Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

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Bella Poeta Guerra Buenos Aires El Tango e El Mar

Estava parado num meio de uma estrada de asfalto, onde por estes dias não passam lá carros, a olhar para um ecran onde vocalistas virtuais ensaiavam cantar canções que afinal não passavam de playback para gravar as imagens vídeo a serem projectadas nos espectáculos ao vivo onde não iriam estar.
Ia bebendo uma cerveja de um copo de plástico, mas reciclável. Acendi um cigarro. Tentei. Tentei acender. Começou a chover. Este é o Verão da chuva, do frio, do mau tempo e da gripe que não me deixa em paz. Os primeiros pingos de chuva caíram em cheio no cigarro. Já não se iria acender. Muito menos deixar-se fumar. Deitei-o fora.
E agora? O que faço agora?
Corri de regresso ao carro. Precisava de fugir da chuva.
Parei debaixo de um beiral um pouco mais largo para recuperar fôlego. Encostei-me à parede. Descansei. Olhei para a luz do candeeiro público e percebi que a fúria aguaceira poderia estar de passagem. A chuva que caía era menos intensa. Aguardei.
Recuperei fôlego. Acendi um cigarro. E disse, sonoro, mas para mim Se no fim do cigarro estiver a chover menos, volto para trás, não regresso já ao carro, e vou ao concerto.
Fumei o cigarro. A chuva, que não tinha parado completamente, era uns pingos leves como flocos de neve vistos no contra-luz do candeeiro público que estava à minha frente. E decidi Vou ao concerto e seja o que Deus quiser!.
E fui.
Desci à vala. Estava bem composta. Quase cheia. O palco inundado. O PA coberto com manga plástica. Virei-me para o lado e perguntei Vai haver concerto? e o lado respondeu-me Claro, pá! Há sempre concerto! Toca aí uma! e passou-se um charro. Dei um bafo. Acabei a dar dois. Devolvi-o à precedência e disse Obrigado! e o tipo acenou com a cabeça.
Lá em baixo, no palco, um rapaz passeava-se com um balde e uma esfregona a tentar secar o que estava molhado. Por vezes o público batia-lhe palmas. Ele respondia com uma vénia. Às vezes imitava um pequeno passe de bailado. Tinha piada, o miúdo. Ainda lhe pediram para dançar. Ele recusou, envergonhado. Mas ainda ofereceu um jogo de troca de mãos nos joelhos das pernas. O público foi ao delírio.
O palco estava seco. Já não chovia. Levantaram a teia do palco. Retiraram a manga plástica de cima do PA e dos instrumentos. Chegaram os músicos. Cegou a voz. E começou. Começou a viagem.
Eu entrei no buraco da minhoca directamente para a Aula Magna. Outro tempo. Outro lugar.
Eu era jovem. Acabado de sair da adolescência. Cabelos compridos. Com caracóis. Os caracóis onde as miúdas gostavam de enfiar os dedos enquanto me sussurravam ao ouvido palavras que não repito. Magro. De barba rala e sem brancos de espécie alguma em nenhuma parte do corpo. Fugia das chinesas e dos cachimbos. Das seringas. Dos selos miniatura. Fugia de tudo aquilo que ia fazendo cair quem comigo estava e ia deixando de estar até eu ficar sozinho, eu, eu sozinho e a banda a tocar só para mim. E a voz dizia-me Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E regressei. Regressei ao meu tempo. Cabelos curtos. Já sem caracóis. Já sem os dedos das miúdas e os seus sussurros a prometerem-me a Lua. Com brancos na barba, comprida, mas muito mal semeada. A barriga proeminente salientada pela t-shirt apertada mas de uma banda cool, A respiração pesada. Um cigarro na ponta dos dedos. Sozinho, ainda e sempre, em frente à banda. A ouvir a voz, que me repetia, como à trinta anos, Avanti Marinaio, Life Is Not a Crime, Bella, Poeta, Guerra, Buenos Aires, El Tango e El Mar.
E enquanto ouvia, sentia. E pensava naqueles infelizes que me dizem que é impossível viajar no tempo. Esses nunca tiveram dezoito anos. Esses já nasceram velhos. Velhos e mortos.
No resto da noite não voltou a chover. Quando regressei ao carro, passei duas horas à procura dele. Só o encontrei quando era o único na eira. E nessa altura já não me apetecia voltar a casa. Peguei num cigarro. Sentei-me no capot e fiquei ali a fumar até o dia nascer. Depois fui beber um café e comer um croissant folhado como quando tinha dezoito anos e entrava na Bénard e achava que era fixe ser fixe.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/11]

Sonhos Pop

Estou sentado num banco de tábua corrida frente a uma mesa de madeira numa espécie de esplanada, improvisada, na aldeia de Cem Soldos. A aldeia está sitiada e, para cá entrar, é necessário uma pulseira neo-hippie a caminho do Senhor-do-Bonfim-da-Bahia com um chip a fazer de medalhão. É o chip que permite beber cerveja e comprar o pão com chouriço e caldo verde. Faz lembrar, ainda que vagamente, as famosas senhas comunistas que já estavam preparadas, ali para os lados de Alcobaça, durante o Verão Quente de ‘75 (é possível que a historia não seja assim, mas é assim que a minha memória se lembra destas histórias dos anos ‘70).
Aqui em Cem Soldos, o último reduto dos homens com rabo de cavalo – não sabia que havia ainda tanto resistente da moda mais pirosa dos anos ‘80 do século passado – o Festival não é um Festival. É um sítio de boa disposição e tranquilidade onde os concertos se sucedem mas as pessoas dirigem-se para eles tranquilamente sem o histerismo de querer correr para a barreira da frente para junto dos seus ídolos. Aqui ouve-se a música, os berros das criancinhas mais chatas e as conversas pueris de jovens adolescentes que se enganaram no Festival mas riem, à perdição, dos gajos com rabo de cavalo.
A faixa etária é muito heterogénea. Adolescentes e velhotes. Criancinhas ao colo dos pais e bebés em carrinho. Pais divorciados de fim-de-semana com os filhos. Adolescentes. Namorados. Amantes. Músicos. Emigrantes. Há de tudo, aqui.
Estou sentado a beber uma cerveja e a fumar um cigarro. Pego no livro que trouxe, Blow Up e Outras Histórias de Julio Cortázar, edição de bolso da Europa-America, mas não consigo chegar a ler uma linha. Pariu a galega mais a norte. Deve ter acabado algum concerto a que não fui e que acabou agora. Vem gente em magotes. As raparigas vêm vaporosas. De costas despidas e queimadas. Não nas praias do Oeste, com certeza, que o Verão ainda não chegou a estes lados. Os rapazes vêm de calções. Muita gente a fumar. Sinto-me acompanhado.
Começo a pensar o que aconteceria se começasse a chover. O tempo está instável. Sol mas com nuvens muito escuras. Vento forte. Se começasse a chover o que é que aconteceria? Para onde iria toda esta gente? Estamos longe de tudo o que seja cobertura. Aqui não há centros comerciais.
Penso em mim. Na minha bronquite. Nas dores de costas. Na dor de cabeça. Na minha má-disposição crónica. Não podia ficar à chuva. Para onde iria?
Já é tarde. O dia já se foi. A noite instalou-se. Já ocorreram vários concertos. Os Pop dell’Arte são agora já a seguir. Vim cá para isso. Vim cá para ver o João Peste e os Pop dell’Arte. Esqueço as miúdas giras e os rapazes com pinta e arranco para o concerto que fica lá em baixo, na vala. Não há Wi-Fi na vala. Vou ficar fora da vida. Não sei como vou suportar este afastamento digital.
Passa um puto com não mais de dezoito anos a fumar um charro. O cheiro entra-me pelas narinas. Viro-me para ele e digo Oh, pá! Dás-me uma passa? e o puto vira-se para mim, faz aquele ar de seca o-que-é-que-quer-o-velho?, mas passa-me o charro para a mão. Ponho as mãos em concha e o charro espetado nos dedos, para o puto não ficar com nojo de mim, e mando duas ou três baforadas bem fortes. Devolvo o charro. Agradeço com um sorriso enorme e sinto-me pronto para os meus Sonhos Pop.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/10]

Flávio com F de Folha

Três dias a tomar Nimed não me arrasaram o fígado, mas trouxeram-me de volta a bronquite. O Xoterna já não me defende. O Ventilan já quase não funciona como s.o.s.. Mando várias bombadas na tentativa de abrir os pulmões. Mas parece que estão cada vez mais fechados. Levo cada vez mais, menos ar aos pulmões que parece que estão cheios de outra coisa que não ar. Faço uma grande barulheira a respirar. Parece que tenho um saco de gatos no peito. O coração bate rápido e parece querer saltar para fora. Talvez saia pela boca junto com um vómito. Estou cansado. Parece que acabei de correr a maratona. Tenho de me agarrar à parede enquanto caminho para o carro. Tenho de sair de casa.
Sento-me no carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Doem-me as costas. O Nimed não resolveu o assunto. E tive de parar por causa da bronquite. Hoje tomei um Voltaren. Encosto-me direito no banco. Descanso. Estico as costas. Recupero o ritmo da respiração. Mas continua muito acelerada. Tento não virar nem dobrar as costas. Ligo o rádio.
Na rádio informam que há um grande incêndio activo em São Bartolomeu de Messines. Cada vez que ouço falar em São Bartolomeu de Messines lembro-me dos Flávio com F de Folha (mais tarde Supernova) o melhor nome de banda que alguma vez existiu.
Ali para os lados das serras d’Aire e dos Candeeiros também se vêem umas colunas de fumo. Há fogo, provavelmente. O país é para queimar. Burn bitch, burn!
Tenho de ir a casa da minha mãe. Prometi aspirar-lhe a casa. Provavelmente não devia lá ir. Não devia mexer com pó. Não devia agarrar no aspirador. Não devia baixar-me. Mas prometi.
Agarro o volante e espero. Espero estar em condições para arrancar com o carro. Olho para o braço. Está cheio de borbulhas. Parecem bolhas de água, mas não são. Isto é alergia ao calor. Tenho de tomar um Zyrtec. Quando voltar. Tenho os comprimidos em casa. Ainda posso voltar atrás. Vou voltar atrás. Preciso só de descansar um pouco.
Na rádio ouço alguém dizer que o Kit de Incêndio distribuído às populações das Aldeias Seguras é afinal um brinquedo para ajudar na prevenção. Acho que anda alguém a brincar com isto tudo.
Acabo por sair do carro. Regresso a casa. Tomo um Zyrtec. Abro o frigorífico e empurro o comprimido com água directamente de uma garrafa. Gosto de água fria. Gelada. Mesmo de Inverno. Sinto o corpo estranho. Doem-me os olhos. Acho que me dói tudo. Ultimamente dói-me tudo. Devo estar a chocar alguma. Agarro na caixa de Antigrippine e tomo dois comprimidos. Bebo mais um gole de água. Vou a sair de casa. Abro a porta da rua mas volto a fechá-la. Tenho de me prevenir. Agarro num copo. Verto água fria lá para dentro e mando-lhe com uma Cecrisina. Olho enquanto se desfaz. Vejo as borbulhinhas a explodir para fora do copo. Molha-me a cara com gotas minúsculas. Quando está toda diluída e a água cor-de-laranja, bebo tudo de um gole. Gosto do sabor da Cecrisina.
Agora sim, saio de casa. Vou amparado à parede até ao carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Agarro no volante e espero que a respiração acalme. Descanso. Penso que não devia ir a casa da minha mãe. Penso que devia ir para a cama. Enfiar-me debaixo do edredão de Verão e esperar até estar outra vez bem. Sim, porque tudo acaba sempre por passar. Mas não posso. Não posso não ir a casa da minha mãe depois de lhe ter dito que ia lá. Tenho de ir aspirar a casa dela.
Estou cansado. O país está a arder. Os ministros respondem mal às pessoas. Já não sei que comprimidos tomei. Já não sei que mais comprimidos podia tomar para ficar melhor. Se calhar devia fumar um charro. Talvez me acalmasse. E então, volto a pensar de novo nos Flávio com F de Folha e penso Porque raio é que as coisas boas acabam tão depressa? Agarro o volante e espero acalmar. Se melhorar, hoje vou ver um concerto do Zé Café & Guida. Tenho de viver o meu Verão. Enquanto estou vivo.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/26]

Ainda Aqui Estou à Espera, a Salivar

Era novo.
Tinha dezasseis anos. Dezoito. Vinte. Finquei os pés no chão. Queria o que queria. E ia fazer tudo pelo que queria.
Fartei de correr. Agarrei com unhas e dentes. Parti dedos. Feri a boca. Sangrei o coração. Desloquei o maxilar. Insisti.
Entre o tempo, os dias magros de chuva miudinha e as noites negras, de lâmpadas fundidas, passei muito tempo no Estádio. Sentado solitário a uma mesa cheia de gente no meio de outras mesas. Outras mesas todas cheias de gente. Sempre muita gente.
A cabeça pendente sobre o peito. A enrolar um cigarro. A enrolar um charro. A agarrar uma média Sagres. A beber pela garrafa. Nunca beber imperial no Estádio. Nunca.
Entrava lá sossegado. Silencioso. Na companhia das mulheres do bairro que ainda restavam por ali, àquelas horas vespertinas. Ainda tão cedo e vazio que ouvia o eco da minha voz quando pedia, de forma sonora, uma cerveja. Um brandy Croft quando mais abonado de dinheiro. Macieira quando as coisas corriam mal. E tanto que elas corriam mal.
De tempos-em-tempo, um renovar de esperança. Um recomeço. O corpo a perder a postura do falhanço. Re-crescia centímetros. Os que tinha perdido. Voltava a ser gente. Voltava a ser grande. Enorme. O mundo era meu e estava pronto para o devorar.
Mas…
Estou velho.
Já tenho… Já nem sei quantos anos tenho. Muitos, com certeza. Perdi-lhes a conta.
O Estádio já não existe. Já não se fuma nos sítios onde perdemos as horas da nossa vida. Nem eu fumo já. Nem cigarros, nem charros. Troquei a cerveja, o brandy Croft e a Macieira pelo copo de vinho. Copo de vinho tinto. Que pode ser de pacote. Capataz. Cinco euros a caixa de cinco litros.
Já não corro. A bronquite não mo permite. Já não tenho dedos. Parti-os todos a tentar subir a parede do El Capitán. Os dentes comi-os. Tinha fome.
Já não quero ir a lado nenhum. Já não quero ser nada. Já não ambiciono ser nada.
Quero só estar por aqui enquanto por aqui estiver.
E quero estar sossegado. A ver a morte avançar, sorrateira, disfarçada. Cheia de lantejoulas. A ouvir canções em streaming. A ver filmes pirateados. A ler PDF’s de livros cheios de direitos de autor e de herdeiros. A olhar de esguelha para as notícias na televisão. As notícias banais de gente banal a morrer de forma tão banal. E eu com a língua de fora. Como os cães. A salivar.
E ainda aqui estou. À espera. A salivar.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/22]

O Homem que Vivia Duas Vidas

Naquele tempo eu vivia num pequeno quarto acanhado na Estrada de Benfica, ali para os lados do Arabesco.
Era um quarto assim mais para o comprido e muito estreito. Na verdade, o quarto era metade de uma antiga sala que o senhorio dividiu para poder alugar quartos a estudantes. A gajos assim como eu sem dinheiro para grandes mordomias.
A cama, que na verdade era um divã, ficava num canto sobre o comprido do quarto, com a cabeceira encostada à parede da rua. Isto era num rés-do-chão. Às vezes parecia que as pessoas que passavam na rua estavam dentro do meu quarto, dentro da minha cama, dentro de mim.
Aos pés da cama tinha uma pequena secretária com um banco que enfiava todos os dias debaixo da secretária. Ao lado da secretária, a caminho da porta do quarto, um pequeno baú onde guardava as cuecas e as meias. O resto da roupa estava empilhada em cima da secretária e encostada à parede do outro lado do quarto. As pilhas de roupa faziam companhia às pilhas de livros. Debaixo da cama tinha um cinzeiro. Estava sempre a limpar o cinzeiro. Não gostava do cheiro do tabaco frio. Fumava na cama. E não gostava de fumar na cama. Mas o meu quarto também era a minha sala. A alternativa era ir fumar para a cozinha. Mas aí tinha de partilhar espaço e conversa com os outros inquilinos da casa e o senhorio que, durante a semana, vivia lá. Ao fim-de-semana ia não-sei-para-onde. Mas nunca estava lá. Ia embora à Sexta-feira. Voltava no Domingo à noite. Às vezes à Segunda-feira de manhã.
Foi na minha última semana lá em casa que a conheci.
Tinha saído na Sexta-feira à noite. Andei pelo Bairro Alto. Fui ao Estádio. Ninguém conhecido. Agarrei-me aos flippers. Fui gastando as moedas que tinha no bolso. Na última moeda fiz tilt. Fiquei furioso. Dei uma pancada com força na máquina. Esticaram-me um charro e disseram Acalma-te aí, man! Uma voz de rapariga. Era ela. Passei o resto da noite a entrar e sair de portas no Bairro Alto. A bebedeira ainda nos levou ao Cais do Sodré. Mas durámos pouco por lá. Perguntei-lhe Queres vir lá a casa? E ela disse Yeah!.
Subimos a Rua do Alecrim à procura de táxi. Chegámos a casa. Entrámos no quarto. Entrámos na cama que era um divã. Ela ficou com os pés fora da cama. Foi então que me apercebi que ela era grande. Maior que eu.
Adormecemos os dois agarrados um-ao-outro para não tombarmos no chão. Passámos assim o Sábado. Passámos assim o Domingo. Não comemos. Fumámos cigarros e virámos uma garrafa de Brandy Croft que tinha lá debaixo da secretária. Só saíamos do quarto para ir à casa-de-banho.
Eu acabei por arranjar uma vela que acendi para camuflar o cheiro do tabaco. Não era uma vela de cheiro. Acho que nem havia velas de cheiro naquela altura. Ou eu não as conhecia. Era uma vela daquelas para iluminar a casa quando faltava energia. Estava em cima da secretária.
Foi no princípio da noite de Domingo que aconteceu. Estávamos na cama. No divã. Eu estava em cima dela. Dentro dela. Ela estava com os pés fora da cama. Era grande. Maior que eu. E num momento de maior emoção, deu um esticão com as pernas e bateu na secretária. A secretária abanou. Deitou a vela abaixo. Mas a vela não se apagou. Só demos por ela quando nos cheirou a queimado. Eu ergui a cabeça e vi umas pequenas chamas. A secretária estava a arder. Eu levantei-me. Ela levantou-se. Ela saiu pela porta do quarto. Nua. Foi a correr à cozinha. Eu, nu, pus-me a mijar para cima da secretária. Para apagar as chamas. Quando ela voltou para o quarto, nua, com uma tigela com água para despejar na secretária, cruzou-se com o senhorio, que já tinha regressado a casa.
Ela parou à frente dele.
Ele olhou-a admirado.
Eu tinha acabado de mijar sobre as chamas da secretária e olhei para eles os dois.
Ela disse Olá, pai.
Ele disse Olá.
Eu sacudi-me. Ela entrou no quarto e começou a vestir-se. O senhorio virou-se para mim e disse Vais-te embora. Hoje, e voltou para o quarto dele.
Eu senti-me um bocado perdido. Acabei por me vestir, também. Acabei por sair com ela. Entrámos no Viriato, um pequeno restaurante que havia lá ao pé de casa. Sentia-me com muita fome. Ela também. Pedi um bitoque. Ela também. Mas o dela sem ovo. Bebemos cerveja. E, então, ela contou-me.
Aquele homem, o meu senhorio, era o pai dela. Era o pai dela durante os fins-de-semana. Os fins-de-semana que passava lá em casa. Com a mãe. Com o irmão. Durante a semana era suposto andar a viajar. Caixeiro viajante. O pai era representante de uma marca de tintas e passava a vida na estrada a mostrar o produto que vendia. Atender clientes. Dar apoio. Logística. Afinal, era mentira. Afinal durante a semana era senhorio de uma casa onde alugava quartos a jovens estudantes.
Eu saí de casa ainda durante aquela noite. Subi três andares e fui para casa de um vizinho que conhecia. Duas semanas depois fui dividir um apartamento com mais três amigos da Faculdade.
Ainda andei alguns meses com ela. Depois fui passar uma Queima-das-Fitas a Coimbra e nunca mais regressei a Lisboa. Desisti do curso. Tornei-me DJ em Coimbra, e por lá fiquei.
Lembrei-me hoje desta minha aventura ao ler na revista Visão a história de um homem que tinha duas famílias. Duas famílias simétricas. Duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Um casal de filhos de cada mulher. De idades similares.
O pai dela não tinha duas famílias. Mas vivia duas vidas. Não sei como é que elas terminaram. Nem se terminaram. Nunca mais a vi. Nem a ela nem o pai dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/21]

Vivi com Ela, mas Não a Conhecia Muito Bem

Eu não a conhecia muito bem. Mesmo se chegámos a viver juntos durante um par de meses. Pôs-me fora de casa quando se cansou de mim. Cansava-se muito depressa das suas obsessões. Mas eu nunca cheguei a conhecê-la bem. Só de estar ali. De estarmos ali. No mesmo bar. Na mesma mesa. De termos amigos em comum. De bebermos uns copos. E de nos partilharmos por uns meses.
Era uma menina da alta da cidade. Do bairro da alta da cidade. Família com dinheiro. Rebelde. Gostava de se dar com artistas. Acho que gostava de ter sido uma. Mas era mais fácil dar-se com eles. Com os artistas. Também gostava dos marginais. Esses era mais para chatear o pai. Davam-se mal. Ela, pelo menos, queixava-se dele. Do pai. Dizia mal. No fundo acho que o amava.
Às vezes ela era o abono da malta. Tinha sempre dinheiro. Eram jantares. Copos. Coca. Quando andava obcecada por alguém, dava-lhe tudo. Tudo o que tinha. Vestia-o. Investia nele. Comprava a guitarra. A câmara. As tintas. Depois cansava-se. Cansava-se sempre muito depressa.
Na noite em que nos deitámos na mesma cama pela primeira vez, tínhamos estado na festa de lançamento do primeiro disco do namorado. Acabou ali, a relação deles. Ele editou o disco. As críticas vinham a ser boas. Muito boas, aliás. A promoção nas rádios estava a funcionar. Já havia datas para concertos. A expectativa de venda de CD’s era muito alta. E ela cansou-se. Eu estava ali ao pé. Ela chamou-me. Passou-me um charro. Fomos fumar outro para a rua. Bebemos uns copos no bar. Levou-me para a cama. E eu fui.
No dia seguinte perguntou se não queria viver com ela. Assim, de caras. Sem meias medidas. E eu disse que sim.
Fui levando algumas coisas. Roupas. Livros. CD’s. Merdas avulso que ia levando de casa dos meus pais. Coisas que, de repente, eu precisava muito para viver. Quando ela se cansou de mim, quando me pôs fora de casa, o meu maior problema foi voltar com toda a tralha, que fui acumulando naqueles dois meses, para casa dos meus pais. Uma trabalheira.
Continuei a vê-la nos mesmos sítios. Mas andava diferente. Estava diferente. De repente começou a andar com o dealer. Afastou-se dos amigos. Dos amigos dela que também eram meus. Deixou de me falar, mas não liguei. Na verdade estava zangado com ela. Não muito zangado. Só aquela pequena raiva que tem alguém que é preterido. Chateou-me quando me pôs fora de casa. Ainda me deu dois murros no peito. Foi uma noite um bocado má, aquela. Ela estava cheia de coca. Eu também. Discutimos muito. Já não recordo o que dissemos. Tenho poucas memórias dessa última noite. Mas lembro-me dela me ter batido. Lembro-me de ter mandado alguns dos meus livros pela varanda abaixo. Lembro-me do que disse nesse momento. Nesse momento em que ela agarrou num monte de livros meus e os mandou varanda abaixo, lembro-me de estar estático, no meio da sala, de ver os livros a voar e de lhe chamar Vaca do caralho! e dela olhar para mim, a rir, levantar o dedo do meio, acender um cigarro e deitar-se no sofá. Eu saí porta fora.
Quando soube da overdose, não me fez grande mossa. Na verdade ela não era ninguém muito próxima de mim. Tínhamos amigos em comum. Partilhámos a cama durante dois meses. Mas foi só. Saí zangado de casa dela e rapidamente a esqueci. Mas é assim, a vida. Vai e vem. Às vezes fica.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/23]