Era Natal e Bateram na Porta dos Fundos

E foi na noite do amor, na noite do amor ao próximo, na noite da família, na noite em que (quase) toda gente se reúne à volta de uma mesa a comer, a beber e a partilhar boas experiências e se enterram machados de guerra, dores e invejas e se anunciam cessar fogos, na noite mais cristã de todas as noites, na noite que se celebra o nascimento do Cristo que morreu para nos salvar, o Cristo que pregava o amor, a dádiva, e a redenção, que cristãos saíram do conforto dos seus lares, do conforto das suas famílias do conforto das suas amizades para executarem uma reles vingança contra um pequeno grupo de comediantes que têm como função fazer rir as pessoas, ilustrando o mundo com o ridículo das nossas vidas, da nossa fé, do nosso amor, das nossas convicções políticas, das nossas crenças, um pequeno grupo de comediantes que não apela ao crime, nem à morte, ou à desgraça alheia, nem à vingança, e não fazem pistolas com os dedos da mão, não garantem estar, temerosos, debaixo das leis de Deus, não matam nem achincalham ninguém, só expõem ao ridículo todos os nossos ridículos e foram atacados pelos filhos da fé, do amor, da paz e da sabedoria.
Mas o pior nem estava na garrafa do cocktail molotov que rebentou na fachada do prédio da Porta dos Fundos, mas nos comentários abjectos que se espalharam pelas redes sociais em defesa do indefensável:

“Toda a merda respeita a merda toda… Que morram, esses porcos…”
João Paulo in Expresso;

“Mas qual violência? Então agora só a esquerdalha é que se pode manifestar pelas artes? Trata-se de liberdade de expressão religiosa e estavam apenas a expressar gratidão pela homenagem.”
Flávio Costa in Expresso;

“És um ignorante de primeira, as cruzadas foram uma resposta dos cristãos a quase 300 anos de agressão muçulmana à Europa, os cruzados foram importantes na formação de Portugal, D. Afonso Henriques sem a ajuda dos cruzados nunca teria conquistado o território nacional. Falas de alianças com os fascistas porque o mundo ocidental estava ameaçado pelos comunistas, ninguém matou mais gente que a religião comunista, em meio século mataram mais que todas as religiões juntas. Falas também na inquisição, há quem fale que foram mortos 300 mil mas documentado não chega aos 30 mil, e a inquisição tem de ser posta no seu contexto histórico, as acusações eram feitas por pessoas normais.
Falas também em pedofilia, caso não saibas há mais professores pedófilos que padres, vês alguém a querer deitar as instituições de ensino abaixo?
Vergonha devias ter tu.
A igreja católica tem defeitos mas não deixa de ser a instituição que mais pessoas ajuda no mundo.”
Vasco Gomes in Observador;

“A paneleiragem que arranje assunto para fazer humor com eles próprios, quando é ao contrário vêm logo a correr feitos histéricos a reclamar com tudo e não venham com comparações, se fosse outra religião se calhar já tinham as cabeças penduradas á porta.”
Rui Santos in Observador;

“Eles se dizem ateus e atacam a religião do próximo por motivos políticos, são militantes comunistas que desejam acabar com símbolos da sociedade ocidental como família e religião…”
Márcio Dinis in Jornal de Notícias;

“Os que atacaram a Porta dos Fundos serão os mesmos que perdoam os padres que procuram introduzir o pénis no intestino grosso de criancinhas?”
Pedro Nuno in Público;

“A liberdade de expressão não é mais sagrada que Deus.
Amor não é deixar que escarneçam de quem amamos.
Se preparem agora, pois os muçulmanos não serão mais os únicos que lhes colocará no lugar.”
Helena de Carvalho in Público;

“Auto atacam-se para gerar pena e alertar as autoridades! Um Charlie Hebdo no Porta dos Fundos, por favor!!!”
Samuel Charrano in Correio da Manhã;

“O que é que vocês pretendem com provocações? Falam em liberdade de expressão, mas pelos vistos é só para vocês que conta. Será que em vez de liberdade vocês queriam dizer Libertinagem? Ora se não simpatizam com a religião católica, só têm é que respeitar para também serem respeitados. Ah, mas pelos vistos olhando bem para vocês, só querem é confusão. Não sabem que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro? Ai não sabem o que é Democracia, Liberdade com Responsabilidade? Olhem, vão para a escola aprender na disciplina de Cidadania os direitos, deveres, tolerância e bom senso comum que cada cidadão deve ter? Vocês querem é carnaval todo ano, porque trabalhar e estudar dá trabalho.”
Maria Marques in Correio da Manhã.

Alguns destes perfis são falsos, criados para defender posições políticas, religiosas e de grupos de influência. Mas outros são bem reais e mostram como nos tornámos tão boçais, intolerantes, estúpidos e mesquinhos.
Mostram também que somos todos muito corajosos escondidos atrás do ecrã do computador e de nomes falsos e fotografias forjadas.
Mostra como estes tempos de prosperidade e crescimento, económico e social, pós-Segunda Grande Guerra, deixou-nos intelectualmente anémicos e desejosos de um caos que, no fundo, não podemos realmente querer.
Enquanto a ciência corre para o futuro, o pensamento tende a fechar-se no passado. Num passado ignorante e obscurecido. De livros censurados. De ideias proibidas. De raças menores. De porcos mais porcos que todos os outros porcos.
E, afinal, devíamos era estar a celebrar o Natal. Lembram-se do Natal, antes de toda esta fúria consumista nos ter atacado?
E fala-se de amor…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/25]

Há Muitos Anos que Não Vinha Aqui

Fui buscá-la a casa. Ia levá-la a comer umas sardinhas assadas longe da cidade, longe do rebuliço e do calor terrível da cidade.
Estava na esplanada, não em casa. Despachou-se mais cedo e foi descendo. Foi até à esplanada. Sentou-se à sombra. Pediu um Compal de laranja fresco e deixou-se lá ficar à minha espera.
Quando cheguei, espreitei a esplanada antes de subir a casa. E vi-a. Sentada a uma mesa. Um copo com metade de sumo. Os olhos fechados. Os braços tombados ao lado do corpo. Ela muito direita, na cadeira. A bengala no chão, caída. Senti uma angústia. Um arrepio na espinha. Dirigi-me a ela. Coloquei-lhe a mão no braço e disse Mãe! e ela não reagiu e eu abanei-lhe um pouco o braço e chamei um pouco mais alto Mãe! e ela abriu os olhos muito devagar, como se estivesse feito uma paragem e retomasse a vida de seguida e disse Sim!
Eu suspirei aliviado. Sentei-me ao lado dela. Perguntei-lhe se queria alguma coisa e pedi um café para mim. Acendi um cigarro. E ela disse-me Quando é que deixas de fumar? e eu não respondi porque aquilo já não era uma pergunta, era uma censura, e nunca se responde às censuras, mesmo que venham da mãe e sejam bem-intencionadas. Depois disse-me que tinha vindo para a esplanada apanhar a aragem fresquinha enquanto me esperava e que afinal estava calor e tinha acabado por se deixar adormecer. Sorri. Bebi o café. Ela acabou por beber o resto do sumo.
Depois fomos embora. Ajudei-a a entrar no carro. Ainda não tínhamos saído da cidade já ela estava de olhos fechados. E eu disse, mais para mim que para ela Já estás a dormir outra vez? ao que ela respondeu Não estou a dormir, estou só a descansar.
A viagem ainda foi longa. Até à costa. Quando chegamos senti-a abrir os olhos. Olhou para o mar. Disse Já chegámos?, mas não era uma pergunta. E acrescentou Há tantos anos que não vinha aqui. E era verdade. Há muitos anos que não saía da cidade. Há muitos anos que tinha medo de andar de carro. Mas agora, agora que estava velha, já não tinha medo de nada. No outro dia disse-me Lembras-te quando íamos a qualquer lado, com o teu pai, e havia um elevador, ou umas escadas-rolantes, e vocês iam de elevador e eu tinha de subir as escadas a pé? Era uma saloia, não era? Agora subo e desço todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia, o elevador de casa. Sozinha. Sem medo! Sim, mãe. Sem medo.
Fez a viagem de carro sem medo. Adormeceu na viagem. Sentia-se descansada ao meu lado. E relaxou. Adormeceu. Depois abriu os olhos quando sentiu o carro parar. Quando sentiu a maresia. Quando ouviu as ondas a rebentar na areia. E disse Há tanto tempo que não vinha aqui!
Saí do carro e fui ajudá-la a sair. Dei-lhe a mão para a mão. Suportei-lhe o esforço. E enquanto saía do carro disse-me Vamos lá dar cabo dessas sardinhas. E parou, à saída do carro, a olhar para o mar. E voltou a dizer Há tanto tempo que não vinha aqui.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/08]

Tenho uma Amante

Tenho uma amante.
Tenho uma amante que conheci na zona dos frescos do InterMarché. Estávamos ambos desesperados com a falta de frescura dos legumes e saladas, já era tarde, já estava tudo muito escolhido e mexido, quando ela disse Esta Couve Lombarda está mais engelhada que a minha. E parou a olhar para mim depois de perceber o que tinha dito e dito alto. Levou a mão à boca a censurar-se. Tarde demais. Eu parei a olhar para ela a tentar perceber se o que ela tinha dito foi o que tinha querido dizer. Achei que sim. E deu-me uma tesão louca. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim na zona dos frescos do InterMarché.
Quando dei por mim estávamos no Motel Caribe, ali a caminho da Maceira. Entrámos de carro directamente para uma garagem. Subimos da garagem ao quarto. Nem tivemos tempo para mais nada. Rasgámos as roupas e fodemos logo ali, à entrada do quarto alcatifado, lembro-me de que o quarto era alcatifado porque ela queimou as costas e eu os joelhos.
Foi só depois de tratarmos do desejo que nos apresentámos.
O meu nome. O nome dela. Ela era casada. Mas estava a passar por uma crise. Não estamos sempre todos? Depois disse que devia de ter ido buscar os filhos ao ATL, mas que o desejo que eu demonstrara por ela tinha sido mais forte e cagara nos filhos.
Foi ali que decidimos que éramos amantes.
Encontrava-me duas ou três vezes por semana com ela. No Íbis. No Motel Caribe. Assim em hotéis baratos. Sempre para foder. Não tínhamos mais nada em comum além de uma grande tesão. Podia tê-la trazido para casa. Sou um solitário. Vivo sozinho. Mas achei que a relação que tinha com ela era uma relação de hotéis. Eu nunca lhe disse que vivia sozinho. A única coisa que lhe disse foi o meu nome. E podia ter mentido que ela não iria duvidar.
Na semana passada encontrei-me com ela no Hotel Villa Batalha. Ia fazer seis meses que nos conhecíamos, achei que podíamos ter um upgrade de hotel.
Nem jantámos. Eu cheguei primeiro. Tomei um banho e esperei por ela. Ela chegou e eu não esperei que ela tomasse banho. Só foi tomar banho depois.
Enquanto ela tomava banho, abri a janela da rua e ouvi uns acordes e alguém a cantar Ela é amiga da minha mulher // Pois é pois é // Mas vive dando em cima de mim // Enfim enfim // Ainda por cima é uma tremenda gata // Pra piorar a minha situação // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Se fosse mulher feia tava tudo certo // Mulher bonita mexe com meu coração // Não pego, eu pego // Não pego, eu pego // Não pego não…
Acendi um cigarro e fiquei ali a ouvir Seu Jorge que dava um concerto no campo da bola ali perto. A minha sorte, não? Seu Jorge em Agosto na Batalha. Seu Jorge no meu querido mês de Agosto.
E pensei Tenho uma amante. E sorri. Sorri da amante. Do Seu Jorge. De estar ali assim, num hotel com uma mulher casada. De me sentir ainda apto à vida. E ela chegou. E perguntou-me Porque é que ris? E eu encolhi os ombros e disse Por nada.
E ela começou. Foda-se, ela tinha de começar. Enquanto estávamos ali à janela a ouvir o Seu Jorge, eu a fumar um cigarro, nu, a apreciar o fresco da noite, o cheiro fresco que ela trazia do banho, começou a contar-me o dia que tinha tido. As chatices com o chefe. A estafa com os filhos. O desinteresse do marido. As amigas que passam férias em Varadero. A vontade que chegasse a noite para estar comigo. O stress para arranjar alguém que ficasse com os miúdos. A mentira que teve de construir para o marido, para poder estar ali assim, comigo.
E eu comecei a ouvi-la a distanciar-se de mim. A distanciar-se cada vez mais. A ir para longe. Tão longe que deixei de a ouvir. Era já só uma memória de uma foda no Motel Caribe.
Eu tinha uma amante. Mas começava a achar que não tinha paciência.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/26]