Persisto ou Desisto?

Persisto ou desisto?
Estou aqui no alto das escadas, acima da cidade. Ao fundo, na linha do horizonte, elevado e a roçar as nuvens que se atravessam neste céu azul de um Verão que está para durar, o castelo. Vista daqui, Leiria até é uma bonita cidade. O problema é quando nos aproximamos dela.
Acendo um cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões.
Faço uma panorâmica sobre os telhados da cidade. Uma cidade envelhecida. Mesmo a sua modernidade é velha. Uma mancha verde que diminuiu. Assim, vista daqui, não parece uma cidade velha e triste.
Começo a descer as escadas de pedra. Degrau a degrau. Escavadas pelo anos. Pelos pés ao longo dos anos. Enquanto tento pensar. Enquanto tento tomar decisões. Temos sempre de tomar decisões.
O meu corpo chocalha enquanto desço. Pequenos saltinhos agitam o meu corpo já pouco musculado e com excesso de gordura. Cada passada abana-me a barriga, o peito, as peles dos braços. Muita comida de merda. Muito pão. Muitos fritos. Muita gordura. Muita comida barata. Comida para encher a barriga, não para alimentar o corpo.
Desisto?
Sinto um soluço bloquear-me a voz interior. Acaba-se o monólogo. Continuo a descer as escadas com a angústia a apertar-me a garganta e tento recuperar a calma, a lucidez. Não, não devo desistir. Não posso desistir.
Desço o último degrau. Coloco o pé na baixa da cidade. Entro pelas traseiras da esplanada do Liz Bar. Umas mesas por levantar. Há restos de marisco. Deixaram as cabeças do camarão. As pessoas não comem as cabeças do camarão. É a melhor parte. A mais saborosa. Onde todo o sabor se fixa.
Sento-me numa das mesas e começo a comer as cabeças dos camarões ali deixadas por quem não sabe apreciar. Bebo o resto da cerveja dos copos abandonados. Chupo as cabeças. Lambo os dedos sujos. Limpo as mãos às calças rotas e sujas. Limpo o nariz à toalha da mesa, à toalha de pano branca que está sobre a mesa, sob as taças com as cabeças de camarão que acabei por chupar e comer. Assoo-me. Há quantos anos não como uns camarões?
Vale a pena persistir?
Vindo lá de dentro, de camisa branca e calças pretas, a abanar um guardanapo branco, o empregado enxota-me. Se calhar tem medo que eu lhe roube a gorjeta. Mas não há dinheiro nas mesas. Nem notas nem moedas. Só as cabeças de camarão destruídas que eu já devorei.
Levanto-me da mesa e continuo pela cidade fora. Ou será pela cidade dentro?
Acendo outro cigarro. Soube-me bem, as cabeças dos camarões. Mas lembra-me outros tempos. Tempos em que eu também era outro. Em que eu podia pagar os camarões. E já nessa altura comia as cabeças. Sempre gostei das cabeças dos camarões.
Páro junto ao lancil do passeio. Há muitos carros a cruzarem a cidade. Passam depressa. Grandes carros. Boas marcas. Há dinheiro, em Leiria. Eu não tenho pressa. Mas pergunto-me se vale a pena. Desisto? Persisto? Tenho um pé em suspenso sobre a estrada. A estrada cheia de carros que voam com pressa para qualquer sítio. E eu? para onde é que quero ir?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/13]

Escondido, parte 04

[continuação de ontem]

Ficámos os dois em silêncio durante algum tempo. Eu via um sombreado onde ela estaria. Não sei se ela me via a mim. Eu estava no canto do quarto, numa zona ainda mais escura que a escuridão nocturna que tinha caído sobre a cidade, sobre a rua, sobre aquela casa.
Finalmente ela tossiu, como que para aclarar a voz. E depois perguntou Estavas na manifestação? e eu endireitei-me um pouco no meu canto, voltei a sentir as dores no rabo e nas costas por estar ali assim, sentado, mal sentado, num chão desconfortável e húmido e disse Sim.
Eu também estava na manifestação. Estava com amigos. Não sei onde é que eles estão. Perdi-me deles. Também estavas com amigos? perguntou, e eu voltei a dizer Sim. Sim estava com amigos e também não sei o que é feito deles. Perdi-me, ou perdi-os.
Voltou o silêncio. Senti os pés dela a arrastarem-se pelo chão para mais próximo do corpo. Percebi, pela silhueta, que abraçou as pernas e deixou tombar a cabeça sobre os joelhos. E pensei que eu já não conseguia fazer aquilo. Ainda conseguia abraçar as pernas encostadas a mim mas, tombar a cabeça sobre os joelhos, era pedir demais a este corpo velho e cansado. Não vou para novo, eu. Ela parece nova. E parecia.
Quantos anos tens? perguntei-lhe. Ela sorriu perante a minha ousadia e disse Vinte seis. E perguntou E tu? Eu suspirei fundo e disse-lhe Eu já passei dos cinquenta. E acrescentei Já estou velho para estas merdas. E ouvi um pequeno risinho vindo da minha companheira de infortúnio.
Regressou o silêncio. E foi então que reparei que estava mesmo silêncio. Lá de fora já não chegava o bruá caótico. Se calhar já tinha tudo terminado. Se calhar, já tinham ido todos embora, perseguidos e perseguidores. Se calhar já era altura de também irmos embora. E foi isso que disse à rapariga Já não há barulho. Já devemos poder sair.
Eu levantei-me. Tinha o corpo dorido. Estive a massajar as pernas que estavam com pequenas cãibras. Levantei o olhar para a frente e vi a silhueta dela a levantar-se também. Vi-a sacudir o pó das calças e ficar erguida à minha espera. Eu ergui-me e comecei a andar, não sem uma certa dificuldade. Passei em frente a ela e chamei-a Vamos. E fomos.
Fomos devagar. A descer as escadas do prédio na escuridão. Com cuidado para escapar à destruição, aos tijolos, ao pó, ao corrimão quebrado. Eu ia marcando o passo, um passo diante do outro, num passo tranquilo e cuidadoso e sentia-a atrás de mim, a fazer o que eu fazia, tendo o cuidado de não ficar para trás.
Descemos as escadas. Fomos parando nos patamares dos andares para recuperarmos fôlego e aguçarmos os ouvidos à procura de barulhos preocupantes. Mas continuava o silêncio.
Chegados ao rés-do-chão, abri a porta da rua e saí, logo seguido por ela. Acendi um cigarro. E depois, olhei-a. Foi a primeira vez que a vi, que a vi inteira, iluminada, e não só uma silhueta. Era bonita, a miúda. Estiquei-lhe o braço com o maço de cigarros na mão, a oferecer-lhe um. Ela abanou a cabeça. Foi então que percebi que estava nervosa. E ela deve ter percebido o que eu tinha percebido e esticou o braço e agarrou-me a mão com o maço de cigarros e disse Afinal, aceito um cigarro. Tirou um cigarro, eu dei-lhe lume e começou a fumar. Eu disse-lhe Bom, até um dia destes. Boa-sorte! antes de ir embora. Mas ela parou-me, de novo com a mão e disse Preciso de companhia para fumar o cigarro.
Anui. Nem pensei muito no que estava a acontecer. Há gente que só fuma socialmente. Há gente que só fuma quando está com outras pessoas a fumar. Mas voltei a notar o nervosismo dela. Um nervosismo que não tinha detectado lá em cima, no quarto no último andar do prédio em ruínas onde estivemos escondidos. Mas há gente nervosa.
Ouvimos alguns ruídos próximos. Eu disse Não é seguro ficarmos por aqui. É melhor irmos embora. E, então, ela deitou fora o cigarro ainda meio, abriu a boca e gritou a plenos pulmões Aqui! Está um aqui!
Eu bloqueei. Por momentos não percebi o que tinha acontecido. E o que primeiro me saiu, rápido, automático, foi Cala-te! Eles podem andar por aí! Sem ter percebido que ela era um deles e que estava a chamá-los porque me tinha capturado. Mas isto já sou eu a pensar mais tarde. Na altura não pensei logo nisso. Na altura o que me saiu foi Cala-te! Eles podem andar por aí!
Cheguei-me à frente e agarrei-lhe nos braços e abanei-a como que para a despertar para o que estava a fazer, para o que tinha acontecido, para o que podia vir a acontecer.
E foi então que ela forçou os braços dela das minhas mãos, esticou uma perna e empurrou-me e levou-me a cair na estrada de pedras de basalto bastante irregulares que me magoaram as mãos e me fizeram sangue. Perdi o cigarro. Ela voltou a gritar Aqui! Aqui! E eu ouvi o barulho de passos que se aproximavam. Recuperei-me da queda traiçoeira e pensei rápido. Mais rápido do que poderia pensar. Levantei-me de um salto e desferi um murro com a mão direita no nariz da rapariga e ouvi-o quebrar. Vi um jorro de sangue a sair pelo nariz antes dela levantar as mãos para o agarrar. Percebi que começou a chorar. Um choro que se tornou grito de desespero. E eu aproveitei e comecei a correr para sair dali, daquela rua. Corri rua acima, em direcção ao castelo mas, a meio da subida, virei à direita e parti em direcção ao Arrabalde, nas traseiras do castelo, até à zona do estádio de futebol abandonado.
Fui sempre a correr, primeiro a subir e, depois de uma pequena recta, a descer. E como dizia o meu pai, a descer todos os santos ajudam e eu senti toda a santidade católica apreendida nos anos do colégio a empurrarem-me estrada abaixo até chegar ao pé da escola do Arrabalde.
Foi ao pé da escola que parei. Estava cansado. A respiração ofegante. Dobrei-me sobre mim até recuperar a calma. Depois sentei-me num lancil à beira da estrada e pus-me à escuta. Não ouvia barulho nenhum. Nenhuma voz. Nenhum carro. Nenhuns passos. Nada.
Acendi um cigarro.
Vi a estátua do Rui Patrício à entrada do parque do estádio, que estava agora tudo ao abandono, e perguntei-me alto Como é que chegámos aqui?
Não soube responder. Nem o Rui Patrício me respondeu.
Mas a resposta, sabia que estaria algures por aí. E queria encontrá-la.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/21]

Escondido, parte 02

[continuação de ontem]

Corri pelas ruas esconsas à volta da Rua Direita, na zona histórica de Leiria, no sopé do monte do castelo. Ouvia gritos. Ouvia gente a chorar. Percebia o pânico a correr por aquelas mesmas ruas por onde eu tentava fugir. Uma grande confusão.
Mais uma vez, quase a chegar ao fim de uma rua, percebi que estava também bloqueada por uma carrinha da caixa aberta com uns quantos carecas fardados de militares, ou para-militares ou milícia. Voltei para trás. Outra vez. Contra o fluxo de gente que corria, uns atrás dos outros, sem saber muito bem para onde é que iam, indo só para sair de onde estavam, para fugir, para escapar aquela gente que parecia estar ali para lhes dar caça. Nos dar caça.
Parei frente a uma casa abandonada. Olhei em volta. Estava sozinho. Via pessoas a correrem ao fundo, numa perpendicular. Dei um pontapé na porta e abri-a para trás. Entrei no prédio e fechei a porta nas minhas costas, o melhor que consegui.
Fiquei parado ali, ao fundo das escadas, a tentar ouvir. A tentar ouvir algum barulho vindo de dentro da casa. Só percebia o barulho da rua, das ruas adjacentes. De vez em quando, sentia alguém a correr do outro lado da porta, naquela rua mais escondida. Ninguém parou lá em frente, em frente à porta, em frente ao prédio.
Subi as escadas devagar. A casa estava muito destruída. Ainda estava em pé. Ainda mantinha a estrutura do prédio, dos vários apartamentos, mas havia muitas janelas quebradas, vidros partidos, pedaços de tijolo, lixo, muito pó. Subi as escadas com cuidado até ao último andar. Talvez fosse um terceiro andar. Ali na zona histórica de Leiria, os prédios são antigos e não muito altos. Alguns prédios, como este, estavam assim, abandonados, a acumular valor. Um dia seriam vendidos por bom dinheiro. Onde não há para venda, a venda atinge valores incalculáveis. Mesmo numa terra pequena e ignorada como Leiria.
Cheguei ao último patamar. Havia duas portas de entrada para dois apartamentos. Um à direita e outro à esquerda. As duas portas abertas. Abertas, não. Ausentes. Entrei para o apartamento do lado esquerdo e fui entrando até chegar ao que terá sido um quarto. Um quarto que ainda tinha janela com vidros. Entrei dentro desse quarto e sentei-me no chão, encostado a uma parede húmida, a descansar. A descansar e a pensar no que tinha acontecido.
E que raio tinha acontecido?
Estava numa manifestação pacífica, numa cidade pacífica. Estava numa manifestação pacífica que mais parecia uma festa. Estava toda a gente contente por sair do confinamento a que tínhamos sido sujeito durante tanto tempo. E, depois, aquilo.
Aquilo era o quê? Um grupo de gente de cabeça rapada, vestidos de igual, como se fossem militares, ou milícia, com tacos de baseball nas mãos. Chegaram em carrinhas de caixa aberta. Começaram a bater em toda a gente. A bater a eito. Não era uma contra-manifestação. Era mesmo um ataque. Não, uma caça. Era uma caça. Toda a gente começou a fugir e não havia por onde fugir. As ruas estavam todas cortadas. Tínhamos sido apanhados numa ratoeira. Sem escapatória. Vi muita gente a tombar. Vi muita gente a ser atingida pelos tacos de baseball. Vi cabeças a rebentar. Vi gente a ser espezinhada.
Onde é que estariam os meus amigos?
Alguém teria conseguido sair dali?
E a polícia? Porque é que não tinha visto nenhum polícia?
Apetecia-me fumar um cigarro mas sabia que era melhor estar sossegado. Não podia correr o risco de dar nas vistas, de me descobrirem. Devia manter o silêncio. Não fazer fumo. Não dar nenhum motivo, a ninguém, de me descobrirem ali dentro. Não tarda seria noite e depois logo se veria. Talvez, então, pudesse sair. Ir embora. Voltar para casa. Encontrar outras pessoas. Tentar perceber o que é que se teria passado. O que é que teria saído no noticiário das oito horas da noite.
Deixei-me estar sentado no chão, encostado à parede húmida. Até o rabo me começar a doer e eu me levantar. Fui com cuidado até à janela. Estava a começar a escurecer. Espreitei a rua. Não via ninguém. Mas continuava a ouvir vozes, gritos, vindos das ruas em volta.
Estava a começar a ficar com fome. Não que tivesse fome. Acho que eram os nervos que me estavam a atacar. Depois da agitação das últimas horas e depois de, finalmente, ter recuperado a respiração na tranquilidade daquele pequeno prédio velho e abandonado, comecei a chorar. Um choro nervoso. Um choro de medo e incompreensão.
E dei comigo, incrédulo, a perguntar-me como tudo aquilo tinha sido possível no século XXI? Como é que tudo aquilo tinha acontecido com toda a tecnologia que, aparentemente, nos dava toda a informação e conhecimento e nos protegia para que nada daquilo voltasse a acontecer?
Finalmente era noite.
As coisas não pareciam mais calmas. Continuava a haver barulho de gente em fuga. De gente atrás de outra gente. De gente em pânico. De gritos histéricos. De gritos de confronto.
Afinal, ainda iria ficar por ali bastante mais tempo do que o tempo que estava a pensar ficar.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/19]

Escondido

Tínhamos ido todos juntos. Amigos, amigos de amigos, conhecidos. Era uma manifestação em jeito de festa. Tínhamos pintado os cartazes em casa. Uns em português. Outros em inglês. Uns a preto e branco. Outros muito coloridos. Ensaiámos palavras de ordem. Uns amigos, com uma banda de música, iam dar um concerto na manifestação, ali no meio dos manifestantes, sem palco, sem som de retorno, em jeito acústico. A girar entre as pessoas que tinham saído dos seus buracos de segurança, dos seus sofás, das suas redes sociais, para irem para a rua gritar, lutar, contestar, chamar a atenção. Afinal, toda a gente pensava da mesma maneira.
Anti-racistas. Anti-xenófobos. Anti-homofóbicos. Pela liberdade.
Era uma manifestação que era também uma festa. Depois de tanto tempo em reclusão por causa do contágio, sabia bem voltar à rua, voltar a ver amigos, e sentirmos-nos úteis por estarmos a lutar por aquilo em que acreditávamos.
De início, parecia mesmo uma festa.
Vivíamos numa bolha. Todos os amigos e os amigos dos amigos e os conhecidos, todos eles eram assim, pensavam assim, manifestavam-se por esses valores.
Depois, acabámos todos por perceber que o mundo não é a nossa bolha.
Eu tinha marcado encontro na esplanada do Jardim Luís de Camões, em Leiria. A concentração era na Praça Rodrigues Lobo e depois subiríamos até aos paços do concelho para entregar um manifesto na Câmara Municipal.
Bebi um café na esplanada do jardim. Estava muita gente. O ambiente era de franca euforia. Era Verão, estava sol e muito calor, e as pessoas estavam contentes com os reencontros. Depois começámos a ir para a Praça Rodrigues Lobo.
Alguém fazia um discurso com megafone. Parecia vir do lado dos arcos, onde estão os cafés. Pelo menos era para lá que estava toda a gente virada. Encontrei amigos. Cumprimentei-os acenando a cabeça. Ainda não estava preparado para tocar em ninguém. Sem vacina, eu fazia o meu papel. Máscara na cara, uma certa distância das outras pessoas e sem tocar nos outros. No bolso, um pequeno frasco com álcool.
Alguém tentava dizer alguma coisa, mas não se percebia. O som do megafone e o bruá de toda aquela gente não permitiam grandes conversas mais íntimas entre as pessoas sem que elas se aproximassem. Eu não me aproximava.
Foi então que veio uma carrinha de caixa aberta vinda do Largo Cinco de Outubro. Primeiro não percebi muito bem o que estava a acontecer, embora tivesse percebido alguma agitação. Uns tipos carecas, com farda para-militar e uma braçadeira vermelha no braço esquerdo, saltaram de cima da carrinha para o meio dos manifestantes, com tacos de baseball, e começaram a bater em toda a gente com quem se cruzassem. Batiam a torto e a direito. Primeiro, fiquei bloqueado. Deixei de ouvir o megafone. O bruá elevou-se. Agora ouviam-se mais gritos. Havia gente a correr. As pessoas corriam para uma qualquer das ruas que saem da Praça Rodrigues Lobo. Levado pelo pânico, também eu despertei do meu torpor e acabei a correr pela Rua Rodrigues Cordeiro, passei em frente ao restaurante Porto Artur e vi as pessoas que estavam na esplanada a olharem espantadas para toda aquela gente em fuga. Ao chegar à Rua Direita, virei à esquerda para subir ao Terreiro, quando reparei que estava uma outra carrinha de caixa aberta com outros carecas fardados munidos de tacos de baseball à espera, ao fundo da rua, à entrada do Terreiro. Voltei para trás. Enfiei-me numa das ruas da zona histórica que sobe até ao castelo. Perdi os meus conhecidos. Mas ia no meio de um mar de gente. Gente que fugia como eu. Gente que fugia não sabia bem de quê. Quer dizer, saber sabíamos, mas não queríamos acreditar que essas coisas acontecessem ali, exactamente ali, em Leiria, uma cidade pacata onde nunca acontece nada. O que é que se estava a passar na cidade? Quem eram aqueles tipos fardados, com fardas a lembrar os militares, que estavam a bater em toda a gente, sem olhar a quem? E a polícia? Onde é que estava a polícia?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/18]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Naquela Época…

Naquela época não havia grande diferença entre o Natal e a noite de Passagem de Ano. A minha mãe passava os últimos dias na cozinha a popularizar odores que enchiam a casa. Havia talvez menos gente na Passagem de Ano. A comida também era diferente. Menos doces. Menos comida de adulto. Mais petiscos. E o que eu adorava petiscos. Também se bebia mais. Não eu, que tinha direito ao mesmo copo de sumo de laranja da Superfresco no Natal e na Passagem de Ano, mas os meus pais diversificavam o que bebiam e que eu ia percebendo pelas diferentes garrafas que se iam abrindo. No Natal era mais o vinho tinto, de garrafas iguais que se iam despejando, umas atrás das outras, enquanto que na Passagem de Ano mudavam frequentemente de garrafa de tipo de bebida e as garrafas não eram bebidas até ao fim. Com excepção do espumante que vertia metade para o chão da sala, sobre a alcatifa que, anos mais tarde, seria toda levantada e o chão de madeira afagado até porque a alcatifa fazia mal à minha bronquite, e o resto era despejado pelas goelas dos meus pais, aos poucos, e a mim era dado a provar um pouco daquelas borbulhas que me faziam impressão no nariz e que jurei nunca vir a gostar. E a verdade é que não gosto muito de espumante. Mas chega a noite da Passagem de Ano e, se ainda estiver em pé, é que há anos em que não chego acordado à meia-noite, já para não falar das Passagens de Ano que faço agarrado ao lava-louças, a lavar a louça do jantar e a evitar falar com quem quer que seja com quem me incompatibilizei por qualquer motivo tão estúpido quanto sem sentido e do qual já nem sei a razão, despejo uma garrafa pelo gargalo e no final arroto sonora e satisfatoriamente para gáudio da criançada que por qualquer azar do destino por cá se encontre.
Naquela época ainda acreditava no Pai Natal, em unicórnios e na bondade do homem. Naquela altura tudo isto me parecia mágico.
Agora a magia termina quando a carteira fica vazia. E tão facilmente ela fica vazia.
Agora sento-me na varanda, uma mantinha por cima dos ombros, e aguardo o fogo-de-artifício que a câmara municipal faz questão de mandar do alto do castelo. Tenho um volume de cigarros e um pacote de dez litros de Capataz. Deve chegar até à meia-noite e mais alguns minutos a acompanhar o fogo-de-artifício pelo ano novo dentro. Depois vou deitar-me. Talvez já bêbado. A desejar que o ano que se abre seja melhor que o que se foi. E doze meses depois perceber que é sempre igual. É sempre tudo igual. A história repete-se. E a minha vida também.
Estou um velho chato e demente. No meu tempo é que era bom. No meu tempo, no tempo em que os meus pais é que tratavam de tudo e eu não precisava de ser nada mais que um miúdo traquina que os pais amavam mais que a vida, é que as Passagens de Ano eram boas.
Agora só quero que tudo passe o mais rápido possível para que a vida recupere o seu regular caminho igual, monótono e chato com que consigo lidar todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/31]

Quase Parece Feriado, mas Não É

Vejo-os a correr. Esbarram uns nos outros e gritam um Desculpe!… enquanto se afastam, atrasados, sempre atrasados para onde quer que vão cheios de pressa.
Quando aqui cheguei, a cidade parecia dormir. Não é feriado mas parece. É véspera de feriado com tolerância de ponto para funcionários públicos que resulta numa cidade fantasma, pelo menos até os primeiros atrasados caírem da cama e perceberem que têm poucas horas para comprar o amor do próximo.
Sentei-me neste banco de jardim, aqui no Rossio da cidade, frente ao antigo Banco de Portugal que já não comporta notas nem ouro (e não sei se alguma vez comportou ouro) e agora expõe as obras de arte dos artistas de que faz gala e não havia ninguém na cidade. Nem a velha varredoura das ruas, uma loira, com quem me cruzo todos os dias, passou aqui em frente. Está tudo a em estágio para a barrigada natalícia.
As horas passam. Vão passando. Conto-as pelas beatas dos cigarros fumados. Devia comer qualquer coisa. Beber um vinho. Mas estou a antibióticos, não devo beber. Fumo. Fico por aqui e vejo passar os apressado, os atrasados, os últimos a aperceber-se de que falta qualquer coisa para atingirem a suprema felicidade.
A cidade foi-se compondo. Por volta das duas da tarde já quase parecia um dia normal. Muita gente nas ruas.
O dia ajudou a que as pessoas saíssem de casa. Está sol. Não está frio. As pessoas não precisam de ir para o Centro Comercial. Mas vão. Muito gostam as pessoas de se enclausurarem entre paredes de néon. E ainda me olham de esguelha porque estou a fazer publicidade negativa. Mas logo largam um esgar porque aceitam a publicidade, e negativa ou não, publicidade é publicidade. Não importa que falem mal, o importante é falarem. As velhas máximas do capitalismo. Ironias. Como aquele que diz que temos de comprar menos coisas mas abre bem as portas da loja para despachar toda a mercadoria e ter um Natal Feliz.
O dia começa a morrer. O sol desapareceu atrás da colina do castelo e, daqui até ser noite é um abrir e fechar de olhos. A cidade volta a parecer fantasma. Agora ainda mais. Há luzes. Muitas luzes numa cidade que volta a estar quase deserta. Passam alguns carros. Poucos. Novamente os atrasados. Já não há pessoas a caminhar nas ruas. Está frio. Agora está frio.
Sinto um cheiro a perfumes no ar. São as pessoas a ultimar-se para as festas, para os reencontros, para dar amor, um amor bem-cheiroso.
Levanto-me a custo do banco de jardim. Faço força na bengala para dar impulso. Vou também para casa. Tenho lá um bocado de arroz de pato que comprei no Rei dos Frangos. Pena que não posso beber vinho. O antibiótico… Os dentes… A merda da velhice, é o que é!
Quando é que vai dar o Sozinho em Casa?

p.s.: por vezes gostava de ser um soldado de regresso a casa para ter um abraço quente a acolher-me… talvez um beijo… talvez um bem-vindo a casa…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/24]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Invasão no Campo da Bola

Estava sentado numa almofada, em cima de uma bancada corrida de cimento no Estádio Magalhães Pessoa, em Leiria, versão pré-obras, quando a bancada era só uma e no lado oposto e nos topos era tudo peão.
Estava sentado na bancada e lá em cima, em frente e ao fundo, o imponente Castelo de Leiria olhava para mim.
Entre umas pevides e uns tremoços, um olho no jogo e outro no castelo, dividia as minhas atenções que não conseguiam fixar-se só num acontecimento. Havia bruxas no castelo?
Por vezes saía do meu lugar, entre o meu pai e a minha mãe, largava a bandeira da União de Leiria no chão, e descia as escadas da bancada até à caixa de areia dos saltos em comprimento e ia jogar à bola com outros miúdos como eu que tinham dificuldade em dar atenção à mesma coisa por muito tempo.
Naquele dia estava sentado na almofada, em cima da bancada de cimento, entre o meu pai e a minha mãe, os tremoços e pevides já comidos, bandeira levantada na mão e o vizinho de trás a queixar-se que não via nada Oh miúdo! Baixa a bandeira! quando a União de Leiria marca golo, os jogadores festejam e, do outro lado, frente a mim, do lado do peão, saltam umas pessoas para o meio do campo e começam a correr atrás não-sei-de-quem porque não percebi bem, mas parecia que toda a gente corria atrás de toda a gente, espectadores, jogadores, treinadores, apanha-bolas, dirigentes, polícias, todos a correrem campo relvado fora, alguém apanha a bola e foge com ela enfiada debaixo da camisola, dois homens enfrentam-se ao murro, um polícia levanta o cacetete mas não vejo onde cai e puxo o casaco do meu pai e pergunto Como é que sabemos que são nossos ou dos outros, quando não têm bandeiras? e o meu pai olhou para mim e não soube responder, agarrou-me e encostou-me a ele.
Espreitei por entre o braço do meu pai e ainda vi o árbitro a apitar e jogadores de equipamentos diferentes a parar pessoas e mandá-las para fora do campo e a polícia levar uns rapazes agarrados pelos braços, e acho que vi alguém com a cabeça partida e sangue a escorrer e depois toda a gente se foi embora e o campo ficou vazio, veio o silêncio e o meu pai sentou-se. Eu sentei-me.
Havia gente à volta do campo. Polícias. Também militares. O campo estava vazio. Esperámos.
Virei-me para o meu pai e perguntei O que é que estamos à espera? e o meu pai respondeu Espera!
Olhei em frente, para o campo vazio, para o burburinho que havia ali na bancada e no peão do outro lado de campo, com a polícia e os militares à volta do relvado, na pista de tartan, a olhar para os espectadores e não percebi nada do que estava a acontecer.
Virei-me para a minha mãe e perguntei O que é que estamos à espera? e a minha mãe disse Que o jogo recomece!
E cinco minutos depois, as equipas e os árbitro voltaram ao campo e o jogo recomeçou. O castelo continuava lá em cima a olhar cá para baixo. Estaria a ver uma bruxa? Numa das janelas escuras?
A União ganhou o jogo. As pessoas de Leiria, que estavam na bancada, ficaram contentes e festejaram. O meu pai também e então disse, para mim e para a minha mãe Vamos lanchar ao Jota!

[escrito directamente no facebook em 2019/09/02]

Fazer um Reset e Começar de Novo, mas Agora em Bom

Eu descia todos os dias lá de cima do bairro para ir ter com ela ao bairro lá em baixo.
Fazia aqueles quase dois quilómetros a descer a voar, e mesmo quando regressava, e tinha de os subir, não lhe dava pela dificuldade, pela lonjura nem pelo tempo que passava a dar às pernas para estar alguns momentos com ela. Em dias de chuva. Em dias de frio. Em dias de calor e sol de torrar.
Chegava lá abaixo, sentava-me no muro em frente ao prédio dela e esperava. Esperava que ela me visse da janela do quarto ou da janela da sala. Depois esperava que ela viesse ter comigo. Que descesse de elevador. Que abrisse a porta da rua. Que me fizesse um sinal para ir ter com ela, e não ela comigo, para que o pai não nos visse juntos, lá de cima da janela da sala, enquanto fumava um cigarro a acompanhar o café de cevada que bebia sempre depois de almoço. A mãe já sabia. As mães sabem sempre e sabem logo. Até já tínhamos ido à praia os três. Os quatro, quando o irmão dela também foi. Mas o pai… Ah, o pai era outra conversa. Ela era a filhinha.
Dávamos um beijo. Um leve roçar dos lábios. Os meus nos dela. Cheirava-lhe o perfume que lhe tinha dado pelo Natal. Dávamos as mãos. As minhas começavam logo a transpirar de ansiedade. Ela sorria. Seguíamos por baixo das varandas, junto aos prédios do bairro, e íamos para o terreno baldio que havia na periferia do bairro. Íamos até à árvore que lá havia. Subíamos às suas braças e olhávamos o castelo, ou ficávamos em baixo, sentados no chão, rabo na erva, as costas no tronco da árvore, a falar. Muito falávamos nós. Eu contava-lhe dos novos grupos que ia conhecendo e que quase mais ninguém conhecia. Falava-lhe das letras das músicas. O que elas diziam. O que elas queriam dizer. O que eu achava que elas queriam dizer. Ela contava-me dos livros que lia. Dos livros que andava a ler. Sempre mais que um ao mesmo tempo. Às vezes trazia-me um. Lê, dizia. E eu lia. Depois falávamos do livro. Discutíamos. Às vezes acabávamos zangados. Eu ia para casa e à noite fazia uma MixTape com as melhores músicas do mundo e levava-a no dia seguinte. E fazíamos as pazes. O que eu gostava de fazer as pazes!
Esculpi os nossos nomes no tronco da árvore. Esculpi um coração trespassado pela seta de Cupido.
Partilhámos palmiers recheados. Bolos da festa que partíamos ao meio e cada um levava uma metade para casa. A minha metade não chegava a casa que eu devorava-a toda na subida que fazia depois de a deixar.
Um dia chegaram as férias de Verão. Ela foi para um lado. Eu fui para outro. Ela chegou diferente. Eu também.
Nunca mais voltei ao terreno baldio.
Anos mas tarde encontrei-a por puro acaso numa cidade que não era de nenhum de nós. Ela tinha ido a uma reunião. Eu… Eu estava de passagem. Estou sempre de passagem. Bebemos um café. Falou-me dela. Três filhos, entre os vinte e os vinte e cinco anos. Divorciada. O ex-marido era oficial da marinha mercante. Andava sempre no mar. Em viagem. Um dia não voltou. Nunca lhe disse nada. Um dia chegaram, pelo correio, os papéis do divórcio. E foi só. Era funcionária pública. Alto quadro. Bom salário. Uma vida tranquila. Mas já não tinha tempo para ler. E ainda tinha de cuidar dos filhos, coitados. Não sabem fazer nada sem ela. Ainda estão todos por casa. A estudar, mas por casa. Ouve música na rádio. Não liga a nomes. Filmes no vídeo-clube do cabo mas, regra geral, adormece no genérico inicial.
Mas estão, e tu?! Fala-me de ti!, disse.
E eu não sabia o que lhe dizer. O que é que eu tinha para contar? Que vida é que eu tinha para lhe contar? Que também já não era nada do que tinha sido? Que tudo tinha morrido algures, nem sabia bem onde nem como nem porquê? Que eu estava sempre de passagem? Estava sempre de passagem entre lugares nenhuns?
Despedi-me dela. Tenho pressa!, disse-lhe. Desculpa!, pedi. Temos de nos encontrar um dia destes. Uma noite destas. Vamos jantar, menti.
E fui embora.
E enquanto ia embora, levava todo o vazio da minha vida. Um vazio que se torna tão pesado quando não sabemos dizer a alguém que já nos foi tão próximo, o que é que fizemos com toda esta vida que tínhamos para viver,
Naquela altura gostava de ser uma aplicação. Fazer um reset à minha vida. Começar tudo de novo. Mas agora em bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/25]