Eu Não Sou Cobarde, Ele É

Eu sou uma personagem de ficção. Sou criado por mim, quer dizer, por ele, ele que é real. Eu não sou real. Sou uma ficção que eu inventei. Ele.
Mas há dias em que vivo as minhas estórias e pergunto-me se as estórias são inventadas para mim ou se foram vividas por ele. Às vezes penso que não passo de uma desculpa para as sua confissões.
Eu percebo-o. Ao escrever, julga-se Deus. Vive estórias que nunca viveria como Juliete Binoche aproximou-se de mim, colocou a mão entre as minhas pernas e sentiu-me o peso, aproximou os seus lábios dos meus e beijou-me. Trincou-me de leve o lábio e chupou o sangue que escorria devagar pelo queixo abaixo.
Eu gosto quando ele me cruza com a Juliete Binoche. As minhas possibilidades são infinitas. As dele. Mas nem todas as estórias são assim, de sexo e desejo, com personagens de sonho. Também há as estórias sombrias. Estórias de morte. E por vezes pergunto-me se sirvo para lhe dar largas à imaginação ou se não estou só a servir de catarse. Eu já matei. Já morri. Já morri inúmeras vezes. Já me matei. Voltei a nascer. Renascer. Voltei a morrer. Às vezes de forma violenta. Às vezes por inércia.
É um desejo que ele tem? Eu tenho?
Às vezes penso que sou só uma desculpa para falar dele próprio e do que o atormenta. Às vezes penso que sou uma terapia. Através de mim, ele pode falar dele. Como se fosse um espelho, reflexo mas outro, uma projecção tornada personagem falsa, uma sombra. Através de mim ele fala da pila. A pila dele? Através de mim ele fala da barriga. Ele é gordo? Ele fuma? Eu passo a vida com um cigarro nas mãos. Um cigarro e um copo de vinho tinto. Ele bebe?
Outras vezes penso que sou uma experiência. Sou uma libertação para ele próprio. Comigo ele experimenta o que não pode experimentar na vida real. Aqui não tem de ser politicamente correcto porque eu sou uma personagem de ficção, reflexo de alguém que não necessariamente ele. Aqui, eu posso ser racista, homossexual, mulher, rico, preto, mau, Deus. Aqui ele pode ser o que ele próprio não pode, não consegue, não quer ser. Aqui ele pode ser o assassino. A vítima. Através de mim ele pode sentir o metal frio a rasgar as entranhas. E podem ser as minhas entranhas. Através de mim ele pode sobreviver às pragas do Egipto. Ou morrer.
Mas divago.
Não lhe conheço a imaginação. Nem a vida dele para além destas páginas.
Acho que afinal era eu que queria ser ele e não o contrário. Acho que eu, personagem de ficção é que gostava de ser ele, personagem real a viver num mundo real. Mundo real talvez bem mais interessante do que os mundos que ele cria.
Acho que podia contar bem melhor que ele algumas das estórias que escreve. Sinto que podia ir bem mais longe. Eu não tenho as amarras dele. Se alguém me perguntasse se era verdade ou mentira o que eu estava a contar, eu podia responder sem me preocupar com reacções. Acho que ele não fala com as pessoas por causa disso. Tem medo de dizer Sim, é verdade! Tem medo de dizer Não, é mentira! É por isso que ele foge das pessoas. No fundo, ele criou-me porque é um cobarde. Eu não. Eu não sou um cobarde. Ele é. Ele é um cobarde.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/05]

A Vítima das Circunstâncias

Três semanas depois de ter começado a trabalhar no Modelo Continente como repositor de lineares, fui despedido. Não é que não merecesse ter sido despedido mas, acho que fui vítima das circunstâncias.
O Modelo Continente abriu há três semanas. Fui um dos empregados originais. Fiz a formação. Preparei-me para ser um sucesso numa equipa que se queria de sucesso. Estive no momento da abertura do supermercado. Ao fim de três semanas fui despedido por ter sido encontrado a comer iogurtes no corredor do frio. Com poucos clientes desde a abertura, eu fui o bode-expiatório para a catarse administrativa que não compreende porque é que os clientes continuam a preferir o Pingo Doce do outro lado da rotunda.
Tive sorte. Pagaram-me o mês inteiro. Quatro semanas.
Como é que vou chegar a casa e dizer, outra vez, que fui despedido outra vez?
Vou a pé até ao centro da cidade. Já não trabalhei o resto do dia.
Está calor. Transpiro. Sinto os sovacos molhados. Sinto um fio de água a escorrer-me pelas costas abaixo. E pelo peito. Parece Verão. Parece. Mas estamos em Fevereiro.
Caminho devagar. Evito pensar que vou ter de regressar a casa. Evito pensar que, a dado momento, vou ter de regressar a casa e voltar a dizer que estou sem trabalho.
Estou com calor. Estou com sede.
Ainda estou longe do centro da cidade mas já não aguento mais este calor. Entro na porta do primeiro snack-bar que encontro. Encosto-me ao balcão de inox e peço um copo de branco, fresco.
Despejo-o de uma vez. Peço outro. Olho para a vitrina de frio e vejo uma pequena bandeja com rissóis. Peço um. É de camarão. Devoro-o em três dentadas. Empurro-o com o copo de vinho branco fresco. Peço um terceiro copo.
Pego no copo e vou para a rua fumar um cigarro. Encosto-me à montra do snack-bar. Na estrada à frente, passam carros, nem sempre muito devagar. Acendo um cigarro. Penso em como enfrentar o problema que vou enfrentar em casa quando disser que estou outra vez sem trabalho. É que já começa a ser um padrão. É a terceira vez que sou despedido desde o ano passado. Mas a culpa não é minha. Eu sou uma vítima das circunstâncias. Ou porque não me calo. Ou porque não acato bem as ordens. Ou porque refilo muito. Ou porque como iogurtes no corredor do frio. As pessoas estão sempre a arranjar desculpas para tramar as outras. Às vezes é só porque sim. Eu acho que tenho uma cara que as pessoas adoram chatear. Tenho cara de vítima.
Dou cabo do copo de vinho. Acabo o cigarro. E agora? Volto para casa? Vejo as horas no relógio de pulso. Não quero ir já para casa. Ainda é cedo para enfrentar o drama.
Decido-me por outro cigarro. Levo a mão ao bolso para tirar o maço e o cheque com o ordenado do mês, das quatro semanas de trabalho das quais só trabalhei três, sai do bolso com o maço de cigarros e voa para a estrada. Estico-me mas não o alcanço, desço o passeio e corro para a estrada atrás do cheque que voa, aos esses, como se quisesse fugir de mim, o cabrão e, depois cai no asfalto, junto ao traço contínuo, eu aproximo-me, baixo-me para o agarrar, não me vá fugir de novo, ouço uma buzina, talvez duas e sinto uma pancada forte no meu corpo, talvez seja na cabeça, não sei, não tenho a certeza e…

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

O Primeiro Natal

Era o primeiro Natal depois da morte do meu pai. E toda a gente estava empenhada em ajudar a minha mãe a ultrapassar essa ausência da melhor maneira possível.
Família que eu nunca vira. Alguns amigos, não assim tão chegados. Vizinhos solitários. Toda esta gente resolveu passar a noite da consoada lá em casa.
E eu percebi que iria cair tudo em cima de mim. Previ a catarse geral. O choro compulsivo. O rasgar das vestes (havia algumas tias mais dadas a excentricidades). O tecer de elogios de quem nunca tinha privado com ele. A amizade de quem nunca o ajudou quando ele mais precisou. Enfim. Não são assim as pessoas? Distantes na miséria mas simpáticas e condoídas depois das desgraças fúnebres? Depois de morrer, toda a gente era a melhor gente do mundo.
Eu estava empenhado em que nada daquilo se passasse. Queria a minha mãe distante de tudo. Queria que a ausência não fosse mais que uma ausência.
Não me meti na organização da festa de Natal e deixei que as pessoas fizessem como bem entendessem. Deixei tudo nas mãos experientes das damas da família com muitos natais nas mãos. Escolheram a ementa. Fizeram divisão de tarefas. Arranjaram mealheiro colectivo e não me pediram dinheiro.
O meu único contributo para a noite da consoada foi pôr a mesa de Natal, sem lugar para o meu pai, assim decidi, para não aumentar o tamanho da ausência. Assumi a cabeceira. A minha mãe ao meu lado. O resto, distribuído por afinidades ou falta delas para não criar ansiedades nem desgostos. Há sempre quem aproveite o Natal para criar expectativas. Pelo menos nos meus natais tem sido assim.
E, depois, uma pequena surpresa. A confecção de uns pequenos e saborosos bolos. Uns pequenos e saborosos bolos de haxixe. E fiz umas miniaturas para as crianças, sem haxixe.
No início da noite andei a oferecer bolinhos a toda a gente. Ninguém se negou comê-los. E eu insistia em ficar por lá até os ver comer tudo, até à última migalha. E foi o que aconteceu. Não sobrou uma migalha. Até a minha mãe comeu. Fui elogiado. Eu e os bolinhos.
O jantar foi devorado.
Ninguém foi à Missa do Galo.
A noite foi passada a discutir a hipótese, plausível, de Jesus Cristo ser um extra-terrestre de Alfa-Centauro. Ainda se referiu a Atlântida e a Ilha de Mü. As estátuas gigantes da Ilha da Páscoa e os astronautas nas Linhas de Nazca.
Acabou toda a gente a dormir lá por casa. Qualquer canto era uma boa cama. Andei a distribuir cobertores e almofadas. Descalcei quase toda a gente. Havia quem tivesse as meias rotas. E logo os tios mais ricos. São sempre os mais miseráveis.
Na manhã seguinte saí cedo com a criançada toda até ao parque infantil no jardim da cidade. E deixei a casa, em silêncio, a curtir a ressaca do Natal.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/23]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei, outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

Os Riscos nas Folhas de Papel

Todos os dias a via. Sentada no banco do jardim, virada para o rio, a desenhar. Estava ali ao pé do Moinho de Papel, depois da pequena queda de água que fazia o rio saltar de uma plataforma para outra para continuar a correr até à praia da Vieira e se transformar em espuma suja que morre na areia.
Eu passava por ali todos os dias. Passava a correr. Desde que tinha sobrevivido ao acidente que tive há cerca de três anos que comecei a correr. Corro como catarse. Fazia todos os dias o mesmo trajecto. Corria ao longo da Polis. Corria nas margens do rio Liz. Às vezes corria ao lado de um leito de rio deserto. Outras vezes ao lado de um rio que corria veloz, mais veloz que eu.
Sempre que cruzava a estrada, ali ao pé da Estação de Serviço da Total, depois de ver a pequena cascata do rio que tombava sobre um pequeno lago rodeado de árvores verdes e frondosas que tapavam a entrada de sol e tornavam aquela zona bastante fria, húmida e fria, e antes mesmo de chegar ao Moinho de Papel, o Moinho que Alvaro Siza Vieira recuperou, que a via sentada. Sentada num banco de jardim a desenhar. Desenhava o rio. As pessoas a correr. A andar. Sozinhas, aos pares e em grupo. Os homens mais sozinhos. As mulheres mais em grupo. No Verão desenhava os miúdos aos mergulhos no pequeno lago na queda de água. Desenhava o Moinho de Papel. A cascata. Às vezes levava fotografias e desenhava outras coisas. Coisas que gostava. Algumas delas pintava-as com aguarelas. Um dia esqueceu-se das aguarelas e foi ao café buscar uma bica. Pintou o desenho com o café. O café na ponta do dedo. Eu sei porque vi. Ela mostrou-me. Eu às vezes sentava-me ao lado dela a descansar. Fumava um cigarro e ela mostrava-me os desenhos com que enchia as páginas dos diferentes cadernos da Moleskine que preenchia. Folhas e folhas e folhas. Muitas delas só com rabiscos. Esboços a carvão. Experiências. Preenchia cadernos grandes. Pequenos. Cadernos japoneses com folhas que se desenrolavam em leque. Pequenas sebentas quando não havia mais Moleskines.
Acho que passava lá os dias inteiros. Mesmo nos dias de chuva. Encontrava-a lá de manhã cedo, a minha hora normal de correr pela Polis. Mas aconteceu ter de correr ao final do dia e voltei a cruzar-me com ela. E os seus desenhos, as cores dos seus desenhos, reflectiam essa diferença de luz, a queda do dia, a aproximação da noite.
E um dia passei por lá e ela não estava. Sentei-me no banco de jardim onde costumava estar sempre a desenhar e fumei um cigarro. Fumei um cigarro sozinho. E senti o vazio. Percebi que se tinha ido. Percebi que ela já não estava mais ali. Nem ali nem em mais sítio nenhum.
Larguei o resto do cigarro nas águas do rio. Continuei a correr.
Nunca mais corri ao longo da Polis. Não queria voltar a passar por ali. Por onde a via a desenhar. A desenhar-me. Desenhou-me várias vezes. Desenhou-me nas minhas calças de fato-de-treino azuis da Converse. Nas minhas sapatilhas amarelas fluorescentes da Asics Tiger. Nas minhas t-shirts velhas, algumas rasgadas, que ele reproduzia fielmente, o buraco feito pela ponta incandescente do cigarro, as garras dos gatos, o desgaste do tempo e das lavagens ao longo dos anos.
Depois dela ter desaparecido passei a subir à Cruz d’Areia, descer a São Romão, cruzar o rio ao pé do McDonalds e ir até ao Vale Sepal, subir a estrada do Vale Sepal, aquela estrada sem passeio, e descer, descer até à cidade, lá em baixo, passar ao lado da morgue e chegar às ruas entupidas de carros em aceleração e buzinas a apitar.
Arranjei uma moldura e pendurei um dos desenhos que ela me deu na parede do escritório e, todos os dias, depois de ler as notícias online enquanto bebo uma caneca de café, e antes de sair para a minha corrida matinal, olho-me desenhado naquela folhar grossa arrancada de uma Moleskine e pintado a aguarela, e recordo-a, sentada no banco de jardim, a desenhar, a pintar, a olhar tudo com muita atenção, o rio, as margens, a queda de água, o Moinho de Papel, a pessoas a correr nas suas roupas coloridas e os adeus que muitas delas lhe ofereciam quando passavam a correr e a viam a desenhar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/03]

As Papoilas Saltitantes

O jogo ainda não terminou, mas já ouço foguetes. Há foguetes um pouco por todo o lado. São morteiros. Como aqueles que anunciam as festas nas aldeias. Para que as gentes das aldeias vizinhas venham à festa. Para que os moços das aldeias vizinhas venham bailar com as moças da terra. E os moços da terra, ciumentos, com o mau vinho a transbordar na garganta, abrem as navalhas com que cortam o toucinho salgado e o pão duro nos almoços pobres no campo, para abrir as barrigas dos invasores.
No futebol como na vida.
Há sempre este grito de pertença. Um grito em uníssono. A mesma rua. O mesmo bairro. A mesma cidade. O mesmo partido. O mesmo clube.
O mesmo grito. Mas eu fujo do grito. Do grito unificado. Não gosto de unanimidades. Gosto de bailar com as moças da aldeia vizinha.
O árbitro apita. É o fim. O fim do jogo. A vitória garante a Vitória. Está muita gente alegre. Eu estou alegre. Levanto os braços ao céu. Ninguém vê. Posso fazer estas coisas. Estou sozinho. Ninguém me vê nestas manifestações de regozijo.
Olho à volta e vejo que mal toquei nos tremoços e nas pevides. Acabei por deixar os camarõezinhos no frigorífico. Nem me lembrei deles. Por outro lado, as cervejas já foram todas. Olho para as garrafas vazias caídas no chão e penso Tenho de as apanhar. Tenho de as apanhar e levar para o vidrão. Tenho de as apanhar mas não já. Não agora.
Levanto-me a custo do sofá. Quanto tempo estive aqui sentado? Olho para trás. Olho para o sofá. Para onde estive sentado. E vejo o sofá a recuperar, lentamente, a sua forma, depois de eu o ter esmagado durante, quantas horas? Nem sei. Muitas.
Vou até à janela. Acendo um cigarro. Olho para a rua. Vejo os carros a passar. Vai gente pendurada nas janelas dos carros. Nos tectos abertos dos carros finos. Nas caixas abertas das carrinhas populares. Rapazes, a transpirar, em tronco nu. Raparigas excitadas, com os peitos a dar-a-dar. Há bandeiras. Cachecóis. Braços esticados no ar. Mãos em V. Apitos. Buzinas. Tantas buzinas. A apitar. A apitar. Lembra-me o comboio Lá vai o comboio, Lá vai a apitar, mas aqui o comboio não apita. Aqui é a Linha do Oeste e o comboio não quer saber desta gente. Esta gente que se une para festejar a vitória como se fosse sua, e não mexe um dedo para exigir, sim exigir!, que o comboio chegue a esta cidade em condições. Com horários. Com rapidez. Com condições dignas de gente digna.
Eu? Eu já não tenho nem idade nem vontade. A cidade matou-me a vontade. E os anos ajudaram a calcá-la. Mas não deixa de me entristecer.
Estou contente com a vitória. Com a vitória do meu clube. Também a sinto um pouco minha. Aliás, muito minha. Mas não vou para a rua. Não gosto de multidões. Não gosto de grupos. As multidões tendem a deixar de pensar. Seguem sempre alguém. Perdem o controle. Eu fico aqui. Aqui na minha janela. A ver à distância. A ouvir os Olé! Olé! Os Esse Ele Bê! Esse Ele Bê! E a não perder o controle.
Vejo os morteiros a rasgarem o céu. Já é quase noite. Daqui a pouco há-de haver alguém a lançar fogo-de-artifício. A iluminar, com múltiplas cores, estas vidas tão pobres e vazias que só se alegram assim, nestes momentos de catarse em grupo.
Lanço a beata para a rua. Acendo outro cigarro. A festa continua. E vai durar até amanhã. Os canais de televisão não vão largar o osso tão depressa. Têm horas ilimitadas de gente a debitar opinião. É barato e garante audiência.
Eu volto a lembrar-me dos camarõezinhos e vou até à cozinha. Já não tenho cerveja. Ainda há vinho. Acompanho os camarõezinhos com vinho tinto. É o que há. Não me queixo. Lá de fora continua a chegar o som dos foguetes, as buzinas dos carros, o cheiro a gasóleo e a borracha queimada.
E alguém canta Ser benfiquista // É ter na alma a chama imensa // Que nos conquista // E leva à palma a luz intensa // Do sol, que lá no céu // Risonho vem beijar // Com orgulho muito seu // As camisolas berrantes // Que nos campos a vibrar // São papoilas saltitantes…

[escrito directamente no facebook em 2019/05/18]