O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

A Culpa Não Morre Solteira

Estávamos os dois ali assim, parados, um frente ao outro. Eu olhava-o, mas não o via. Estava a tentar perceber. Estava ainda a tentar perceber o que tinha acontecido. Ele olhava-me de baixo para cima. O focinho virado para baixo, para chão, e os olhos revirados para cima, a tentar ver-me, com medo mas a tentar ver-me, a tentar perceber o que é que eu iria fazer. Ele sabia que tinha feito asneira.
Eu agarrava a mão com a outra mão. Tinha sangue na camisola, nas calças, nas botas. Havia sangue espalhado à minha volta. A mão estava aberta. Ainda não me tinha começado a doer muito. A doer a sério. Estava ainda um bocado sem perceber muito bem o que tinha acontecido. Só sabia que a culpa era minha. Não era dele. Era minha. O tempo tinha parado. Parado naquele momento de loucura momentânea. Para ele e para mim. Aquele momento pareceu uma eternidade. A olharmo-nos. Um ao outro. A zanga. A fúria. O medo.
E então, começou a doer-me. A doer-me bastante. Acordei. Vi-o. Ele estava à minha frente. A olhar para mim. Eu estava do outro lado do olhar dele. Uma mão agarrava a outra. Rasgada. Quase cortada à dentada. O sangue a jorrar. A dor. Então, sim. Finalmente. A dor. A dor a sério.
Ele estava com fome. Há três dias que estava preso pela corrente à casota. Há três dias que não tinha comida. Há três dias que ia juntando merda ali à volta da casota, até onde a corrente o deixava ir. Há não-sei-quanto-tempo sem água. Há três dias que uma miúda – miúda! uma gaja!… – me levou não-sei-para-onde, e me deu não-sei-o-quê, e estivemos por lá, onde quer que tenha sido esse lá, sem sair de onde estávamos, a fazer tudo o que duas pessoas podem e conseguem fazer quando estão sozinhas não-sei-onde, até que me lembrei do cão. O cão! Tenho de ir dar comida ao cão! E foi então que regressei.
E então, percebi.
Acho que ele estava zangado comigo. E com razão. Acho que estava com fome. E sede. E quando me viu chegar, quando me percebeu ali, de regresso, ali ao pé dele, ali, na zona de exclusão da sua corrente, saltou para cima de mim e ferrou-me os dentes. Ferrou-me os dentes onde me apanhou primeiro. Na mão. Na mão porque foi o que encontrou. Foi a primeira coisa a que conseguiu deitar os dentes. Ferrou os dentes na minha mão e puxou. E eu puxei numa tentativa vã de a fazer soltar. E este conflito de puxar para um lado e para outro quase que me fazia ficar sem mão. E então ele percebeu. Percebeu quem eu era. Percebeu o que estava a fazer. Percebeu que não devia ter feito o que fez. E abriu a boca. Retirou os dentes. Permitiu que eu retirasse a mão. Mesmo com ela rasgada e a deitar sangue para cima de mim, para cima dele, para o chão. E agarrei-a com a outra mão.
A culpa não era dele. A culpa era minha. Eu é que tinha faltado. Eu é que tinha cometido o erro.
Virei costas e voltei a casa. A deixar um rasto de sangue pelo caminho.
O cão ficou lá junto à casota. Encolhido ao lado da casota. O rabo entre as pernas. As orelhas para baixo.
Entrei em casa e procurei um pano. Procurei na gaveta dos panos de cozinha. Agarrei num e atei-o à volta da mão, numa tentativa de estancar o sangue. Precisava de pontos.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Meti a mão boa no fundo do armário e agarrei na caçadeira. Abri a gaveta e apanhei dois cartuchos. Coloquei-os na arma. Fechei o cano. Saí do quarto. Saí de casa. Voltei à casota.
A culpa era minha. Não era dele.
Pensei que teria de apanhar os cagalhões do cão e de lavar tudo à mangueirada. Estava tudo cheio de mijo. Cheirava mal. Tudo cheirava mal. Ele cheirava mal. Até eu parecia cheirar mal.
Aproximei-me do cão. Apontei a caçadeira.
A culpa era minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/25]

Sinto o Peso do Revólver

 

 

Sinto o peso do revólver na mão. É pesado. A mão está transpirada e ele parece querer fugir.
Lá em cima, duas águias a planar. Acho que são águias. Estão muito alto. Lá muito em cima. E não consigo vê-las muito bem. Mas andam aqui à volta. A rondar.
Já fomos amigos!, oiço dizer. Já me tinha esquecido dele. Estava ali à minha frente.
Já fomos amigos!, repete.
Sim, fomos amigos, pensei. E olha onde isto nos trouxe.
Olho para ele ali à minha frente. A sangrar. Os joelhos partidos e a sangrar.
Sim, já fomos amigos. Mas não serviu de nada. Nunca serve de nada. Amigos ou não, o que conta é o fim. E para esse fim há que escolher meios. Há quem não olhe aos meios.
Já não sei porque é que estamos aqui. Já não sei o que quero fazer. Já não sei para que é tudo isto.
As águias, e continuo a achar que são águias, estão aqui por cima às voltas. São bonitas. Imponentes. Gostava de ser uma águia. Gostava de ser uma águia e não ter problemas de sociabilidade. De amizade. Problemas.
Porque é que estás a fazer isto?, pergunta.
E eu já não sei. Ou sei, mas não quero pensar mais nisso. Cansa-me.
Olho para ele. Lembro-me. Lembro-me de tudo. Lembro-me de termos sido amigos. E lembro-me de quando tudo se perdeu. Sei exactamente porquê.
Mas não quero pensar nisso.
Olho para ele e vejo-lhe o medo no rosto. O terror.
Cheira mal. Ele acabou de se borrar.
Sinto o peso do revólver. Olho para ele. Ergo-o. Ergo-o à altura da minha cara. Estou a transpirar. Enfio o revólver na boca. Sinto o sabor amargo do metal. Bate-me nos dentes. Magoa-me. A língua fica sem espaço. Não consigo respirar.
E disparo.
Sinto a bala a sair pelo cano do revólver, a entrar na boca, queimar a língua, furar o céu da boca e entrar na cabeça, estilhaçar os miolos e sair pelo coruto.
Caio para trás. Vejo lá no alto as duas águias a planar. Acho que são águias. E ouço-o gritar. Não percebo o que diz. Talvez não diga nada. Talvez seja só um grito.
E pensar que já fomos amigos.
Como é que chegámos aqui?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/12]