Escondido, parte 07

[continuação de ontem]

Onde é que eu poderia ir procurar alguém? Saber notícias? Perceber o que estava a acontecer e porque é que ninguém parecia ligar ao que estava a acontecer? Porque estava a acontecer alguma coisa, não estava? Eu não estava doido, pois não?
E foi então que pensei nela.
Achava que a tinha visto na manifestação. Ela era toda dada aos movimentos de contestação. E em defesa das minorias e dos animais maltratados. Um dia organizou o rapto de uns cães numa pequena quinta para os lados de Alcogulhe. Isso valeu-lhe uma noite de detenção na esquadra da PSP de Leiria. E essa detenção serviu-lhe como cicatriz, medalha e cv. Isso foi o que me atraiu nela, na altura. Depois, mais tarde, também foi o que me afastou.
No dia da manifestação, tive a impressão que a tinha visto lá no meio de um grupo de amigos. Mas não liguei muito. O que aconteceu, já tinha acontecido há muito tempo. E eu não estava em fase de relembrar histórias do passado, por mais engraçadas e importantes que tivessem sido. Estava noutra. E nem sequer me sentia muito ligado aquele tipo de manifestações. Foi mais pelo tempo que estive enfiado em casa. Foi mais pelo ambiente de festa que se adivinhava. Fui mais para desanuviar. E depois aconteceu o que aconteceu.
Agora as coisas tinham-se tornado outras para mim. O que tinha acontecido na manifestação tinha-me empurrado para outro lado. Agora não era só uma brincadeira, uma forma de desanuviar daqueles quatro meses enfiado em casa e longe de toda a gente. Agora era sério. Agora tinha-se tornado sério. Alguém estava a querer tomar conta da vida. Da vida de todos nós. Alguém estava a querer fechar-nos dentro de uma gaiola e dar-nos ordens. E, aparentemente, quase ninguém parecia preocupado com isso.
Voltei a cruzar a cidade. Subi à Gândara dos Olivais e acabei por andar por lá à procura da casa dela. Aquilo parecia-me tudo igual. Casas, casas, casas. Casas e hiper-mercados. Um bowling. Já lá houve uma Moviflor. Agora há lá uma escola. Os miúdos saem directamente das mesas da escola para os lineares dos hiper-mercados. O mercado de trabalho não qualificado vai de vento em popa. Salários baixos e bons lucros.
Às voltas pelas ruas que me pareciam todas iguais da Gândara dos Olivais, acabei por pensar na primeira vez que fodemos. Foi logo depois da história os cães de Alcogulhe. Achei que tinha sido um grande feito e fui dizer-lho ao balcão do bar onde a encontrei no próprio dia em que foi posta em liberdade. Meia-hora depois estávamos a foder na casa-de-banho, ela encostada à porta e eu por trás, rápido, violento, ambos a arfar e a acabarmos rápido o que estávamos a fazer depois da dona do bar ir lá bater à porta a mandar-nos para o Íbis. Ela ainda disse que o Íbis era caro. Eu disse-lhe, ao ouvido, que era mais bem cheiroso. Ela riu. Eu puxei as calças para cima e ela o vestido para baixo. Nessa noite ainda nos enrolamos no chão da sala e eu fi-la queimar as costas na alcatifa, ao fazê-la roçar-se, para cima e para baixo, à medida em que entrava e quase saía dela. Não deu um queixume. Eu queimei os joelhos, na mesma alcatifa, e passei dois dias com os joelhos a arder.
Andámos uns meses naquilo. Eu nunca tinha tido uma namorada assim. Assim tão corporal. Acho que nunca fodi tanto. Acho que nunca me apareceu foder tanto. E, contudo, uns meses depois, o adeus. Primeiro as férias de Verão e depois a Universidade. Cidades diferentes e um afastamento que surgiu natural. Cruzámos-nos uma ou duas vezes de regresso a Leiria, mas as coisas já tinham seguido outro caminho. Para mim e para ela. Foi uma das poucas vezes em que o fim surgiu sem dor nem dramas. Foi quase como uma normalidade. Como se fosse o prolongamento natural do que tínhamos tido.
Ao virar numa esquina pareci reconhecer a rua. Andei em frente até um prédio e era o prédio. O prédio dela. A porta da rua aberta. Subi no elevador. Toquei à campainha. Esperei. A porta abriu. E lá estava ela. Lá estava ela exactamente como me recordava dela. E depois olhei melhor e percebi que não. Não estava como eu me lembrava dela. Estava com os olhos inchados. Inchados e vermelhos. Tinha estado a chorar. Coisa que nunca a vi fazer. Ela não mostrou surpresa ao ver-me. Soube mais tarde que também me tinha visto na manifestação. E quando me viu ali, à porta de casa, percebeu que estávamos os dois na mesma luta.
Ela abriu a porta e deu-me passagem para o interior de casa. Depois fechou a porta, passou por mim e levou-me para a sala. Deu-me um copo de whiskey com três pedras de gelo e depois disse-me O meu marido está no hospital. E ela contou. E eu ouvi.
Na manifestação, quando as carrinhas bloquearam as saídas da Praça Rodrigues Lobo e os carecas saíram das caixas abertas das carrinhas, o marido dela foi o primeiro a levar com um taco de baseball na cabeça que lhe provocou um traumatismo craniano e, desde então, estava nos cuidados intensivos e o prognóstico era muito reservado. Mais ainda me contou que foi à polícia fazer participação e que a aconselharam a esquecer tudo o que tinha acontecido e não quiseram receber a queixa. Foi aí que percebeu que algo de muito errado estava a acontecer no país. Mas também percebeu que a maior parte das pessoas nem queria saber o que é que estava a acontecer.
E foi então que eu disse Então está mesmo a acontecer alguma coisa, não está? Então eu não estou doido, pois não?
Ao que ela retorquiu Acho que estamos todos doidos.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/24]

Escondido, parte 04

[continuação de ontem]

Ficámos os dois em silêncio durante algum tempo. Eu via um sombreado onde ela estaria. Não sei se ela me via a mim. Eu estava no canto do quarto, numa zona ainda mais escura que a escuridão nocturna que tinha caído sobre a cidade, sobre a rua, sobre aquela casa.
Finalmente ela tossiu, como que para aclarar a voz. E depois perguntou Estavas na manifestação? e eu endireitei-me um pouco no meu canto, voltei a sentir as dores no rabo e nas costas por estar ali assim, sentado, mal sentado, num chão desconfortável e húmido e disse Sim.
Eu também estava na manifestação. Estava com amigos. Não sei onde é que eles estão. Perdi-me deles. Também estavas com amigos? perguntou, e eu voltei a dizer Sim. Sim estava com amigos e também não sei o que é feito deles. Perdi-me, ou perdi-os.
Voltou o silêncio. Senti os pés dela a arrastarem-se pelo chão para mais próximo do corpo. Percebi, pela silhueta, que abraçou as pernas e deixou tombar a cabeça sobre os joelhos. E pensei que eu já não conseguia fazer aquilo. Ainda conseguia abraçar as pernas encostadas a mim mas, tombar a cabeça sobre os joelhos, era pedir demais a este corpo velho e cansado. Não vou para novo, eu. Ela parece nova. E parecia.
Quantos anos tens? perguntei-lhe. Ela sorriu perante a minha ousadia e disse Vinte seis. E perguntou E tu? Eu suspirei fundo e disse-lhe Eu já passei dos cinquenta. E acrescentei Já estou velho para estas merdas. E ouvi um pequeno risinho vindo da minha companheira de infortúnio.
Regressou o silêncio. E foi então que reparei que estava mesmo silêncio. Lá de fora já não chegava o bruá caótico. Se calhar já tinha tudo terminado. Se calhar, já tinham ido todos embora, perseguidos e perseguidores. Se calhar já era altura de também irmos embora. E foi isso que disse à rapariga Já não há barulho. Já devemos poder sair.
Eu levantei-me. Tinha o corpo dorido. Estive a massajar as pernas que estavam com pequenas cãibras. Levantei o olhar para a frente e vi a silhueta dela a levantar-se também. Vi-a sacudir o pó das calças e ficar erguida à minha espera. Eu ergui-me e comecei a andar, não sem uma certa dificuldade. Passei em frente a ela e chamei-a Vamos. E fomos.
Fomos devagar. A descer as escadas do prédio na escuridão. Com cuidado para escapar à destruição, aos tijolos, ao pó, ao corrimão quebrado. Eu ia marcando o passo, um passo diante do outro, num passo tranquilo e cuidadoso e sentia-a atrás de mim, a fazer o que eu fazia, tendo o cuidado de não ficar para trás.
Descemos as escadas. Fomos parando nos patamares dos andares para recuperarmos fôlego e aguçarmos os ouvidos à procura de barulhos preocupantes. Mas continuava o silêncio.
Chegados ao rés-do-chão, abri a porta da rua e saí, logo seguido por ela. Acendi um cigarro. E depois, olhei-a. Foi a primeira vez que a vi, que a vi inteira, iluminada, e não só uma silhueta. Era bonita, a miúda. Estiquei-lhe o braço com o maço de cigarros na mão, a oferecer-lhe um. Ela abanou a cabeça. Foi então que percebi que estava nervosa. E ela deve ter percebido o que eu tinha percebido e esticou o braço e agarrou-me a mão com o maço de cigarros e disse Afinal, aceito um cigarro. Tirou um cigarro, eu dei-lhe lume e começou a fumar. Eu disse-lhe Bom, até um dia destes. Boa-sorte! antes de ir embora. Mas ela parou-me, de novo com a mão e disse Preciso de companhia para fumar o cigarro.
Anui. Nem pensei muito no que estava a acontecer. Há gente que só fuma socialmente. Há gente que só fuma quando está com outras pessoas a fumar. Mas voltei a notar o nervosismo dela. Um nervosismo que não tinha detectado lá em cima, no quarto no último andar do prédio em ruínas onde estivemos escondidos. Mas há gente nervosa.
Ouvimos alguns ruídos próximos. Eu disse Não é seguro ficarmos por aqui. É melhor irmos embora. E, então, ela deitou fora o cigarro ainda meio, abriu a boca e gritou a plenos pulmões Aqui! Está um aqui!
Eu bloqueei. Por momentos não percebi o que tinha acontecido. E o que primeiro me saiu, rápido, automático, foi Cala-te! Eles podem andar por aí! Sem ter percebido que ela era um deles e que estava a chamá-los porque me tinha capturado. Mas isto já sou eu a pensar mais tarde. Na altura não pensei logo nisso. Na altura o que me saiu foi Cala-te! Eles podem andar por aí!
Cheguei-me à frente e agarrei-lhe nos braços e abanei-a como que para a despertar para o que estava a fazer, para o que tinha acontecido, para o que podia vir a acontecer.
E foi então que ela forçou os braços dela das minhas mãos, esticou uma perna e empurrou-me e levou-me a cair na estrada de pedras de basalto bastante irregulares que me magoaram as mãos e me fizeram sangue. Perdi o cigarro. Ela voltou a gritar Aqui! Aqui! E eu ouvi o barulho de passos que se aproximavam. Recuperei-me da queda traiçoeira e pensei rápido. Mais rápido do que poderia pensar. Levantei-me de um salto e desferi um murro com a mão direita no nariz da rapariga e ouvi-o quebrar. Vi um jorro de sangue a sair pelo nariz antes dela levantar as mãos para o agarrar. Percebi que começou a chorar. Um choro que se tornou grito de desespero. E eu aproveitei e comecei a correr para sair dali, daquela rua. Corri rua acima, em direcção ao castelo mas, a meio da subida, virei à direita e parti em direcção ao Arrabalde, nas traseiras do castelo, até à zona do estádio de futebol abandonado.
Fui sempre a correr, primeiro a subir e, depois de uma pequena recta, a descer. E como dizia o meu pai, a descer todos os santos ajudam e eu senti toda a santidade católica apreendida nos anos do colégio a empurrarem-me estrada abaixo até chegar ao pé da escola do Arrabalde.
Foi ao pé da escola que parei. Estava cansado. A respiração ofegante. Dobrei-me sobre mim até recuperar a calma. Depois sentei-me num lancil à beira da estrada e pus-me à escuta. Não ouvia barulho nenhum. Nenhuma voz. Nenhum carro. Nenhuns passos. Nada.
Acendi um cigarro.
Vi a estátua do Rui Patrício à entrada do parque do estádio, que estava agora tudo ao abandono, e perguntei-me alto Como é que chegámos aqui?
Não soube responder. Nem o Rui Patrício me respondeu.
Mas a resposta, sabia que estaria algures por aí. E queria encontrá-la.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/21]

Escondido, parte 02

[continuação de ontem]

Corri pelas ruas esconsas à volta da Rua Direita, na zona histórica de Leiria, no sopé do monte do castelo. Ouvia gritos. Ouvia gente a chorar. Percebia o pânico a correr por aquelas mesmas ruas por onde eu tentava fugir. Uma grande confusão.
Mais uma vez, quase a chegar ao fim de uma rua, percebi que estava também bloqueada por uma carrinha da caixa aberta com uns quantos carecas fardados de militares, ou para-militares ou milícia. Voltei para trás. Outra vez. Contra o fluxo de gente que corria, uns atrás dos outros, sem saber muito bem para onde é que iam, indo só para sair de onde estavam, para fugir, para escapar aquela gente que parecia estar ali para lhes dar caça. Nos dar caça.
Parei frente a uma casa abandonada. Olhei em volta. Estava sozinho. Via pessoas a correrem ao fundo, numa perpendicular. Dei um pontapé na porta e abri-a para trás. Entrei no prédio e fechei a porta nas minhas costas, o melhor que consegui.
Fiquei parado ali, ao fundo das escadas, a tentar ouvir. A tentar ouvir algum barulho vindo de dentro da casa. Só percebia o barulho da rua, das ruas adjacentes. De vez em quando, sentia alguém a correr do outro lado da porta, naquela rua mais escondida. Ninguém parou lá em frente, em frente à porta, em frente ao prédio.
Subi as escadas devagar. A casa estava muito destruída. Ainda estava em pé. Ainda mantinha a estrutura do prédio, dos vários apartamentos, mas havia muitas janelas quebradas, vidros partidos, pedaços de tijolo, lixo, muito pó. Subi as escadas com cuidado até ao último andar. Talvez fosse um terceiro andar. Ali na zona histórica de Leiria, os prédios são antigos e não muito altos. Alguns prédios, como este, estavam assim, abandonados, a acumular valor. Um dia seriam vendidos por bom dinheiro. Onde não há para venda, a venda atinge valores incalculáveis. Mesmo numa terra pequena e ignorada como Leiria.
Cheguei ao último patamar. Havia duas portas de entrada para dois apartamentos. Um à direita e outro à esquerda. As duas portas abertas. Abertas, não. Ausentes. Entrei para o apartamento do lado esquerdo e fui entrando até chegar ao que terá sido um quarto. Um quarto que ainda tinha janela com vidros. Entrei dentro desse quarto e sentei-me no chão, encostado a uma parede húmida, a descansar. A descansar e a pensar no que tinha acontecido.
E que raio tinha acontecido?
Estava numa manifestação pacífica, numa cidade pacífica. Estava numa manifestação pacífica que mais parecia uma festa. Estava toda a gente contente por sair do confinamento a que tínhamos sido sujeito durante tanto tempo. E, depois, aquilo.
Aquilo era o quê? Um grupo de gente de cabeça rapada, vestidos de igual, como se fossem militares, ou milícia, com tacos de baseball nas mãos. Chegaram em carrinhas de caixa aberta. Começaram a bater em toda a gente. A bater a eito. Não era uma contra-manifestação. Era mesmo um ataque. Não, uma caça. Era uma caça. Toda a gente começou a fugir e não havia por onde fugir. As ruas estavam todas cortadas. Tínhamos sido apanhados numa ratoeira. Sem escapatória. Vi muita gente a tombar. Vi muita gente a ser atingida pelos tacos de baseball. Vi cabeças a rebentar. Vi gente a ser espezinhada.
Onde é que estariam os meus amigos?
Alguém teria conseguido sair dali?
E a polícia? Porque é que não tinha visto nenhum polícia?
Apetecia-me fumar um cigarro mas sabia que era melhor estar sossegado. Não podia correr o risco de dar nas vistas, de me descobrirem. Devia manter o silêncio. Não fazer fumo. Não dar nenhum motivo, a ninguém, de me descobrirem ali dentro. Não tarda seria noite e depois logo se veria. Talvez, então, pudesse sair. Ir embora. Voltar para casa. Encontrar outras pessoas. Tentar perceber o que é que se teria passado. O que é que teria saído no noticiário das oito horas da noite.
Deixei-me estar sentado no chão, encostado à parede húmida. Até o rabo me começar a doer e eu me levantar. Fui com cuidado até à janela. Estava a começar a escurecer. Espreitei a rua. Não via ninguém. Mas continuava a ouvir vozes, gritos, vindos das ruas em volta.
Estava a começar a ficar com fome. Não que tivesse fome. Acho que eram os nervos que me estavam a atacar. Depois da agitação das últimas horas e depois de, finalmente, ter recuperado a respiração na tranquilidade daquele pequeno prédio velho e abandonado, comecei a chorar. Um choro nervoso. Um choro de medo e incompreensão.
E dei comigo, incrédulo, a perguntar-me como tudo aquilo tinha sido possível no século XXI? Como é que tudo aquilo tinha acontecido com toda a tecnologia que, aparentemente, nos dava toda a informação e conhecimento e nos protegia para que nada daquilo voltasse a acontecer?
Finalmente era noite.
As coisas não pareciam mais calmas. Continuava a haver barulho de gente em fuga. De gente atrás de outra gente. De gente em pânico. De gritos histéricos. De gritos de confronto.
Afinal, ainda iria ficar por ali bastante mais tempo do que o tempo que estava a pensar ficar.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/19]

Sozinhos

Estamos sozinhos. Estamos todos sozinhos. Sempre. Mesmo que às vezes nos iludamos.
Nascemos sozinhos, mesmo que às vezes nasçamos com mais um ou outro como companhia e que, durante toda a vida, dizem, partilhemos sensações e uma espécie de sentido só nosso, que sentimos o mesmo que o outro como se o outro fôssemos nós. Mas estamos sozinhos naquele momento em que nos puxam para a rua e nos dão uns açoites para largar o berro da vida Coitado, tem bons pulmões. Vai poder chorar alto toda a vida.
E morremos sozinhos. Nós e o nosso caixão, quando não é a vala comum, e a companhia dos vermes que nos vão desossar. Sozinhos no adeus e para além dele. No fim da existência. Sempre a solidão.
A solidão numa acanhada barraca com placas de zinco ou na imensidão de uma torre de marfim. A solidão não escolhe classe social, e a mentira da companhia insere-se em todas elas. Talvez o mais rico sofra mais com as amizades de ocasião. Afinal, o dinheiro pode ser o maior aglutinador de amizades. É um bom afrodisíaco. Mas também é um grande mentiroso. O pobre também se vê enredado no mesmo esquema. Onde come um, comem dois. Às vezes só querem mesmo é encher a barriga.
Dos jardins de infância aos lares da terceira idade vai à distância da ilusão. Acenam com a companhia. Com a criação de amizades. Com o aprender a estar com os outros. E fala-se dos amigos de infância, dos amigos da rua, dos amigos da escola, dos amigos da tropa, dos amigos da guerra, dos amigos da claque, dos amigos do partido, dos amigos dos copos e, quando chega a altura, olha-se para o lado e estamos no deserto do Sahara.
Depois de passarmos uma vida dentro de transportes públicos a suportar o cheiro a transpiração dos outros que não conhecemos para ir trabalhar para um emprego que não gostamos, para fazer o que não queremos para poder sobreviver mal e porcamente, somo atirados para o fundo da fila social, depositados num qualquer lar da terceira idade onde iremos encontrar outros como nós, outros à espera da morte, outros a vegetar, com a baba a cair pelo canto da boca enquanto na televisão passa um reprise da Fátima Lopes ou da Júlia Pinheiro sem saber se ainda estamos vivos ou mortos. Mas a culpa não é nossa, nem, em última análise, de quem nos lá põe. A culpa é deste modelo de vida que muitos defendem como o melhor possível quando este melhor só é bom para alguns, poucos, eleitos, que conseguem um pouco mais que a sobrevivência rasteira feita a pão com manteiga, com pão de véspera e manteiga feita margarina.
Ouvi a notícia de um cliente num restaurante de um luso-descendente em Nova Jérsia, depois de pagar a despesa de cinquenta dólares pelo pequeno-almoço de família, deixou uma gorjeta de mil dólares. Um e outro à procura de reconhecimento. De amizade. De companhia. De alguém.
É claro que fico contente que alguém que pode, possa dar uma gorjeta de mil dólares. Mas incomoda-me que alguém possa dar uma gorjeta de mil dólares a outro alguém a quem essa gorjeta é bem mais do que pode ganhar um mês inteiro a trabalhar para sobreviver.
No final caminhamos todos para o mesmo fim. Morremos todos da mesma maneira e ninguém leva nada daqui. Podíamos partilhar mais as coisas e sermos mais uns com os outros. Beber uns copos mas bebermos por prazer e não por ritual, porque sim, ou por desfastio.
Estamos todos sozinhos porque nos achamos sempre melhor que os outros. Quaisquer outros. Somos mais cultos, mais bonitos, mais elegantes, com melhor cabelo, um gosto mais apurado, uma carteira mais recheada, fodemos melhor, cheiramos melhor, temos um cabelo mais forte e mais brilhante e até as nossas doenças são bem mais glamourosas que as dos outros e só os aceitamos, os outros, para manter a ilusão de que somos queridos de alguém. Fingir que existe amor. Que amamos e somos amados. Que a história não é a história de uma solidão. Mas é.
E no fim, mesmo no final da estória, quando estamos mesmo sozinhos, é assim que morremos.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/13]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

As Águias São Imperiais

Às vezes dá-me para isto. Podia dar-me para outras coisas, mas dá-me para isto. Deito-me ali debaixo da laranjeira, enquanto ainda tem ramagens e folhas que me dão sombra, pego numa azeda que espeto na boca e chupo aquele suco amargo, ponho-me a olhar as nuvens a passar sonolentas no céu e recordo, recordo com saudade, pedaços de vida a que não voltei mais mas a que gostava de voltar.
Não sou muito nostálgico. Não choro pelo que passou. Mas às vezes dá-me assim aquele aperto no coração, acompanhado de uma certa angústia ou ansiedade e tento perceber o porquê. Às vezes é só fome. Outras vezes é falta de um copo de vinho tinto ou de um cigarro. A merda das adicções. Mas também já foi mesmo a saudade. A saudade pura e dura. Nessas alturas gostaria mesmo muito de ter uma máquina do tempo e regressar a esses momentos. Não sou muito de regressos, como já disse, mas às vezes, às vezes, às vezes a vida prega-me rasteiras e eu nem me reconheço.
Hoje não havia azedas, já não há azedas há muito tempo, peguei num cigarro, na almofada da cama e numa toalha de banho e fui estender-me debaixo da laranjeira, à sombra das braças da laranjeira, braças suficientes para me darem sombra, mas não tantas que me tapem a vista e, então, pus-me a olhar as nuvens e deixei-me embalar pelo ritmo cadente da sua passagem sobre mim.
Estava num piquenique. Há muitos anos que não tinha um piquenique. Estava num piquenique. Tinha um copo de vidro com vinho tinto numa mão. Um folhado misto na outra. Tentava falar mas não conseguia que tinha a boca atulhada com o folhado misto, fiambre e queijo, que estava uma maravilha. À minha volta riam-se. Gente que já não via há muito tempo. Alguns há anos. Outros, julgava-os mortos. Partilhavam comigo o vinho. Queijinhos secos. Um fio de azeite sobre os queijinhos. Umas fatias de pão alentejano a fazer companhia aos queijinhos. Ali tudo era companhia. Engoli o folhado misto e falei. Não ouvi o que disse, mas toda a gente à volta tomou atenção. Toda a gente se calou para me ouvir. Acho que gosto de ser ouvido. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha pensado em mim assim. Nunca tinha pensado nesta minha necessidade de ser ouvido. Preciso disso? De ser ouvido? Que me ouçam?
Estávamos à volta de uma mesa de pedra debaixo de um pinheiro manso na encosta da montanha com vista sobre o vale. O verde predominava. Havia umas águias a planar sobre nós. Talvez fossem uns milhafres, não sei. Embora não conseguisse ouvir qualquer som, o ambiente parecia tranquilo e suave e, o único som, talvez fosse o produzido por nós, à volta da mesa. Os risos que saíram das bocas rasgadas no fim de uma conversa minha. Uma palmada nas costas. Uma mão que me afagou o rosto e senti o calor da mão, senti o calor da mão no lado de cá do sonho, uma mão leve e carinhosa.
Na mesa de pedra repousavam embalagens com iguarias várias. Húmus de beterraba, Pão alentejano. Queijinhos secos. Azeite. Folhados mistos de fiambre e queijo. Um chouriço caseiro cortado à navalha. Pedaços de morcela previamente assada. Ovos mexidos com espargos salteados. Garrafas de vinho. Várias garrafas de vinho. Garrafas vazias.
Eu levantei-me da mesa e acendi um cigarro. Avancei até à beira da estrada e da encosta que se precipitava lá para baixo.
Olhei as nuvens no céu por cima de mim e pensei Eu sei que me estou a ver. Eu sei que não sei se isto aconteceu ou irá acontecer. Mas também sei que a satisfação não vem só com o que existe ou existiu, mas também com o que sonho, com o que imagino. É por isso que faço filmes. É por isso que escrevo histórias. É por isso que componho canções. É por isso que pinto quadros e esculpo esculturas. Às vezes sinto-me deus. Um deus. Um pequeno deus. Um pequeno deus para as pequenas coisas da minha vida. Do meu dia-a-dia. Não preciso de agarrar na bíblia e mostrá-la às pessoas. Não preciso dizer que tenho Deus sobre mim, sobre nós. Eu sou deus e não preciso de proclamações.
Dei um pequeno grito quando o cigarro queimou por completo e chegou-me aos dedos. Abri os olhos e vi uma águia em forma de nuvem a pairar sobre a minha cabeça. Acendi outro cigarro e pensei Gosto de águias. São imperiais.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/06]

Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

Regressar a Casa, parte 05

[continuação]

A mão gira na maçaneta da porta e entro dentro do meu quarto. Ainda é o meu quarto, depois de todos os quartos por onde andei a viver estes anos todos?
Cheira mal. Não mais que nas outras divisões da casa, mas talvez por ser o meu quarto e ter o seu cheiro mais marcado. Está escuro como nos outros sítios. Mas conheço a geografia do quarto de cor. Se a minha mãe não mudou os móveis de sítio, não preciso de luz para ir até à janela e abrir tudo para trás e para cima e deixar entrar o dia cá dentro. Ainda seria capaz de ir às estantes, às prateleiras onde estão os livros e escolher alguns. Os livros de cinema que estarão na prateleira de cima, porque eram maiores e de formatos mais estranhos. A poesia em baixo, nas últimas prateleiras, porque eram os mais fininhos e ficavam para o fim. Talvez ainda descobrisse Os Filhos de Torremolinos porque era grosso. Ou Os Maias por ter a cota rasgada de tanto andar na mochila, para cima e para baixo, durante o nono ano sem nunca ter sido lido.
Afasto as cortinas. Puxo as persianas. Abro a janela. Respiro fundo. Olho para fora. Acendo um cigarro e debruço-me à janela a olhar para fora. Vejo a casa de L. Tantas vezes que saltei aquele muro. Para ir ter com ela. Para ir ter com ela ao quarto. Para fugir do pai. Às vezes do cão, cabrão, que não me reconhecia às tantas da manhã, ou não sentia o meu cheiro. Via-me a passar pelo quintal e punha-se a ladrar e eu parava. Ele também parava. Parávamos os dois a olhar um para o outro. Ele ficava quieto, mas a ladrar. Acendia-se uma luz em casa e eu corria para fugir de quem quer que lá viesse, talvez o pai dela, e ele começava a correr atrás de mim, a ladrar, a ladrar. Nunca me apanhou mas, chegou a estar muito perto disso. E L. à janela, a rir-se, a ver-me a ser perseguido pelo cão, a fugir ao pai dela, a largar a cama dela à pressa quando me esquecia das horas e nem percebia que era dia de semana, havia aulas e tinha de estar em casa onde era suposto estar e então tinha de correr e ela ria, ria.
Tenho saudades desses tempos.
Tenho saudades daquele meu eu.
Deixo cair a beata do cigarro no quintal. Viro-me de costas e encaro o meu quarto. Era assim. Era mesmo assim que era o meu quarto. Era assim que me lembrava dele, que sempre me lembrei dele. A cama a um canto, encostada a uma parede. A mesa-de-cabeceira com uma pilha de livros para ler e que nunca li. Fui embora sem que os conseguisse ler. E a minha mãe nunca os tirou de lá. Sorrio. Sorrio à memória da capacidade da minha mãe de respeitar as paranoias do filho. Que livros andava eu para ler? E vou à mesa-de-cabeceira e agarro nos livros. O primeiro tem tanto pó que nem sei o que é. Limpo-o na perna, às calças de ganga. Notícia da Cidade Silvestre… Lídia Jorge? Espanto-me. A Malcastrada de Emma Santos. Mas eu li este. Não me lembro quando. Nem onde. Mas li. Acho. Acho que li. Na verdade já não me lembro. Assim Falava Zaratustra do Nietzsche. Pois. O livro que andou por todo o lado. Comprei várias edições. Nunca o li. Também não vai ser agora, não é? E este? Pássaros Feridos. Colleen McCullough. Nem sei o que é isto. O que é que isto está aqui a fazer? É meu? Era, devia ser. Não me lembro nada disto.
Sento-me na cama com os livros na mão. Deixo-me cair para trás. Sinto o pó subir. Entra-me pelas narinas, pela boca, sinto o pó invadir-me os pulmões, sinto a asma a reclamar com o pó, mas deixo-me estar deitado de costas na cama, a olhar o tecto. Há duas rachas. Duas rachas que vão de ponta a ponta. Largo os livros e deixo-os cair em cima da cama. Mas eles rebolam e acabam por cair no chão. Ouço o barulho do tombo. Foda-se!, penso. Fecho os olhos. Não queria que os livros se estragassem. Tenho sempre muito cuidado com os livros. Como é que os deixei cair? a estes?
Olho para o cimo de uma das estantes e percebo uma pilha de jornais. Que jornais serão aqueles? Não me levanto, mas sinto um sorriso nos lábios e digo alto, estremeço um pouco quando ouço a minha voz a dizer Os Blitz! e percebo que julgava que a minha mãe os tinha deitado para o lixo. Dizia-me muitas vezes que Os jornais são um criador de bicharada, e sempre pensei que os tinha deitado fora. Já não existe, o Blitz, não enquanto jornal. Será que valem ainda alguma coisa? Não devem valer. No fundo é só papel amarelecido que já nem suja as mãos. Hoje já nada tem valor.
Depois sinto a cama a mexer-se, o colchão a estremecer e vejo M. a gatinhar em cima da cama até chegar ao pé de mim, pôr-se em cima de mim e enfiar a língua na minha orelha, eu estremecer, abanar a cabeça e dizer Na orelha não! e sentir a orelha húmida da lambidela da língua marota de M. que o fazia sempre de propósito só para me irritar. Mas gostava de mim. Gostava bastante de mim, M. Eu também gostava dela. Como é que acabou? Como é que acabámos?
E depois ocorre-me uma gravidez. Ocorre-me um aborto. Ocorre-me os pais. Os pais dela. Os pais dela primeiro. Os meus pais depois. Como é que me esqueci disto? Como é que consegui esquecer uma coisa destas? O que será feito de M.?
E, de repente, sinto-me sem forças.
Estou deitado na cama do meu antigo quarto a olhar para as duas rachas do tecto a pensar numa merda que já não me lembrava e a porta da rua está aberta e as janelas também estão todas abertas e eu já não vinha aqui há tantos anos e já não sei quem são os vizinhos nem sei o que é feito dos meus amigos de infância e acho que vou chorar e sinto a tua falta mãe e também a tua falta pai e porque é que esquecemos coisas e lembramos outras e dói-me o peito e estou com dificuldade em respirar e devia levantar-me mas não quero só quero fechar os olhos e adormecer e voltar a acordar e estar deitado nesta cama a comer uma torradas com manteiga e a ler umas histórias do Príncipe Valente e sentir o cheiro das amêijoas de Sábado…

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/23]

Até um Dia

É a treze de Maio. É sempre a treze de Maio que deixo a minha clausura caseira e rumo até ao Pedrogão. Mas não chego a entrar no Pedrogão, de onde tenho, aliás, tantas e tão boas memórias. Não. Fico lá por trás, a meio daquela recta enorme da estrada do Atlântico que liga a praia da Vieira ao Pedrogão.
A meio dessa recta está um tronco de árvore morto, um tronco de uma árvore que foi partida, decepada, e que eu espetei fundo no chão de areia na berma da estrada para lembrar. Para lembrar aquele treze de Maio. Com uma navalha entalhei, no tronco, Até um Dia, e agora, todos os treze de Maio lá estou de regresso aquele pedaço de caminho, entre a praia da Vieira e a praia do Pedrogão, estrada que fiz vezes sem conta, e à qual agora só regresso neste dia para prestar homenagem e perguntar quando é que será a minha vez e cumprir a minha promessa de Até um Dia.
Naquele dia, naquele treze de Maio, há muitos anos, vinha eu do Pedrogão para Leiria, e antes ainda do corte à esquerda que me leva directamente à Vieira de Leiria e me evita a passagem pela praia, o que nos dias de Verão dá muito jeito para fugir às camionetas de turistas que vêm molhar os pés à foz do Liz, ali mesmo à entrada, ou saída, da praia da Vieira, o rio que vem das Fontes, acima das Cortes, e corta a cidade de Leiria e deixa o Bairro dos Anjos e os Marrazes do lado errado, o rio que obriga a passar a ponte que esteve interdita durante alguns anos, por risco de derrocada, nem sei como está agora, porque não tenho ido pela praia da Vieira, naquele dia treze de Maio, estava a contar, ainda não tinha chegado ao corte à esquerda para virar para a Vieira de Leiria, ela pediu para parar o carro. Eu encostei à berma, não muito porque as bermas são baixas e cheias de areia, na prática acabei por parar o carro na minha faixa de rodagem, com os quatro piscas ligados, e ela saiu do carro e correu para as dunas para apanhar camarinhas. Sim, não é normal haver camarinhas nesta altura do ano, ainda é muito cedo, mas às vezes acontece. Está calor mais cedo e as camarinhas rebentam por todo o lado.
Vi-a tirar o casaquinho de malha para fazer de saco e enchê-lo de camarinhas. Eu, dentro do carro, rádio ligado a ouvir o Once in a Lifetime dos Talking Heads, a olhar para ela, de vestido leve e sapatilhas All Star verde-tropa, e os braços magrinhos, despidos, a estenderem as mãos para as camarinhas e a encherem o saco-casaco enquanto ia enfiando algumas na boca e eu só pensava que as camarinhas não estavam lavadas e algum gajo podia ter mijado para cima delas mas não lhe disse nada, continuei a olhá-la, de sorriso na cara, enquanto ela apanhava a sobremesa do jantar daquele dia, até que a vejo a descer a duna a correr, a correr e a gargalhar, contente, feliz, ela era uma miúda muito feliz, que contrabalançava a minha má-disposição quase-permanente, que ela não permitia que eu andasse sempre maldisposto como ando agora, desce a duna a correr, a rir, satisfeita com a vida, vá lá, com o dia, como o dia estava a correr, e passa por mim, passa à frente do carro a correr para atravessar a estrada para o outro lado, cheio de camarinhas, como eu pude comprovar depois, mais tarde, quando fui apanhar o tronco da árvore deitada abaixo e que fui enterrar na areia com um Até um Dia que entalhei com a navalha, quando sinto o sopro de um carro a passar ao meu lado, um carro que chegou do nada, ninguém o viu, eu não o vi, ela não o viu, e que passa assim, como um fantasma ao meu lado, e eu vejo-a a passar à minha frente, a correr, a correr e a rir, com o saco-casaco nas mãos cheio de camarinhas e vejo-a dar mais um passo, um passo fatal, um passo e depois…
Sinto o bater antes ainda de o ver. Sinto o bater seco do carro eléctrico, o carro fantasma que ninguém viu chegar, no corpo frágil dela, e então vejo esse corpo a ser lançado no ar, como se fosse um boneco de trapos, com os membros pendões que a gravidade trata de puxar para baixo. Vejo o carro assustar-se com o embate e virar à esquerda, galgar a berma e bater numa árvore, um pinheiro, que deitou a baixo, não arrancou a raiz, mas cortou o tronco a meio, como mais tarde eu pude confirmar.
Fiquei parado durante algum tempo dentro do carro. Os Talking Heads continuavam a tocar na rádio. Eu estava com as duas mãos no volante. O corpo dela, que tinha visto ser projectado para a frente, como um boneco de trapos, estava caído no chão como um balão sem ar.
Então um grito. Um grito lancinante. Alguém saiu do outro carro que estava virado ao contrário, ainda vi as rodas a girar, a girar e saiu de lá alguém aos gritos. E foi então que despertei, saí do carro, gritei, berrei, corri para ela, agarrei aquele pedaço de corpo desfeito ao colo e chorei, chorei até chegar o carro dos bombeiros não sei quanto tempo depois, e tiveram de me arrancar dela que não queria que a levassem embora…
É treze de Maio. Todos os treze de Maio venho aqui. Aqui a este sítio onde está fixado na areia o tronco com o entalhe Até um Dia, ouço o Once in a Lifetime dos Talkings Heads e vejo-a passear-se lá em cima, nas dunas, a apanhar camarinhas, e a sorrir para mim. Era uma miúda feliz.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/13]

Uma Disputa de Território

Naquela altura devia eu andar pelos meus treze, quatorze anos. Vivíamos numa antiga casa de caseiro de uma quinta feita em retalhos, lá para os lados da Boa Vista, para os antigos donos pagarem as dívidas acumuladas ao longo dos anos enquanto aguardavam a herança familiar. Herança recebida, herança desfeita. Foi tudo para os credores. Os meus pais acabaram por arrendar a antiga casa do caseiro ao homem que a comprou. A casa era grande. Rés-do-chão e primeiro andar. Os quartos em cima e o resto em baixo. Só havia casa-de-banho no rés-do-chão e, durante a noite, usava um penico para fazer xixi que enfiava debaixo da cama. No dia seguinte a minha mãe usava o meu xixi, que misturava com água, para regar as plantas e as hortaliças que se entretinha a plantar e a semear num pequeno terreno, anexo à casa, e que nós utilizávamos em proveito próprio. A minha mãe é que cuidava daquela pequena horta. O meu pai só a regava à noite e aos fins-de-semana durante o Verão. Mas era a minha mãe que fazia quase tudo e tratava de levar à mesa tudo o que retirava de lá.
No tempo em que vivemos naquela casa fora da cidade, tivemos sempre um cão. Na verdade vários cães. Sempre que um morria, vinha outro. Cães rafeiros. Cães que nos davam. Cães que apareciam por lá. Os cães estavam sempre presos à casota por uma corrente. Naquele tempo era assim. Os cães estavam presos. Os cães eram os alarmes das casas isoladas. Sempre que os cães ladravam, já sabíamos que alguma coisa se passava. Os cães chamavam-se todos Bobby.
Um dia também apareceu por lá um gato. E ficou. A minha mãe alimentou-o e o gato acabou por ficar. O gato chamava-se Tareco e tinha mais liberdade que o Bobby. Às vezes até entrava em casa mas a minha mãe não gostava e enxotava-o para a rua.
Aconteceu que em determinada altura, apareceu por lá um gatarrão, gordo, enorme, arraçado de persa, que começou a chatear o Tareco. Não sei se era uma disputa de território mas, a primeira vez que fomos alertados para a guerra despoletada entre eles os dois foi com a chinfrineira que fizeram, engalfinhados um no outro, chinfrineira de tal ordem que o meu pai saiu de casa com a vassoura nas mãos para as eventualidades. E descobrimos os gatos enrolados um no outros e uma nuvem de pêlos a voar. O Tareco ficou com mazelas. Várias peladas no corpo. Algum sangue. E isto começou a acontecer com alguma regularidade. Não sabíamos de onde vinha o gato. Não conhecíamos ninguém com gatos ali perto. E sempre que nos aproximávamos, o gatão fugia. Não sabíamos como enxotar o raio do gatão. O Tareco estava cada vez mais desanimado, com menos pêlo e começou a emagrecer a olhos vistos.
Um dia percebi que o gatão costumava vir das traseiras e contornava a casa antes de atacar o Tareco.
Levei um toro de madeira para lenha que o meu pai ainda não tinha cortado, para o meu quarto. E pus-me a fazer uma espera ao gatão.
Depois de jantar fui para o meu quarto, fiquei à janela e aguardei. Sempre a olhar para o fundo da casa. Mas adormeci. Não sei quanto tempo fiquei ali de guarda à espera do gatão, mas adormeci antes dele chegar. Nem sei se chegou. Mas não ouvi nenhum barulho nessa noite. De manhã desci para tomar o pequeno-almoço e regressei ao quarto. Estava de férias da escola. As férias grandes. Passava as tardes a tomar banho de mangueira em frente à cozinha. Mas naquele dia, naquele dia voltei para o quarto e fui colocar-me à janela. À espera.
Ainda não era meio-dia. Já me chegava lá acima o cheiro do refogado que a minha mãe estava a fazer. Vi o gatão a vir sorrateiro dos fundos da casa. Passar rente à parede. Parar. Olhar em volta. Voltar a andar mais um pouco. Eu peguei no toro de madeira. O gato parou debaixo da minha janela. A olhar à volta. À procura do Tareco. E eu deixei cair o toro de madeira, pela minha janela, que acertou em cheio no gato. Acho que lhe acertou na cabeça. Ouvi um baque seco. O gato ficou lá caído. Eu fiquei debruçado sobre a janela a olhar o gato que não se mexia. O toro de madeira rolou um pouco depois de cair sobre o gato e parou um pouco mais à frente. O gato continuou quieto. Deitado no chão encostado à parece de casa. Devia estar morto. Nunca tinha visto nada morto. E depois, comecei a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/22]