Homem Procura Companheira

Homem maduro, de bem com a vida, procura senhora jovem e bonita para fazer companhia e algo mais se assim surgir a oportunidade.
Tenho cinquenta anos. Casa própria. Não totalmente paga. Faltam ainda alguns, poucos, anos. Tenho carro. Comprado em leasing. Quase pago. Tenho também bicicleta mas para fazer exercícios em casa. Tenho a bicicleta na sala e pedalo enquanto vejo a novela das nove na TVI.
Tenho um pequeno café na periferia da cidade em bairro quase dormitório. É o único café nas redondezas. Está sempre cheio. Há sempre gente a ver os jogos de futebol à noite. Faço uns bons petiscos. Principalmente Pica-Pau. No Verão aposto nos caracóis. Vem gente de fora para comer os meus caracóis. Ao lado também tenho um pequeno negócio de aluguer de filmes em DVD que já teve melhores dias mas que ainda funciona.
Não tenho filhos, pelo menos que eu saiba.
Fui casado. Duas vezes. Foram elas que se foram embora. Não sei porquê. Nunca lhes faltei com nada em casa. Mas não lhes guardei rancor. Nem deixei de gostar de senhoras. Tenho-lhes muito respeito e amor.
Vou sempre à missa ao Domingo de manhã.
Às vezes vou ao cinema ao Shopping, mas não gosto muito dos filmes actualmente. Nem gosto do cinema português. Gostava muito dos filmes com o Vasco Santana, o António Silva e a Beatriz Costa. Agora os filmes portugueses são muito chatos.
Tiro férias em Agosto e passo uma semana na praia da Vieira.
Estou sempre à espera da noite de Santo António para comer as primeiras sardinhas do ano. As sardinhas são o meu prato favorito. Mas também gosto de chanfana. De borrego. De lampreia. Sou boa boca e como de tudo um pouco.
Gosto do Benfica. Do Tony Carreira e do José Cid. Das novelas da TVI e da Cristina Ferreira que agora tenho de procurar na SIC de manhã enquanto sirvo as meias-de-leite às senhoras aqui do bairro.
Ainda tenho cabelo, embora já não tão forte nem tão abundante como antigamente. Não fumo e o cheiro do tabaco enjoa-me. Não gosto de beijar senhoras que fumem. Não gosto do cheiro do tabaco entranhado nas roupas. A proibição de fumar nos cafés foi a melhor decisão política depois da revolução.
Bebo pouco. Uma cerveja de vez em quando. Um copo de vinho às refeições. Um whiskey à noite. Um vodka de vez em quando.
Fiz o nono ano. À noite.
Não gosto muito de ler livros. Mas leio o Correio da Manhã e A Bola todos os dias.
Tenho votado sempre em todas as eleições, normalmente no PSD, mas também já votei no PS e no CDS. Nos comunistas é que nunca votei. E espero nunca votar. Não gosto de comunistas. Mas já não sei se devo continuar a votar. A política deixa-me desgostoso. Eles são todos iguais. Só querem encher-se.
Levanto-me todos os dias às seis e meia da manhã para abrir o café às sete. O café abre todos os dias do ano, mesmo no Natal e no Ano Novo.
A minha mãe ainda vive comigo. Mas não incomoda. Está acamada. É só preciso levar a comida à cama. Dar-lhe à boca. Dar-lhe banho uma vez por semana. Mas fora isso, é uma doçura de senhora.
Também tenho um cão. Está preso à casota. É só preciso limpar os cocós todos os dias. E ele come os restos do café.
Não gosto de jogar e também nunca fui muito afortunado ao jogo. É por isso que ainda acredito que vou encontrar o amor. Como se costuma dizer, azar ao jogo sorte ao amor.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/07]

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As Minhas Virtudes São Públicas, os Meus Vícios Privados

As minhas virtudes são públicas. Os meus vícios são privados. Que é que posso fazer? Sou um filho de Leiria e ajo como tal. Espero não ser censurado. Sou o que de mim fizeram.
Toda a gente sabe que vou à missa e comungo com regularidade. Sou baptizado. Circuncidado. Fiz a primeira comunhão, a segunda e o crisma. Casei pela igreja. Estudei num colégio de freiras. Dou dinheiro para a caridade. Ajudo a Cruz Vermelha. Não praguejo. Voto normalmente à direita. Ajudei a eleger o sr. Quinze por Cento e sou um anti-comunista primário. Sou a favor da vida, contra a interrupção voluntária da gravidez, contra a eutanásia, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a adopção por pessoas solteiras ou em casamentos não convencionais. Sou um leitor compulsivo mas tenho cuidado com o que compro. Vejo cinema nas salas do Centro Comercial e compro alguns CD’s na FNAC. Como peixe cozido, bitoques e frango assado. Às vezes vou ao McDonald’s. Às vezes como pasta. Gosto muito de morcela de arroz, chanfana e alheira.
O que não sabem, nem têm de saber, é que já paguei vários abortos. De várias raparigas. Nenhuma delas a minha mulher. São acidentes de percurso. A que todos estamos sujeito, mas ninguém tem nada a ver com isso. Não foram feitos cá, pronto.
Frequentei, com alguma assiduidade, o Maybe e o Raínho. Mas só porque eram os únicos bares abertos àquelas horas. Tive umas experiências homossexuais, mas acabei com isso porque estava a tomar uma dimensão que já não podia controlar. Atropelei uma velhota que acho que morreu. Mas ninguém viu. Às vezes também roubo no supermercado, mas é mais pela sensação, pela vertigem que me atinge. Fumo erva. Comecei no colégio a fumar. Nos intervalos. Quando tenho dinheiro dou na coca que me anima, no cavalo que me deprime, no mdma que me faz dançar all night long e nos cogumelos que me ilustram a existência. Compro alguns livros mais obscuros na Amazon. Vejo pornografia na internet e já me arrisquei na deep web. Já vi snuff movies e outras coisas que não posso dizer porque acho que pode ser considerado crime.
Acho que vou divorciar-me. Não porque queira, é claro.
Mas esta é a minha vida privada e ninguém tem nada a ver com ela. É a minha. E se não fosse assim, como conseguiria sobreviver à terra cinzenta que é Leiria?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/09]