Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

O Arco-Íris

Hoje vi um arco-íris. Um arco-íris bem estranho, por sinal. Ia assim a direito para o céu, e desaparecia lá em cima, num rasgo de nuvem, antes de fazer a curva e descer de regresso à terra. Logo ao lado, havia um segundo arco-íris e não era a continuação do primeiro. Este tinha as cores invertidas e estava mais diluído. Notava-se menos. Também desaparecia numa projecção para o céu e muito antes do primeiro. Desfazia-se no ar.
Estes arco-íris apareceram um pouco antes do anoitecer. Ali quase na fronteira com o lusco-fusco. Já se adivinhava a chegada de alguma escuridão nocturna quando as suas cores brilharam no céu cinzento como uma invasão da paleta de cores, e predominância das quentes, em especial púrpura e vermelho que se destacavam, a prenunciar o Verão atrasado. Ou seria já antecipado?
Parece que, no início do arco-íris, ou no fim, nunca sei muito bem, há um pote cheio de ouro. Mas acho que é simples crendice. Não soube nunca de quem o tivesse encontrado. Nem soube de quem ficasse rico assim, da noite para o dia, que não fosse através do trabalho duro e honesto ou do Euromilhões. O meu pote era o próprio arco-íris. E aquele vermelho-Rothko.
Este arco-íris apareceu depois de ter chovido bastante durante a tarde. Depois parou. As árvores brilharam e, para os lados do litoral, o céu descobriu e pincelaram-se tons avermelhados, rasgados como pedaços de algodão espalhado aleatoriamente sobre a cúpula celeste.
Tinha estado a tarde toda dentro de casa. Bebi chá de hibisco. Tentei ler, mas não consegui concentrar-me. Liguei a televisão e encontrei a Júlia Pinheiro. Desliguei-a. Peguei num livro de arte. Um livro com reproduções de alguns quadros interessantes e de que gosto. Abri. Reencontrei os vermelhos de Mark Rothko. Fiquei ali assim, a olhar o quadro. Passaram as horas. Passaram várias estórias. Passaram vários pensamentos. Esqueci o livro que tinha tentado ler, a voz estridente da Júlia Pinheiro na televisão e até a chuva a cair lá fora. Não sei quanto tempo ali fiquei. Horas. Sentado no sofá. O livro aberto sobre as pernas. O quadro de vermelhos à minha frente. Uma vida. Uma paixão. Um amor. Levado de viagem não sei para onde. Milhares de sítios. Muitas emoções. Rasgos. Cogumelos. Visões. E foi quando levantei os olhos para a janela que vi o vermelho do Rothko na rua. A tarde tinha passado. E vi o Rothko na rua. O arco-íris. Os arco-íris. Os arco-íris sem fim. Num céu cinzento descarregado de chuva.
Deixei o chá de hibisco na chávena. Agarrei num copo de vinho tinto. Acendi um cigarro. Saí para a rua. Sentei-me no alpendre. Respirei fundo. Apreciei o meu arco-íris até ao fim.
Quando o arco-íris finalmente se desfez, quando o cinzento recuperou o céu, quando o negro da noite começou a chegar aos montes lá ao fundo, olhei para cima e vi a minha árvore de Natal. Há anos que ela ali estava e nunca tinha reparado que ela fosse a minha árvore de Natal. Mas hoje vi-a. A minha árvore de Natal. Preta. Esguia. Assustadora. Com mil-e-uma ramificações de ramos e raminhos, como uma colecção de espinhas de peixes mirrados pendurados sobre mim. Atrás, em pano de fundo, um vermelho de Rothko que já lá não estava, mas esteve, marcou este início de quase-felicidade natalícia. Há coisas de que gosto. E gosto muito.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/29]

A Casa de A.

Faço a cama de lavado. Viro o colchão. Capa. Lençóis. Fronhas. Edredão. Tudo muito esticadinho. Aliso as dobras. Volto a passar a mão. Como se fosse um ferro suave e morno. Afasto os possíveis vincos. Mas são imaginários.
Coloco quatro almofadas. Duas delas sem utilidade prática. Para quê, tudo isto?
Todos os dias de manhã faço a cama. Estico os lençóis, puxo o edredão, dou umas pancadas nas almofadas. Parece um show room. Para quem?
Qual o mal de deixar a cama aberta? Lençóis e edredão puxados para trás, caídos aos pés da cama? Assim a cama até areja do meu cheiro nocturno. Qual a necessidade de puxar tudo para cima?
Abro as janelas e deixo o quarto respirar. Gosto de abrir as janelas. Principalmente de Inverno. Gosto de sentir o frio a penetrar-me os ossos. Gosto do vento a varrer as misérias para longe. Gosto de sentir o quarto respirar. Por vezes coloco o edredão à janela. Permitir-lhe a golfada de ar fresco. Mesmo que depois venha impregnado de cheiro a gasolina. Ou a fritos do restaurante chinês.
Aspiro o quarto. Não, não aspiro. Esqueci-me que o aspirador continua avariado.
Ponho-me de gatas e limpo o chão com um pano húmido. Não molhado. Húmido.
Mando duas das almofadas pela janela aberta. Não servem para nada. Acumulam pó. Rua.
Tenho uns pontos pretos na parede. Moscas e mosquitos mortos à paulada durante a noite. Aquela porra não sai. Já pensei em pintar a parede. Já esteve pintada de amarelo torrado. Uma cor de merda. Não sei o que me passou pela cabeça. Também tive o quarto alcatifado. Durou um mês. Arranquei tudo. Gostava de sentir os pés nus sobre a alcatifa nos primeiros dias. Depois o pó começou a tomar conta de tudo. O pó que entra pela janela aberta quando quero cumprimentar o frio e sentir-me vivo. Ganhei comichão nos pés. Arranquei tudo. Agora também há pó. Mas não se entranha nos pelos da alcatifa.
Vou à cozinha. Faço um chá de hibisco. Enquanto a água ferve tomo um duche rápido. Visto uma roupa prática. Um casaco de algodão sobre a t-shirt. Depois levanto a tampa do Mac. Sento-me na mesa da cozinha com uma caneca de chá a fumegar. Abro o Word. E começo a escrever:

Cena 01 Casa de A. – Cozinha Int. / Dia

As janelas da cozinha para a rua estão abertas.

A. está sentado frente ao computador na mesa da cozinha. Ao lado, uma caneca fumegante. Pega num maço de cigarros e acende um. Fuma enquanto olha para a folha em branco no ecrã do computador.

Começa a escrever. Na folha em branco começam a aparecer umas palavras: “Faço a cama de lavado.”

[escrito directamente no facebook em 2018/10/18]