no meio da estrada, tentou correr para o passeio do outro lado e, ao cruzar a estrada, com o skate debaixo do braço, foi abalroado por uma camioneta de distribuição de cigarros. Eu ainda me virei para trás e vi-o voar. Mas não parei. Não parei de correr. Não parei de correr até chegar a casa, ir à casa-de-banho lavar as mãos e a cara e olhar para mim no espelho da casa-de-banho e fazer-me acalmar, acalmar o meu coração que parecia querer saltar fora do corpo. Depois fui sentar-me à mesa da cozinha e almocei com os meus pais e a minha irmã. Acho que foi aí que vi que estava a chover. Mas não tenho a certeza.
Nessa tarde a minha mãe veio dizer-me que ele tinha morrido. Tinha sido atropelado e tinha morrido ainda na rua, antes de chegar a ambulância. Eu não disse a ninguém que estava com ele e que o vi ser atropelado. Dois dias depois fui para o Algarve com os meus pais. No regresso, arrumei o skate no meio das tralhas da garagem. Nunca mais andei de skate. Nesse ano, depois do começo das aulas, conheci a minha primeira namorada. Às vezes ainda penso nele. Mas já não me recordo do som da sua voz. Já não me recordo da sua cara. Já não recordo do seu nome de rua.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/16]

James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

A Árvore Grande

A árvore era grande. Grande não, enorme. A árvore era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E estava ali desde sempre. Durante toda a minha vida, e durante toda a minha vida a árvore esteve por lá, eu nunca tinha reparado nela. Foi preciso eu sentir-me cansado e ter-me sentado no banco de jardim para descansar e fumar um cigarro, para olhar para a árvore pela primeira vez na vida e descobrir que a árvore era grande. Grande não, enorme.
O facto de ter descoberto a árvore ao fim de mais de cinquenta anos deixou-me apreensivo sobre a forma como olhava para a cidade. Eu realmente via a cidade?
Enquanto estive ali sentado a fumar o cigarro e a olhar a árvore grande, reparei que as pessoas continuavam a ir e a vir, de um lado e de outro, sem reparar na árvore. Iam depressa. Algumas mesmo em passo de corrida. Outras só a andar depressa. Aos pares, em trio, solitárias. As solitárias iam de auscultadores nos ouvidos. Os pares e os trios iam na conversa. Conversavam umas com as outras. Ninguém olhava para a árvore. Alguém conhecia aquela árvore, ali? Alguém sabia da existência de uma árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade?
Apaguei o cigarro no chão. Olhei em volta e não vi nenhum cinzeiro. Nem nenhum caixote do lixo. Deixei a beata esmagada no chão.
Acendi outro cigarro.
Aquela árvore fazia-me lembrar um dos romances da minha adolescência. Aquela árvore remeteu-me para A um Deus Desconhecido de John Steinbeck.
Imaginei-me a cortar as raízes daquela árvore grande. O que é que aconteceria com a cidade? Com aquela cidade que também era minha? Continuaria assim tão brilhante e cheia de gente de sucesso?
Imaginei a chegada do Inverno em pleno Agosto. O tempo cinzento. As trovoadas. Os relâmpagos a riscarem o céu. As chuvas torrenciais. O frio. O granizo. Os tremores-de-terra. As culturas mortas. As fábricas sem matérias-primas. A zona histórica da cidade alagada. Os esgotos entupidos. O rio a transbordar. As pessoas a fugirem. As que pudessem. As outras a ficarem. À espera dos bombeiros que não apareciam. Da polícia que tentava, em vão, evitar os assaltos às lojas. E, então, as primeiras casas a desabarem. Os bairros mal construídos, na periferia da cidade, a desabarem. O tsunami que entraria pelas praias do litoral e galgaria terra pelo leito de rio até à cidade. Salvar-se-iam aquelas que subiriam à Nossa Senhora da Encarnação.
Deitei fora a beata do cigarro. Voltei a esmagá-la com o pé. Não havia cinzeiro nem caixote do lixo e deixei-a no chão, ao lado da outra.
Olhei para a árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E disse, baixinho, Um dia escrevo-te uma carta de amor.
Depois levantei-me do banco e voltei à minha caminhada ao longo das margens do rio. Como os outros. A andar depressa e sem olhar à minha volta. Sem ver a cidade. Mas a pensar que a conhecia. E a pensar que, no fim, no fim daquela caminhada, era tipo para ir comer um hambúrguer aos arcos dourados.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/06]