Sem Conseguir Falar

Tudo começou quando ela deu entrada no hospital.
Eu já não sabia dela há vários anos. Embora vivêssemos ambos na mesma cidade, nunca mais nos vimos depois de eu ter saído de casa dela e batido com a porta. Ela ainda escreveu uma enorme mensagem no Messenger. À qual eu respondi. Depois disso fui bloqueado no Facebook. E nunca mais falámos. Nunca mais no cruzámos nas ruas da cidade, mesmo tendo amigos em comum. O destino trabalhou por nós. Separou-nos. E acho que respirámos melhor.
Entretanto ela deu entrada no hospital. Ela deu entrada no hospital e eu fui avisado.
Eu?
Aparentemente eu fui o contacto que ela deu quando deu entrada no hospital.
Eu? Perguntei várias vezes a quem me telefonou a avisar do internamento no serviço de oncologia. Oncologia? Também o perguntei várias vezes. E sim. Não havia erro. Ela dera entrada no serviço de Oncologia do hospital.
Soube depois que ela andou vários dias, talvez semanas, a vomitar toda a comida e bebida que tentava ingerir. Vários dias, talvez semanas, sem se conseguir alimentar. A perder forças. A definhar.
Foi encontrada desmaiada no meio da rua. Estava em cima de um monte de vómito. Não muito. Não muito que ela não tinha nada no estômago. E foi a sorte dela. Ou o azar. Não morreu sufocada no seu próprio vómito. Foi encontrada por um arrumador de carros que telefonou para o cento e doze.
O INEM levou-a para o hospital. Fizeram umas análises. Fizeram uns testes. Fizeram o diagnóstico. Nada que ela já não soubesse. Nada que ela já não adivinhasse. Tentou ignorar. Tentou ignorar o estado em que estava como fazia com tudo o que a incomodava na vida. Ignorava. Ignorava e esperava que desaparecesse. Foi o que vez comigo, também. Ignorou-me. Bloqueou-me no Facebook.
Telefonaram do hospital a dizer que ela estava lá. E então? E então eu era o contacto. Era a mim que ela queria ver no hospital.
E fui lá.
O que levar? O que se leva a quem está no hospital no serviço de Oncologia e sem saber exactamente como é que está quem vamos ver?
Aparentemente, nada. Nada é o melhor que se pode levar.
Quando entrei no quarto ela estava a dormir. Tinha uns tubos a entrar dentro dela. Devia ser soro. Talvez. Ela estava a dormir. Sentei-me ao lado da cama e esperei. Olhei para ela. Não a reconheci. Estava magra. A cara muito seca. Notavam-se os ossos. Mas ainda se percebia que era bonita. Ou que seria bonita noutras condições.
Agarrei no telemóvel e passei pelo Facebook. Passei pelo Instagram. Agarrei-me ao 1010!, e fiquei ali, ao lado da cama dela, a jogar.
E já muito tempo tinha passado, e eu já tinha perdido vários jogos e recomeçado outros tantos, quando ouvi, saída do fundo de um poço, uma vozinha muito frágil e fininha, muito sumida, Olá! e levantei os olhos e cruzei-me com os olhos encovados dela.
Não soube o que dizer.
Fiquei ali, feito parvo, a olhar para ela a olhar para mim, e mesmo depois de ela perguntar Como é que estás? eu não soube o que responder, não consegui responder.
Senti umas lágrimas a caírem-me pelas faces abaixo. Não queria chorar mas não estava a conseguir bloquear-me. Chorei. Agarrei-lhe nas mãos. Agarrei-lhe nas mãos magras e ásperas com força, massajei-as com os meus dedos e continuei em silêncio. Não conseguia falar. E depois tive uma convulsão de choro e chorei em jorro e convulsivamente durante algum tempo. E depois acalmei. Limpei as lágrimas e o ranho com as costas das mãos e respirei fundo, a recuperar a calma. Mas continuei sem falar.
Passaram horas. Depois passaram dias e semanas. Ela começou a fazer quimioterapia e foi enviada para casa.
Eu acompanhei-a a casa. Ajudei-a a instalar-se. Preparei as coisas para os dias mais próximos. E, de repente, parei. Olhei para a rua através da janela da cozinha. Olhei em volta. Reconheci alguns daqueles espaços. Já tinham sido meus, também. Já não eram. Mas eram dela. Eram dela e eu decidi. Decidi que ia ficar ali com ela. Decidi que ia passar por tudo aquilo com ela.
E fiquei.
Até hoje ainda não consegui falar com ela. Ainda não consegui dizer-lhe palavra. Vamos vivendo como conseguimos. Um dia a seguir ao outro.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/18]

Ao Domingo

Naquela época, aos Domingos, eu era o primeiro a levantar-me da cama.
Levantava-me cedo, às vezes tão cedo que havia Domingos em que me levantava ainda quase de noite. Eram dias escuros de Inverno, dias escuros e chuvosos. Mas era sempre eu o primeiro a levantar-me.
Eu levantava-me, aquecia um púcaro com leite. Abria uma carcaça e colocava-a na torradeira. Depois despejava o leite na caneca. Tirava-lhe a nata que ficava a boiar em cima, e juntava-lhe Ovomaltine. Ou era Nesquick, já não tenho a certeza. Barrava manteiga nas torradas e sentava-me na mesa da cozinha, com uma revista de banda-desenhada aberta à minha frente, a comer e a beber. Geralmente deixava cair muitas migalhas à minha volta mas, quando a minha mãe se levantava, e depois de me dar um beijo na cabeça e, invariavelmente dizer-me Lava este cabelo, hoje!, ia buscar a vassoura e uma pá e varria o chão ali à minha volta.
Nessa altura eu ia tomar banho. Lavava o cabelo. Vestia uma roupa domingueira e regressava à cozinha onde ficava a ler bandas-desenhadas até o meu pai estar despachado, de barba feita, banho tomado, vestido e a beber uma caneca com café que a minha mãe já teria feito, e dizer-me Vamos? e nós íamos.
Todos os Domingos, naquela época, eu e o meu pai íamos ver os jogos de futebol das equipas de juniores da União de Leiria. Os jogos eram no campo pelado, ao lado do estádio onde havia o campo relvado onde jogava a equipa principal. Ali, no pelado, jogavam os juniores, os juvenis e os iniciados. Víamos os jogos todos. Às vezes contra o Benfica, o Sporting e o Porto. A União de Leiria tinha, geralmente, boas equipas de miúdos. Os espectadores, nós, estávamos em cima do campo, mesmo atrás dos fiscais-de-linha, que hoje se chamam árbitros assistentes. Mas não havia grandes problemas. Por vezes os jogadores caiam ali, à minha frente, e eu via como os jogadores esfacelavam os joelhos e faziam sangue. Mas não se queixavam. Quer dizer, queixavam-se até o árbitro marcar falta e, depois, estavam já prontos para nova jogada.
Enquanto eu e o meu pai íamos ver os jogos das camadas mais jovens da União de Leiria, a minha mãe ficava em casa, suponho que a fazer o almoço pois, quando chegávamos, a mesa estava posta e o almoço era quase-imediatamente servido.
Nessas manhãs de Domingo encontrava sempre alguns amigos meus a ver também os jogos com os pais deles. Às vezes nós íamos juntos para outro lado do campo e víamos os jogos juntos, como se fôssemos adultos e estivéssemos ali sozinhos a ver o jogo de futebol.
Às vezes essas manhãs eram a primeira parte de um Domingo inteiro cheio de futebol. Depois de almoço a minha mãe já vinha comigo e com o meu pai e íamos ver os jogos da equipa principal da União de Leiria ao estádio Municipal. Levávamos umas almofadas para nos sentarmos um pouco mais confortáveis nas bancadas de pedra onde ficávamos a ver os jogos. A minha mãe gostava tanto ou mais de ver os jogos que o meu pai. Às vezes também a ouvia ralhar com alguém. Ora com um jogador da União, ora com o árbitro, ora com o meu pai por ele estar enervado com alguém que não conhecíamos.
Um dia levantei-me. Estava de chuva. Fazia frio e corria furioso o vento, o vento e a chuva, lá fora, fora das janelas, e eu aqueci o leite e fiz as torradas e tirei a nata ao leite e misturei Ovomaltine (ou seria Nesquick?), barrei manteiga nas torradas e sentei-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada, mas a minha mãe demorou mais que o normal dos outros dias a aparecer e, quando apareceu, não me deu um beijo na cabeça nem disse para eu lavar o cabelo, e vinha a chorar. Nesse dia o meu pai não apareceu. E nunca mais apareceu. Nesse dia não fomos ver os jogos de futebol dos miúdos. E nunca mais fomos.
E a partir desse Domingo, os Domingos nunca mais foram os mesmos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/08]

Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Repito-me

Repito-me.
Não sei se é da velhice ou da senilidade. Eu sou já os dois. Velho e senil. Esqueço-me do que digo e volto a dizê-lo. Esqueço-me do que gosto e deixo de gostar.
Volto a falar do tempo. Que está quente. E frio. E chove. E faz sol. E conto as mesmas histórias. As mesmas histórias de sempre. Contos as mesmas histórias que tenho na cabeça. São as únicas que conheço. São histórias que inventei? ou são histórias que vivi? Perco-me na minha própria existência. Já não sei o que vivi ou inventei. Tento regressar, mas regresso demasiado lá para trás e não consigo perceber o que queria perceber.
Repito-me.
Mostro outra vez The Windmills of Your Mind em versão de Dusty Springfield à rapariga que tenho ao meu lado. Depois percebo que é a minha mulher e que foi assim que meti conversa com ela há… Não sei, mas muitos anos.
E ela abana a cabeça e diz Não era eu! e sorri, um sorriso complacente, um sorriso de quem percebe a minha confusão.
Se não eras tu, quem era? pergunto-me.
Mas não sei que resposta dar-me. Eu tento. Tento buscar lá no fundo de mim os pedaços da minha vida. Eu tento mas não consigo. Talvez amanhã quando não estiver a pensar em nada disto. Talvez quando já não precisar ou não me fizer sentido nenhum.
Repito-me.
Já tive esta conversa, não já?
Acendo um cigarro. Ela diz Já não fumas! e eu tusso e percebo que ela tem razão. Sinto um ataque de asma. Tusso outra vez. Tento puxar ar para os pulmões que parecem fechar-se aos meus desejos.
Olho para ela inquisidor e ouço São do teu filho.
Eu tenho um filho?
Eu sou pai?
Não sou eu o filho?
Olho em volta. Vejo a janela. Quero ir à janela. Levanto-me. Não. Tento levantar-me. Empurro o meu corpo para cima. Com os braços a impelirem-me da cadeira. Tento empurrar o meu corpo. Não consigo levantar-me. Estou preso. Estou preso numa cadeira-de-rodas. Na minha cadeira-de-rodas.
Ela levanta-se agarra na cadeira e empurra-me até à varanda. Leva-me lá para fora.
E eu vejo a rua. As pessoas a caminharem ao longo da rua. As pessoas a conversar enquanto caminham. Uns correm. Jovens. Jovens de manga curta. E eu sinto um arrepio de frio nas costas. E sinto as lágrimas que escorrem pela cara. Mas nem chorar consigo. O melhor que faço é deixar cair as lágrimas.
Sinto a mão dela no meu ombro.
Repito-me, não é?
Queria repetir o primeiro beijo. A primeira mão transpirada na mão. A primeira noite. Mas isso não repito.
Já chorei antes, não já?
Sou um esquecimento.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/02]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]

Às Vezes Desejo Ser o Mr. Blonde

Penso que o grande problema com que nos deparamos nos dias de hoje é a ausência de empatia. Não nos conseguimos aproximar dos outros de uma forma gratuita. Ou há um interesse efectivo ou simplesmente criamos uma barreira de arame-farpado que impede de nos aproximarmos uns-dos-outros.
Vivemos numa era antropoceno-narcísica. Ou eu ou nada.
Estávamos os dois sentados à secretária. Um de cada lado. A secretária era dele então, na verdade, ele estava sentado à secretária e eu sentei-me lá em frente para lhe pedir ajuda. Mas enquanto eu estava sentado muito direito na ponta da cadeira, sem tocar com as costas nas costas da cadeira, ele estava refastelado na sua cadeira, sentado com o cóccix e com as mãos cruzadas em cima da barriga e os dedos grossos a tamborilarem uns nos outros, à espera.
Ele estava em silêncio. Eu também.
Ele aguardava que eu dissesse alguma coisa depois do que me tinha dito. A bola estava então do meu lado. Mas eu não sabia o que lhe dizer. Estava tão irritado que, na verdade, apetecia-me saltar-lhe para cima e desatar a dar-lhe murros na cabeça. Eu que até sou um tipo pacífico!
Estava ali sentado a olhar para o tipo, chefe da sua pequena ilha-secretária onde punha e dispunha a forma como interpretava as leis, as regras e as normas da sua empresa, uma empresa que eu tinha de utilizar, que remédio!, sem se preocupar com as mazelas que criava a quem dava a informação da forma como a dava. A mim. E o problema nem era a informação que ele dava, existem regras e, para que as coisas funcionem, temos de as cumprir, até aí tudo bem, sou a favor das regras para que nos entendamos e consigamos viver em conjunto, em sociedade, mas era a forma como ele dava a informação, disparada assim à queima-roupa, como se eu fosse uma lagartixa a quem ele podia cortar a cabeça quando quisesse só porque o podia fazer. Cuspia a informação e ainda me chamava burro por não ter conhecimento prévio da informação que me estava a dar. Tinha-me informado e, acto contínuo, recostou-se na cadeira, à espera do efeito do que me tinha dito. Encostou-se na cadeira, a tamborilar os dedos grossos, uns-nos-outros, à espera. O tipo podia ter usado bom-senso. Até porque a informação que me estava a dar tinha consequências graves para mim. Um pouco de bom-senso ajuda a sentirmo-nos humanos e não um monte de esterco. Mas não, eu senti o prazer na cara do tipo. Um pequeno e quase imperceptível sorriso nos lábios. E eu então imaginei-me o Mr. Blonde, ali a dançar frente ao tipo, esparramado na sua cadeira de pequeno-chefe, imaginei-me aproximar-me dele e cortar-lhe uma orelha com o canivete-suíço com que ando sempre na mochila e que não me tem servido para nada na vida.
Ainda me ouvi trautear Stuck in the Middle with You dos Stealers Wheel, vi-me levantar da cadeira onde me sentia desconfortável e começar a dançar frente à secretária, frente a ele, de canivete-suíço na mão, a língua a molhar os lábios, antecipando o prazer da lâmina a cortar-lhe a orelha e o sangue jorrar para cima dele, e os gritos, o medo, o choro, acho que ainda o ouvi chamar pela mamã, mas isso foi só tudo imaginação minha.
Levantei-me da cadeira com vontade de dizer Vai à merda, pá! mas a única coisa que fui capaz de fazer foi agradecer a informação, Obrigado! disse enquanto me levantava da cadeira e pendurava a mochila às costas com o canivete-suíço ainda na bolsa exterior sem continuar a ser-me útil.
Quando cheguei à rua vi que ainda tinha a senha com o número de atendimento na mão, enroladinha muito fininha como um fio de esparguete. Olhei pelo vidro da montra e vi o tipo já com outra pessoa à frente e a deixar-se deslizar para trás na cadeira, na sua pose de espera quanto a vítima digere a informação dada.
Deixei cair o papel no chão. Acendi um cigarro. E pensei em como alguns de nós gostam de ser chefes, de mandar, de ter algum poder, por mais pequeno que seja, sobre os outros. E deu-me vontade de vomitar. Não vomitei. Segui pela rua fora a fumar o cigarro e a pensar no meu canivete-suíço. E foi nessa altura que me lembrei que tinha uma faca de mato de quando era escuteiro. Estava em casa e precisava de ser afiada.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/24]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]