O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

Sair de Casa

Tínhamos saído de carro, eu e ela, para ir à cidade. Há três meses que não íamos à cidade. Há três meses que não passávamos do Pingo Doce para baixo. Saíamos de casa para ir ao Pingo Doce e voltávamos. Não chegávamos a ir à cidade. Então naquele dia, resolvemos ir à cidade.
Levámos as máscaras, os frascos com álcool, as luvas. Circulámos pela cidade de carro. De repente, a cidade parecia estar como a conhecíamos antes. Muita gente na rua. Muita gente a entrar e a sair de lojas. Muita gente com ar atarefado. Quase toda a gente com máscaras. Algumas esplanadas com gente. Não muita, mas alguma. Outras esplanadas fechadas.
Perguntei-lhe Vamos beber uma cerveja? e ela olhou para mim e não respondeu. Olhou só. Ficámos assim um bocado de tempo. Fomos despertados pela buzina de um automóvel atrás de nós na estrada. O semáforo estava verde. Arranquei. Arranquei devagar. A pensar no olhar dela, no olhar que ela me fez e na reposta que não me deu.
Dei uma guinada no volante, mudei de estrada, e disse-lhe Ok!
Ela descalçou as sapatilhas, levantou as pernas e colocou os pés em cima do tablier. Eu saí da cidade e apanhei a auto-estrada.
Havia movimento na auto-estrada. Não muito, mas algum. Estávamos na A1. Acelerei. Saí para apanhar a A13. Fizemos a A13 até apanharmos a A6. Na A6, acelerámos até ao fim da auto-estrada. Aqui acho que não ultrapassámos ninguém e não me lembro de nos termos cruzado com qualquer outro carro. O Alentejo estava deserto. A auto-estrada que cruza o Alentejo até Espanha estava vazia. Entrámos em Espanha e não parámos. Ainda pensei nos caramelos de Badajoz. Nas inúmeras vezes que tinha ido a Badajoz com os meus pais. No pão com calamares e na Coca-Cola que em Portugal não havia. Nos jogos que o meu pai me comprava. Na dificuldade em escolher qual o jogo a trazer de uma loja repleta de jogos até ao tecto. Houve um ano que trouxe umas bolas penduradas por uma corda, ligadas a uma argola que enfiava no dedo e fazia batê-las uma na outra, em cima e em baixo da mão. Fazia um barulho deliciosamente irritante. Desapareceram de casa de forma misteriosa. Sempre achei que fora a minha mãe a dar-lhes o sumiço em nome da sua sanidade.
Ela perguntou Onde vamos? e eu respondi Por aí!
Fomos comendo as placas que nos indicavam Madrid. Íamos ouvindo a música em shuffle da pen. Uma boa selecção (a selecção era minha). Mas havia por lá coisas que já não ouvia há muito tempo. Soube bem ouvir.
Parámos numa estação de serviço à beira da estrada. Colocámos as máscaras. Eu estiquei o corpo. Tinha as costas doridas. Entrámos na estação de serviço. Ia pedir um café mas lembrei-me que o café em Espanha era uma merda. Optei por uma Coca-Cola que partilhei com ela. Partilhámos também um bocadillo de lomo. Comprámos duas garrafas de água de litro e meio. Uma fresca e outra natural. A fresca para mim. A natural para ela. Assim, toda a gente fica contente. Pagámos. Saímos. Encostei-me ao carro a fumar um cigarro. A máscara pendurada no bolso de trás das calças. Ela encostou-se ao meu lado e roubou-me o cigarro das mãos. E disse-me A máscara está a limpar o pó ao carro. Eu encolhi os ombros, mas tirei a máscara do bolso, abri a porta do carro e coloquei-a no porta-luvas.
Ficámos ainda um bocado por ali mesmo já depois de termos acabado de fumar o cigarro.
E ela perguntou Vamos?
Eu entrei no carro. Ela também. E arrancámos.
Estávamos a chegar aos arredores de Madrid e eu perguntei Madrid? e ela virou-se para mim e abanou a cabeça. Continuámos estrada fora. Contornámos Madrid.
Quando o dia começou a cair pensei que o melhor seria parar para descansar o corpo e dormir um pouco. Apontei para Saragoça. Chegámos já noite. Procurámos um hotel a funcionar. Ficámos no primeiro que encontrámos. Entrámos e já não saímos. Não comemos nada. Estávamos cansados. Tomámos um duche e dormimos. Nem força tínhamos para foder.
No dia seguinte acordámos cedo. Saímos do hotel e fomos procurar um café para beber um americano e comer uma tostada com tomate. Depois de fumarmos um cigarro na rua, pegámos no carro e partimos de Saragoça.
Primeiro pensei em Barcelona, mas imaginei que haveria por lá gente a mais. Depois passou-me Andorra pela cabeça, para matar saudades do sítio de onde o meu pai me trouxe o meu primeiro walkman, mas pensei que se calhar havia alfandega para passar e achei melhor nem pensar nisso. Cruzar os Pirenéus, isso era certo. Mas por outro lado. Sem passar por Andorra. E seguir para Toulouse. Depois, talvez Montpellier. Marselha. Até Cannes. Sim, seria bom ir até Cannes. E depois? Depois haveríamos de continuar por ali fora enquanto tivéssemos dinheiro, com a pen a dar-nos uma boa selecção musical (a selecção era minha).
E depois? Quando o dinheiro se acabasse?
Quando o dinheiro se acabasse, vendíamos o carro e comprávamos dois bilhetes de autocarro ou comboio ou avião para regressar. Se regressássemos. Logo haveria de se ver.
Olhei para ela e sorri. Ela sorriu-me. Não precisava de a consultar a pedir opinião. Não queríamos voltar já para casa. Estávamos fartos de casa. E ela iria comigo até onde fôssemos. E foi.
E ao ver aquele sorriso só pensava que, nesse dia à noite, não iria estar cansado. Não podia estar cansado. Aquele sorriso matava-me. E ri-me satisfeito e contente enquanto cruzávamos a fronteira e entrávamos em França.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/15]

O Bar no Centro da Cidade Onde Me Sentava ao Balcão

Foi nos anos oitenta. Mais ou menos a meio dos anos oitenta. Apareceu um bar onde não existia nenhum. Onde não existia nada. Ou quase nada. Apareceu um bar num largo bem no meio da cidade. No centro da cidade. Era um bar com balcão. Uma balcão em U, com o bar no centro de uma das salas, a sala principal (o bar tinha mais que uma sala, o que constituía outra novidade).
Eu chegava cedo ao bar e sentava-me ao balcão. Primeiro bebia um café. Ainda o bar estava vazio. Havia alguma gente, gente sozinha, como eu, que bebia café ao balcão. Depois começava a chegar mais gente e eu começava a beber cerveja. No início bebia média. Depois, com o passar do tempo comecei a beber minis, que dava mais jeito para agarrar com a mão, mas isso foi quando larguei o balcão e comecei a encostar-me às paredes do bar. Mas no início, no início eu sentava-me ao balcão, sempre gostei muito de me sentar ao balcão, primeiro bebia um café e depois ia bebendo cervejas médias, Sagres, até ficar enjoado e passar para o gin tónico. Naquela altura o único gin que havia no bar era o Bosford. E, ao terceiro, quando conseguia chegar ao terceiro, acabava na rua, a vomitar as botas, às vezes a mijar-me pelas calças abaixo, quase sempre no chão, deitado no chão, encostado a uma parede à espera que o mundo parasse de girar ou alguém me levasse até casa. Às vezes havia quem me levasse a casa. Houve quem me levasse para a cama. Houve ainda quem se deitasse comigo. Mas nem me lembro dessas noites. Só sei que aconteceram. Porque me contaram.
Eu chegava cedo ao bar, bebia um café, lia um jornal qualquer que estava por lá, normalmente um jornal de véspera, folheava-o, às vezes lia um ou outro fanzine que algum puto largava por lá para mostrar às pessoas, roubei alguns deles que levei para casa, mas não sei o que lhes fiz, não sei deles, não sei que caminho levaram. Alguns eram muito bons. Com boas ilustrações. Textos interessantes sobre música. Pelo menos é a ideia que tenho. Pode não ter sido bem assim. Se calhar nem foi lá que vi os fanzines. Se calhar nem roubei nenhum. Se calhar nem sequer eram grande merda.
Nessa altura, depois de me sentar ao balcão e beber café e folhear os jornais dos dias anteriores, começava a beber cerveja. Às vezes ofereciam-me tremoços ou milho tufado. Depois apareciam algumas pessoas que conhecia. Sentavam-se lá ao lado. Tínhamos dois ou três dedos de conversa, bebíamos outra cerveja, e eles continuavam a ronda. Mudavam de cadeira, de sala ou iam embora, à procura de outras pessoas noutros lados.
Eu ficava sempre por lá. Ao balcão. Antes de me começar a encostar às paredes. Gosto de rotinas. Ficava sempre lá na mesma cadeira do balcão. Fumava cigarro atrás de cigarro. Às vezes aparecia lá alguém com um charro. Fumávamos mesmo ali, ao balcão. Por vezes o empregado chegava-se e dava umas baforadas no charro. E aquilo rodava. Às vezes deixavam-me lá uns selos. Chegaram-me a dar uns cogumelos. Há partes desse período no bar, nesse bar no largo no centro da cidade, que não recordo. Há noites que foram apagadas. Há noites que não existiram de todo.
Depois de enjoar a cerveja, depois de já estar cheio até ao esófago e a transbordar pela faringe, virava-me então para o gin horroroso que me fodia o fígado e me deixava de rastos, mas não havia outra solução. Não gostava de whiskey e o vodka era só para beber de penálti como se fosse um copo de três.
Quando chegava à fase do gin, geralmente perdia-me. Deixava de saber onde estava, com quem estava ou para que estava. Às vezes não tinha dinheiro para pagar o resto da despesa. Avisavam-me no dia seguinte mal lá punha o pé direito, o pé com que entrava todos os dias pelo bar adentro ao som do People Are People dos Depeche Mode.
Tudo terminou numa noite. Numa noite dessas em que já estava na rua, o bar já estava a fechar, eu não estava caído no chão mas estava encostado à parede, com uma perna flectida e uma mini na mão na conversa com uma miúda, lembro-me dessa miúda porque foi a última vez que a vi, assim como foi a última vez que entrei naquele bar, nesse fim de noite eu estava à conversa com a miúda, uma miúda lindíssima, assim a recordo, as luzes do bar já estavam desligadas, havia mais gente por ali, quando ouvi uns gritos, gritos de gente a correr, gente alarmada, gente em pânico a correr de um lado para o outro e a gritar, aos berros, e ouvi o aproximar de um carro, o som do motor de um carro, um motor em alta rotação, umas luzes muito fortes a encandearem-me e, de repente, uma explosão que me projectou dali para fora e acabei por despertar caído em cima de um banco de jardim, daqueles com ripas de madeira, cheio de dores nas costas e sangue na cara, com vários rasgos na cara e nas mãos. Acordei e olhei o caos instalado à minha volta. Acho que curei a bebedeira e a ressaca imediatamente.
Um carro tinha entrado ali pelo largo a acelerar, perdeu o controle e foi contra a parede do bar, que deitou abaixo, enquanto levava, à frente, a miúda com quem eu estava a conversar. A miúda foi desintegrada. Pouco restou dela. O bar, nunca mais reabriu. O prédio foi deitado abaixo e construíram outro, agora de habitações de luxo. Eu tive uma sorte dos diabos. O carro passou mesmo ao meu lado. Podia ter sido eu, na vez da miúda. Nunca mais bebi gin nem cerveja.
Agora só bebo vinho e, geralmente, em casa, o sítio onde estou mais vezes. Perdi a vontade de ir a bares. Mas continuo a gostar de balcões. Fiz um na cozinha de casa para matar saudades.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/14]

Uma Sardinhada

Eu devia ter percebido logo. Mas não percebi. Às vezes não percebo logo as coisas. Mesmo quando são evidentes.
Era perto do meio-dia. Eu estava em pé, no alpendre, a ver o cão às voltas do arbusto e a levantar a perna para mijar e marcar território mas já sem ter mijo para despejar, quando ela chegou por trás de mim com um gin tónico nas mãos. Sorri e agradeci. Estava calor. Não costumo beber álcool de manhã mas, não ia dizer que não. Levantei o copo para ela em agradecimento e bebi um gole, um grande gole com o qual despejei quase metade do copo. Estava refrescante. Soube-me bem.
E então ela disse Comprei sardinhas.
Oh, pá! Afinal, era isso. O gin era para me comprar. Era para me preparar para as sardinhas. A lata dela. Bom, tinha uma fogueira para ir fazer. Tinha brasas para ir fazer. Tinha sardinhas para ir assar.
Dei-lhe um beijo e fui até à churrasqueira. Gravetos. Uns pauzinhos maiores e mais grossos. Pinhocas. Acendalhas. Risquei um fósforo. Acendi o lume. Abanei um pouco com o abanador. Beberiquei o gin. Dei novo gole. Acabei com ele. O gin é refrescante. Escorre pela garganta. Vai-se enquanto o Diabo esfrega o olho. E só bate quando é tarde demais.
Continuei a abanar o lume para fazer crescer as chamas. O fogo estava vivo. Ela voltou a aparecer com outro gin tónico e uma caixa com sardinhas e dois pimentos, um verde e um vermelho. Beberiquei o gin.
Peguei no saco do carvão e despejei um pouco sobre o lume. Dei ao abano. Fiz o carvão incandescer.
Virei-me para trás. Vi-a voltar para o interior de casa.
Há uns anos, numa férias, as primeiras férias que fizemos juntos, partilhámos quase tudo, a cama, a comida e a bebida. Lembro-me de estarmos a vir da praia, primeiro dia de praia juntos, os corpos quentes, o meu muito queimado porque não quis usar creme protector, e mais tarde tive de me besuntar com creme hidratante, sentei-me numa esplanada, com ela, e mandámos vir uma tosta mista que partilhámos. Metade para mim, metade para ela. E uma cerveja. Dois copos. Metade para mim, metade para ela. Ela ainda me deu uma trinca da tosta dela, assim, da boca dela, num bocado maior, com um bocado de fora da boca e que me obrigou a aproximar dela, da boca dela, os lábios a tocarem-se, os dentes a rasgarem o pão de forma torrado, o queijo derretido a cair pelo queixo abaixo.
Os gravetos arderam. O carvão estava em brasa. Coloquei a grelha e os pimentos. Deixei os pimentos assarem bem. Queimaram um pouco mas não havia problema. Era a pele. O queimado era na pele. Bebi mais um bocado de gin. Ela apareceu com um saco de plástico. Coloquei os pimentos dentro do saco de plástico. Ela deu um nó no saco. Eu coloquei as sardinhas na grelha. Ela deu um gole no gin. No meu copo de gin. Eu tirei-lho das mãos e acabei com ele. Ela levou o copo vazio e os pimentos.
Nesse dia, e depois de me ter colocado creme hidratante no corpo, saímos para jantar. Comemos frango assado. Meio-frango assado com batatas-fritas e salada. Era uma dose. Partilhámos a dose pelos dois. Voltámos a beber uma cerveja pelos dois. Naquelas férias foi tudo muito assim. Partilhámos tudo. Ou quase tudo.
Ela voltou com outro gin. Beberiquei. Virei as sardinhas.
Mais tarde, naquela noite, partilhámos uma fartura e fiquei cheio de azia. Tivemos de procurar uma farmácia aberta para comprar Kompensan. Ela também tomou uma pastilha. Não porque precisasse. Mas por solidariedade.
As sardinhas estavam assadas. Acabei com o gin. Sentia-me um pouco tonto. Entrei em casa com as sardinhas e o copo de gin vazio.
A mesa estava posta. Uma fatia de broa nos pratos. Uma batata cozida. A saladeira com uma salada de pimentos, pepino e tomate. Azeitonas. Uma garrafa de vinho aberta e vinho nos copos.
Comi e bebi. Fui pondo as sardinhas sobre a fatia de broa. Parti a batata. Um pouco de salada ao lado. Reguei com azeite. Comi uma azeitona. Outra. Porra, estava com fome. Devorei a sardinha. Fui repondo uma sardinha em cima da fatia de broa. No fim, comi a broa cheia de azeite e gordura das sardinhas. Bebi vários copos de vinho tinto. Não sei quantos.
No fim, arrotei. Estava satisfeito. Sonolento.
Fui até ao alpendre. Sentei-me e deixei-me adormecer.
Voltei à praia. Nessas férias fiz nudismo. Fizemos. Eu e ela. Foi a primeira vez que fiz nudismo na praia. Voltei a não usar creme protector. Voltei a queimar-me. À noite, ela voltou a besuntar-me com creme hidratante. Nessa férias partilhámos tudo. Menos os corpos. Eu não estava em estado de fazer sexo com ninguém. No dia seguinte fomos comprar um chapéu-de-sol e passei o resto das férias debaixo do chapéu.
Acordei agora, há uns minutos. Ainda estou a pensar naquelas férias. Um dia tenho de falar naquelas férias. As férias em que partilhei tudo com ela, menos os corpos. Por minha culpa. Às vezes sou estúpido e faço merdas assim. Mais tarde vim a partilhar o corpo com ela. O meu corpo e o corpo dela. Até hoje. Hoje já não vou para a praia sem creme protector. Mas continuo a partilhar tudo com ela. Agora até o corpo. O meu. O meu e o dela.
Naquelas férias também não comemos sardinhas. Foi o único ano em que não comemos sardinhas. Nem sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/13]

Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

Preciso de Me Levantar

Ainda ontem tremia de frio e cheguei a ponderar acender a lareira, quando percebi que não valia a pena ponderar porque não tinha lenha e também não ia para o pinhal, àquela hora, à cata de gravetos e pequenos troncos caídos para fazerem as vezes da lenha, e hoje já tenho dificuldade em respirar por causa do calor e do tempo extremamente seco. Ouço a minha própria pieira e enervo-me comigo mesmo. É uma chatice, esta respiração difícil dos asmáticos que, antes de enervarem os outros, enerva os próprios.
Então hoje está calor.
Vou à praia.
Almocei um sumo de laranja fresco. Não tinha fome para mais. Vesti uns calções de banho. Calcei os chinelos. Agarrei na toalha de praia. Na carteira, no óculos de sol, na máscara e decidi ir à praia. Uma qualquer aqui da zona. Uma das praias não oficiais. Uma das praias escondidas entre dunas à frente de mato cerrado cujos caminhos é preciso conhecer de antemão.
Chego à porta da rua, à porta da cozinha que dá para a rua, olho para as montanhas que lá estão à frente e vejo-as pouco nítidas. Está calor mas o tempo não está muito bom. Está um pouco enublado. Uma coisa muito ténue, mas real. O azul do céu está esbranquiçado, como algumas fotografias que tiro.
Penduro a toalha de praia na cadeira. Sento-me nessa cadeira, ali no alpendre, a olhar as pouco nítidas montanhas no horizonte. Acendo um cigarro. Recosto-me na cadeira.
Ainda não é tempo de ir à praia, pois não? E as praias devem estar cheias de gente, não é? Aquelas pessoas todas fartas de estarem em casa e a precisarem de sair, de sol, de água do mar e ondas e da água gelada do Atlântico a fazê-las bater o dente e de gente com quem conversar e comparar barrigas para não se sentirem tão sós.
Não, provavelmente não é a melhor altura para ir à praia.
A praia vai estar cheia de gente e vai estar frio e a água gelada.
É melhor ficar aqui por casa. Faço um gin tónico, um vodka laranja, um tinto de verano. Bebo tudo. Não tudo de uma vez, mas uns a seguir aos outros. Estendo a toalha na relva do quintal. Se me der o calor, posso sempre passar-me por água, pela água da mangueira como se fosse um repuxo.

A luz cai e eu continuo aqui sentado. Ainda não bebi nada. Ainda não me levantei para ir fazer alguma coisa para beber. Fumo. É a única coisa que consigo fazer. Fumar. Um cigarro atrás do outro. Como terá estado a praia?

Já está quase escuro. Serão horas de jantar, talvez. Não tenho fome. Tenho sede. Talvez tenha uma cerveja no frigorífico. Vou lá buscá-la. É só tirar a carica e está apta a ser bebida. Estou a acabar os cigarros.

Estou com sede e ainda não bebi nada desde o sumo de laranja natural do almoço. Já não tenho cigarros. É de noite. A Lua já está lá em cima. Devia levantar-me. Comer qualquer coisa. Beber qualquer coisa. Arranjar mais cigarros. Levantar-me. Primeiro preciso de me levantar.

Preciso de me levantar.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/25]

A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]

Sopa de Agrião para o Jantar

A noite passada houve uns carros parados lá à frente, na estrada. Com o confinamento os carros tinham desaparecido daqui, e as pessoas também. Esta rua esteve deserta. Agora parece que está tudo, ou quase tudo, a recomeçar a voltar aos velhos hábitos. Parece que afinal o vírus não infectou ninguém por aqui e as pessoas começaram a fazer o que faziam antes. Já saem de casa. Já andam em grupo. Os miúdos já brincam na rua. Já há namorados de mãos dadas no jardim da aldeia. O café voltou a encher. Confirmei ontem quando lá fui beber um bagaço. Disse-me o dono que servia-me o bagaço mas que tinha de ir bebê-lo para a rua. E assim fiz. Eu e todos os outros. Tudo à entrada do café a beber e a fumar. Tudo na risota. Ninguém conhece ninguém que tivesse morrido com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém que tivesse sido infectado com o Covid-19. Ninguém conhece ninguém. Eu também não. Se calhar é mentira.
Será que é tudo mentira?
Depois à noite, estava eu aqui no alpendre a fumar um cigarro e a tentar ver as montanhas lá ao fundo, a noite estava limpa, havia luar e conseguia ver as montanhas e estava a pensar como tinha saudades de ir até lá quando apareceu por aí o primeiro carro. A passar devagar. Eu estava cá em cima, no alpendre, às escuras. Só a incandescência dos cigarros. E tomei atenção ao carro. Passou devagar. Muito devagar. Depois parou lá mais em cima. Primeiro pensei É passe. Depois pensei É sexo. Entre uma coisa e outra, não sabia qual a que calhava pior nestes tempos e ali, à beira de casa. Cabrões!
A meio da noite, já me tinha deitado, já tinha dormido mesmo durante algumas horas, fui acordado por uma música vinda da rua. Música que deveria estar em altos berros para entrar pelos meus vidros duplos e vinda de lá de baixo, do fundo da estrada. Levantei-me sonolento e fui à janela da cozinha. Cocei-me à janela. Conseguia ver, ao fundo da estrada, as luzes vermelhas de presença de um carro, ouvia a música que saía de uma alta-fidelidade (não reconheci a música mas era um pop-rock manhoso) e parecia-me gente a girar à volta do carro. Não percebi se era gente a chegar e a partir, se era gente a dançar. Também podia ser só gente a foder encostada ao carro. Mas não percebia muito bem.
Ainda peguei no telemóvel para ligar à guarda, mas desisti. Não sou bufo.
Voltei para a cama. Tomei um Zolpidem e só acordei hoje, já era meio-dia.
Voltei a ir à aldeia. Andava toda a gente na rua. Parecia dia de festa. A peixeira da Nazaré apareceu por aí a vender peixe fresco. Comprei um Robalo para amanhã. Já tenho almoço para o primeiro de Maio.
Hoje à noite vou estar atento aos carros que passarem.
Já arranjei dois paralelos do passeio que encontrei soltos no meu caminho até à aldeia.
Agora vou beber uma cerveja e comer umas pevides que comprei a uma senhora que as estava a vender em frente à igreja. Não há missa mas há pevides.
Ainda não sei o que vou jantar. Alguma coisa se há-de arranjar. Ainda tenho um resto de sopa de agrião. É isso. Uma sopinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/30]