Um Tipo Peculiar num Dia de Chuva

Chove.
Corro para a rua. Aproveito para tomar banho. Vou nu com umas havaianas nos pés. Um pedaço de sabão azul nas mãos. Mas é difícil de tirar o sabão azul do corpo e ainda mais do cabelo. A chuva não tem grande pressão.
Esfrego-me.
Entro em casa. Levo a chuva comigo e vou deixando-a pela cozinha, pelo corredor, pelo quarto. Seco-me e deixo a casa tratar de deixar infiltrar para a cave a chuva que entrou comigo.
Visto umas cuecas.
Preciso de um cigarro. Procuro em todo o lado e não encontro.
Saio para a rua. Desço à estrada. Caminho ao longo da estrada à procura de alguém que me arranje um cigarro.
Um carro. Passa ao lado e acelera.
Outro. Ponho-me à frente do carro. No meio da estrada. Forço-o a parar. Ele pára. Peço um cigarro, assim Olhe, se faz favor, não me arranja um cigarro?, enquanto levo dois dedos à boca num gesto de fumar. O tipo olha-me. Dá-me um maço para as mãos e diz Vai-te vestir, pá. E percebo que estou em cuecas e de havaianas. Agradeço o maço de cigarros. O carro arranca. Aceno um adeus. Levo um cigarro à boca e percebo que não tenho lume.
Ouço uma buzina atrás de mim. Viro-me. É uma camioneta. Uma camioneta de carreira. Afasto-me. A camioneta avança até ao pé de mim. Abre-se a porta. Ouço o sistema hidráulico da porta a abrir. O motorista pergunta se preciso de alguma coisa. Mostro o cigarro apagado na boca. Ele leva a mão ao bolso das calças. Agarra num isqueiro Bic vermelho e manda-mo. Sorri para mim. Agradeço com outro sorriso. Fecham-se as portas da camioneta. Ela arranca. Fico aqui a acenar um adeus e vejo, dentro da camioneta, as caras que passam por mim a rir. Vão felizes, os petizes.
Estou parado. Sozinho. Na estrada. Não passam carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem pessoas a pé. Há silêncio. Um pouco de vento. Estou com frio.
O que é que estou a fazer aqui?, pergunto-me em silêncio enquanto fumo o cigarro.
Volto a perceber que estou em cuecas e de havaianas no meio da estrada. Olho em volta e não há ninguém. Tenho um maço de cigarros e um isqueiro na mão. Subo a casa.
Começa a chover outra vez.
Corro. Não me quero molhar.
Entro em casa.
Tenho fome. Apetece-me panquecas. Descubro o cigarro aceso na mão. Largo-o no chão. Piso-o com as havaianas. O que é que eu preciso? Talvez leite. Farinha. Ovos. Uma frigideira. Acho que tenho tudo.
Largo o maço de cigarros e o isqueiro na mesa da cozinha e páro. O que é que eu ia fazer?
Estou com fome. E frio. Vou vestir-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/23]

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Cabra-Cega

Desço as escadas. Desço as escadas às escuras. Arrisco partir a cana do nariz. A cabeça. Uma perna. Mas continuo.
Desço as escadas às escuras. Confio que conheço as escadas do prédio onde vivo. Mas espero, secretamente, cair.
Desço as escadas às escuras e desejo cair. Mas não o faço. Conheço demasiado bem estas escadas. Podia descer de olhos tapados. É mais ou menos como vou a descer agora. São escadas interiores. Não há sensores de movimento para as luzes. É preciso tocar em botões que não estão iluminados. É preciso adivinhar onde é que eles estão. Eu sei onde é que estão. Mas não lhes toco. Não acendo a luz. Vou às escuras.
Desço as escadas desde lá de cima onde vivo. Já nem sei em que andar é. Sei que é perto das estrelas porque há dias em que quase as toco. Fica lá em cima. Fica muito lá em cima. Quando olho as pessoas da minha janela, parecem formigas, não pessoas. As pessoas não são pessoas. São formigas. Umas-atrás-das-outras. Encarreiradas. Encarreiradas na vida. Nos amores. Na carreira profissional. O que é que fazes? Em que é que trabalhas? Como é que ganhas dinheiro? Não me queres escrever uma história? Não me queres fazer um filme? Não me queres fazer uma música? Não tenho é dinheiro para te pagar! Só há dinheiro para mim! Para te perguntar! Não! Mas isso nem é trabalho! Estás a fazer o que gostas!
Desequilibro-me. Mas não caio. Tropeço nas minhas pequenas loucuras existenciais. Mas não caio. Aguento-me. Digo não. Apoio-me à parede e continuo para baixo. Desço as escadas. Às escuras. A provocar-me. A mim e a Deus. Queres que eu caia? Passa-me uma rasteira! Mais uma! Só mais uma! Queres ver?
Nada acontece. Vejo os primeiros clarões da luz da rua a subir as escadas ao meu encontro. Já vejo onde coloco os pés. Já vejo os degraus. Era mau cair agora. Irónico, talvez.
Rés-do-chão. Aproximo-me da porta da rua. Agarro no manipulo. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. E abro a porta. Saio.
Está a chover. A chover aquela chuva dos tolos. Pingos demasiado leves e pequenos para caírem a direito. Vêm a voar. São borrifos. Olho para cima. Para o céu. Sinto-os tombar sobre a minha cara. Não me molham. Refrescam-me.
Acendo um cigarro. Inspiro fundo uma baforada. Inspiro fundo duas baforadas. Coloco as mãos nos bolsos das calças. O cigarro no canto da boca. Fecho os olhos. Caminho ao longo da passeio. Ouço os carros a correrem ao meu lado. Vão com pressa. Vão sempre com muita pressa. Eu conheço o caminho até à livraria. Vou lá todos os dias comprar um livro de poemas. Um livro de poemas de algum poeta desconhecido que escreve como vive. Que escarra frases. Que cospe vida. Com a fralda na mão. Que corta, à faca, os laços da paixão. E sigo pela calçada fora. De olhos fechados. À espera de não tropeçar. De não cair. De não ir para a estrada. De não ser atropelado. E, ao mesmo tempo, com essa secreta esperança.
Mas hoje não quero poetas. Hoje não quero poemas. Hoje quero uma mulher. E sinto o pé direito sair do passeio para a estrada. Ouço o som do carro. Um chiar. Uma buzina. Um orgasmo. Já é vinte e cinco de Abril?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/04]

O Dia em que o Pingo Doce Acabou com a Passagem de Modelos

A velha saía todos os dias de casa. De manhã. Pela fresquinha. Para dar as suas voltas. Passear. Arejar um pouco. Nunca se afastava muito das redondezas. Tinha medo de lhe faltarem as forças. Tinha medo das pernas fraquejarem.
O mais longe que arriscava era ir até à Praça. O centro da cidade. Gostava de se sentar lá, numa das esplanadas, a olhar os miúdos e miúdas que tomaram a Praça de assalto, e lembrar o tempo em que ela também era assim. Também ela teve o cabelo comprido. Saias rodadas. Os peitos direitos. O rabo rijo. Também ela corria de um lado para o outro. E corava. E passeava de mãos dadas com os rapazes. Bom, isso não, que os tempos eram outros. As meninas não andavam por aí de mãos dadas com os rapazes. Mas podiam ter andado que daí não vinha mal nenhum ao mundo, pensava com os seus botões. Quando ia até à Praça tinha de parar várias vezes para recuperar forças e a respiração. A sorte da velha é que ainda havia alguns bancos públicos plantados ao longo do trajecto. Fazia o seu tabuleiro de xadrez. De casa em casa. Até à Praça. Bebia um carioca. Às vezes um chá. Ou um Compal. Observava a louca vida de quem não se arrasta com uma bengala. E ficava feliz. Ficava feliz por eles. E por ela. Por ainda poder ir até ali. Por não ter de ficar fechada em casa. Por não ter de ficar fechada numa casa cheia de gente como ela. De não ter de ficar presa a uma cama. Dava muitas graças por isso. Não corria. Mas ainda conseguia andar. Devagar. Devagar mas ainda chegava ao seu destino.
Ia à Praça só de vez em quando.
Nos outros dias saía de casa e andava ali à volta. Ia aos correios. À farmácia. Ao supermercado. À loja dos chineses – gostava de ver toda aquela confusão de bric-a-brac. Ao quiosque dos jornais. Fazia o Euromilhões. Às vezes comprava uma raspadinha. Dizia que tinha tido muita sorte no amor. E agora o jogo não queria nada com ela. Nunca ganhou nenhum prémio de jeito. Às vezes ganhava um euro ou dois nas raspadinhas. Dava para se ir mantendo no jogo. Depois ia a um café. A outro. Conhecia as empregadas. Quando estava dois ou três dias sem aparecer, perguntavam-lhe logo se tinha estado doente. Ela queixava-se logo do tempo. Do frio. Das dores nas costas. Da dificuldade em calçar as botas. Desistia de sair. Fica para amanhã, pensava.
Mas onde ela ia mais vezes, de manhã e à tarde, e onde gostava mais de ir, era ao Pingo Doce ver as Passagens de Modelos, como ele lhe chamava. Ia ao Pingo Doce, que à entrada tinha uma pequena pastelaria, com umas cadeiras de plástico, e ela sentava-se lá, ela e os outros velhos, a beberem um café, um garoto, um chá, comiam um folhado misto, um Pastel de Nata, um Croissant e conversavam, conversavam e olhavam. Muito gostavam eles de olhar quem entrava e saía do supermercado. Havia sempre muita gente nova por ali. Gente que descia das escolas para comprar um almoço mais leve, ou um pedaço de frango assado, uma fruta, chocolates e latas de Coca-Cola. O que aquela juventude consumia de chocolates e latas de Coca-Cola, dizia. Diziam. Uns aos outros. E depois lembravam o passado. No tempo deles não era assim. Infelizmente. Que também gostariam de ter bebido Coca-Cola. E comido um chocolate. Daqueles com coisas lá dentro. Passas. Avelãs. Nougat.
Havia sempre gente conhecida no Pingo Doce. Estavam lá sentados à espera uns dos outros. Ou passavam. Às vezes por acaso. Viam-se amigos que já se julgavam mortos. Ou a viverem em lares. Mas não. Andavam por ali, também. Como eles. E era mais um para o grupo. Contavam histórias. Riam. Viam quem passava. Faziam as compras para o almoço. Uma couve portuguesa. Umas tranches de Salmão. Umas cavalas. Tomates. Uma melancia. A quantidade de melancia que aqueles velhos consumiam no Verão. Os empregados cortavam-nas às metades e assim não as deixavam estragar em casa. Meia melancia para cada um deles era uma delícia que escorregava garganta abaixo.
Um dia o Pingo Doce fechou. Para obras. É verdade que já precisava. Era o único supermercado ali, naquela zona baixa da cidade. Durou uma semana. E durante uma semana, a velha e os velhos, esperaram. Esperaram para se voltarem a encontrar. Mas esperaram em vão.
O Pingo Doce não é a Santa Casa da Misericórdia e, vai daí, as obras alteraram profundamente a estrutura do espaço e, por arrasto, a vida daqueles velhos.
Os lineares deixaram de ser cortados a meio e, agora, são corredores enormes que os velho têm dificuldade em percorrer até ao fundo. Mudaram o local de alguns dos produtos. E é vê-los, perdidos, à procura, nem sabem bem do quê, mas que costumava estar ali. Ali naquela prateleira. E agora perdi-lhe o rasto. Já nem sei o que é que queria, dizia a velha.
Mas o pior, o pior foi que retiraram a pastelaria da entrada. Levaram a pastelaria para o interior do supermercado. Retiraram as cadeiras de plástico. E as mesas. Agora o Pingo Doce é um supermercado moderno e tem mesas redondas altas e sem bancos, para os jovens encostarem os cotovelos enquanto puxam os cabelos para trás. E os velhos? Os velhos não conseguem estar em pé. Os velhos estão cansados e precisam de descansar quando vão às compras ao supermercado. E chove. E faz calor. E precisam de esperar. Sentados. E dar dois dedos de conversa. E ver os miúdos. E as miúdas. Os jovens que são o que eles já foram.
Os velhos perderam o seu pouso. O supermercado ignorou uma das faixas principais dos seus clientes. Agora os velhos distribuem-se pelos vários cafés da zona. Alguns até têm grandes montras por onde podem olhar para a rua. Mas não é a mesma coisa. Agora já não há Passagem de Modelos. Agora já não estão todos juntos na galhofa. Agora já não encontram tantos amigos no jogo do acaso.
A velha continua a sair de casa todos os dias. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/22]

Já Não Tenho Dezoito Anos

Já não tenho dezoito anos. Há muito tempo que cruzei essa fronteira. Já não sou adolescente. Nem jovem. Já nem quase um homem. Sou velho. Sou um velho.
Já não tenho dezoito anos. Mas esqueço. Esqueço que não os tenho. Continuo a ver-me como era. Sinto-me projectado no futuro com as graças do passado. Os anos passam por mim, mas eu continuo eu.
Tenho dezoito anos. Estou já perto do fim da minha vida e tenho dezoito anos. Continuo a gostar de gostar de coisas como quando tinha, efectivamente, dezoito anos. E as miúdas? Ah, as miúdas!…
Mas depois, a dor nas costas. O músculo da perna que prende. A perna que já não dobra como devia. Os dentes a cair. A partirem-se em pedaços pequeninos que eu engulo sem querer. Os cabelos brancos. A barba branca. A pila murcha. Os músculos puxados para baixo, obedientes à lei da gravidade. A barriga cada vez maior e mais flácida. A vista turva que obriga a óculos. O repetir, cada vez mais, O quê? O que disseste? A medicação. Os comprimidos. As visitas ao centro de saúde. Ao hospital. Vou quase tantas vezes ao médico quanto ao museu. Os cigarros que me proíbem. O vinho que me retiram. E todas as outras proibições. Não comer fritos. Não comer salgados. Não comer pão. Não comer queijo. Não comer carnes vermelhas. Fruta. Muitos legumes. Peixe. Evitar o café. Cerveja nem pensar.
É agora que percebo que já não tenho dezoito anos.
É agora que percebo que a morte espreita. Já não é um mau sonho de um azar ou de um futuro distante. A morte agora é uma realidade ao virar a esquina. À minha espera. À espera de me ceifar.
Ouve um tempo em que me ofereci. Ela rejeitou-me. Procura-me agora quando já não tenho nada para lhe dar. Agora que lhe quero fugir.
A vida troca-nos as voltas. A morte também. Quem ganha?
Estou dentro do carro. Está a chover. Não vejo nada lá para fora. Os vidros estão tapados pelas gotas da chuva que continua a cair. Os vidros estão embaciados da minha respiração. Ouço um zumbido.
Estou nervoso.
Já não tenho dezoito anos.
A minha Carta de Condução caducou. O agente da Brigada de Trânsito viu logo que a data tinha expirado. Mas vejo bem. Com óculos, mas vejo bem. E estou lúcido. Viro-me para o lado e pergunto ao meu pai Não estou lúcido? e ele acena que sim. Concorda comigo, o meu pai. O meu pai já morreu há… Há quantos anos é que ele se foi? Acho que eu ainda não tinha dezoito anos. E agora já não tenho. Tenho saudades dele. Do meu pai. E gosto quando ele me visita. Olha, já foi embora outra vez.
O agente da Brigada de Trânsito vem ali. Abre a porta do carro. Estende-me a mão para sair. Eu agarro-a e saio do carro. Sinto a chuva a cair-me em cima. Já não tenho cabelo. A chuva cai-me no crânio. Na careca. Ainda me constipo.
Passo ao lado de uma rapariga que está caída no chão. Está tapada com um pano. Mas eu sei que é uma rapariga. Eu vi quando lhe bati com o carro. Era bonita. Muito bonita. Pena que eu já não tenha dezoito anos.
O agente da Brigada de Trânsito abre-me a porta de trás do carro da polícia e faz-me entrar. Eu vejo o braço da rapariga saído do pano. É um braço branco, liso, bonito. Entro no carro da polícia. Tenho saudades do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/21]

Led Zeppelin

Era Verão. Eram as férias de Verão.
Era uma guitarra acústica nas mãos de um gajo qualquer. Era o Stairway to Heaven nos ouvidos das miúdas. Eram as miúdas enroladas, na areia da praia, à noite, nas mãos dos gajos que tocavam, mal e porcamente, aquelas notas.
Era a praia à noite. Talvez em São Pedro de Moel. Mas também podia ser na Nazaré. Ou no Pedrogão. Era a praia à noite. O barulho das terríveis ondas atlânticas a fustigar a praia. Não via o mar. Mas via a fogueira a arder na areia da praia. As meninas de longos cabelos aloirados pelo sol. Os meninos loiros de Wax. As camisolas coloridas da Benetton penduradas pelas costas, atadas num frágil nó ao pescoço. E um cabeludo. Um cabeludo de caracóis e guitarra na mão fascinava as miúdas com uma música xaroposa. Daquelas para o coração. Daquelas de paixão. Daquelas capazes de abrir as portas do paraíso a qualquer imbecil.
Era Verão. Era a praia à noite. E eu não sabia tocar guitarra.
Ainda tinha cabelo. Cabelo comprido. Aos caracóis. Castanhos. Era magro. Bastante magro. A minha mãe dizia, num determinado período, que eu era pele-e-osso. Podia ser um músico. Um gajo dos Led Zeppelin. Podia ser uma estrela rock. Podia!
Não sabia tocar guitarra. Nem mais nada. Talvez a porra da campainha da casa dos vizinhos em quem me vinguei por não saber tocar mais nada. Não sabia cantar. Nem sei. Desafino. Desafino!? Não chego sequer a desafinar porque a voz foge-me antes de desafinar.
Estava na praia. Numa praia qualquer destas cá para cima. Para cima do Tejo. Para baixo do Mondego. Estava na praia, sentado na areia, a fogueira a arder, a ouvir um tipo a tocar o Stairway to Heaven e a assar umas chouriças e a fazer tempo para ir à padaria comprar pão fresco, quente-e-fofo, que iria barrar com Planta roubada no supermercado do Parque de Campismo. Alguém passou um cachimbo de prata. Um pequeno cachimbo feito com a prata dos maços de cigarros. Os maços de hoje não dão para isso. Na altura dava. E eu fumei. Enchi os pulmões de fumo. Prendi-o. Inspirei mais. Rebentei em tosse. Passei o cachimbo ao lado. A uma mão qualquer ao lado. Deitei-me na areia. Ouvi as notas do Stairway to Heaven e desatei a rir. E disse Mas isto é uma merda! Uma merda do caralho! e mal cheguei a casa, no fim das férias, fui a correr comprar o duplo álbum em vinil, The Song Remains de Same para ouvir, até à exaustão, a tal música de praia que punha as miúdas a rebolar na areia.
No Natal acabei a pedir uma guitarra ao Pai Natal. Ele não me ouviu. Nunca aprendi a tocar guitarra. Mas continuei a ouvir Led Zeppelin.
Anos mais tarde, refiz a colecção toda dos Led Zeppein em CD’s especiais com discos extra, gravações ao vivo e assim. Não voltei a comprar The Song Remains the Same.
É Inverno. É Inverno e chove lá fora.
Estou à lareira. A ver a lareira a arder. A ouvir o crepitar da madeira a queimar que se mistura com o Black Dog. Cresci. Envelheci. Ainda tenho cabelo. E cada vez gosto mais dos Led Zeppelin. Mas nunca mais ouvi o Starway to Heaven. Amores de Verão enterram-se na areia. E eu estou no meu Inverno. Rock and roll.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/19]

Sufocado pelas Palavras

Hoje sentei-me à janela a ver o dia morrer.
Um copo de vinho numa mão e um cigarro na outra. O olhar para além da casa. Para além da janela. Também há vida lá fora. Às vezes não parece.
O céu esteve azul na maior parte do dia. Azul com nuvens branco-sujo espalhadas um pouco ao acaso lá por cima. Depois a luminosidade começou a cair. O céu perdeu o azul e começou a ficar cinzento. O cinzento foi escurecendo. Ainda não é noite. Já há uns pontos de luz lá fora, na rua. É a iluminação pública. Os candeeiros nas ruas. As janelas das casas. Nas cozinhas. Nas salas. Nos quartos. Nas casas-de-banho. Há sempre gente a viver qualquer uma das partes da vida. A comer. A ver televisão. A fazer amor. A cagar. E, depois, também nalgumas lojas, que aqui não há muitas. O supermercado. A padaria. O talho. O café. Que mais um gajo precisa para viver?
Ainda não é de noite mas comecei a perder os contornos da montanha. Algumas casa perdem-se nas sombras que já tombam sobre a terra. Eu acabo uma garrafa de vinho. Levanto-me para ir abrir outra. Descubro que já não tenho mais garrafas de vinho. Tenho um pacote de cinco litros de Cruz d’Aviz, da Cooperativa da Batalha, que um amigo me trouxe do Lidl. Marcha. Abro o pacote. Encho o copo. Volto para a janela.
Sento e vejo que já é noite lá fora. Não demorou muito. Nesta altura, a noite cai rápido. Bebo um golo de vinho e sinto a garganta a queimar. Eh, pá! digo alto, e estranho a minha voz.
E o que é que estou aqui a fazer? A contar as horas para o Natal? Só espero que passe rápido e indolor.
Já não vejo nada lá fora. Só pontos de luz, como bolas coloridas nas árvores de Natal. O céu também está sombrio. Nem uma estrela para amostra. Nem uma estrela para pontuar, lá do alto, a árvore de Natal e o presépio.
Toca o telemóvel. Dou um pequeno salto na cadeira. Assusto-me. Não estou habituado a receber chamadas telefónicas. Atendo sem ver quem é. Alguém diz Vai haver greve dos trabalhadores dos impostos antes do fim do ano! Feliz Natal! e desliga. Não sei quem é. Quem era. Não sei porque havia de me interessar a vida dos trabalhadores dos impostos. Nem sei porque haviam de me desejar um feliz Natal.
Estou mais interessado em continuar a ver o que se passa lá fora, para além da minha janela. Os candeeiros da iluminação pública apagaram-se. Os pontos de luz são agora bem menos. Acabo o copo de vinho. Estou a beber depressa. Levanto-me e vou enchê-lo. Regresso à janela. Acendo um cigarro. Começa a chover. A chover bastante. A chuva faz um barulho ensurdecedor a cair aqui à frente. Vejo um raio de luz que ilumina a noite e me permite voltar a ver as montanhas lá em frente. Depois o trovão. Estrondoso. A tempestade está mesmo aqui por cima. Apagam-se as luzes todas. Mesmo cá em casa. A única coisa que vejo são alguns reflexos na água da chuva e o borrão do meu cigarro a queimar. Sinto-me o último homem na Terra. Apetece-me falar. Não tenho com quem. Acho que vou morrer com as palavras atravessadas na garganta. A sufocarem-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/14]

Tomei Banho

A serra ali em frente tem sempre um capacete a proteger-lhe o cume. Às vezes nem o vejo. O capacete subtrai-o. Outras vezes o capacete ganha umas abas que descem serra abaixo e, milagre, a serra desaparece.
É normal haver capacete sobre a serra e o resto do céu estar limpo. Azul, azul-água, azul-bebé, cinzento, branco-sujo. Mas sem nuvens. Elas juntam-se sobre a serra numa orgia monumental: por vezes percebo as nuvens movimentarem-se, lentamente, sobre a serra, a acariciá-la, a dar-lhe mimo. Por vezes chove. Por vezes chove só mesmo lá na serra.
É o que está acontecer agora, na serra. Está a chover. Aqui está sol. Um sol amarelo. Envergonhado. Não há nuvens. Não vai chover. Mas chove lá em cima. Na serra. Percebo daqui.
Estou no alpendre a tentar arranjar o aspirador. Desde que ele avariou que nunca mais aspirei a casa. Já lá vão quantos meses? Nem sei. Perdi-lhes a conta. Mas vejo a quantidade de cotão nos cantos da casa. O pó. Percebo-o quando respiro. Respiro mal. Sinto-o entrar-me pelos pulmões. Sinto-lhe o cheiro. Percebo-me a dificuldade em respirar.
Sentei-me no chão do alpendre e já desmontei o aspirador. Descubro que uma peça de lego estava a tapar a passagem do tubo. De onde é que terá vindo a porra da peça?
Retiro a peça. Sopro lá para dentro. Espreito. Não vejo nada. Volto a montar o aspirador. Coloco-lhe um saco de lixo novo. Levanto-me. Não!… Tento levantar-me.
Não estou habituado a estar sentado no chão. Os músculos estão a armar-se em parvos. Não querem ceder. Os ossos também não estão melhor. Foda-se! Rebolo no chão. Tento levantar-me de costas. Empurro o rabo para cima. Ajudo com os braços. Agarro-me à cadeira. E, finalmente, lá estou eu em pé. Estico-me. Agarro-me ao varandim do alpendre e estico-me. Estico os braços. As pernas. Tento elevar o corpo para cima. Ouço-me estalar. É bom sinal, não?
Começo a aspirar a casa. Começo aqui na cozinha e deixo-me ir por aí fora. O barulho embala-me. Corredor. Sala. Corredor. Quarto. Corredor. Quarto. Esqueço a serra, o capacete, a chuva. Esqueço o cotão que vai desaparecendo dentro do aspirador engolido pelo tubo de aspiração.
Mudo o saco do lixo. Duas vezes.
Com a casa aspirada e o aspirador arrumado na despensa, batem à porta. Ouço o toc-toc das nozes dos dedos a bater na madeira.
Abro a porta. É a vizinha. Traz uma cafeteira com café da avó e umas filhoses.
Sento-me no alpendre. Ela senta-se comigo. Bebemos o café. Trincamos uma filhós. Olhamos a chuva a cair na serra mas não vimos nada. Olhamos um para o outro. Tenho a casa limpa. Tenho a cama feita de lavado. Tomei banho.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/02]