Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Natureza-Morta

É Domingo. Acordo e já é meio-dia. Levanto-me da cama, sinto o frio do quarto e visto uma camisola sobre a pele arrepiada dos braços. Ponho os pés nuns chinelos e vou à cozinha. Olho à entrada e vejo. Vejo a natureza-morta da minha cozinha.
A mesa, um pouco deslocada para a direita, centra o que poderia ser uma pequena sala de jantar anexada à cozinha. Atrás, junto à parede onde estou parado à porta a olhar, a antiga lareira que foi adaptada à modernidade e se transformou numa salamandra enfiada no plateau da antiga lareira, demasiado grande para os tempos de míngua e solitários que vivo. Já não preciso de ter a panela ao lume com a água quente pronta a aquecer umas couves que acompanham um bocado de toucinho cortado à navalha, depois de desembrulhado do papel almaço que o envolve. Mas os enchidos ainda lá estão pendurados. O chouriço, a morcela, o bucho, a farinheira, tudo aqui das redondezas, tudo oferecido pela vizinhança. Há umas tranças com cebolas. Uns ramos feitos de folhas de louro. Gosto do cheiro que tudo isto me deixa na cozinha.
Sobre a antiga lareira onde jaz uma nova salamandra, a caçadeira do meu avô. Não sei se está em condições de disparar. Nunca a limpei. Para mim não é mais que um adereço. Um adereço de caça que foi do meu avô. Uma herança que, para mim, não é mais que um objecto decorativo.
Sobre a mesa, uma pequena fruteira com dióspiros, algumas tangerinas e uma maçã já pisada, com uma mancha castanha que começa a alastrar. Não a devia mandar para o lixo?
Caída da fruteira sobre a mesa, uma banana. Talvez seja uma banana da Madeira, mas não tenho a certeza. Não me recordo de a ter comprado. Talvez tenha sido a rapariga que vem cá a casa uma manhã todas as semanas que a tenha deixado. Talvez seja uma prenda do operariado ao patronato. E dou comigo a pensar que também eu posso ser patrão. Largo uma pequena gargalhada que transforma esta leitura da minha natureza-morta numa natureza-morta com banda-sonora na figura de uma gargalhada tímida e surpresa. Afinal, até eu posso ser patronato? Quem diria!
Na parte esquerda da cozinha, o lava-loiças vazio. Não tenho cozinhado. Não tenho sujado louça. Quanto muito, a tábua para cortar o pão, a faca de serrilha e a faca para barrar a manteiga nas carcaças que engulo com prazer ao lembrar o papo-seco da minha infância. Agora utilizo manteiga Milhafre, dos Açores, e esta manteiga faz-me lembrar a manteiga Primor da minha infância mais que a Primor dos dias de hoje. Gosto muito de pão com manteiga.
O frigorífico ao canto. Já lá teve preso vários postais. Hoje está limpo de informação e imagens. Por cima do frigorífico, um antigo galheteiro que já não uso. Entre o frigorífico e a parede, um caixote do lixo com pedal para não sujar as mãos. Não se vê, mas o pedal está partido. Afinal, sempre tenho de sujar as mãos. Ao lado, uma vassoura e uma pá caída no chão. Depois, a seguir ao frigorífico, um bocado de bancada antes do fogão incrustado. Um micro-ondas sobre a bancada. Uma chaleira. Um máquina de café com café. É de quando, este café? Quando foi a última vez que fiz café? Há também um rolo de papel-de-cozinha enfiado numa geringonça de plástico. Depois o fogão. Uma tampa de madeira sobre o fogão. Uma tampa que arranjei à beira da estrada e que funciona como protecção. Por cima da tampa um cesto de pão. Lá dentro um saco-de-pano, de chita, talvez com pão. Carcaças, talvez. É o que gosto de comer. Depois continua a bancada. Há uma torradeira sobre a bancada. Utilizo muito a torradeira. Ao lado um frasco grande com azeitonas. Azeitonas do produtor. Um vizinho que as ofereceu. Ainda não estão em condições de serem comidas. As azeitonas ainda estão muito salgadas. Preciso de ir mudando a água com alguma regularidade.
O lava-loiças. Por cima, uma janela. A janela por onde olho enquanto lavo a loiça. A janela por onde vejo as montanhas lá ao fundo, as montanhas de eterno cume branco, onde subo durante o Verão, quando está mais quente e mais facilmente aguento os caminhos íngremes que me levam lá acima.
Depois o resto da bancada, onde está uma tomada que utilizo para pôr o telemóvel à carga. Às vezes está lá uma garrafa de vinho tinto. Às vezes, um cesto com fruta acabada de apanhar e que me vêm trazer cá a casa. Figos. Nêsperas. Maçãs. Às vezes um bolo da festa. Uns tremoços. No Verão, um melão encetado. Ou uma melancia que retiro do frigorífico algum tempo antes de comer por causa dos dentes.
A seguir a porta da rua. A porta que abro para o alpendre onde fumo os meus cigarros a olhar as montanhas.
Regresso à mesa. A mesa um pouco deslocada para a direita. A mesa onde não está um coelho guisado em tacho de barro mas onde podia estar. Faz parte da minha natureza-morta. O coelho guisado em tacho de barro que a minha mãe fazia para o meu pai e que mais tarde começou a fazer para mim. Eu também sei fazer esse coelho. Mas estou sem paciência para cozinhar. Para cozinhar só para mim. Gosto de cozinhar para mais gente, para mais pessoas..
A minha cozinha só tem espaço para a natureza-morta.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/26]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

A Casa Está Fria

Acabou-se a lenha. Fiz mal as contas. Comecei a acender a lareira antes de tempo. E agora já é tarde. Já não tenho dinheiro para mais. E está mais cara. Já não tenho força para ir cortar mais árvores, ali ao pinhal, às escondidas da GNR. Nem coragem tenho para ir à respiga, ao que resta do Pinhal do Rei, buscar aquela madeira queimada que ainda paira por lá.
A casa está fria.
Durante o dia ainda se aguenta com a sol a bater nas portas de alumínio e nos vidros duplos das janelas. Mas à noite, à noite é o diabo, com a queda da geada, o nevoeiro e o ribeiro a correr gelado lá em baixo.
Estive a dobrar roupa na mesa da cozinha. Algumas camisolas estão tortas, as costuras já estão enviesadas pelo tempo e pelo uso, o que dificulta a dobragem, e isso complica-me os nervos.
À tarde, e para desanuviar, fui dar uma volta. Acalmar os nervos e aquecer um pouco o corpo. Passei pela mercearia. Consegui roubar um pacote de vinho e meia broa. Partilhei o vinho com o gato. O cabrão do gato gosta de vinho. Acho que ficou um pouco grogue. A meia broa, comi-a com um bocado de chouriço. Pena que não pude assar o chouriço.
Agora já é de noite. Estou sentado no sofá, embrulhado no edredão da cama, a olhar para a televisão. Sinto frio. Respiro para dentro do edredão para me aquecer.
Vejo, debaixo da mesa da sala, bocados de cotão. Tomo nota, mentalmente, para aspirar a casa amanhã. Acho que o aspirador já está a funcionar. Senão, vai à vassourada.
O telemóvel morreu. Devia ir buscar o carregador. Mas não me apetece. Não consigo levantar-me.
A casa está silenciosa. Quero dizer, ouço o barulho da televisão. Não está muito alto. O suficiente para eu ouvir como um zumbido de fundo. Não estou a ligar ao que está a dar. É só pela companhia.
Rio.
A minha companhia, agora, é a televisão? Como é que cheguei aqui?
Sinto a porta da rua a abanar. Um arranhar. Alguém a querer entrar? Não. Deve ser só o vento. O que é que alguém iria querer daqui?
Estou com frio.
A casa está fria.
Acho que vou dormir aqui. Não consigo arrastar-me para a cama. Fico aqui. No sofá. Na companhia da televisão. Enrolado em mim próprio e no edredão da cama.
Adormeço. Adormeço dias fora e só volto a acordar na Primavera já entrada. Quando os dias estão maiores. E já há tomates nos campos para eu roubar. Para roubar e matar a fome.
Adormeço.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/17]

Sou um Erro da Natureza

Às vezes sinto-me assim. Assim como me sinto agora. Não consigo explicar muito bem. É assim como ser e não ser, ao mesmo tempo. Como se estivesse lá no alto, no céu brilhante e lá em baixo, nas entranhas fétidas do inferno. Ao mesmo tempo. No mesmo sítio. A sentir todas as coisas diferentes possíveis de sentir, e senti-las uma-a-uma e percebê-las e distingui-las como camadas diferentes de emoções e, ao mesmo tempo, sem conseguir fazer nada para deixar de estar assim, nesta confusão, onde não queria estar.
Sim, eu sei. Isto não soou muito bem, não é? Soou muito esquisito. É difícil de perceber, não é? Eu percebo. É exactamente a mesma dificuldade que tenho para tentar explicar aquilo que também não percebo muito bem, mas ao mesmo tempo sei, só não consigo explicar.
Vamos lá por outro lado.
Estou sentado num sofá. Sentado não. Enterrado. Com o rabo enterrado pelo sofá abaixo. O sofá está no alpendre. À minha frente tenho uma oliveira. Vejo lá uns passarinhos, nuns ramos, a chilrear. A televisão está na sala. Mas vejo-a ali, por cima dos passarinhos, e vejo a Júlia Pinheiro em alegre chilrear com os passarinhos. Não entendo nada do que diz. Mas fico irritado com o que ela diz. A voz dela dá-me comichão. Coço o corpo. Coço com as unhas. Faço rasgões no corpo. Faço sangue. Há uma nuvem incolor sobre a minha cabeça. Troveja e começa a chover álcool sobre mim. A Júlia Pinheiro olha-me e começa a rir. Acho que está a rir-se de mim. Mas não tenho a certeza. Continua a chover álcool sobre mim, mas o meu corpo não arde. As feridas saram. Uma rapariga, nua, vem com uma bandeja na mão. Vem do interior de casa. Não a reconheço. Nunca a vi cá em casa. Traz um gin, num daqueles copos redondos enormes cheio de coisas a boiar lá dentro. Tira um funil do rabo e enfia-mo na boca e despeja o gin pelas minhas goelas abaixo. Deixa um pires com umas castanhas de caju na mesa ao lado e vai-se embora, a abanar o rabo e a cantar o Jingle-Bells.
Entretanto eu sou o meu pai e o meu avô e os meus filhos e os meus netos. Uns já morreram. Outros ainda não nasceram. Mas sinto-me todos eles ao mesmo tempo. E sinto-me no passado e no futuro. A comer um frango assado com pauzinhos e um sushi de chouriço feito no wok. É possível? Pelos vistos é! O frango está polvilhado com zolpidem ralado e é servido numa travessa com o emblema do Benfica. E então percebo que o frango é galinha. Dou os ossos da galinha ao gato do vizinho que caga notas de quinhentos euros e estou rico. Riquíssimo. Multimilionário. E mando um berro à minha vizinha que vive a mais de mil metros de mim que me empreste uma cápsula de Nescafé que se me acabou a noz-moscada. Ela não me liga nenhuma e eu sinto-me triste e contente ao mesmo tempo, porque o café faz-me mal. Posso morrer se beber arábica.
É assim que me sinto. Algures entre uma coisa e outra com tudo misturado e a dar pontapés em pessoas enquanto afago os cães da cidade e nada disto faz sentido.
Perceberam agora? Perceberam agora a dificuldade por que eu passo para explicar como me sinto?
Não é fácil nem simples ser-se eu. É uma coisa muito complicada.
Agora começaram a sair aranhas da parede. Tenho as mão presas atrás das costas. Ou à frente. Não as sinto. Vejo as aranhas a sair da parede. Aproximam-se de mim. Tenho uma imagem da Júlia Pinheiro na cabeça e não sei porquê. Lembro-me de estar deitado na relva da Faculdade de Letras de Lisboa a fumar um charro e ouço uma voz dizer És um erro da natureza! És um erro da natureza! Não sei de onde é que vem a voz. Estou nos anos oitenta. Ou aqui. Ou nas ilhas Faroe. E os GNR eram o Vítor Rua. E o Alexandre Soares. E nem sei porque é que disse isso. Eles não são do Barreiro. Nem eu. A minha cintura é outra. E tem curvatura. A curvatura do Círculo.
Quero Óleo de Fígado de Bacalhau! Mãe! Mãe! Quero o Óleo de Fígado de Bacalhau.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/10]

Gente em Silêncio

Estava a acabar de comer o caldo verde, que tinha lá a boiar uma rodela de chouriço, com uma fatia de broa, quando me colocaram um copo de plástico com vinho à frente.
Rapei o prato, coloquei a rodela de chouriço em cima da fatia de broa e comi tudo, na companhia do vinho.
Só nessa altura é que reparei em quem estava ao pé de mim, na mesma mesa. Gente como eu. Gente triste e solitária. Gente em silêncio. Gente que não tinha sítio onde viver, que andava por aqui e ali, a tentar não morrer.
Estava frio. Muito frio. Nestes últimos dias tinha estado muito frio e havia pessoas que prescindiam das suas vidas, nestes dias, nestas noites, para nos ajudar um pouco. Não resolvia nada, mas ajudava a continuar a caminhar até onde quer que conseguíssemos ir.
Era vésperas de Carnaval. Havia assim uma certa agitação histérica na cidade. Anunciavam-se festas. Via-se gente mascarada. Grupos de jovens percorriam a cidade em alegres brincadeiras, fazendo barulheira até às tantas da manhã.
Nestes dias é-me mais difícil adormecer com tanta gente nas ruas. Fico mais desassossegado.
Um homem voltou a colocar mais um pouco de vinho no copo e, atrás dele, uma rapariga novinha, muito bonita, ia dando uns sacos de plástico com coisas para comermos mais tarde. Umas bolachas… Maçãs…
Bebi o vinho do copo de uma vez e levantei-me. Preferia sair logo dali antes de me bater a tristeza, antes da nostalgia fazer mossa. Antes que alguém metesse conversa. Antes de ser social e perceber a merda onde estou. Eu sei onde estou. Mas não quero falar nisso. Não quero pensar nisso. Quero passar ébrio por entre estas noites perdidas. Não ver ninguém. Não falar com ninguém. Não criar amizades solidárias. A minha miséria era solitária. Muda. Já nem sei como soa a minha voz. Os obrigados que vou deixando por aí já são quase só grunhidos. Que não soam a mais que isso. Grunhidos.
Saí do armazém. Cá fora estava muito frio. Cheguei a gola do casaco mais para cima e pus-me a andar pela cidade, à espera que ela adormecesse e eu pudesse, enfim, enfiar-me num buraco e descansar um pouco até ser dia outra vez. Estas rotinas ajudam-me a sobreviver. Mas ao mesmo tempo matam-me. Este cansaço prolonga-se no tempo e tudo passa a ser automático. Frio. Sem razão de ser, a não ser… Ser.
E então lembrei-me de, um dia, também estar assim numa festa de Carnaval e estar com um grupo de amigos a dançar na brincadeira e a cantar Lá vai o comboio, lá vai a apitar, e sorri, caiu-me uma lágrima pela cara e ouvi-me cantarolar Lá vai o comboio. E reconheci-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/09]