Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

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Uma Avenida com Uma Só Faixa para Ir e Outra para Vir

Eu estava parado em frente dele. O meu carro a bloquear o dele. Eu estava na estrada. Em fila. Parado. Ele num cruzamento a não poder passar por minha causa. Ele sorria. Um sorriso cínico. E acenava a cabeça. Agradecia-me o que eu não tinha feito. Eu abria a boca e gritava. Gritava-lhe. Gritava-lhe impropérios. Não ouvia o que dizia. Não me ouvia. Mas sabia que estava a gritar. Sentia-me a gritar. A mandar-lhe com todas as minhas frustrações. A descarregar nele aquele final de tarde. Estava zangado. Queria sair do carro e descarregar-lhe um murro naquele sorriso parvo. Fazê-lo sangrar.
Tinha vindo em pára-arranca desde o início daquela avenida que só tem uma faixa para ir e outra para vir. Uma avenida estreitinha. Uma avenida que serve de saída da cidade e que encaminha os carros para o Centro Comercial. Só tem uma faixa para ir. E outra para voltar. E passa por duas rotundas. Uma pequena. Pequenina. Que mal serve para fazer distribuição dos carros pelas quatro saídas. Outra que é oval. Não se percebe muito bem o que é. Como ir. Bom, é entrar, benzer e crer que Deus está por ali, ao nosso lado, para ajudar.
Deus não estava comigo naquele pára-arranca. A andar dois metros de cada vez. Um passo de caracol. Na rádio a Web Summit. E o tipo que falava em milhões. Milhões em investimentos. Milhões para investimentos. Milhões de capital de risco. Milhões de Fundos de Investimento. Em Start-Ups. Em empresas que muitos não compreendem para que servem. E algumas não servem. E algumas morrem à nascença. E algumas não são nada. Verbos de encher. Aplicações. Aplicações desnecessárias. Que custam milhões. Que valem milhões. Que precisam de milhões. E eu, dentro do carro, a pensar onde ir buscar o dinheiro para pagar a renda da casa. Tostões. É esta a nossa grandeza. Medimos assim a importância. Eu conto os tostões que não tenho. E que preciso. Num mundo de milhões. Milhões em lantejoulas.
Cheguei ao cruzamento. Medi o espaço à frente. O carro que arrancou chegava-se à frente e eu conseguia também chegar-me a ele e deixar livre, atrás de mim, a passagem para os carros que cruzam a estrada da esquerda para a direita. Mas o tipo à frente parou antes de tempo para dar passagem a uns carros que vinham da direita, do estacionamento à direita. E eu fiquei parado à frente do tipo. Só lhe via a boca cínica. A sorrir. A acenar. A fazer-me crescer a fúria. A fazer-me crescer a vontade de sair do carro e descarregar-lhe um murro naquele sorriso parvo. Fazê-lo sangrar.
Mas não.
Olhei-me no espelho retrovisor. Eu não sou assim. Não sou. Olhei-me nos olhos. Reconheci-me. Eu não sou assim. E acalmei. O carro da frente continuou uns metros e eu segui-o. Libertei o espaço atrás de mim. O outro carro cruzou então a estrada da esquerda para a direita fazendo os pneus chiarem no asfalto.
Mas já não queria saber. Já não lhe via o sorriso cínico. Só os meus olhos. Só eu no espelho retrovisor.
Na rádio a informação inútil O primeiro Grão-Mestre da maçonaria portuguesa era um neto do Marquês de Pombal. Ora bem.
Cheguei à rotundo oval e entrei. Não havia trânsito nenhum. Não sei porque é que havia engarrafamento lá mais atrás, na avenida com uma só faixa. Aqui o trânsito nem fluía. Simplesmente não havia trânsito. Onde é que se tinham enfiado os carros todos?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/05]

As Minhas Virtudes São Públicas, os Meus Vícios Privados

As minhas virtudes são públicas. Os meus vícios são privados. Que é que posso fazer? Sou um filho de Leiria e ajo como tal. Espero não ser censurado. Sou o que de mim fizeram.
Toda a gente sabe que vou à missa e comungo com regularidade. Sou baptizado. Circuncidado. Fiz a primeira comunhão, a segunda e o crisma. Casei pela igreja. Estudei num colégio de freiras. Dou dinheiro para a caridade. Ajudo a Cruz Vermelha. Não praguejo. Voto normalmente à direita. Ajudei a eleger o sr. Quinze por Cento e sou um anti-comunista primário. Sou a favor da vida, contra a interrupção voluntária da gravidez, contra a eutanásia, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a adopção por pessoas solteiras ou em casamentos não convencionais. Sou um leitor compulsivo mas tenho cuidado com o que compro. Vejo cinema nas salas do Centro Comercial e compro alguns CD’s na FNAC. Como peixe cozido, bitoques e frango assado. Às vezes vou ao McDonald’s. Às vezes como pasta. Gosto muito de morcela de arroz, chanfana e alheira.
O que não sabem, nem têm de saber, é que já paguei vários abortos. De várias raparigas. Nenhuma delas a minha mulher. São acidentes de percurso. A que todos estamos sujeito, mas ninguém tem nada a ver com isso. Não foram feitos cá, pronto.
Frequentei, com alguma assiduidade, o Maybe e o Raínho. Mas só porque eram os únicos bares abertos àquelas horas. Tive umas experiências homossexuais, mas acabei com isso porque estava a tomar uma dimensão que já não podia controlar. Atropelei uma velhota que acho que morreu. Mas ninguém viu. Às vezes também roubo no supermercado, mas é mais pela sensação, pela vertigem que me atinge. Fumo erva. Comecei no colégio a fumar. Nos intervalos. Quando tenho dinheiro dou na coca que me anima, no cavalo que me deprime, no mdma que me faz dançar all night long e nos cogumelos que me ilustram a existência. Compro alguns livros mais obscuros na Amazon. Vejo pornografia na internet e já me arrisquei na deep web. Já vi snuff movies e outras coisas que não posso dizer porque acho que pode ser considerado crime.
Acho que vou divorciar-me. Não porque queira, é claro.
Mas esta é a minha vida privada e ninguém tem nada a ver com ela. É a minha. E se não fosse assim, como conseguiria sobreviver à terra cinzenta que é Leiria?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/09]

Abaixo de Humano

Demasiado calor para ir à praia. Demasiado calor para sair, procurar e experienciar o ar condicionado de um qualquer centro comercial. Demasiado calor para fazer o que quer que seja. Mesmo levantar um dedo exige demasiado de mim.
Abro as janelas todas e espero o milagre da aragem, da corrente-de-ar, da ventania. Fresca de preferência. Esparramado no sofá dedico-me ao zapping enquanto tenho paciência. Mas já viram televisão ao Domingo? Sim! É mesmo assim tão bera.
Escolher um filme.
E maldita a hora da escolha.
Estou deprimido.
Dividi-me em três para seguir o tríptico da prostituição Whores’ Glory de Michael Glawogger. Vou para a Tailândia. Para o Bangladesh. Vou para o México. Não volto inteiro. Fiquei perdido na Zona de Tarkovsky. Não sei como voltar atrás e esquecer o que vi. Não que não conhecesse o que vi. Mas porque o que vi ultrapassa, em muito, tudo o que eu queria saber. Não ver é não saber. Não querer saber é não existir.
Mas… Foda-se!
Somos uns cães.
Uns cães gananciosos.
Uns cães à procura de sobreviver a cavalo dos mais miseráveis dos miseráveis, porque há sempre um miserável mais miserável que outro, e que lhe serve de sustento.
Na Tailândia encontro o Aquário. Mostruário de carne. Carne feminina para consumo no local. Por locais e alguns turistas. Há um norte-americano por lá. Mas não é nada de novo. A Tailândia é conhecida por ser um destino de turismo sexual. O que impressiona é a forma mercantil como a coisa acontece. Lembro-me do Decades dos Joy Division e da prece de Ian Curtis:

“Here are the young men, a weight on their shoulders
Here are the young men, well, where have they been?
We knocked on doors of hell’s darker chambers
Pushed to the limits, we dragged ourselves in

Watched from the wings as the scenes were replaying
We saw ourselves now as we never had seen
Portrayal of the traumas and degeneration
The sorrows we suffered and never were freed”

Chego ao Bangladesh e descubro que descemos todos os degraus possíveis e imaginados. Num país que já por si é miserável, ainda há quem esteja abaixo dos cães, abaixo da humanidade.
Entro no Bazar. Uma cidade dentro da cidade onde vivem as mulheres que não esperam nada mais da vida que sobreviver a mais um dia. Aqui encontro crianças. Crianças vendidas pelas famílias. Por tostões. Para serem alugadas por outros tostões a outros miseráveis que não têm possibilidade de ter outra vida que não aquela. As prostitutas a quem pagam são chamadas de namoradas. Escolhem as mesmas, mesmo que às vezes escolham outras. Porque têm birras de namoro. Como entender isto? Como aceitar estas crianças em tarimbas nojentas, sujas, obrigadas a venderem-se por uma peça de roupa, um bocado de comida, uma enxerga onde dormir, mesmo que, a partir de certa hora a luz do local se apague porque chega a hora do senhorio cobrar pelos quartos, pela actividade, pela mercadoria? Num Bangladesh onde são feitas as peças de roupa que vestimos, aqui, no Ocidente…
Foda-se!…
Descubro-me no México. Aqui respira-se melhor ar, mesmo que continue azedo, enlameado, pobre. Aqui fala-se pela primeira vez de droga – crack -, que as prostitutas consomem para se evadirem. Aqui parece haver alguma vida para além da tristeza miserável da venda do corpo por quem não tem mais nada para vender. Mas não deixa de ser medonho. Cruzo-me com uma louca que dança, despida, para a câmara. Mas aqui, mesmo assim, há vida para além da miséria. Fala-se, veladamente, de algum amor, de carinho.
Há algo de comum às três diferentes realidades: a religião. Para uns, a esperança, para outros o limite (no Bangladesh as mulheres não fazem fellatio porque a boca serve para rezar o Al-Corão), para outros, ainda, o escape, como uma droga.
Acaba o filme e sinto-me despedaçado. Acaba o filme e sinto que somos menos que zero. Acaba o filme e sinto que somos uma merda de civilização. Somos alguém à espera de usar o outro. De foder o outro. De ser mais que o outro. De vender o outro.
Que vergonha de mim próprio.
Devia ter ido à praia mesmo com este calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/05]

A 25 de Abril a Liberdade Foi ao Centro Comercial

Encontrei a Liberdade e andava a passear pelos corredores do Centro Comercial.
Era Domingo sem o ser e, por isso, não havia bola para desfrutar.
Estava calor, não ainda o suficiente para mandar o papo-para-o-ar nas areias da Praia da Vieira, as raparigas ainda não tinham ido à depilação e as senhoras ainda não tinham começado as dietas. Então, nada melhor que o fresco do ar condicionado entre as lantejoulas das montras e os sofás onde deixavam enterrar os rabos uma tarde quase inteira, não se fosse perder o poiso.
A Liberdade passeava-se lá pelo Centro Comercial, mas só apreciava. Olhava. Para aqui. Para ali. De vez em quando queixava-se. Queixava-se de que as coisas eram caras, A vida está cara, pá!
Então saltava para dentro do Continente onde os valores exibidos nos lineares era bastante mais baixo. E havia a semana disto e daquilo, o que fazia baixar ainda mais os preços. E a Liberdade sabia porque o preço anterior estava riscado e o novo sobressaía. E ainda havia as promoções. E os finais de prazo. E as linhas brancas. E…
De vez em quando a Liberdade tinha de levantar o braço a ameaçar o-seu-mais-novo que ainda não percebera bem a dinâmica e queria tudo e mais alguma coisa do que via, não compreendendo os limites da carteira da Liberdade.
Mas ainda assim deu para beber um café numa ilha e oferecer um sorvete, de copo, que teve de ser comido rápido antes que se tornasse líquido.
Voltei a ver a Liberdade quando já estava em casa, à varanda, a fumar o meu cigarro, e vi-a passar lá em baixo na rua, sozinha, sem medo de estar rua, de estar sozinha ou com medo de outras pessoas, a cantarolar uma musiqueta ouvida na rádio. Levava um cravo vermelho, já murcho, na mão. Mas a Liberdade é assim. Não deita nada fora. E ia contente.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/25]

O Último Vencedor do Euromilhões

Quando me aproximei da ponte vi que estava lá o melro. Andava de volta de qualquer coisa presa entre as madeiras da ponte. Eu já o tinha visto por lá outras vezes. E estava sempre no mesmo sítio.
Quando me pressentiu virar para o lado onde estava, bateu asas e voou. Ou, pelo menos, foi o que me pareceu. Porque a velocidade com que saiu do sítio de onde estava foi tanta que nem reparei no bater de asas. Na verdade parecia ter-se desmaterializado num lado para, provavelmente, se ter materializado noutro. Mas não reparei onde porque deixei, quase instantaneamente, de o ver.
Não foi, contudo, a primeira vez que o vi por ali. Não sabia se seria sempre o mesmo mas era normal haver sempre um melro ali, naquela zona mais destruída da ponte de madeira, a tentar bicar qualquer coisa que lhe estaria a chamar a atenção.
Foi no regresso, quando voltei para trás utilizando o mesmo caminho, e o melro não estava lá, que resolvi olhar para o sítio onde ele normalmente estava a tentar apanhar algo com o bico.
E vi uma moeda de dois euros.
Baixei-me. Apanhei um pequeno graveto que enfiei entre as ripas de madeira e consegui puxar a moeda de dois euros para fora. Sorri.
Como tinha uma moeda de cinquenta cêntimos comigo, voltei atrás, para o Centro Comercial de onde tinha vindo, e fui apostar no Euromilhões.
Quando voltei a passar na ponte, o melro já lá estava outra vez, mas agora não estava a tentar apanhar nada com o bico, estava só parado, na varanda da ponte, e parecia estar a olhar para mim e a rir, o sacana.
Era Sexta-feira. À noite foram anunciados os números sorteados. Olhei o meu boletim e, Glória! Glória, percebi ser o feliz e único contemplado com a sequência de números vencedores.
Dois dias depois, na Segunda-feira, fui ao banco e troquei algumas notas de euros por vários saquinhos cheios de moedas de dois euros.
Nessa noite, tarde na noite, voltei à ponte e andei a espetar várias moedas de dois euros entre as ripas de madeira.
No dia seguinte, era uma Terça-feira, dia de mercado municipal, havia uma quantidade enorme de melros a debicar as ripas de madeira da ponte. Alguns afastavam-se quando passavam pessoas. Mas depois voltavam. Havia como que um jogo de ir e vir dos melros, a baterem as asas que, afinal, ninguém via bater. Mas nunca ninguém teve curiosidade de procurar que raio é que os melros tentavam apanhar com os bicos entre as ripas de madeira da ponte.
Naquela cidade, nunca mais ninguém acertou nos números vencedores do Euromilhões. Eu fui o último. E só não digo algumas das coisas que fiz com o grosso prémio que me saiu porque não sou pessoa de me gabar das coisas boas que faço. Mas posso adiantar que, o Rui Patrício, não é a única pessoa viva com uma estátua em Leiria.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

À Espera que o Tempo Passe

É Sábado. Vésperas de Natal. Há uma espécie de histeria no ar. A cidade é inundada de pessoas. As lojas, de portas abertas, estão cheias de gente que mexe em tudo como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ir ao Centro Comercial é suicídio e decidir estar uma hora numa fila de trânsito que não anda.
Os restaurantes estão cheios. Alguns já quase só funcionam por marcação como nas grandes metrópoles.
Eu também decidi sair de casa. Estou sem luz. Não paguei a conta a tempo e cortaram-na na Quinta-feira passada, à noite. Agora só posso ir pagar na Segunda-feira. Até lá estou às escuras. Sem televisão. Sem aquecedores. Sem água quente para o banho. Nem a comida posso fazer. Não sei se foi boa política ter tudo eléctrico em casa. Por isso, que é que faço aqui? Saí.
Fui até às rulotes. Vou muito às rulotes. Por vezes até fica mais caro que em alguns restaurantes da cidade, mas fica a impressão de que se poupa. Estar a comer em pé, ao frio, um bocado de pão com uma bifana, e acompanhar com uma mini, parece mesmo uma refeição triste e barata.
Não era o único. Nunca sou. Aliás, as três rulotes que estavam a funcionar estavam à pinha. Havia ali muita gente como eu. Uma bifana, frita ou grelhada, um hamburger, ou um cachorro-quente que mais não é que uma salsicha cozida com batata palha e uma série de molhos. Mas as pessoas gostam. É pena não haver batatas fritas ruffles da Matutano.
Saio da rulote de estômago composto e, antes de me ir enfiar na cama, passeio um pouco pela cidade. E vejo que ela fervilha de gente. Grupos de miúdos, de raparigas. Grupos de capa e batina. Namorados. Casais. Parezinhos. Gente que parece divertida e que se diverte. Gente que sorri. Que ri. Gente que se beija. Passeia de mãos dadas. Gente que conversa. Que discute. Gente que vive e que ama.
Passo por isso tudo e sinto-me emocionado. Tenho pena de não sentir o mesmo. Tenho pena que tudo isto me passe ao lado. Mas não poderia ser de outro modo.
Já em casa, vou até à varanda fumar um cigarro. Parece que amanhã chega a Ana. Um furacão feminino. Não tenho nada em casa para lhe oferecer. Acho que vou ficar deitado na cama o dia inteiro. Acho que não vou ter pachorra para a receber. Vou adormecer e esperar que surja a Segunda-feira para poder tomar um banho de água quente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/09]