O Meu Andreas Gursky na Nazaré

Fui à Nazaré. Fui à Batel. Queria uma sardinha. Não havia.
Foda-se!
Ir de propósito à Nazaré para comer uma sardinha na Batel e não haver, é como ir à Praia do Norte e não ver surfistas enrolados nas ondas.
Sentei-me na esplanada da nova Batel, ali na marginal, junto à praia – acabaram com as duas outras antigas e abriram agora esta, num espaço que já existia e que era outra pastelaria, mas não era Batel. Sentei-me a olhar a praia. A calçada da marginal, a areia, o mar, o céu cinzento. Parecia estar frente a uma fotografia de Andreas Gursky, mas em real, não em papel. Não em revista. Não pendurada numa parede qualquer de um tipo com dinheiro suficiente para poder pagar estas fotografias com grife. Tirei a máquina. Apontei. Registei. Esta não seria do Gursky. Esta era minha. Lanceia-a para o Facebook. Para garantir autoria. Para ser real.
Ao lado, na esplanada ao lado, na esplanada do Irish Pub, um gajo não se calava. Nem me deixava saborear aquele fim-de-tarde de um Inverno cinzento e chuvoso na praia. Era um daqueles gajos que falava para a plateia. Falava para impressionar a miúda com quem estava. Queria concentrar-me na paisagem que se me abria e não conseguia bloquear a voz do tipo. Nem sei o que dizia. Era daquelas vozes que se impunham pelo timbre e pelo volume, bloqueavam tudo o resto, mas depois não deixavam nada. Nada. Mesmo que eu quisesse explicar sobre o que versava aquela conversa de engate com a miúda na mesa da esplanada do Irish Pub, não me lembrava. Era uma conversa sem história. Mas perturbava o momento.
Ainda cheguei a pensar levantar-me, dirigir-me à esplanada onde o tipo estava, à mesa onde dançava obscenamente palavras para a miúda e despejar-lhe a pint para cima das calças. E depois lembrei-me Estamos a entrar na semana Santa!
Recordei as aulas de Religião e Moral do colégio. Lembrei-me da Semana Santa que antecedia a Páscoa. Lembrei-me da Sexta-feira Santa, a morte de Cristo e o dia em que a minha mãe não nos deixava comer carne. Lembrei-me de todas as vezes em que comi sandes de fiambre sem pensar que o fiambre também é carne. E pensei É por isso que a minha vida é tão merdosa! É esta a vingança de Deus? Sacana!
E não me levantei. Não despejei a pint sobre o tipo de voz teatral a engatar miúdas impressionáveis. A minha foto não é tão boa quanto a do Andreas Gursky. Mas a Nazaré ainda é a Nazaré. E ainda tenho muito tempo até à asneira de Sexta-feira Santa, vésperas da ressurreição.
E pus-me a contar o dinheiro que tinha no bolso para ver se conseguia ir jantar à Celeste.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/13]

Um Céu Azul, em Dégradé

A manhã acordou bonita.
Através da janela da cozinha vejo o céu em dégradé. Desde o azul escuro, quase preto, por cima da casa, até ao amarelo explosivo, quase branco, que paira por trás das montanhas a aguentar a saída do sol. Não é um azul, são vários. Água, bebé, celeste, cobalto, marinho, turquesa, petróleo, tóquio. Nem uma nuvem. Uma ruga. Um céu limpo. Liso.
Ao fundo, no meio daqueles azuis em mutação, lá muito em cima, a Lua. A Lua em forma de unha de criança. Uma curva fininha. Fininha, fininha, fininha. Como a unha do meu filho perdida no chão da cozinha e encontrada quando procurava a lente de contacto caída por desleixo.
Depois vejo um, dois, três riscos de aviões a cruzarem o céu. Os chemtrails. A marca da conspiração mundial. Os químicos que os aviões vão largando nos céus para controlar a população. Basta ler na internet. Basta procurar no Google. Mas eu ia agora ali, num daqueles aviões, destino a onde-quer-que-fosse. Só queria que tivesse um céu assim. Azul. Em dégradé.
É três de Janeiro. A minha mãe dizia que os doze primeiros dias de Janeiro eram uma retrato dos doze meses do ano. Março vai ser um belo mês. Luminoso. Quente. Solar. Um regresso à praia, com certeza. Já houve anos em que fui à praia em Março. À praia para tomar banho no mar. Em pleno Atlântico. Eu e a Malta da Rua. De bicicleta. Estrada fora. Mochilas com farnel. Calções de banho e toalha. E uma mentira piedosa em casa.
Estranho como ao olhar agora estas montanhas me recordo da praia.
Acho que sinto falta do mar. Da água do mar. Da fúria da água do mar.
Os aviões parecem vir para cá. Afinal não vão para lado nenhum. Parece que vêm todos para cá. Para aqui. Os riscos no céu parecem uma chuva de asteróides em pleno dia na minha direcção.
Cada vez há mais.
Não podem ser aviões.
Há um ali que parece cair. Olha, olha, olha! Parece mesmo que vai cair. Está baixo. Muito baixo. Não, não é um avião. Olha! Desapareceu atrás da montanha. Caiu!
Porra! Que estrondo! Caiu, de certeza. Olha!… Olha, olha, olha!… Um cogumelo! Um cogumelo gigante! Atrás das montanhas. Era um míssil. Era a porra de um míssil, de certeza. São mísseis! Todos eles são mísseis!
Foda-se!
Há outros a cair. Há mais cogumelos a levantarem-se para lá do meu horizonte. Os azuis desaparecem debaixo dos cogumelos de fumo e fogo.
Há um míssil que se dirige para aqui. Vem para aqui. Para cima de mim. E ainda não bebi café. Ora, porra! Mais outro cogumelo e este não o vou ver.
Foda-se!…

[escrito directamente no facebook em 2019/01/03]