Passar os Dias Sentado no Sofá

Ela chegava e eu estava lá. Estava sempre lá. Enterrado no sofá, com os pés na mesa de apoio. Às vezes com as botas calçadas. Isso nos dias em que tomava banho, vestia-me e sentava-me na sala, frente à televisão, à espera que ela chegasse com o carro para poder sair. Não saía muito, mas às vezes saía. Farto de passeios a pé à volta de casa, pegava no carro quando ela chegava do trabalho e ia dar uma volta. Às vezes ver o mar. Às vezes ela ia comigo. Às vezes até parecíamos um casal a namorar nas arribas sobre o Atlântico, a fumarmos um cigarro e a olhar o horizonte. Mas só parecíamos.
Ela saía de manhã, para ir trabalhar, todos os dias. Ia de carro. A fábrica ficava nos arredores. Não muito longe. Mas também não tão perto. Precisava do carro para ir trabalhar. Eu, desde que fui despedido, fiquei sem carro. Agora passava os dias em casa. De manhã dormia até ao meio-dia. Depois levantava-me. Espreitava o frigorífico à procura de restos da véspera, que quase nunca havia, e sentava-me no sofá, frente à televisão, a olhar programas da treta cheios de conversas de merda. Passava ali o dia. Às vezes levantava-me. Se estivesse sol, vestia-me e ia dar uma volta a pé pelas redondezas. Se estivesse de chuva, deixava-me estar de pijama em casa, frente à televisão. Às vezes adormecia. Às vezes dormia a tarde toda. Ela chegava e eu estava a dormir. Às vezes ela chegava a casa e ia aspirar, cozinhar, pôr roupa a lavar e, muitas das vezes, nem o barulho do aspirador me acordava.
Outras vezes ela chegava a casa e eu estava sentado no sofá, como o cu enterrado no sofá, a ver televisão. Às vezes ainda apanhava alguns jogos de futebol. Às vezes havia reprises de jogos dos anos ’90. E eu ficava ali a ver. Depois ela chegava e sentava-se no outro sofá. E ficávamos ali os dois. Ela não dizia nada. Não dizia nada por eu estar ali o dia inteiro sem fazer nada, frente à televisão. Nos primeiros dias ainda procurei trabalho nas fábricas ali à volta mas, não havia nada. Umas fábricas estavam a automatizar-se e o número de operários era residual, outras estavam em processo de falência. Havia muita gente a ser despedida. Aquelas fábricas não estavam preparadas para o futuro. Eram de outra época e não souberam prever o futuro que era já presente. Elas eram como eu.
Ela chegava. Ia ao frigorífico e tirava duas cervejas. Uma para ela e outra para mim. E ficávamos ali os dois, sem dizermos nada um-ao-outro, a olhar para programas de merda na televisão. Às vezes ela agarrava no comando e punha-se a ver A Loja em Casa. Não sei por quê. Nunca tinha comprado nada, mas via o canal e os produtos que tinham à venda por ninharias.
Às vezes, quando ela chegava, eu ia buscar a chave que ela largava na fruteira sem frutas em cima da mesa da cozinha e ia para o carro. Punha o carro a trabalhar e esperava dois ou três minutos por ela. Às vezes ela vinha. Outras vezes não.
Às vezes adormecíamos os dois no sofá. Cada um no seu. A meio da noite eu acordava, ia mijar e levava-a para a cama. Ainda podia com ela ao colo. Às vezes custava-me. Não que ela estivesse a ficar gorda, que não estava, ela era daquela mulheres que pode comer tudo o que quiser que nunca engorda nem fica pesada. Era eu que estava a ficar fraco. Sentia-me fraco. Aqueles dias de cama-sofá estavam a tirar-me as poucas forças que tinha.
Hoje de manhã telefonaram cá para casa. Tinham uma proposta de trabalho para mim. Num café à saída da terra. Até posso ir a pé. Não é longe e ponho-me lá em meia-hora, quarenta-e-cinco-minutos. Fiquei contente.
Tomei um banho. Vesti roupa lavada. Fiz umas omeletas com cebola. Abri uma garrafa de vinho. Estou à espera que ela venha. Mas ainda não chegou. Está atrasada. Não costuma atrasar-se. Ela chega sempre à mesma hora. Mas ainda não chegou.

[escritos directamente no facebook em 2020/02/19]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

Trabalho em Troca de uma Cerveja

Vejo o fumo sair da ponta incandescente do cigarro preso entre os dedos e voar lá para cima, para o canto do tecto.
Não se pode fumar aqui, disse a miúda enquanto passava.
Eu ouço o que ela diz, mas estou a ver o fumo a voar para o tecto e juntar-se no canto.
Ainda estava a pensar no que o gajo me tinha dito. Tudo assim ao mesmo tempo. Ele, ela e o fumo. Ele estava à espera de uma resposta. A mim, apetecia-me mandá-lo à merda. Mas ele é um daqueles tipos que não se pode mandar à merda. Por isso é que ia explodindo quando a miúda disse que eu não podia estar a fumar ali. Se não rebento para um lado, rebento para outro. Mas, coitada da miúda. Ela não tinha culpa. O meu problema não era com ela. Era com ele. E sim, sabia que não podia estar ali a fumar. Mas estava. Estava tão zangado que o cigarro foi a minha maneira de mandar tudo para o caralho.
Bebi o resto da bica de um trago. Já estava fria. Deixei lá cair a cinza do cigarro.
O tipo aclarou a garganta. E diz São só uma ou duas horas. Umas fotografias rápidas. Uns registos. Não posso é pagar-te, não é? Não tenho dinheiro para isto!
E é isto! o que me irrita! O isto! O nunca haver dinheiro para isto! mas, no entanto, estão sempre a contar com isto!
O fumo continua a subir para o tecto. A miúda volta a passar. Não diz nada. Mas vejo-a parar lá à frente, a olhar para mim. O olhar a fuzilar-me. A pensar que eu devo julgar-me importante. Ou parvo. Toda a gente sabe que não se pode fumar em sítios fechados que não sejam a casa de cada um. E no entanto, ali estava eu a fumar um cigarro, a colocar a cinza dentro da chávena vazia de uma bica, e a ver o fumo a subir até ao tecto.
Gostava de saber fazer argolas de fumo, como calamares. Mas não sei. Só sei puxar o fumo para os pulmões, prendê-lo e deixá-lo sair, pela boca ou pelo nariz. Nunca fui um artista do fumo. Sou só um artista da imagem. Fotografia. É o que faço. É onde sou bom. Mas há pouco trabalho para um gajo como eu. Não é que não precisem de fotógrafos. É que já têm. Já têm fotógrafos. Geralmente um. Que não chega para as encomendas, claro. Mas para quê pagar a dois gajos para andarem para trás e para a frente a passear as máquinas a tira-colo, a roçar o cu pelas paredes à espera do momento, quando um deles faz o trabalho todo? Mas o problema é que não faz o trabalho todo. Nunca faz. E depois surgem tipos como eu. Os mortos de fome. Os que estão sempre à espera da oportunidade de uma vida. É agora! É agora, porra! Mas nunca é agora. Porque o meu trabalho só é bom quando é à borla. Porque o meu trabalho não é bem trabalho, não é? Os artistas não trabalham, pá! Fazem umas cenas. Divertem-se lá com as coisas deles. E riem-se muito, dentes branquinhos escancarados no sorriso alarve, a rir, a gozar.
Acabo o cigarro. Esmago a beata na chávena. A miúda vem logo retirar a chávena da mesa com o cigarro lá esmagado.
O tipo continua Mas há umas cervejas! Há sempre umas cervejas. É o combustível que nos faz mover, a cerveja. E quando deixar de ser eu, há sempre outro morto de fome à espera da oportunidade.
Olho para o tipo e espeto-lhe um murro entre os olhos. Parto-lhe a cana do nariz. Vejo o sangue a jorrar sobre a mesa do café e a miúda a gritar e a aproximar-se com um pano para limpar a mesa do sangue.
Olho para o tipo e digo-lhe Ok! Está bem! e vejo-o sorrir, aquele sorriso cínico de quem enganou mais um. Mas não foi ele que me enganou. Fui eu que me deixei enganar.
O tipo levanta-se. Dá-me uma palmada amigável no ombro e diz Sempre gostei das tuas fotografias! Tens olho! e eu penso que sim, que tenho olho, mas não tenho mais nada. Não tenho capacidade para me vender e fazer-me render o que devia e penso que ainda não é desta que a minha vida muda.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas para ver se tenho suficiente para pagar a bica. Mas o tipo diz Não! Deixa lá! Eu pago!
Eu aceno a cabeça, agradecido. Eu sou um agradecido. Agradeço a bica enquanto ofereço o meu trabalho em troca de umas cervejas.
Mas não fui enganado. Deixei-me enganar. Porque quis. Porque gosto de fazer o que faço. Porque sei que sou bom no que faço. E porque sou melhor que estes tipos que nunca têm dinheiro para pagar o trabalho dos outros a quem têm o descaramento de pedir borlas.
Saio do café e acendo outro cigarro. Saio pela cidade. Esqueço-me do tipo que ficou lá para trás a pagar a bica e desapareço entre gente atrasada, muito atrasada para os seus trabalhos mal-pagos mas que são obrigados a aceitar porque é assim que a vida é.

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço na esplanada.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]

Uma Co-Produção

Já conhecia Z. há muitos anos. Já tínhamos trilhado muitos caminhos juntos muitas vezes. Alguns deles eu já nem me lembrava. Apareciam assim, por acaso, quando alguém referia algo e isso despoletava uma memória, um regresso, e então fazia-se luz e percebia que já tinha lá estado, já lá tinha feito alguma coisa. Com algumas pessoas. Nomeadamente, com Z.
Daquela vez, estávamos num país africano. Num país africano que já não me lembro qual, tal a quantidade de África que fomos conhecendo ao longo de tantos anos.
Lembro-me que estávamos numa esplanada. Numa espécie de esplanada. Bebíamos umas cervejas. Quer dizer, eu bebia uma cerveja. Ele bebia uma Fanta. Estava calor. Estávamos de calções e chinelos. Sem carteira. Sem mala ou mochila. Sem relógio. Só o telemóvel enfiado no bolso dos calções e algum dinheiro dividido em vários bolsos. Não era por medo. Era só para não criar a ocasião.
Já tínhamos bebido várias garrafas, e fumado vários cigarros, quando ele disse Anda! Temos uma reunião. E eu pensei Reunião? Afinal estávamos de calções e chinelos. Ainda lhe perguntei com um gesto de cabeça o que é que se passava. Ele respondeu-me também com um gesto de cabeça para o seguir. E segui. Às vezes é melhor não fazer muitas perguntas. Às vezes a comunicação em silêncio é suficiente. Mesmo que eu não soubesse onde íamos e fazer o quê nessa reunião, onde podia ir de calções e chinelos, o melhor mesmo era ir. E fui.
Fomos a pé, com os chinelos tipo havaianas a bater nos pés, schlap-schlap, a passar por estradas quase sem asfalto, com muita terra batida pelo meio, a saltar por cima de esgotos a correr a céu-aberto, a transpirar, a percorrer quase metade da cidade até chegarmos a uma zona de prédios muito altos, com muitos andares e muitas janelas.
Entrámos num desses prédios. O confronto com o ar-condicionado do prédio deixou-me com frio. Z. não. Z. nunca tinha frio ou calor. Z. estava sempre preparado para tudo. Cruzámos a cidade sem que lhe caísse uma gota de transpiração pela fronte. Entrámos no prédio e não lhe vi nenhum arrepio ao choque com o ar fresco, demasiado fresco para quem vem das ruas da cidade.
Subimos umas escadas. Umas escadas sem fim. Quando parámos, eu já deitava os bofes pela boca. Z. olhava para mim e perguntava Então? Então o caralho!, pensava eu. Então o quê? Se estou cansado? Estou. Acabei de subir não-sei-quantos degraus. É normal que esteja cansado. Mas ele também os tinha subido. Também fumava como eu. Talvez mais que eu. E não o via assim. Cansado como eu. E não disse nada. Segui-o.
Entrámos por um corredor. Batemos a uma porta. Ouvi um clic de abertura. Entrámos. Disse quem éramos. Ao que íamos. Esperámos. Esperámos em pé, frente a uma janela aberta sobre a cidade africana aos nossos pés. E vista dali, do alto daquela janela, a cidade era bonita. Lindíssima. Claro que, ao pormenor, quando descíamos à rua, encontrávamos os problemas. Mas, dali, dali era realmente muito bonita.
Franquearam-nos a porta. Entrámos. Estava um saco de plástico em cima de uma mesa. Z. cumprimentou alguém. Agarrou no saco de plástico e fomos embora.
Voltámos às escadas. Começámos a descer. A meio parou. Abriu o saco. Retirou uns maços de notas e disse para os distribuirmos pelos bolsos. Eu ainda fiquei boquiaberto a olhar para aquelas notas todas. Mas depois ele disse Despacha-te. E eu despachei-me. Distribuímos várias notas pelos bolsos dos calções dos dois. O resto foi mesmo no saco de plástico, a dar-a-dar na mão de Z. enquanto regressávamos à mesma esplanada do outro lado da cidade. Fomos a pé. A bater chinelo pelos restos de asfalto e terra batido. A saltar por pequenos ribeiros de esgoto a céu-aberto. Eu a transpirar. Ele não.
Chegámos à esplanada. À espécie de esplanada. Acendemos um cigarro cada um. Era preciso recuperar os níveis de nicotina no corpo. Pedimos uma cerveja para mim e uma Fanta para Z.
Apareceu um miúdo. Pediu dinheiro. Z. disse para se sentar na mesa connosco. Perguntou-lhe se tinha fome. O miúdo acenou a cabeça. Um fio de ranho caía para a boca. O miúdo limpou-o com as costas da mão. Z. pediu um hambúrguer e uma Fanta para o miúdo.
E assim estávamos nós. Eu a beber uma cerveja. O miúdo a comer um hambúrguer. E eles os dois a beberem uma Fanta de uma cor tão fluorescente que parecia radioactiva.
Em cima da mesa o saco de plástico com os maços de dinheiro. Eu, de vez em quando, levava as mãos aos bolsos dos calções para ver se o dinheiro que lá estava ainda lá estava. Z. continuava a fumar sem se preocupar com nada disto.
No dia seguinte íamos começar a filmar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/05]

Um… Dois… Três…

Estava a olhar a rua lá em baixo. O frio da rua e o calor da casa embaciava um pouco os vidros e as luzes dos carros brilhavam abstractas espalhando-se pela janela. Fumava um cigarro, mas parecia não dar por ele.
E contava um… dois… três…
E estava na praia. Na Zambujeira do Mar. Deitado numa toalha sobre a areia e olhava, lá à frente, uma rapariga a mergulhar na água. Depois ela vinha, trazia um bocado de água fria nas mãos em concha e despejava a água sobre mim, mesmo comigo a pedir-lhe Não! Não! Está fria!… Depois deitava-se molhada sobre mim e beijava-me. Eu rebolava sobre ela, uma, duas, três vezes, e ela ficava cheia de areia colada ao corpo molhado. Pareces um croquete, dizia-lhe…
Puxava uma passa forte do cigarro e depois expelia-o ali para a sala onde estava a olhar a rua. As janelas fechadas acumulavam o fumo à minha volta. O gato foi-se embora, farto do fumo, do cheiro e da minha ausência.
E contava um… dois… três…
E estava numa estrada marginal ao mar, a conduzir um carro cheio. Cheio de gente e de barulho de vozes de gente alegre e feliz e de cheiros diferentes, cheiro de perfume, dela, e de adolescentes transpirados e com medo do banho. Cantávamos uma canção. Cantavam uma canção. Eles, os adolescentes, estavam chegados ao banco da frente e cantavam com ela. Riam. Brincavam. E eu sorria àquela alegria…
Pensei que era necessário um pouco de chuva para limpar a cidade daqueles cheiros a gasolina que intoxicam as ruas. Abri a janela e o fumo saiu lá para fora numa enorme nuvem. O gato voltou para ao pé de mim e começou a roçar-se na minha perna. Dei mais uma passa no cigarro…
E contava um… dois… três…
E estava no meio de uma grande confusão. Num cruzamento. Despertei caído no chão, no meio do cruzamento. Um camião estava espetado numa árvore e a carga, dezenas e dezenas de caixas de cerveja estavam espalhadas pelo chão, garrafas partidas, vidros espalhados por todo o lado, e eu descobri que tinha alguns na cara, que arranquei, e o cheiro nauseabundo da cerveja espalhada por toda a estrada e depois, depois vi o meu carro virado ao contrário com a chapa toda metida para dentro. Corri para lá e vi que ela e eles estavam presos. Não se mexiam mesmo que quisessem. Estavam entalados pela chapa. Tentei puxar a chapa, mas só consegui cortar um dedo e ficar a jorrar sangue que tentei parar com um lenço. Mais tarde chegaram os bombeiros, mas para eles já era tarde, muito tarde. E para mim, demasiado…
Acabo o cigarro e abro os vidros. Mando a beata pela janela fora. Dois braços agarram-me por trás e abraçam-me. O gato continua a roçar-se na minha perna. Uns lábios beijam-me o pescoço. Sinto o perfume. Agrada-me. Viro-me e ouço Estás a chorar?, Não, foi uma fagulha do cigarro que me entrou para os olhos, e beijo-a com paixão, mesmo sem querer esquecer as memórias.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/15]

A Neura

Os americanos desceram à cidade. A equipa norte-americana de soccer veio jogar futebol com a equipa B da selecção portuguesa. O Cristiano Ronaldo não foi convocado para este jogo amigável porque ia receber, na maternidade, a chegada da Alana Martina.
Não fui ao estádio. Mas peguei numas cervejas, nuns tremoços e numas pevides e sentei-me no sofá, em casa, disposto a ver o jogo, sem grande paixão, diga-se.
E as coisas iam decorrendo assim, sem grande história, e sem grande vontade, quando os norte-americanos marcaram um golo e Portugal desatou a perder em casa.
Olhei à minha volta. Estava sozinho. Sozinho a ver um jogo de futebol. Um jogo de futebol da selecção nacional. Nem era o Benfica. Nenhuma alegria. Ninguém com quem discutir, comentar, gritar, partilhar uma cerveja…
Desliguei a televisão.
A neura tomava conta de mim. Tentava combatê-la com umas cervejas, mas não estava a dar resultado.
Levantei-me.
Voltei a sentar-me.
Levantei-me de novo e fui até à cozinha fumar um cigarro. Abri a janela e deixei entrar o ar frio da noite de Outono. No fim, mandei a beata pela janela fora.
Peguei no casaco e saí de casa. Decidi ir até ao estádio. Fui andando a pé. Não é longe.
No caminho parei numas rulotes e bebi umas minis. Comi uma maminha grelhada numa carcaça.
Quando cheguei ao estádio, o jogo ainda decorria.
Quando finalmente terminou, e as pessoas começaram a sair, misturei-me com elas. Queria fazer parte de um grupo. Queria ser um número que contasse nas estatísticas. Queria ser relevante. E gritava Por-tu-gal!-Por-tu-gal! para quem quisesse ouvir e duvidasse da minha encenação.
Uma equipa da televisão correu na minha direcção. Queriam saber a minha opinião sobre o jogo. O que eu tinha sentido ao saber que o jogo também era solidário para com as vítimas dos incêndios.
Eu não sabia o resultado. Nem sabia que o jogo era solidário com quem quer que fosse, e respondi Vim aqui para ver o Cristiano Ronaldo e o Rui Patrício e senti-me defraudado. E depois lembrei-me e disse Beijinhos para a Alana Martina, que é bem-vinda a este mundo. E sorri para a câmara que me estava a gravar pensando que tinha dito algo de muito relevante. Depois, a equipa de televisão foi a correr para outro lado, falar com outras pessoas. E eu pensei cá para mim As rulotes são já ali. E que bem me sabia uma cervejinha.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/14]

Quero Parar de Tomar os Comprimidos

Hoje decidi parar de tomar os comprimidos.
Sinto-me bem. Há muito tempo que não me sentia tão bem. E é fim-de-semana. E quero viver este fim-de-semana. Quero beber uns copos. Quero arranjar umas miúdas. Quero sentir-me bem, outra vez.
Por isso, decidi parar de tomar os comprimidos.
Quero beber umas cervejas ao fim-do-dia. Vinho ao jantar. E ir para o gin ao longo da noite. Por isso, é melhor parar de tomar os comprimidos.
Além de que os comprimidos tiram-me a tesão. E este fim-de-semana preciso de sexo. Quero sexo. Umas raparigas giras que me queiram aturar, e dar-me colo e um par de estalos na cara para aquecer.
Por isso, o melhor foi mesmo parar de tomar os comprimidos. Até porque são uma perda de tempo. Eu estou bem. Sinto-me bem. Tudo o que se passou não foi culpa minha. Estão sempre a chatear-me, a fazer-me perder a paciência. Fazem de propósito. E ninguém percebe. Quero dizer, os meus amigos percebem. Aqueles que são realmente meus amigos sabem que a culpa não é minha, só reajo ao que me fazem, e fazem só para me provocar.
Por isso, parei de tomar os comprimidos.
Vou sair para a noite. Beber uns copos. Arranjar umas miúdas…
Mas, e se não conseguir ter relações com elas? Será que é suficiente ter parado hoje de tomar os comprimidos? E se eu não tiver tesão em frente às raparigas? E o álcool pode agravar isso. Acho que não ia aguentar. E depois ainda gozavam comigo. E chamavam-me impotente. E se calhar sou. Se calhar sou impotente. Se calhar a culpa não é dos comprimidos. Se calhar sou mesmo eu que sou assim, falho.
Acho que é melhor ficar em casa. Não me apetece ver gente. Nem me apetece vestir. Nem tomar banho. Quero dizer, ir tomar banho e vestir uma roupinha lavada para me ir embebedar e passar vergonhas frente a umas miúdas. Não, não, não. É melhor não. Não quero. Não quero ver pessoas. Elas só me querem chatear. Só me querem provocar. Acho que vou ficar por casa. E desligar o telemóvel. Não quero ver ninguém. Quero ir para a cama e dormir. Quero dormir. Sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/13]