Na Livraria

Houve uma época em que trabalhei numa livraria. Foi uma época de que gostei especialmente, não tanto pelo trabalho, mas por estar rodeado de livros.
Gostava de cheirá-los. Ler as contracapas, mesmo as dos livros que à partida não me interessavam. Folheá-lhos. Pegar neles e ser o primeiro a roubar-lhes a frescura da novidade.
Havia dias em que agarrava um livro, um livro qualquer, um livro que nem sabia o que era, mas que me agarrava, o livro agarrava-me a mim, e eu esquecia onde estava. Esquecia a loja, os outros livros, o trabalho, os clientes. Nem ouvia as pessoas entrar na loja e quando chegavam e me dirigiam a palavra, irritava-me com elas por me interromperem a leitura e chegava a mandá-las Para o caralho, pá! E depois pedia a um dos meus colegas que atendessem aquela, aquelas, pessoas, que eu estava num mundo de onde não podia ser arrancado assim, a frio, daquela maneira tão bruta e estúpida.
Ler era litúrgico.
Havia dias em que as noites eram passadas lá, na livraria. Saía à hora de sair. Jantava, normalmente um jantar leve. Comprava uma garrafa de vinho. Fumava logo dois ou três cigarros depois de jantar para não fumar na livraria, e regressava ao meu local de trabalho, com a garrafa de vinho, e lia o que apanhava à frente. Lia e bebia. Lia mais que bebia. Havia sempre mais que ler que beber. A garrafa era só uma. Normalmente despejava-se depressa. Mas os livros, os livros duravam a noite inteira. Intercalava-os. Misturava leituras. Romance. Banda-desenhada. Policiais. Poesia. Ensaios. Era assim que aguentava as noites sem adormecer. A saltar de um livro para outro. De uma história para outra.
Tinha muito cuidado com os livros que manuseava. No dia seguinte tinham de seguir intactos para as mãos dos novos donos que pensavam estar a adquirir um livro ainda virgem. Se soubessem… Se soubessem o que lhes acontecia durante as longas noites naquelas prateleiras onde navegavam mãos ávidas de agarrar estórias fantásticas escritas por mentes de deuses extraordinários…
Tudo isto terminou numa noite de Verão, está a fazer por esta altura uns bons anos, quando o dono da livraria, que não me conhecia, eu tinha sido contratado pelo gerente de loja, me encontrou, deitado no chão de um dos corredores da ficção internacional a ler o Aleph do Borges e, num acto heróico de uma novela da Corín Tellado, sacou de um canivete que usava para cortar os charutos, espetou-mo na barriga, abriu-me um rasgão que me fez verter sangue para cima da pilha de livros novos que tinha ali ao lado para ler, ainda me lembro que eram A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt, Todo-o-Mundo do Philip Roth, O Homem do Castelo Alto do Philip K. Dick, Histórias de Cronópios e de Famas do Julio Cortázar, Poemas Quotidianos do António Reis, Eliete da Dulce Maria Cardoso e o Homo Deus do israelita de quem esqueço sempre o nome, raios-me-partam a memória que já não é o que era, e sobre os quais acabei por cair, desmaiado, não pelo rasgão que não foi assim tão grande quanto isso, mas pelo sangue do qual nunca fui grande amigo e cada vez que o vejo fico agoniado, dá-me a volta ao estômago e à cabeça, normalmente vomito, naquela noite desmaiei.
O dono chamou a polícia. O INEM. Eu fui levado para o hospital. Guardado por um agente.
Fiquei dois dias internado. Sem nada para ler. Fiz o meu depoimento. O dono da livraria acabou por perceber que era meu patrão. Despediu-me logo de seguida. Nem direito a indemnização tive. Tens sorte que retire a queixa e não te faço pagar os livros que estragaste com o sangue, disse-me.
Quando saí do hospital, não sabia o que fazer. Estava sem trabalho, sem casa e sem dinheiro. E sem livros para ler.
Acabei por arranjar trabalho no Continente, como repositor de lineares. Mas evitava passar pela zona dos livros. Achava um crime a forma como os livros eram tratados no supermercado. Eram atirados para ali. Não havia ordem. Não havia amor. Estavam assim ao monte. Eram uma mera mercadoria. À espera de serem levados por gente que não ligava a livros. Gente que tinha prateleiras em casa para encher. O livro era um bibelot. E isso, isso eu não conseguia aguentar.
Depois disso deixei de ler livros. Nos últimos anos comecei a escrever e comecei a ler o que escrevo. Há dias, de noite, porque eu gosto muito de ler à noite, que me sinto Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/23]

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Algo Está a Acontecer na Cidade

Acordo debaixo de um pinheiro manso frente à Câmara Municipal de Leiria.
Não sei o que é que estou aqui a fazer.
Estou enrolado em mim. Encostado ao tronco do pinheiro. Estico-me. Faço-me crescer. Endireito-me. Sento-me no pequeno muro que serve de vaso gigante e moldura paisagista ao pinheiro, desço os pés até ao chão e piso aqueles pequenos cubinhos da calçada portuguesa.
Olho em frente para o edifício da Câmara. E penso O que é isto? E acendo um cigarro. Tossico um bocado quando o fumo me invade os pulmões. E vejo o edifício da Câmara rasgar ao meio como uma folha de papel.
Levanto-me do muro e sigo para a minha direita, para o centro da cidade. Para o centro histórico da cidade. Não quero que pensem que tenho algo a ver com o declínio do edifício camarário.
Na Rua Machado dos Santos olho o semáforo e está verde para peões. Cruzo a passadeira para o outro lado.
Atrás de mim ouço o som de um carro a acelerar, potente, próximo, e depois um baque seco. Viro-me e ainda vejo um corpo a voar pelo ar e a cair, lento, no asfalto, a esguichar sangue, enquanto, ao fundo, o carro se afasta a alta velocidade.
Continuo em frente, para a Rua Mártires da Pátria, mas desvio no último momento e desço a Rua de Alcobaça. Começa a chover e o piso fica escorregadio. Mando fora a beata do cigarro e vou com cuidado.
Vejo, à minha frente, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Vejo, à minha frente, a mulher escorregar e cair e o carrinho de bebé arrancar, rápido, passeio fora. Lá de dentro, do carrinho, vem o choro de um bebé.
Passo pela mulher que continua caída no chão com um pé partido, um osso de fora, e continuo em frente. Chego ao Largo Cândido dos Reis e reparo, ao fundo, caído atrás de uma laranjeira, o carrinho de bebé, torto, partido, virado ao contrário, com uma roda pequenina a girar nhec-nhec-nhec e, do bebé, não ouço nada.
Passo por ele e desvio o olhar. Continuo em frente, sempre em frente, e entro na Rua Barão de Viamonte. Deixo o Terreiro para trás e ganho a Rua Direita. Todas as cidades têm uma. Ficam sempre no centro histórico. São sempre tortas. E cheiram sempre a mijo.
A rua é sombria. Estreita, sinuosa e sombria. O sol fica lá no alto, não entra cá em baixo. Há zonas que me assustam. Ouço barulhos, mas continuo. Olho para trás, mas vou perdendo o olhar, vou perdendo a rua nas suas curvas. Cruzo-me com cadáveres. Putas. Homens gordos, de fato e gravata, dedos grossos e sebosos a segurarem enormes charutos mal-cheirosos com notas de euro a caírem-lhes dos bolsos do fato, a olharem para as janelas de onde se lançam homens e mulheres frágeis. Não morrem porque a altura é curta. Não chega para o suicídio. O suicídio tem caderno de encargos próprio. Mas partem pernas e braços e cabeças. Um homem morre porque parte o pescoço.
Começo a correr. Quero sair da rua Direita depressa. Com urgência. Estou com medo. Com medo dos homens gordos, do suicídio, da rua.
Chego ao Largo da Sé. E olho para a Sé. E não a vejo. O largo está cheio de carros. Carros, carros, carros. Não consigo ver a Sé, a fachada da Sé, a torre da Sé. Só vejo carros. Carros estacionados, carros a circular, carros a arder. Um carro levanta voo.
Então ouço. Ouço as badaladas das… Das quantas? Que horas são? Estou na Sé? Porque é que só há carros aqui?
Quero acordar. Por favor, quero acordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/04]