Moro num T1+1

Moro num rés-do-chão baixo, ao nível da rua. É um T1+1, o que quer dizer que tem um quarto, uma sala e um pequeno buraco que fazia parte da sala mas que foi separado por um tabique para quarto de empregada, ou de arrumação e fazer o apartamento subir um nível no valor do arrendamento. Fiz desse buraco uma espécie de escritório com uma mesa mais pequena que fui comprar ao Vassoureiro e os livros aguentam-se empilhados uns nos outros à espera de melhores condições de vida (minha) que lhes garantam outra dignidade (uma estantes seguras) num apartamento de divisões um pouco maiores e com vista para qualquer lado que não os ouvidos putrefactos da vizinhança.
A minha casa é pequena, mas é suficiente para mim. Tenho um quarto, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho com uma pequena janela de vidro que abre e deixa entrar ar fresco e o buraco que me serve de escritório. Um pequeno corredor vai da sala à cozinha fazendo a distribuição das outras divisões.
A sala fica paredes meias com a rua. Quando vou à janela fumar um cigarro, fico à altura das pessoas que passam por lá. O pequeno buraco que me serve de escritório também. Também fica paredes meias com a rua. E também tem uma janela. Às vezes deito-me no chão do escritório, arredo a cadeira e deito-me no chão do escritório, entre as pilhas de livros, para endireitar as costas, e sinto as pessoas a passarem por mim, quase como se me tocassem na cabeça. Às vezes alguns miúdos da rua encostam-se à minha parede a fumar uma ganza e ouço-lhes as conversas. Conversas de merda, na maior parte das vezes. Mas já me ri desgraçadamente.
O quarto e a cozinha têm uma janela para um pátio nas traseiras dos prédios. Quando vim para esta casa, às vezes ia até lá, fumava um cigarro a passear entre as couves e as batatas que os porteiros dos prédios que formam aquele pátio interior lá iam plantando. Saltava a janela da cozinha e passeava por lá. Mais tarde cimentaram todo o pátio e os porteiros deixaram de ter sítio onde plantar hortaliças. Depois começaram a descer os vizinhos dos vários andares, desciam pelas escadas de incêndio e juntavam-se no cimento a jogar o Monopólio, à bola, a beber cerveja e a fumar umas ganzas. Eu deixei de frequentar o pátio. E é raro fumar à janela da cozinha para não dar com os vizinhos a fazer o mesmo que eu e a dar fé das vidas dos outros. Fumo no interior da cozinha com a janela aberta. Ou fumo no escritório também com a janela aberta. Mas é raro fumar no escritório porque é raro abrir a janela. O barulho é quase sempre ensurdecedor. O passeio tem dois metros de largura e depois há uma estrada de duas faixas em sentido único e os carros aceleram por ali. Às vezes há vizinhos que param os carros em segunda fila, com os quatro piscas ligados, às vezes nem isso, e provocam engarrafamentos e buzinadelas. O som é insuportável.
Era. Já não é. Era.
O meu T1+1 que me servia na perfeição, tornou-se, de repente, enorme e minúsculo. Os dois contrários ao mesmo tempo. Mesmo tempo, mesmo tempo, não. Em tempos diferentes.
Quando me deito no chão do escritório, que agora faço com muito mais assiduidade, já não escuto as conversas dos miúdos na rua, nem os carros a galgar asfalto, nem há carros a buzinar a outros carros parados em segunda fila. Agora já não há pessoas, nem carros, nem barulho. Agora só há silêncio. Por vezes estou na sala a ler um livro e fico admirado por o barulho da história ser maior que o barulho da minha vida.
Mas quando estou há mais de duas semanas em casa, fechado como agora, e só saio para ir ao pão ou para comprar alguns mantimentos à mercearia que fica cinquenta metros acima na rua, a casa parece minúscula, demasiado acanhada para a enormidade da minha neura, uma neura criada na obrigatoriedade de ficar em casa, coisa que eu até gosto de fazer. Mas não obrigado. Não por decreto. Não porque me mandam. Agora até a rua me parece pequena. As duas pastelarias fechadas. A oficina a trabalhar a meio-gás (estão de porta fechada mas ouço o barulho no interior). As escadas que levam à C+S lá mais acima, desertas. A casa dos tecidos encerrada. O restaurante onde ia por vezes comer uma alheira de caça, encerrada. Tudo fechado. Ou quase tudo. Tudo em silêncio. E eu. Eu aqui, fechado em casa. Não estou de quarentena. Estou só em isolamento. Estou recluso. Em fuga ao vírus.
Agora trocava o meu T1+1 por uma casa velha com um quintal mal amanhado e uma casota para um cão e um galinheiro para umas galinhas e uma vista sobre árvores e montanhas e um riacho e o barulho das cigarras e dos grilos e dos pássaros e até do raio das corujas que não se calam durante a noite inteira mas que me adormeceriam e me fariam ser mais bem-disposto. E há quanto tempo não chove?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/23]

Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Conversas à Varanda

Despertei sozinho na cama. Virei-me para o outro lado, estiquei os braços e as pernas para a outra metade da cama e senti o frio. Ela já devia ter-se levantado há algum tempo. Ao fim-de-semana levanta-se cedo. Acorda cedo. Dá umas voltas na cama. Não consegue voltar a adormecer e levanta-se. Vai pôr roupa a lavar. Aproveita o bom tempo para estender a roupa ao sol. Limpa a casota do cão. Trata do canteiro das especiarias. Às vezes começa a preparar o almoço. Não consegue parar um segundo. É raro encontrá-la sentada no sofá a ler um livro. Não que não goste de ler, não consegue é estar quieta por muito tempo.
Eu levantei-me. Vesti uns boxers. Fui até à cozinha. Tinha um copo com sumo de laranja natural na mesa à minha espera. Peguei no copo. Ouvi vozes vindas do exterior. Aproximei-me da janela da cozinha. Ela estava no alpendre, encostada à um pilar, a fumar um cigarro e a conversar com a vizinha, por cima do muro que dividia as duas casas, enquanto esta lavava a casota do cão. Não percebia o que estavam a dizer. As janelas estavam fechadas. Mas fiquei ali a olhar para elas, uma de cada lado do muro, cada uma delas no seu quintal, a conversar sobre não-sei-o-quê, trivialidades da vida talvez. Gosto de ver esta relação entre vizinhos. Gosto de ver a utilização dos alpendres e das varandas. Gosto de ver vida fora das casas.
Lembro-me da minha mãe que conversava de janela para janela com as vizinhas do prédio. Às vezes trocavam necessidades em pequenos cestos descidos em cordas, como elevadores entre janelas. Às vezes chamava-me quando eu andava na brincadeira com os meus amigos, para ir à mercearia buscar açúcar ou ovos que precisava para fazer um bolo, fazia descer o pequeno cesto por uma corda com o dinheiro e depois, quando eu regressava com o que tinha comprado na mercearia, punha as coisas no cesto e ela voltava a puxá-lo para cima.
No Verão também era normal eu estar a jogar à bola no quintal, com os vizinhos do prédio, e os pais estavam nas varandas a fumar cigarros. Pareciam pirilampos a acender aqui e ali, como um jogo de luzes psicadélicas.
Hoje em dia vejo as varandas vazias. A maior parte delas nem um vaso com flores. Ninguém à varanda. São prédios fantasma. Bairros mortos. Impessoais. Os vizinhos não comunicam. As pessoas não vêm à rua respirar ar fresco, fumar um cigarro, olhar as pessoas a passar, os namorados agarradinhos, os casais apressados, o rapaz que já vai atrasado, a criança que pedala na sua bicicleta com rodinhas de apoio.
Em casa dos meus pais, quando era Verão, ele colocava uma mesa pequena na varanda e comíamos lá. Comíamos nós na nossa varanda e os nossos vizinhos nas varandas deles. Às vezes ainda conversavam de varanda para varanda. Ainda me lembro dos jogos da UEFA ouvidos pela rádio à janela, e as discussões de janela para janela. Uma vez um vizinho despejou um jarro de água sobre a cabeça do vizinho de baixo. Mas continuaram amigos.
Acabo da beber o copo de sumo de laranja natural. Ela entra em casa. Vem a sorrir. Traz um saco de plástico na mão. Dá-me um beijo. Eu digo Hoje almoçamos no alpendre. E ela diz Boa. A vizinha deu-me dois robalos. Podes ir assá-los, e estendeu-me o saco de plástico com os robalos lá dentro.
Fui fazer as brasas. Ela depois apareceu lá com os dois robalos limpos e alguns pimentos. Levou-me uma cerveja e umas azeitonas. Ficou lá, por momentos, a fumar um cigarro e a olhar para mim a assar o peixe que depois iríamos comer no alpendre. Às vezes sinto-me o meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/07]

Não Tenho Ninguém à Espera em Casa

Saio mais tarde do trabalho. Já é de noite. Não tenho ninguém à minha espera em casa. Não tenho nenhuma obrigação. Deixo-me ir estrada fora. Perco-me nas pequenas localidades aqui à volta. Vou à aventura.
Percebo a dificuldade de conduzir nestas estradas a esta hora. As luzes públicas são quase inexistentes e as poucas que existem parecem fracas, parecem não iluminar nada, parecem ser só pontos de referência. Muitos dos candeeiros estão fundidos ou, pelo menos, não estão a funcionar. Outros carregam lâmpadas tremeluzentes. Cruzo-me com carros em sentido contrário e os faróis cegam-me momentaneamente. Não estou habituado a grandes focos de luz desde que iniciei esta pequena viagem.
As estradas também não estão em grandes condições. Esteve a chover durante a tarde. As estradas estão molhadas. Escorregadias. Há muitos buracos. Há muitos remendos e, alguns desses remendos já desapareceram e a brita utilizada para encher os buracos anda à solta pelo pouco asfalto existente, muita terra batida, às vezes lama, por onde eu circulo. Eu vou aos solavancos. Sinto as rodas do carro aos saltos. Sinto o carro aos saltos. E eu aos saltos dentro do carro.
Os cruzamentos tornam-se perigosos. Tenho os vidros do carro embaciados por dentro. Tenho os vidros do carro sujos por fora. A chuva espalhou o pó. Não tenho água do depósito do limpa-vidros. Liguei as escovas e borrei o pára-brisas. Dava-me jeito que chovesse agora. Não muito. Um bocadinho. O suficiente para me lavar os vidros.
Páro à entrada do cruzamento. Olho para todo o lado. Não vejo luzes. Arranco. Faço o cruzamento e sigo em frente.
Vou a conduzir sem música. Perdi a antena do carro. Ou roubaram-na. Não sabia que ainda se roubavam antenas. Quando era miúdo também roubava umas antenas mas era para fazer espadas e setas e lutar com os outros miúdos da rua. Hoje os miúdos já não brincam na rua. Já não há malta da rua. Os carros já não têm antena exterior. O meu carro ainda tem. Tinha. Roubaram-na. Não consigo sintonizar nenhuma estação de rádio. Não consigo ouvir música. Vou atento aos barulhos dos carros. Não vejo bem a estrada. Também preciso de actualizar as lentes dos meus óculos. Já tenho alguma dificuldade em focar ao longe. Ao perto, ainda é pior. Não consigo ler a ementa de um restaurante. Quando almoço fora, e estou sem os óculos de ler, peço sempre a diária. Mas ouvir, isso ouço bem. Vou atento ao barulho dos outros carros. Ao barulho que o meu próprio carro faz. Tem um barulho peculiar. São muitos anos a queimar gasóleo. São muitos anos a transportar-me para todo o lado. Já me levou a Andorra. Outros tempos. Éramos todos mais novos. Mais disponíveis. Menos exigentes.
Entro numa localidade. Talvez uma aldeia. Não conheço. Nem vi a placa. Acho que nunca aqui passei. É uma rua. Uma única rua. Mal iluminada. Há um café. Café Central. Páro o carro mais à frente. Páro na berma da estrada. Tenho sede. Vou fumar um cigarro.
Saio do carro e recebo o bafo quente do início da noite. Está quente e húmido. Há uma orquestra de grilos a cantar no campo todo amarelado, cheio de azedas. Este Inverno é muito primaveril.
Ao fundo aproxima-se um carro de bois. Digo bois, mas podem ser vacas.
Entro no café. O balcão está cheio de homens que discutem futebol. Há dois deles muito nervosos. Falam muito alto. Tão alto que não se ouve nada da televisão pendurada em cima, por trás do balcão, onde um Fernando Mendes muito mais magro pergunta O Preço Certo em Euros. Os dois tipos que discutem, parece que vão chegar a vias de facto. Mas talvez não. As pessoas são só assim. Fervem em pouca água. Depois esvaziam.
Procuro uma nesga entre dois corpos e peço uma mini. Agarro na garrafa e vou para a rua beber a cerveja. Acendo um cigarro. O carro de bois passa à minha frente. São mesmo bois, afinal. Alguém toca-me no ombro a pedir-me lume.
Fico por ali um bocado. Ainda bebo mais duas minis e fumo mais um cigarro. Depois vou-me embora para casa. Vou sem pressa. Não tenho ninguém à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/03]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]

A Besta Espalha os Seus Tentáculos

O tipo já lá estava quando eu cheguei.
Sentei-me ao balcão e pedi uma imperial. O homem do bar colocou-me uma imperial e um pires com tremoços à frente. Trinquei dois. Bebi um gole de cerveja. E ouvi Esta merda agora é tudo racismo, tudo racismo. Sabem lá eles o que é racismo! e eu olhei para o lado e vi o tipo que já lá estava antes de mim, sentado ao balcão, com um copo de bagaço à frente. Ele virou-se para mim, à procura de coro e disse E eu não sou racista. Até tenho amigos pretos! Aquilo não é racismo. Aquilo é uma provocação do preto, e eu olhei para a televisão que estava pendurada lá no alto e vi as imagens com o jogador que abandonou o jogo futebol por causa dos adeptos que estavam a imitar o som de macacos.
Virei-me para a frente. Para a minha frente. À minha frente estavam umas garrafas de bebidas brancas expostas em prateleiras de vidro cheias de pó. Por trás das garrafas via-me estilhaçado, em pequenos pedaços que o espelho reflectia. Via-me velho. A barba mal aparada. Uma barba grisalha. Fazia lembrar-me do meu pai. Não na barba, que ele não usava barba. O meu pai fazia a barba todos os dias, durante toda a vida. Não falhava um dia. Só nos últimos dias é que deixou de conseguir fazer a barba. Fui eu que lha fiz, nesses dias. Não, não era por causa da barba que me lembrava dele. Eram as feições da cara. Uma cara escavada. As olheiras. A face um pouco chupada. A boca descaída. A mim a boca via-se mal mas, percebia-se pelo corte na barba onde estava boca e como é que ela era. A cara dele na minha. Uma cara triste. Acho que sempre tivemos isso em comum. Uma cara triste.
Senti uma mão a pousar-me no braço. Ouvi Oh, amigo!… e afastei o braço da mão que me agarrava. Fiz um olhar duro, duro e fixo para o tipo que se tinha abeirado de mim. O tipo era magro. Magro e seco. Cabelo curto. Um dente partido mesmo à frente, que se via cada vez que abria a boca. Oh, amigo!… Criei uma barreira. Não estava com vontade de o aturar e fiz-lhe ver isso.
Agarrei no copo da imperial e despejei-a de uma vez. Os meus olhos procuraram os olhos do homem do bar. Levantei um pouco a mão. O homem trouxe outra imperial. Trinquei mais uns tremoços. O tipo regressou ao banco frente ao copo de bagaço.
Quando é com um branco nunca é racismo!, ouvi o lamento do tipo que virava o olhar da televisão para mim, ainda não convencido que eu não queria conversa.
Na televisão passavam imagens de claques a manifestarem-se num campo de futebol.
O homem do bar colocou a imperial à minha frente. Trinquei mais uns tremoços. Agarrei na imperial. Bebi um gole.
O meus olhos voltaram a pousar no meu reflexo. Na verdade não me parecia nada com o meu pai. Éramos bem diferentes. Com a mesma idade, o meu pai não usava barba e era careca. Eu uso barba e tenho bastante cabelo. Mas tudo em mim me fazia lembrar dele.
Vindo do lado, voltei a ouvir o tipo Esta gente precisava era de umas arrochadas!… Afinal, somos nós que lhes pagamos para poderem ter a vida que têm! Mal agradecidos! A cuspir na sopa!
Nós quem? Quem de nós é que pagava o que quer que fosse a alguém? Olhei para o tipo. Vi-o despejar o bagaço. Depois levantou o braço com o copo e disse São todos uns corruptos. Pretos e corruptos. São todos iguais. Todos não. Este não! Este sabe! Oh, este sabe! Este é esperto! Este diz as verdades! Segui o olhar do tipo e vi a besta na televisão. Vi a besta a vociferar ódio contra toda agente que não fosse igual a ele. Toda a gente que não pensasse como ele. E durante o pouco tempo em que olhei para a televisão, a besta não fechava a boca e não deixava mais ninguém falar. O tipo ao balcão gritava loas à besta. De braço levantado. De vez em quando olhava para mim. Provocava-me?
Eu chamei o homem do bar, Pedi uma cerveja em garrafa. Despejei o copo de imperial. Comi mais uns tremoços. Larguei uma nota de cinco euros. Agarrei na garrafa. Na garrafa cheia de cerveja. Aproximei-me do tipo e dei-lhe com a garrafa na cabeça. Vi a garrafa partir. Vi cerveja cair pela cabeça do homem. Vi o sangue a começar a escorrer pela cara dele abaixo. Vi o tipo cambalear. Vi o tipo cair.
Vi-me a mim, reflectido no espelho.
O homem do bar colocou uma garrafa de cerveja à minha frente. Agarrei na garrafa e saí do balcão. Passei por trás do homem que continuava sentado ao balcão a olhar a televisão, e saí do bar.
Na rua acendi um cigarro. Encostei-me à parede do bar, uma perna flectida e o pé na parede, a fumar o cigarro e a beber a cerveja da garrafa.
E pensava, Este mundo está muito doente.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/18]

A Queda, parte 03 e final

Acabou-se-me o cigarro. Morreu entre os meus dedos. A incandescência queimou-me as peles soltas nos cantos, junto às unhas, onde a pele está amarelada, um amarelo-hepatite que é, afinal, dos cigarros.
Estou sentado no chão da varanda, encostado à parede. Preso na minha incapacidade de reacção.
Reajo. Tento reagir. Mas não me mexo. Sinto um fio de baba a cair-me do canto da boca e levanto, a custo, a manga da camisola. E limpo-me.
Cruzo as pernas nelas próprias. Endireito as costas. Ergo os braços como numa prece. Junto polegar e dedo do meio. Fecho os olhos. Expiro todo o ar que tenho nos pulmões. Esvazio-me.
Sinto-me desacelerar. Sinto as batidas do coração espaçarem-se. Espaçarem-se cada vez mais. Cada vez um bater mais distante. Cada vez um bater mais silencioso. Até deixar de bater. Até deixar de o ouvir bater. Até parar.
Tudo pára.
Rebobino o filme.
Faço a estória regressar atrás. Não ao início, ao princípio de tudo onde tudo era o verbo e o início do livro. Mas ao início do último capítulo. Este capítulo onde ainda estou. Regresso.
Refaço.
Recomeço.
Chego ao Vale Furado, paro o carro na arriba e deixo-me ficar sentado no interior. Bebo uns goles de vodka. Fumo um cigarro. Sinto o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embala-me. Penso no trabalho que acabara de mandar à merda, como já tinha mandado a minha mulher, os meus filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspiro. Sinto-me adormecer a pensar que o dia de amanhã nunca será a véspera de hoje.
E então, vejo-a. Desperto.
Os raios de sol brilhantes a baterem-lhe no cabelo. O fumo que se desprende do cigarro que, imagino, está a fumar, corre em espiral para o céu e desfaz-se antes de lá chegar. Ela está sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas.
Ela está sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fuma um cigarro. Adivinho-lhe o cigarro entre os dedos da mão que leva à boca. O fumo dissipa-se logo acima do cabelo dela brilhante pelo sol. E penso A miúda é gira. E é. É bem gira. E ainda penso O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorrio e penso O mesmo que eu. E dou uma gargalhada. Uma gargalhada tonta.
E, de repente, sinto uma vontade louca de sair do carro, dirigir-me a ela e convidá-la para beber uma cerveja na esplanada do Mad. E é o que faço. Saio do carro. E nesse mesmo momento, ela levanta-se da cerca. Eu chamo-a. Ela vira-se para mim. Eu aproximo-me. Encosto-me à cerca. Peço-lhe lume. Ela diz que tenho o cigarro acesso. E tenho. Tenho o cigarro a fumegar entre os dedos da mão. Sinto-me corar de vergonha. Ela sorri. Eu também. Encho o peito de ar. A alma de coragem. Convido-a para beber uma cerveja na esplanada do Mad. Ela pára de sorrir. Hesita. Olha para o penhasco. Olha para o mar ao fundo do penhasco. Olha para longe, para longe no mar, talvez para as Berlengas. Olha de novo para mim. Volta a sorrir. Aceita.
Eu estendo-lhe a mão para a ajudar a passar a cerca para o lado da cá onde eu estou. Ela agarra-me na mão. Sinto-lhe a palma da mão transpirada. Sinto-a nervosa. Ajudo-a a passar a cerca. Quando passa próximo de mim vejo umas gotas de suor a escorrerem pelas frontes. Cheiro-a. Cheiro-lhe o medo. Não de mim. Mas medo. Sinto-a com medo. Aperto-lhe a mão com segurança. Ela quase tomba ao passar uma das pernas por cima da cerca mas eu agarro-a. Estou aqui, afirmo sem falar.
Caminhamos em silêncio até à esplanada do Mad. Bebemos umas cervejas. Depois, e com ajuda do álcool, começamos a falar. A conversar. Na verdade ela fala. Eu ouço. E que prazer é ouvi-la. As conversas dela são música. E o tempo passa. E chega a noite. A esplanada fecha. Passamos para o interior. E o interior fecha. E saímos para a rua. O céu está estrelado. Não está frio. Apetece-me ir ao banho. Apetece-me ir nu a um banho nocturno no Vale Furado. Mas não digo nada. Não lhe revelo as minhas vontades. Ofereço-lhe boleia para Leiria. E ela aceita.
E depois… E depois é uma outra estória que não cabe aqui.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/06]