No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

Aqui Sou o que Quero

Sento-me frente ao computador. Abro as Redes Sociais. Todas. Todas as que consigo alimentar. Tornei-me virtual. Por opção.
Fugi. Larguei os amigos. Fechei a porta à rua.
Cansei-me.
Cansei-me de andar cansado atrás de quem corre à minha frente. Cansei-me de procurar justificações para acções que não eram minhas. Cansei-me de esperar que a verdade fosse uma constante. E verificar, a cada vez, que a verdade só existe quando vale a pena. Quando tem valor. Quando é quantificável.
Aqui, aqui mais especificamente no Facebook, já sei o que espero. E não espero nada de importante. Não importa que um tipo no Montijo coloque uma fotografia dele em Bali, feito com chroma. Nem que uma tipa de Freixo de Espada à Cinta aumente o tamanho das mamas no Photoshop, Não quero saber se choram as mortes de gente que não conhecem. Se se congratulam com as vitórias alheias como se fossem suas. Nem quero saber se tenho muitos ou poucos Likes nos posts que vou pondo.
A minha vitória diária está em continuar a existir aqui dentro enquanto vou apagando a minha existência lá fora.
Quem ainda se lembra de mim?
A minha vida digital é o que eu quero que ela seja, da forma que quiser, como quiser e durante o tempo que quiser. Não tenho de me preocupar em agradar ninguém. Nem espero nada de ninguém.
Aqui sou o que quero.
Mesmo que não me leve a sério.
Mesmo que seja uma mentira. Uma não-verdade.
Mesmo que construa coisas a sério. Ou ficcionadas.
Mesmo que consiga criar alguma coisa que valha a pena, mesmo que não saiba bem o quê, e do que é que estou a falar, perdido no meio de todo este folclore em que me tornei.
Estou a beber um gin.
Não. Estou a beber um café.
Não. Estou a beber um copo de vinho tinto. Um Mouchão.
Fumo um cigarro.
Estou de calções.
Não. Estou nu. De chinelos. E ainda não tomei banho hoje.
Abro outra janela do Firefox e ligo ao PerfectGirls.
E masturbo-me. Sentado numa cadeira à mesa da sala, frente ao computador, masturbo-me para o chão.
Não. Abro o Spotify e deixo-me invadir pelas notas de … and Nothing Hurt dos Spiritualized e escrevo no Facebook É tão bom, esta merda! e tenho dez Likes, que também não dá para mais e isto não é música de massas.
Não. Vou ao YouTube e vejo e ouço O Som de Cristal do Marante. Faço uma exportação para o meu Feed. Tenho trinta Likes quase instantaneamente porque é bom gostar destas coisas populares.
Na verdade estou em silêncio. Não me apetece ouvir música. Não me apetece ouvir nada. Quero furar os tímpanos. Ficar surdo.
Estou cansado.
Tomo uns comprimidos com o Mouchão.
Não. Corto as veias do pulso com uma navalha de barba, prenda da minha mãe.
Não. Enfio a cabeça no forno e ligo-o. Esqueço-me que já não é a gás, é eléctrico. Não morro, mas queimo a cara.
Não. É muito estúpido.
Mando-me da janela para baixo. Do alto do sétimo andar. E só espero que a queda faça o seu trabalho. Ficar entrevado é que não.
Mas estou aqui.
Ainda estou aqui.
Morri, mas ainda ando aqui pelas Redes Sociais.
Gosto de ser digital.
Já não tenho de alimentar os amigos.
Basta-me alimentar o meu Mural.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/01]