Os Cinco

Peguei no Lovely de Frank Ronan. Andava com vontade de o reler. Gostava muito do Frank Ronan. Li os livros todos. E, de repente, desapareceu. Já andei à procura dele pela internet, mas parece que não existe. Evaporou-se. Deve ter cometido suicídio literário. Tenho pena. Gostava dele. Gostava muito, mesmo. Desde Evelyn Cotton. Até à imitação de Marc Bolan.
Peguei no Lovely de Frank Ronan. Sentei-me no sofá. Mas não cheguei a ler a primeira linha. Do interior do livro caiu uma fotografia. E o meu olhar caiu com a fotografia. O que é que aquela fotografia estava a fazer dentro do Lovely? A quem é que eu emprestei o livro? Eu que nem gosto de emprestar livros? Quem é que o leu? Quem é que pegou nele à minha revelia?
Peguei no Lovely de Frank Ronan mas larguei-o logo em cima do sofá, ali ao meu lado. Baixei-me e peguei na fotografia. Lembrava-me daquela fotografia. Lembrava-me de quando a tirámos. A fotografia da nossa última viagem. Quando ainda andávamos juntos. Quando ainda éramos amigos. Companheiros. Ou se calhar já não. Provavelmente já nos estávamos a afastar. A sermos corroídos por dentro. Por dentro da amizade. Sim, porque éramos amigos.
Peguei na fotografia e vi. Cinco personagens abraçadas. Quatro rapazes e uma rapariga. Eu, mais três rapazes e a rapariga. Estávamos em Santiago de Compostela. Atrás de nós, na fotografia, a Catedral. Tínhamos acabado de fazer a Via Láctea, que me tinha fascinado depois de ver o filme de Luis Buñuel. Mas não fomos lá em peregrinação. Foi a nossa rota de fuga. E funcionou. Deu resultado. Mas tudo terminou aqui. Em Santiago. E tudo por causa dela. Como é que a fotografia veio parar aqui?
Peguei na fotografia e vi o grupo. Três deles já não andavam por cá. Três deles já tinham morrido. Morrido em condições no mínimo estranhas. Estranhas para mim. A polícia não achou nada de estranho. As autópsias também não revelaram nada de estranho. Mas havia algo de estranho. Logo para começar a coincidência das mortes. A semelhança dos acidentes.
Ela sobreviveu. Ela e eu. Mas ela desapareceu logo. Sei que andou uns anos pela América Latina. Mas nunca mais tivemos contacto. Nem apareceu nos funerais dos outros três. Eu… Eu mantive-me por aqui. Decidido a portar-me bem. A andar na linha.
Peguei na fotografia e olhei para ela. E ela tinha sido a nossa sorte. E tinha sido o nosso azar. Foi ela que nos juntou, mas também foi ela que nos separou.
Peguei na fotografia e lembrei-me do tempo em éramos só dois. Só nós dois. Sem os outros três. Antes do outros três. Antes de cada um dos outros três depois de mim. Ela jogava bem connosco.
Peguei na fotografia e pensei no resto do dinheiro que nunca tinha aparecido. O dinheiro correspondente aos outros três. Nunca saiu nada na comunicação social. Ou a polícia ficou com o dinheiro, ou ele nunca apareceu. Alguém pode ter ficado com ele. Sempre pensei nessa possibilidade. Talvez ela. Mas nunca quis verdadeiramente acreditar que tivesse sido ela. Ou já sabia?
E então, um sinal sonoro de chegada de mensagem no telemóvel.
Pousei a fotografia em cima do livro. Peguei no telemóvel que estava na mesa de apoio, à minha frente, e li Olá. De regresso. Quero ver-te. Na esplanada do argentino. Ao lusco-fusco ☺ Assim. Com a merda de um emoji a sorrir.
Deixei o livro e a fotografia no sofá e fui ao quarto. Ao roupeiro. Ao fundo do roupeiro. Agarrei na caixa. Levei-a para a sala. Sentei-me na mesa de jantar. Abri a caixa. Tirei o revólver e limpei-o.
Já estou aqui sentado, na esplanada do argentino, à mais de meia-hora. Vim antes de tempo. Ainda falta algum tempo para o lusco-fusco. Mas eu gosto de chegar antes da hora. Gosto de observar tudo. Ver tudo. Gosto de me sentir preparado. Mesmo que seja para a morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/04]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Chateei-me com a Cidade

Chateei-me com a cidade. Com as gentes da cidade. Com as manias da cidade. Com a arrogância da cidade.
Peguei numa mochila e saí. Fui passar uns dias ao campo. Fui para passar uns dias e ainda estou por cá. Respiro calma. Tenho tempo. Larguei os comprimidos. Bebo mais vinho. Garrafas sem rótulo. Directo do produtor para o meu prazer. Às vezes é muito agressivo. Às vezes arranha. Às vezes preciso de um Kompensan para matar a acidez que me inflama a garganta.
Tenho por companhia uns gatos sem nome. A gata-mãe. Os gatos filhos da gata-mãe. Um é preto. Outro amarelo. O outro é malhado. Se calhar são gatas, não sei. Chamo-lhes gatos, genericamente. Também tenho a companhia do piruças. O piruças é um cão e está preso a uma casota. A casa não tem muro e ele não pode andar por aí à solta. Os gatos andam soltos e não saem daqui. O cão, liberto-o de vez em quando. Ele sai disparado, está ausente por um bocado, visita os amigos da vizinhança, e depois regressa. Há por aqui, também, o Óscar. Mas não sei por onde anda. Deve estar hibernado. Já não o vejo desde o fim do Verão. O Óscar é um sardão, verde, bonito, arisco. Mas não liga nada a ninguém. É um solitário.
Quando vim da cidade trouxe poucos livros. Não esperava ficar cá muito tempo. Mas fiquei. Já li tudo o que trouxe. Mais que uma vez. Pus-me a vasculhar as gavetas aqui de casa. Encontrei umas edições das Selecções do Reader’s Digest. Umas revistas de banda-desenhada de cowboys, antigas, a preto e branco. E um livro do Raymond Carver. Catedral. Numa tradução do João Tordo. Uma edição relativamente recente, portanto. Fiquei admirado, mas foi assim como um raio de luz a entrar cá dentro. Cá dentro da alma. Iria ser um prazer relê-lo.
É Domingo.
Levantei-me cedo. Fui à missa. Aqui, às vezes vou à missa. É uma das minhas acções sociais. Depois passei pelo café da aldeia e bebi um Martini branco, com gelo e um bocado de gin. O gin era Bosford, o que não me trazia boas recordações. O fígado retraiu-se. Mas não havia outro. Não podia ser mariquinhas! Bebi aquele Martini e pedi outro. O fígado há-de habituar-se.
Regressei a casa e almocei galinha guisada. Com grelos. A vizinha que mora no início da rua, ao saber que um homem morava sozinho nesta casa, vem cá de vez em quando saber se preciso de alguma coisa. Traz-me sopa. Guisados. Fruta. Legumes. Uma ou outra garrafa de vinho do marido. São produtores para consumo próprio. Têm uma pequena vinha. O vinho é mau. Mas mata a bicharada que tenho dentro de mim. Às vezes também me lava a roupa. Mas tenho sempre pouca para lavar. Mudo menos de roupa, por aqui. Às vezes nem tomo banho. Ajuda com o frio. Ando dias inteiros sem me aproximar da banheira. Os dentes sim. Lavo-os três vezes por dia. Às vezes quatro.
Hoje dava o Benfica. Ia ver o jogo ao café. Mas era só ao final da tarde.
Aproveitei este tempo, entre o almoço e o jogo, para começar a ler a Catedral. E comecei:
“O marido de Sandy tinha estado sentado no sofá desde que fora despedido, três meses antes. Naquele dia, há três meses, chegou a casa pálido e assustado e com as suas coisas do trabalho dentro de uma caixa.”
Este cabrão do Carver! Tenho sempre a sensação que está a falar de mim. A expor a minha vida. A tecer considerações sobre as minhas opções. Sobre os vazios da minha vida. Sobre os meus erros. Que porra!
Ou então sou eu que ando a transformar-me numa personagem do Raymond Carver.
Fui buscar uma garrafa de vinho daquele meu vizinho que produz para consumo próprio. Um maço de cigarros. Sentei-me à lareira. Continuei a ler. A beber. A fumar. E esqueci o mundo.
Era já noite quando parei de ler. Tinha esquecido o jogo do Benfica. Os gatos miavam aqui à porta. O cão ladrava na casota. Queriam comer. Fui levar-lhes ração, que era o que tinha. Havia uns restos de ossos da galinha, mas ia dá-los ao cão só amanhã.
Gosto de estar por aqui. Ainda não fiz as pazes com a cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/06]