Invasão no Campo da Bola

Estava sentado numa almofada, em cima de uma bancada corrida de cimento no Estádio Magalhães Pessoa, em Leiria, versão pré-obras, quando a bancada era só uma e no lado oposto e nos topos era tudo peão.
Estava sentado na bancada e lá em cima, em frente e ao fundo, o imponente Castelo de Leiria olhava para mim.
Entre umas pevides e uns tremoços, um olho no jogo e outro no castelo, dividia as minhas atenções que não conseguiam fixar-se só num acontecimento. Havia bruxas no castelo?
Por vezes saía do meu lugar, entre o meu pai e a minha mãe, largava a bandeira da União de Leiria no chão, e descia as escadas da bancada até à caixa de areia dos saltos em comprimento e ia jogar à bola com outros miúdos como eu que tinham dificuldade em dar atenção à mesma coisa por muito tempo.
Naquele dia estava sentado na almofada, em cima da bancada de cimento, entre o meu pai e a minha mãe, os tremoços e pevides já comidos, bandeira levantada na mão e o vizinho de trás a queixar-se que não via nada Oh miúdo! Baixa a bandeira! quando a União de Leiria marca golo, os jogadores festejam e, do outro lado, frente a mim, do lado do peão, saltam umas pessoas para o meio do campo e começam a correr atrás não-sei-de-quem porque não percebi bem, mas parecia que toda a gente corria atrás de toda a gente, espectadores, jogadores, treinadores, apanha-bolas, dirigentes, polícias, todos a correrem campo relvado fora, alguém apanha a bola e foge com ela enfiada debaixo da camisola, dois homens enfrentam-se ao murro, um polícia levanta o cacetete mas não vejo onde cai e puxo o casaco do meu pai e pergunto Como é que sabemos que são nossos ou dos outros, quando não têm bandeiras? e o meu pai olhou para mim e não soube responder, agarrou-me e encostou-me a ele.
Espreitei por entre o braço do meu pai e ainda vi o árbitro a apitar e jogadores de equipamentos diferentes a parar pessoas e mandá-las para fora do campo e a polícia levar uns rapazes agarrados pelos braços, e acho que vi alguém com a cabeça partida e sangue a escorrer e depois toda a gente se foi embora e o campo ficou vazio, veio o silêncio e o meu pai sentou-se. Eu sentei-me.
Havia gente à volta do campo. Polícias. Também militares. O campo estava vazio. Esperámos.
Virei-me para o meu pai e perguntei O que é que estamos à espera? e o meu pai respondeu Espera!
Olhei em frente, para o campo vazio, para o burburinho que havia ali na bancada e no peão do outro lado de campo, com a polícia e os militares à volta do relvado, na pista de tartan, a olhar para os espectadores e não percebi nada do que estava a acontecer.
Virei-me para a minha mãe e perguntei O que é que estamos à espera? e a minha mãe disse Que o jogo recomece!
E cinco minutos depois, as equipas e os árbitro voltaram ao campo e o jogo recomeçou. O castelo continuava lá em cima a olhar cá para baixo. Estaria a ver uma bruxa? Numa das janelas escuras?
A União ganhou o jogo. As pessoas de Leiria, que estavam na bancada, ficaram contentes e festejaram. O meu pai também e então disse, para mim e para a minha mãe Vamos lanchar ao Jota!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/02]

Fazer um Reset e Começar de Novo, mas Agora em Bom

Eu descia todos os dias lá de cima do bairro para ir ter com ela ao bairro lá em baixo.
Fazia aqueles quase dois quilómetros a descer a voar, e mesmo quando regressava, e tinha de os subir, não lhe dava pela dificuldade, pela lonjura nem pelo tempo que passava a dar às pernas para estar alguns momentos com ela. Em dias de chuva. Em dias de frio. Em dias de calor e sol de torrar.
Chegava lá abaixo, sentava-me no muro em frente ao prédio dela e esperava. Esperava que ela me visse da janela do quarto ou da janela da sala. Depois esperava que ela viesse ter comigo. Que descesse de elevador. Que abrisse a porta da rua. Que me fizesse um sinal para ir ter com ela, e não ela comigo, para que o pai não nos visse juntos, lá de cima da janela da sala, enquanto fumava um cigarro a acompanhar o café de cevada que bebia sempre depois de almoço. A mãe já sabia. As mães sabem sempre e sabem logo. Até já tínhamos ido à praia os três. Os quatro, quando o irmão dela também foi. Mas o pai… Ah, o pai era outra conversa. Ela era a filhinha.
Dávamos um beijo. Um leve roçar dos lábios. Os meus nos dela. Cheirava-lhe o perfume que lhe tinha dado pelo Natal. Dávamos as mãos. As minhas começavam logo a transpirar de ansiedade. Ela sorria. Seguíamos por baixo das varandas, junto aos prédios do bairro, e íamos para o terreno baldio que havia na periferia do bairro. Íamos até à árvore que lá havia. Subíamos às suas braças e olhávamos o castelo, ou ficávamos em baixo, sentados no chão, rabo na erva, as costas no tronco da árvore, a falar. Muito falávamos nós. Eu contava-lhe dos novos grupos que ia conhecendo e que quase mais ninguém conhecia. Falava-lhe das letras das músicas. O que elas diziam. O que elas queriam dizer. O que eu achava que elas queriam dizer. Ela contava-me dos livros que lia. Dos livros que andava a ler. Sempre mais que um ao mesmo tempo. Às vezes trazia-me um. Lê, dizia. E eu lia. Depois falávamos do livro. Discutíamos. Às vezes acabávamos zangados. Eu ia para casa e à noite fazia uma MixTape com as melhores músicas do mundo e levava-a no dia seguinte. E fazíamos as pazes. O que eu gostava de fazer as pazes!
Esculpi os nossos nomes no tronco da árvore. Esculpi um coração trespassado pela seta de Cupido.
Partilhámos palmiers recheados. Bolos da festa que partíamos ao meio e cada um levava uma metade para casa. A minha metade não chegava a casa que eu devorava-a toda na subida que fazia depois de a deixar.
Um dia chegaram as férias de Verão. Ela foi para um lado. Eu fui para outro. Ela chegou diferente. Eu também.
Nunca mais voltei ao terreno baldio.
Anos mas tarde encontrei-a por puro acaso numa cidade que não era de nenhum de nós. Ela tinha ido a uma reunião. Eu… Eu estava de passagem. Estou sempre de passagem. Bebemos um café. Falou-me dela. Três filhos, entre os vinte e os vinte e cinco anos. Divorciada. O ex-marido era oficial da marinha mercante. Andava sempre no mar. Em viagem. Um dia não voltou. Nunca lhe disse nada. Um dia chegaram, pelo correio, os papéis do divórcio. E foi só. Era funcionária pública. Alto quadro. Bom salário. Uma vida tranquila. Mas já não tinha tempo para ler. E ainda tinha de cuidar dos filhos, coitados. Não sabem fazer nada sem ela. Ainda estão todos por casa. A estudar, mas por casa. Ouve música na rádio. Não liga a nomes. Filmes no vídeo-clube do cabo mas, regra geral, adormece no genérico inicial.
Mas estão, e tu?! Fala-me de ti!, disse.
E eu não sabia o que lhe dizer. O que é que eu tinha para contar? Que vida é que eu tinha para lhe contar? Que também já não era nada do que tinha sido? Que tudo tinha morrido algures, nem sabia bem onde nem como nem porquê? Que eu estava sempre de passagem? Estava sempre de passagem entre lugares nenhuns?
Despedi-me dela. Tenho pressa!, disse-lhe. Desculpa!, pedi. Temos de nos encontrar um dia destes. Uma noite destas. Vamos jantar, menti.
E fui embora.
E enquanto ia embora, levava todo o vazio da minha vida. Um vazio que se torna tão pesado quando não sabemos dizer a alguém que já nos foi tão próximo, o que é que fizemos com toda esta vida que tínhamos para viver,
Naquela altura gostava de ser uma aplicação. Fazer um reset à minha vida. Começar tudo de novo. Mas agora em bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/25]

A Conversadeira de Eduardo Souto de Moura

Porto de Mós.
Sexta-feira. Fim-de-tarde.
Sento-me na Conversadeira de Eduardo Souto de Moura. A Conversadeira é uma poltrona dupla com assentos em oposição, feito em Mármore Rosa com Veios Verdes, e com 1220 x 650 x 850 mm de dimensões. Visto de cima forma um S.
Sento-me num dos lados e olho. Vejo um prédio. Um prédio sem nada de particular que o distinga dos outros prédios à volta.
Estando Porto de Mós rodeado de montanhas, esperava poder ver uma montanha, umas árvores, até o castelo apalaçado de estilo francês que domina a vila. Mas não. Nada. Um cruzamento. Estou num cruzamento.
Levanto-me e vou sentar-me do outro lado. Espero outra vista. Mas, porra. Um prédio. Outro prédio.
A Conversadeira de Souto de Moura está num cruzamento rodeado de prédios na vila de Porto de Mós.
Sinto-me desiludido.
Olho em frente. Um fila de carros. Um tractor. O cheiro a gasolina. Buzinas. Uma motorizada que ultrapassa a fila e entra na estrada com a facilidade da mobilidade. No passeio que circunda o prédio, uma rapariga empurra um carrinho de bebé. Ela pára. Olha para mim. Leva a mão à boca.
Eu ouço. Ouço atrás de mim uma sinfonia urbana. Travagem. Apitos. Buzinas. Derrapagem. Gritos. Chapa. Trambolhões. Explosões. Mais gritos. Choro.
A cara da rapariga vai mudando. Eu vou vendo o que se passa atrás de mim reflectido nas expressões da rapariga e nos sons que me vão chegando.
Acendo um cigarro e recosto-me na Conversadeira.
Percebo, na cara da rapariga. O tractor que passa no cruzamento e entra na outra estrada. Um carro que trava. Um polícia que apita. Um outro carro que buzina enquanto derrapa no asfalto. Uma mulher que grita. A motorizada que bate no carro que derrapa. O rapaz da motorizada que é projectado, passa por cima do tractor e vai aos trambolhões estrada fora. O motor de um carro que rebenta. Gente que grita. Em vários tons. Em vários momentos. Desencontrados. Uma criança que chora.
A rapariga leva agora as duas mãos à cara. Está assustada. Assustadíssima. Com medo. O carrinho começa a deslizar pelo passeio. Eu continuo na Conversadeira a ver tudo na cara da rapariga. A ouvir tudo atrás de mim.
Vêm mais carros que se enfaixam uns nos outros. Ouço a chapa a bater. O polícia é atropelado por um dos carros. O tractor passa por cima do corpo do rapaz da motorizada que está caído no chão. Chega um camião TIR, e eu ouço o barulho dos travões pneumáticos, aquilo parece que sopra, sopra chateado, e o camião leva tudo de arrasto até ao rio. Um dos carros cai.
O carrinho de bebé chega ao fim do passeio e começa a cair para a estrada. Eu levanto-me rápido da Conversadeira, corro, atravesso a estrada num ápice e agarro o carrinho de bebé antes dele cair do passeio. Levo o carrinho à rapariga que está em estado de choque a olhar para a confusão no cruzamento. Não liga nenhuma para o carrinho que tento entregar-lhe.
Ouço o barulho de uma ambulância a chegar e, finalmente, olho para trás. Para tudo aquilo. Mas tudo o que vejo é a Conversadeira do Eduardo Souto de Moura.
Porque é que se chama Conversadeira se naquele cruzamento ninguém ouve os próprios pensamentos?
Porque é que está ali, naquele cruzamento, rodeado de prédios banais?
É já noite.
O que é feito do meu cigarro?
Que raio faço eu em Porto de Mós?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/07]

Estarei num Sonho?

Maldoror is dead / Little brick / Buried in the earth / Maldoror is gone / Was I a man? / Was I a stone? …”

Descubro-me a cruzar o pequeno jardim Camões no centro histórico de Leiria. Estarei num sonho?
A cidade está a preto e branco. As árvores são em cinquenta tons de cinza. O céu está num branco sujo. Estarei a sonhar?
Ouvi dizer que os sonhos são a preto e branco. Estarei a sonhar?
Sento-me num banco do jardim. Num banco de ripas de madeira a meio do pequeno jardim do centro histórico. Acendo um cigarro. Olho o castelo à minha frente, lá no alto do monte. À direita do castelo, na torre altaneira, as Cibeles, mais para baixo, a Torre Eiffel, logo a seguir o menino a mijar e umas putas de mamas expostas a espreitarem atrás de umas montras na avenida mais concorrida de Leiria.
Fumo o cigarro. Pergunto-me se terão droga. Estarei a sonhar?
Aproxima-se de mim uma bela fräulein que me estende uma bratwurst bem cheirosa. Estendo as mãos para a agarrar – estou com fome! –, mas o que agarro são uns fish’n’ships que uma miss sorridente, a quem falta um dente da frente, acaba por me oferecer.
Enquanto mastigo umas chips, vejo ao fundo, no fim da alameda do jardim, o Coliseu, onde uma turba de gente eufórica festeja um golo de CR7.
Foda-se! Onde é que estou? Estarei a sonhar?
Ao lado vejo a Julie Andrews a dançar no meio das vacas e o Capitão Von Trapp a entoar “Raindrops on roses and whiskers on kittens / Bright copper kettles and warm woolen mittens / Brown paper packages tied up with strings / These are a few of my favorite things”.
Uma das vacas é roxa e vem trazer-me uma tablete Milka. Mas o sonho não era a preto e branco? Era! É! Mas a vaca tem manchas roxas!
Atrás da vaca vejo passar o Eça de Queiroz na conversa com o Afonso Lopes Vieira, o Miguel Torga e o Rodrigues Lobo. Mais ao lado, afastado deles, segue o António Campos. Sozinho. Acho que vão à Praça beber umas imperiais e comer uns hambúrgueres. Ouvi dizer que eram bons. Tento levantar-me e ir ter com eles, mas acabo por ficar sentado. Alguém me traz um copo de vinho das Cortes. Um néctar de Deuses. O que os sonhos nos fazem!, penso. E sorrio. Estou mesmo a sonhar.
Acabo o cigarro ao mesmo tempo que termino com o fish quando volto a olhar para o castelo e vejo lá alguém debruçado sobre as ameias. Parece o David Tibet, mas devo estar a sonhar, mesmo. Que raio é que ele estaria aqui a fazer? Neste pequena, pobre e triste cidadezinha de província? Sem nada de interessante para ninguém? A não ser a morte?

“… / The black angel weeps / The waters part / Maldoror / Maldoror / Maldoror / All fall down / Dead.”

Espero acordar na minha cama. Espero acordar sozinho. E que ainda tenha cigarros. E vinho tinto. Umas azeitonas também não era mau. E um bocado de pão do Soutocico. Sim, não era mau. E tenho de ir cortar o cabelo. Sim, tenho de ir cortar o cabelo.
Acorda. Acorda, pá. Acorda, vá lá. E vê a vida a cores.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/23]

Retalhos de uma Cidade Entediante

Sentei-me na esplanada a beber uma imperial e a ver os turistas a passear.
Eu era o turista dos turistas. Eles passeavam-se ali em frente, na praça, para meu belo prazer. Acompanhavam a minha imperial. Eu olhava-os a olhar.
Ao fim de algum tempo entediou-me. Eles eram todos parecidos. Mochilas. Sapatilhas práticas, leves e arejadas. Óculos de sol. Um casaquinho de algodão pendurado na mochila. Uma garrafa de água. Mudavam os tamanhos da garrafa de plástico. Alguns empurravam carrinhos de bebé. Todos de máquinas fotográficas ao peito ou telemóvel na mão. A disparar.
Pedi outra imperial e mudei o assunto de entretenimento.
Na esplanada, à minha frente, estava uma rapariga a esticar os cabelos com os dedos. Curvava a cabeça. Esticava de um lado, com uma mão, esticava do outro, com outra mão, depois abria os dedos de uma mão e, com a outra, tirava os cabelos que lá estavam agarrados. Repetia a acção com as outras mãos. Depois chegava-se à frente e beijava, levemente, o rapaz que a acompanhava. Chegava-se de novo para trás e recomeçava tudo. Ela tinha o cabelo liso. E só ela é que falava. O rapaz só ouvia e só se chegava à frente quando ela o fazia para ser beijado levemente nos lábios. Eu não conseguia ouvir o monólogo. Mas aquele ritual estava a enervar-me.
Lá mais ao fundo estava um jovem, em pé, no meio da esplanada, com um quase recém-nascido ao colo. Orgulhoso, ostentava o bebé virado para a frente, para as pessoas. Via-se a satisfação no seu olhar e na postura do corpo. Mostrava o seu filho para toda a gente. Falava das suas virtudes. Que dormia lindamente. Acordava invariavelmente de quatro em quatro horas. Fazia cocó sem dificuldade. Arrotava mal o punha aos ombros depois de mamar. Quando vomitava, e vomitava muitas poucas vezes, o cheiro do seu vómito não era azedo. Nem uma bronquiolite! Aquele bebé era um milagre e aquele pai um homem cheio de sorte. Não vi a mãe.
Suspirei, ansioso.
Pedi uma terceira imperial. A vida naquela esplanada era muito sofrível. Mas a imperial era fresca e estava a saber-me bem.
Chegaram duas turistas alemãs, acho que eram alemãs porque estavam de sandálias de borracha com meias brancas, e pediram-me que as fotografasse com o castelo em fundo. Falaram em inglês. E eu assim fiz. Agradeceram.
Chegou a terceira imperial. Vinha na companhia de uns tremoços. Olhei à volta e só vi tédio.
Bebi a imperial de uma só vez. Deixei uma nota de cinco euros debaixo de um copo. Peguei nos tremoços com uma mão e fui embora. Fui passear pela cidade feito turista enquanto ia comendo os tremoços e largando as cascas pela rua. Cheio de tédio.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/10]

O que É que Foi, Caralho?

Vinha a comer uma fartura do Penim quando o vi.
Estava junto à roda gigante a olhar lá para cima, de pescoço esticado, cabeça levantada e em bicos dos pés, talvez para ver melhor.
Estava descalço. De calças rotas nos joelhos. A t-shirt gasta e descolorida que já tivera um desenho. A cara suja. O ranho a sair pelo nariz.
Parei ao pé dele a olhá-lo a olhar. Ele olhava lá para cima. Eu olhava para baixo.
Ele, pequeno, imaginava o que é que se veria lá de cima, onde a roda gigante atingia o seu zénite.
Eu, grande, tentava perceber o que é que ele estaria a ver, ao olhar assim para a enorme roda gigante.
Ao fim de algum tempo ele percebeu que eu estava ali parado, a olhar para ele. Enfiou o dedo no nariz e limpou o ranho. Depois limpou o dedo à t-shirt e perguntou-me O que é que foi, caralho? e ficou a olhar para mim, desafiante.
Queres ir lá acima? perguntei-lhe eu, e ele respondeu Se eu quiser vou, não preciso da tua ajuda.
E virou-se de novo para a roda gigante. Eu acabei de comer a fartura, limpei a boca cheia de açúcar e amarfanhei o guardanapo, olhei à volta, não vi nenhum caixote do lixo e deixei-o cair no chão, assim, descaradamente, de uma forma natural. E pus-me também a olhar para a roda gigante.
As cadeiras estavam cheias de parezinhos de mãos dadas e aos beijos.
O miúdo deve ter pensado o mesmo que eu pois virou-se para trás e disse-me Eu só não vou porque a minha namorada não está aqui, se não, ia. Ia até lá acima. Quase à altura do castelo.
Eu fiquei ali um bocado a olhar para ele, a processar o que me tinha dito e perguntei-lhe E uma fartura? Queres uma fartura? Anda que eu ofereço-te uma fartura ali no Penim.
Ele colocou as mãos nos bolsos das calças rotas e disse Está bem! e começou a andar e eu coloquei-me ao seu lado e lá fomos nós, comer uma fartura ao Penim na Feira de Maio, porque a roda gigante é só para parezinhos de namorados.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/08]

Um Corpo em Desova no Mar

Estava em cima da ponte a olhar a água a passar lá em baixo com alguma velocidade. A chuva dos últimos dias tinha tornado o rio caudaloso.
Não importa qual era a ponte. Era uma dessas que passa de uma margem para a outra sobre o rio Lis e não tem manutenção alguma já vai para algum tempo. Talvez do tempo da outra senhora. Não da Outra Senhora, que essa já não era viva, mas da outra senhora que antecedera estes senhores que agora mandam em tudo, inclusivamente na não manutenção das pontes.
Não me levem a mal. Não estou a, nem quero, fazer juízo de valores, embora o pudesse fazer, estou só a constatar uma realidade: o dinheiro não é elástico e não chega para tudo e para dar para umas coisas não pode dar para outras. E o Verão é muito e muito grande e tem muito turista.
Estamos, portanto, conversados.
Estava eu, então, a ver a água a correr forte em direcção à Praia da Vieira quando reparei num corpo, nu, inchado, que a corrente levava consigo. Vislumbrei umas tatuagens, não sei o que representavam.
Corri ao longo do rio, tentando acompanhar o corpo enquanto procurava, nas margens citadinas do rio, um polícia que pudesse tomar conta da ocorrência.
A verdade é que acabei por deixar ir o corpo na forte corrente que o foi depositar nas águas atlânticas ali para os lados da Praia da Vieira e, a estas horas, estaria na barriga de algum atum ou tamboril, o peixe nunca foi o meu forte, e nem sei se esses peixes andarão pelo litoral nacional, nem que, eventualmente, estivessem a passar por ali no momento da desova corporal.
Quanto à autoridade que podia tomar conta da ocorrência acabei por nunca a encontrar, talvez por ser Dia da Cidade como Era Há 100 Anos e estar a impedir a entrada de automóveis no Rossio urbano.
Subi ao castelo para ir à sede da PSP mas, mal lá cheguei, pensei Para que raio me vou chatear com o corpo de um gajo que nunca vi na vida e acabou na barriga de algum cachalote nas margens fedorentas (o vento estava de feição da Leirosa) de uma mal enjorcada Praia da Vieira?
Tenho mais que fazer. Olha pá!, é mais uma imperial.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/09]